A análise historiográfica do catolicismo laico e dos movimentos sociais no Brasil ganha uma dimensão singular por meio da biografia da saltense Maria de Lourdes Guarda. Nascida em 22 de novembro de 1926, em Salto/SP, ela era filha de Innocêncio Guarda e Júlia Froner Guarda. Sua formação inicial reflete o panorama educacional e religioso das elites e da classe média do interior de São Paulo daquela época, tendo sido aluna interna no tradicional Colégio do Patrocínio, instituição pertencente às Irmãs de São José de Chambéry, na vizinha cidade de Itu. Em 1944, aos 18 anos de idade, ela já atuava no campo da educação, lecionando no Colégio da Congregação das Filhas de São José do Caburlotto, localizado em sua cidade natal. Nesse período da juventude, ela lecionou até os 20 anos e acalentava o projeto de ingressar no ambiente conventual na Congregação das Filhas de São José, mimetizando os passos de sua irmã que já havia aderido à vida religiosa, razão pela qual se dedicava intensamente às obras da Igreja. No entanto, o desenvolvimento de uma severa lesão na coluna vertebral, que lhe causava dores agudas e persistentes, alterou permanentemente o curso de sua biografia.
Sob a perspectiva da história da medicina e da ortopedia em meados do século XX, o tratamento clínico da jovem saltense ilustra a complexidade e as limitações técnicas das intervenções cirúrgicas daquela época. Em 12 de agosto de 1947, ela foi submetida à sua primeira cirurgia na coluna, uma tentativa inicial que não obteve sucesso na eliminação dos sintomas dolorosos. Nos 5 anos subsequentes, seu prontuário médico registrou um total de 6 intervenções cirúrgicas consecutivas, que se configuraram como tentativas frustradas de restabelecer sua capacidade de marchar. O agravamento do quadro clínico manifestou-se por meio de complicações severas na coluna e pelo processo de gangrena em seu pé direito, o que impôs a necessidade cirúrgica de amputar a perna direita acima do joelho. Adicionalmente, a extração dos ossos dos quadris resultou na atrofia progressiva e na imobilidade total de sua perna esquerda. Para viabilizar sua sobrevivência física sem interromper de forma fatal a circulação sanguínea, foi desenvolvida uma armação de madeira protetora especial. Desse modo, ainda na juventude, ela viu-se completamente imobilizada em um leito, desprovida da capacidade funcional de sentar-se, uma vez que sua sustentação corpórea dependia de um gesso estruturado com uma canaleta nas costas, estendendo-se continuamente do pescoço até a altura do joelho.
Do ponto de vista socioeconômico e da micro-história do cotidiano hospitalar, a permanência da saltense nas instituições de saúde desafiou as convenções de passividade e dependência associadas aos pacientes crônicos do período, totalizando 49 anos de vivência em leitos hospitalares. Em agosto de 1972, ela completou a marca de 25 anos de internação contínua nas dependências do histórico Hospital Humberto Primo, popularmente conhecido como Hospital Matarazzo, localizado na cidade de São Paulo. Para manter sua autonomia financeira e arcar com os custos das diárias hospitalares daquela instituição paulistana, ela desenvolveu uma atividade econômica regular a partir do leito, confeccionando peças de tricô e bordados sob encomenda. O quarto número 259 do Hospital Matarazzo converteu-se gradualmente em um espaço de sociabilidade e de convergência intelectual e assistencial na capital, funcionando como um ponto de encontro e atração. O local reunia amigos e indivíduos de todas as classes sociais que buscavam auxílio para suas vulnerabilidades materiais e psicológicas, além de pessoas com deficiência que diariamente chegavam de vários pontos do país. De seu leito, ela operava uma intensa atividade de acolhimento, atendendo a frequentes telefonemas, realizando encaminhamentos institucionais com o apoio de uma rede de amigos e oferecendo palavras de conforto e ajuda material aos necessitados. Relatos documentais de seus contemporâneos enfatizam que, contrastando com o quadro de invalidez, ela exibia um semblante corado e olhos azuis brilhantes, sustentando publicamente o axioma de que nenhuma deficiência constituía um impedimento para a vida — posicionamento sintetizado em sua célebre afirmação de que havia deixado de andar, mas não de viver —, o que encontrava eco teológico na leitura da Segunda Epístola de São Paulo aos Coríntios, capítulo 12, versículo 9. Ademais, sua atuação política e social incluiu engajamento direto em movimentos voltados à preservação histórica e funcional da própria instituição de saúde onde residia, atuando para salvar o Hospital Humberto Primo da desativação.
A inserção definitiva de Maria de Lourdes Guarda na historiografia dos movimentos civis e pastorais da América Latina consolidou-se por meio de sua liderança na Fraternidade Cristã de Pessoas com Deficiência. Este movimento internacional, originado na França, foi formalmente absorvido por sua atuação militante no período de 1981 a 1992, intervalo de mais de dez anos no qual ela exerceu o cargo de coordenadora nacional da organização no Brasil, acumulando também a liderança da Fraternidade Cristã de Defesa de Deficientes. Apesar de suas severas restrições de mobilidade urbana, ela articulou redes de apoio logístico e, por meio da doação de passagens concedidas por uma empresa aérea, realizou extensas viagens de mobilização social, acomodada em sua maca, por diversas regiões do território brasileiro e por outros países do continente latino-americano. Essa atuação resultou na fundação direta de mais de 250 grupos da fraternidade em solo nacional, estabelecendo um novo paradigma de protagonismo, defesa de direitos e cidadania para as pessoas institucionalizadas ou portadoras de limitações motoras em uma época de intensa efervescência dos direitos civis.
O falecimento da liderança católica ocorreu em 5 de maio de 1996, na capital paulista, cidade onde passou a maior parte de sua existência. Nos últimos tempos de vida, ela havia sido transferida para outra instituição de saúde em decorrência do fechamento do Hospital Matarazzo. O estágio final de sua biografia médica revela o impacto do confinamento prolongado: ela já não possuía um dos rins, o pulmão direito encontrava-se inativo, sofria com um tumor na bexiga e enfrentava severas chagas dermatológicas nas costas causadas pela decúbito dorsal permanente, condições que não abalaram sua fé cristã ou sua energia interior. Inicialmente, o sepultamento ocorreu no Cemitério da Saudade, em sua cidade natal de Salto. Quinze anos após o óbito, em uma articulação que remonta a 1º de agosto de 2003, quando o padre canadense Paulo André L. Labrosse (então vigário da Paróquia Nossa Senhora do Monte Serrat), e os cidadãos saltenses Francisco Antonio Moschini, Ettore Liberalesso e Pedro Rudine Tonello, juntamente com o ituano Roberto Machado Carvalho, protocolaram uma petição formal junto ao bispo diocesano dom Amaury Castanho. Assim, a Causa-Processo de Beatificação e Canonização foi introduzida na Diocese de Jundiaí. Como desdobramento desse procedimento jurídico-eclesial, em 30 de setembro de 2011, seus restos mortais foram exumados e transladados solenemente para a Igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora do Monte Serrat, em Salto, sendo depositados em um altar localizado à esquerda do altar principal, sob a designação canônica de Serva de Deus.
A evolução subsequente da causa junto à Santa Sé no Vaticano culminou no reconhecimento de suas virtudes heroicas, outorgando-lhe o título de Venerável, restando o cumprimento das demais etapas regulamentares para a conclusão do processo de canonização. O impacto de sua trajetória na cultura local e nacional materializou-se em produções intelectuais e homenagens públicas. Sua biografia detalhada foi registrada no livro intitulado Um quarto com vista para o mundo, de autoria de Margarida Oliva e Guilherme Salgado Rocha, obra que serviu de substrato para o artigo analítico do jornalista Mauro Chaves, intitulado "O hino à força da vida", publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 5 de abril de 2003. No âmbito institucional do município de Salto, a memória da ativista foi perenizada pelo poder executivo em 14 de fevereiro de 2004, mediante a atribuição de seu nome à escola municipal de ensino fundamental Cemus IX. Atualmente, o procedimento jurídico e teológico concentra-se na fase de recepção de relatos de graças e comprovação de milagres por intercessão, centralizados administrativamente na Cúria Diocesana de Jundiaí.







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