24 de maio de 2026

A arqueologia do imaginário

As recentes escavações urbanas no entorno da Praça Antônio Vieira Tavares, marco zero de Salto, trouxeram à superfície muito mais do que terra e asfalto: expuseram as intrincadas camadas de uma verdadeira estratigrafia da memória local. O que durante décadas habitou o território do folclore local sob a forma de "túneis secretos" e "passagens misteriosas" revelou-se com uma sólida e complexa rede de engenharia subterrânea em granito. O achado, longe de ser um fato isolado, reacende o debate sobre a real extensão de uma malha oculta de canais e passagens que serpenteia pelo subsolo saltense - uma riqueza arqueológica que sobrevive a duras penas ao avanço dos tratores e, principalmente, à deliberada falta de interesse do poder público municipal.

Seria possível a existência de um "túnel secreto" sob a praça?
(Imagem gerada por IA)



As vozes do subsolo e as evidências de outros túneis


Se a historiografia oficial silencia sobre o tamanho da rede subterrânea de Salto, a memória oral de quem vivenciou o cotidiano do complexo da antiga Brasital - hoje ocupado pelo Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (CEUNSP) - oferece pistas geográficas consistentes. Relatos de antigos funcionários e técnicos de manutenção que exploraram as entranhas dos edifícios fabris em diferentes épocas indicam que a estrutura de granito recentemente exposta na praça central é apenas a ponta de um iceberg de engenharia oitocentista e do início do século XX. Testemunhos de quem realizou registros audiovisuais no local detalham, por exemplo, a existência de uma galeria monumental localizada na segunda torre do prédio principal, à direita, ao lado dos chalés. Protegida por uma porta metálica, a estrutura possui cerca de dois metros de altura por dois metros de largura, com chão, paredes e teto revestidos em blocos de granito, apresentando uma ramificação que vence o desnível topográfico em direção ao platô central da cidade.

Outro circuito subterrâneo importante foi mapeado por trabalhadores na porção mais baixa do complexo, estendendo-se em direção à margem direita do Rio Tietê. Operários de manutenção relataram ter percorrido trechos dessa galeria técnica que passavam exatamente por baixo da Ponte Pênsil, transmitindo a nítida impressão de se situarem abaixo do nível do próprio leito fluvial do Rio Tietê. Essas mesmas incursões no subsolo do chamado "castelo" revelaram salas de fiação, encanamentos antigos e portas lacradas na rocha, sugerindo conexões profundas que ligavam a antiga tecelagem, assentada às margens do rio em 1873, às cotas mais elevadas da cidade. Na ala fabril mais primitiva, relatos de bastidores apontam ainda para a presença de um alçapão no piso do "Bloco F" que conduzia a uma câmara inferior escura equipada com estruturas semelhantes a leitos de concreto e argolas de ferro chumbadas às paredes. Embora a arqueologia industrial pondere que tais elementos pudessem servir para a ancoragem mecânica de eixos de transmissão ou caldeiras, a cronologia do edifício - anterior à abolição da escravidão - impõe a necessidade de investigar se o espaço serviu como área de contenção coercitiva de trabalhadores.


Engenharia de ponta ou labirinto místico?


A ciência por trás do asfalto ajuda a desmistificar a visão puramente fabulosa de túneis secretos destinados a ocultar os antigos tesouros dos tempos de monções, como as lendas sobre o ouro que teria sido enterrado entre os blocos de granito do Porto Góes ou as histórias operárias sobre uma canoa fantasma que singrava o rio na calada da noite. Por dependerem diretamente da força hidráulica do Tietê, as tecelagens oitocentistas necessitavam de canais de adução para captar a água e canais de fuga para descartá-la após mover as turbinas. O refinamento construtivo do complexo reveals-se também nos detalhes estruturais superiores das torres, onde técnicos identificaram uma espessa camada de seixos de rio sob o assoalho, arranjo mecânico projetado especificamente para dissipar as violentas vibrações geradas pelos pesados teares em funcionamento, preservando os alicerces. Esses canais, galerias de vapor e rotas de serviço interligavam pavilhões e, muito provavelmente, conectavam-se aos antigos sistemas de escoamento e drenagem pluvial da praça central, plantando na memória coletiva a ideia de um labirinto místico subterrâneo.

O trator do descaso e a inércia do poder público


Se a profusão de relatos e a materialidade do granito exposto na última semana justificariam uma ampla frente de pesquisa científica, a postura das autoridades municipais caminha na direção oposta. Diante de uma descoberta de possível relevância historiográfica no Marco Zero da cidade, a reação inicial do poder público foi a minimização do fato, tratando o patrimônio arqueológico sob o rótulo depreciativo de "mero folclore". O ápice dessa negligência institucional materializou-se durante as recentes obras viárias na praça, quando a equipe de engenharia civil da municipalidade optou por reutilizar o interior da galeria histórica de granito como calha improvisada para acomodar tubulações modernas de saneamento. Essa intervenção descaracteriza o patrimônio com o nítido intuito de evitar embargos e não atrasar o cronograma político das obras de superfície, infringindo os ritos de proteção determinados pela legislação federal.

Essa conveniência administrativa em ignorar o potencial arqueológico de Salto repete erros históricos de apagamento da herança industrial da cidade. O esvaziamento das políticas públicas de preservação e a falta de interesse em financiar estudos geofísicos - como o uso de Georradar para mapear o subsolo sem quebrar o asfalto - demonstram que a memória local é frequentemente tratada como um estorvo ao desenvolvimento econômico instantâneo, e não como um ativo cultural duradouro. 

A resistência autônoma e o futuro da memória


Diante da omissão do poder executivo, a salvaguarda do subsolo saltense converteu-se em uma articulação direta da sociedade civil. O Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Cultural (COMDEPAC), unindo forças com profissionais da arqueologia e parlamentares atentos à causa, agiu de forma emergencial nos últimos dias. A equipe realizou vistorias técnicas independentes, medições e levantamentos fotográficos da galeria violada, gerando o estofo documental que resultou na protocolização de uma denúncia formal junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), transferindo o impasse para a jurisdição federal.

A insistência em sepultar galerias centenárias sob o pretexto de modernização priva o município de compreender a evolução do trabalho e da técnica que edificaram sua própria sociedade. Enquanto o processo tramita nas instâncias federais, a estratégia dos defensores do patrimônio apoia-se no rigor técnico dos relatórios e na ampla visibilidade nas redes sociais e mídias independentes, criando um escudo político que impede o soterramento silencioso do achado. Cidades vizinhas da região já apontam caminhos economicamente viáveis, demonstrando que a inclusão de comitês históricos no plano de obras permite integrar achados arqueológicos aos projetos urbanísticos contemporâneos, gerando valor turístico e pedagógico.

As fotos a seguir foram feitas pelo vereador Chell Oliveira. Seria apenas um antigo canal de escoamento de água pluvial ou o indício de que podemos encontrar elementos mais significativos?













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