29 de julho de 2010

Sociedade Italiana Giuseppe Verdi


Fachada do Cine Verdi velho com a
diretoria da Sociedade Italiana à frente, 1931.
A atual Sociedade Italiana Giuseppe Verdi, com sede no início da Rua Floriano Peixoto, em salas anexas ao Museu da Cidade de Salto, é herdeira da sociedade de socorro mútuo formada pelos italianos que chegaram a Salto entre o final do século XIX e início do XX, a Società Italiana di Mutua Assistenza Giuseppe Verdi. As sociedades de mútua assistência existentes no Brasil no início do século passado funcionavam de maneira semelhante: uma contribuição mensal de cada sócio possibilitava que qualquer participante, vítima de desemprego ou doença, não perecesse por falta de meios de subsistência. Isso ocorria numa época em que não existia previdência social, e não se trabalhando devido a uma enfermidade, por exemplo, não se recebia.

Pela documentação existente, sabe-se que em 9 de abril de 1916 os associados da Giuseppe Verdi aprovaram o “estatuto social”. Mas a fundação dessa sociedade, embora não haja exatidão na data, teria ocorrido anos antes, entre 1902 e 1903. Infelizmente não existem registros de seu primeiro período de existência. Os acontecimentos de 1916 seriam referentes à reconstituição da sociedade que ficara inativa por algum tempo, em virtude, principalmente, dos reflexos da Grande Guerra iniciada em 1914.

O primeiro bloco do conjunto arquitetônico que abrigou as diversas atividades promovidas por essa sociedade ao longo do século XX foi concluído em 1903 para servir de local de ensaios e sede da Corporação Musical Giuseppe Verdi, também conhecida por Banda Italiana, cuja fundação é de 1901. Essa construção pode ser vista na foto que ilustra esta coluna. Mas, depois de pouco tempo, o uso do prédio não ficou mais restrito à banda. A Sociedade Italiana, que ao surgir já tinha a banda a ela vinculada, decidiu instalar no mesmo espaço o Cine Verdi, que passou a projetar filmes – ainda nos tempos do cinema mudo. Assim, não restava muito espaço, existindo apenas uma pequena sala de reuniões além do salão principal, que convivia com o arrastar de cadeiras constante, em virtude de, ora ser espaço de ensaio da banda, ora espaço de exibição de filmes. Nas tardes de domingo ocorriam bailes frequentados não apenas pelos membros da colônia italiana, mas também pela população brasileira identificada com os peninsulares.

As demais atividades da Sociedade Italiana eram desenvolvidas numa ampla casa ao lado da sede, na Rua José Galvão, atual número 134 – então alugada da família Roncoletta. Ali estavam sediadas a Escola Italiana, mantida pelo professor Francisco Salerno, que depois seria denominada Escola Anita Garibaldi e subsidiada pela indústria Brasital; a Sociedade dos Ex-Combatentes da Primeira Guerra Mundial; o Círculo de Leitura Dante Alighieri e o Partido Fascista de Salto. Nos fundos, viviam os zeladores Pascoalina Gonela e Emílio Baldim. Portanto, faltava espaço à Sociedade. Em virtude disso, em maio de 1934 a diretoria decidiu contrair um empréstimo para edificar – no terreno de 1700 m² que já dispunha, existente entre a referida casa alugada e a construção pioneira de 1903 – a Casa D’Italia. Para essa ampliação ocorrer foi necessária a remoção de uma grande quantidade de granito que existia no terreno, uma característica dessa região da cidade mais próxima ao rio Tietê.

As obras, iniciadas em 1934, se estenderam até fins de 1936. E em 15 de fevereiro de 1937 uma grande inauguração foi promovida, contando com a presença de um representante da Embaixada Italiana, do cônsul da Itália em Campinas e de dois representantes do Consulado de São Paulo. A seguir, a biblioteca do Círculo de Leitura e a Escola Anita Garibaldi saíram da casa alugada e foram ocupar o edifício antigo da Sociedade, ficando o recém-inaugurado salão destinado às atividades de projeção cinematográfica, peças teatrais e apresentações musicais. Pouco tempo depois, em 1939, a Banda Italiana, o Círculo de Leitura e o Partido Fascista deixariam de existir. E em 1941, com o rompimento de relações entre Brasil e Itália, em virtude da Segunda Guerra Mundial, a Sociedade Italiana cessou todas as suas atividades, ficando apenas o então presidente, Leone Camerra, encarregado de receber o aluguel do salão de cinema – cedido a uma empresa de Sorocaba desde 1938 – com o intuito de promover a manutenção do prédio.

As atividades da Sociedade apenas seriam retomadas 10 anos mais tarde, em abril de 1951. Sua sede, cedida à Sociedade Instrutiva e Recreativa Operária Saltense (SIROS) desde 1945, foi devolvida em estado precário. O quadro social foi reestruturado e a mesma diretoria que encerrara as atividades em 1941 foi reempossada. A sede passou por reformas e, na prática, a Sociedade só retomou suas atividades em 1955. Nesse mesmo ano uma nova empresa foi autorizada a administrar o salão de cinema, desta vez uma originária da cidade de Itu.

Apesar de seu quadro social estar cada vez mais reduzido e envelhecido, foi apenas no final da década de 1960 que a Sociedade Italiana admitiu a entrada de sócios não-italianos, sendo os primeiros brasileiros a fazer parte dela, os senhores: Pedro Rudine Tonelo, Rubens Milioni, Vitório Isolani, Alberto Telesi, Adélio Milioni e Geraldo Sontag. Ao longo de sua história, estiveram à frente da Sociedade, como presidentes: João Scarano, Gino Biffi, João Vassali, Leone Camerra, Lino Tabarin, Vicenzo Bifano, Adélio Milioni, Rubens Milioni, Geraldo Hernandez, Ayr Galafassi, João Antonio da Rós e, no cargo desde 1994, José Odair Peron.

Uma mudança no estatuto fez com que a Sociedade simplificasse seu nome para Sociedade Italiana Giuseppe Verdi, retirando a expressão “de Mútua Assistência” – já que não mais correspondia aos seus fins. Uma ação de desapropriação dos bens imóveis da Sociedade foi movida pela Prefeitura em 1986, a qual não foi adiante e acabou encerrada com o acordo de 1994 que cedeu, em regime comodato, por 30 anos, o conjunto situado numa das esquinas das ruas Floriano Peixoto e José Galvão à municipalidade. Esse comodato renovado por mais três décadas em 2006. Atualmente, a Sociedade tem como principal atividade o ensino da língua italiana.

22 de julho de 2010

A Estação Ferroviária de Salto

O prédio que ainda hoje pode ser visto na Praça Álvaro Guião – e que em breve será mais um dos pontos com vocação turística nesta cidade – foi construído em 1898, sob a direção do mestre de obras João Garcia, e serviu por muitos anos como estação ferroviária. Os trilhos da Companhia Ytuana de Estradas de Ferro chegaram a Salto em 26 de novembro de 1870, mas nessa ocasião apenas foi instalado um marco no local onde seria construída a estação. A instalação oficial da Estação Ferroviária de Salto ocorreu em 2 de abril de 1873. Curiosamente a Estação de Itu foi inaugurada depois, no dia 17 do mesmo mês.

Quando a ferrovia chegou, Salto não era mais que uma povoação com duzentas casas e menos de mil habitantes. Mas o crescimento não tardou a vir nos anos seguintes, já que a chegada da ferrovia foi um dos pontos decisivos para as primeiras tecelagens aqui se fixarem, nas imediações da cachoeira. E isso acabou atraindo grande quantidade de trabalhadores.

As Festas do Salto – existentes desde os primeiros anos do século XVIII – motivaram, a partir de 1876, uma iniciativa que se tornou praxe das empresas que operavam a ferrovia: fazer correr trens entre Salto e Itu, nos dias 7 e 8 de setembro de cada ano, a curtos intervalos de tempo. Isso se mostrava interessante já que havia um numeroso contingente de ituanos interessados em vir para cá, justamente para participar dos tradicionais festejos na data da Padroeira do Salto. O aviso extraído do jornal Imprensa Ytuana, de 4 de setembro de 1881, dá o tom do movimento nesses dias: “No dia 8 de Setembro p. futuro correrão os trens extraordinarios como de costume. Na vespera 7 de Setembro haverá um trem especial que partindo de Ytu as 5 horas da tarde, regressando do Salto de noite, 15 minutos depois de um prolongado apito da machina.”

Nos anos imediatamente após a instalação da Estação de Salto, andar de trem – fosse para sair de Salto ou na chegada – significava também ter que atravessar o rio Jundiaí, no trecho que hoje é o final da Rua Monsenhor Couto, a bordo de uma balsa. Apenas em agosto de 1888 foi instalada uma ponte de madeira sobre o rio – pouco acima da que existe hoje – projetada e custeada por um dos industriais pioneiros de Salto, o Dr. Barros Júnior, que era engenheiro civil.

Até a década de 1950, tanto para transporte de cargas como de passageiros, a ferrovia reinou absoluta em nossa região. Nessa época, Salto chegou a ter seis ligações diárias com a capital paulista, sendo três via Jundiaí – com baldeação pela São Paulo Railway (saindo daqui às 5h00, 11h00 e 18h00) – e outras três via Mairinque, que saíam 30 minutos após as primeiras via Jundiaí, nos mesmos intervalos. Por essa época, a ferrovia em Salto atendia a uma demanda muito grande das indústrias, especialmente da Eucatex e da EMAS, aqui instaladas no início da década citada.

Em 1959 a Estação de Salto tinha cinco desvios particulares: da pedreira da Ponte; da pedreira de João Dias; da Brasital – com quase 2 km de extensão; da Eucatex e da EMAS, que consumia bauxita. Outras indústrias – tais como a Têxtil Assad Abdala e a Fábrica Picchi – e o comércio em geral se valiam das mercadorias e matérias-primas que chegavam à estação: celulose, fardos de algodão, cimento, madeira, soda cáustica, bobinas de aço, botijões de gás etc. Pela Estação de Salto também se exportava. Na década de 1950, daqui saíam: café em grãos, pedra britada, paralelepípedos, areia dos rios Jundiaí e Tietê, vinho das vinícolas Milioni e Donalísio, óxido de alumínio da EMAS, em média 10 vagões por dia de chapas da Eucatex, artigos de couro do Cortume Telesi, dentre outros.

Em 1976 cessou o transporte de passageiros. As rodovias já haviam melhorado bastante e o número de linhas de ônibus já havia aumentado – fruto de uma política pública que não se interessava pela ampliação da rede ferroviária e direcionava os investimentos em outra direção. Ao longo de sua existência, a Estação de Salto pertenceu às seguintes companhias, numa sucessão de vendas e fusões que ocorreram: Cia. Ytuana de Estradas de Ferro (1873-1892), Cia. União Sorocabana e Ytuana (1892-1907), The Sorocabana Railway Company (1907-1919), Estrada de Ferro Sorocabana (1919-1971) e, por último, FEPASA – Ferrovia Paulista SA (1971-1987). Nossa estação foi desativada em 1987, com a construção do novo traçado de linha e nova estação para além da Eucatex.

Locomotiva na estação, ca. 1948.

Eloy Rigolin, Terezinha Rigolin da Rós Tecchio e Luiza Cazarine Rigolin na estação, ca. 1950.
Acervo de Ana Cláudia R. Ferreira. (Grupo Fotos Antigas de Salto/SP)
Enchente do Rio Jundiaí em 1983, com a estação ao fundo, ainda em operação.
Acervo de Paulo Conti (Grupo Fotos Antigas de Salto/SP)

Construção da ponte de madeira sobre o Rio Jundiaí, 1939. Ao fundo, a estação.

Estação de Salto, 1920. Vê-se a retirada de fardos de algodão que à época eram transportados até as tecelagens em carroças puxadas por burros.
Desembarque, década de 1930.


As fotos a seguir foram tiradas por Anicleide Zequini em abril de 1988:












Cronologia:

1870 – Organização da Companhia Ituana de Estrada de Ferro por comerciantes, industriais e fazendeiros de Itu e vizinhanças.

1873 – Inauguração oficial do ramal ligando as cidades de Itu e Jundiaí, passando por Salto.

1892 – Fusão das Companhias Sorocabana e ituana de Estrada de Ferro.

1903 – Falência e liquidação da União Sorocabana e Ituana.

1905 – Aquisição das instalações e equipamentos ferroviários pelo governo do Estado de São Paulo, com a denominação de Estrada de Ferro Sorocabana.

1971 – Criação da FEPASA – Ferrovia Paulista S/A, que incorporou a Estrada de Ferro Sorocabana, juntamente com outras quatro Companhias.

1985 – Inauguração do novo ramal, com a desativação do antigo traçado.

15 de julho de 2010

O livro do Dr. Randi

O livro O município de Salto, escrito em 1959 pelo então médico sanitarista do Centro de Saúde de Salto, Dr. Adriano Randi – paulistano nascido em 1921, que viveu muitos anos em Salto e atualmente reside em Campinas – é um precioso levantamento sobre nossa cidade no final da década de cinquenta. Suas 125 páginas, impressas no Rio de Janeiro pelo serviço gráfico do IBGE, trazem um levantamento amplo e minucioso sobre Salto. Talvez seja esse o primeiro livro impresso sobre a cidade, já que História de Salto, de Luiz Castellari, embora concluído em 1942, foi publicado somente muitos anos após a morte do autor, em 1971. Vale, portanto, registrar aqui algumas passagens dessa interessante publicação do Dr. Randi – um tanto esquecida – e que se tornou, mais do que tudo, um interessante documento de época. Nas páginas iniciais o autor traça um histórico de Salto, destacando a fundação da cidade “na fria e nevoenta manhã do dia 16 de junho do ano de 1698, da era cristã, no sítio denominado Cachoeira”; a instalação das primeiras fábricas e a conquista da autonomia local, que “coincidiu com o advento da Proclamação da República e o início da imigração italiana para o Brasil”, em 1889.
 
Mas são os dados contemporâneos à publicação os mais interessantes. Em 1959, existia uma Salto com população estimada em 15.000 habitantes na zona urbana e 2.613 na zona rural – predominando os habitantes de nacionalidade brasileira, existindo ainda grupos de italianos, espanhóis, portugueses e japoneses. A comunicação da cidade com outras localidades, nessa época, foi dividida pelo autor em dois meios: por estrada de rodagem e por estrada de ferro – sendo este último o principal. Da capital do Estado, por estrada de rodagem, Salto distava “113 km, via Itu, sendo 62 km na via Anhanguera, em estrada totalmente asfaltada; via Cabreúva, 107 km, também em estrada totalmente asfaltada, porém estreita e muito acidentada, contando com vários precipícios, todavia com um belíssimo panorama, margeando em muitos quilômetros o rio Tietê”. Por estrada de ferro, o saltense que desejasse ir à Capital, tinha duas opções: pela Sorocabana, “via Mairinque, com 129 km, ou via Jundiaí, com 121 km – parte pela Sorocabana e parte pela Estrada de Ferro Santos a Jundiaí”. Para ir a Indaiatuba, distante 17 km, ou Campinas, distante 47 km, era necessário percorrer uma “estrada de terra batida, porém bem conservada”.
 
No capítulo denominado “Progresso Relativo”, Randi destaca que na administração do prefeito Vicente Scivittaro “foi promulgada uma lei municipal de isenção de impostos por 20 anos às indústrias que aqui se estabelecessem”. E continua, sobre esse tema, a dizer que “graças a essa lei, ao potencial elétrico e à grande abundância de água, aqui se instalaram importantíssimas indústrias novas, destacando-se a Eucatex S. A., fábrica de chapas de fibra de eucalipto que abastece o país e ainda exporta para o exterior”. Outra indústria citada nesse contexto é a “Electro Metalúrgica Abrasivos Salto (EMAS), com fabricação de óxido de alumínio e carbureto de silício, matéria-prima empregada na indústria de abrasivos”. Cita ainda a “Sivat, com indústria de rebolos e outros abrasivos”. E conclui, sobre a questão, afirmando que “tais indústrias trouxeram grande desenvolvimento ao município, quer na parte econômica, quer no aumento da população”.
 
Informes dos mais variados temas podem ser encontrados na publicação em questão, desde laudos técnicos sobre a qualidade da água que os cidadãos saltenses recebiam em seus lares até a descrição da rotina da Creche mantida pela indústria têxtil Brasital: “às mães é facultado sair do serviço por alguns minutos para se dirigirem ao lactário da creche a fim de darem de mamar aos seus filhos; outras crianças são alimentadas por mamadeiras preparadas pelas próprias freiras, (...) para crianças maiores é preparado o mingau e a sopa”. Outro detalhe interessante é a listagem das escolas rurais do município, que Randi elabora levantando uma a uma o número de alunos, a distância do centro da cidade e a professora responsável pela direção do estabelecimento. Esse levantamento é acompanhado de um mapa:


Escolas rurais de Salto e as respectivas vias de acesso, 1959.

1) Escola Mista José de Paula Santos - Bairro Olaria
2) Escola Mista Boa Esperança - Bairro Boa Esperança
3) Escola Mista Ana Rita Felizola - Fazenda Santa Cruz
4) Escola Mista João Batista Cezar - Bairro Catingueiro
5) Escola Mista Buru - Bairro do Buru
6) Escola Mista Claudio R. da Silva - Bairro Três Cruzes
7) Escola Mista Maria Miranda Campos - Bairro Boa Vista
8) Escola Mista Acylino Amaral Gurgel - Bairro Atuaú
9) Escola Mista Getúlio Vargas - Bairro Campo Grande

Como sanitarista que era, Randi acreditou ser relevante detalhar a origem e a qualidade dos alimentos consumidos pelos saltenses. Sobre o leite consumido na cidade, relatou ser “proveniente de pequenas fazendas localizadas na zona rural do próprio município”. Já o fornecimento era “feito por uma única leiteira [aqui] estabelecida”, e a “distribuição na casa dos fregueses, [ocorria] por meio de um carrinho adaptado, puxado a burro” – trabalho realizado “por cerca de 10 leiteiros”. Não havia métodos de resfriamento e de pasteurização, vindo o leite diretamente das Fazendas Guarujá, Barnabé, Monte Alto ou da Granja Santo Antônio para o núcleo urbano.
 

O comércio de pão pelas padarias era feito “em balcão e em carrinhos para entrega domiciliar”. Os endereços de sete padarias constam na lista elaborada por Randi, sendo seus proprietários: Narciso João Conte, Cooperativa Operária Saltense, Irmãos Bergamo, Pittori & Filhos, Domingos A. Lammoglia, Luiz Piaia & Filhos e Ernesto Bethiol. Há ainda menção ao fornecimento de verduras por “hortas e chácaras nas imediações da cidade” como sendo pequeno, vindo a maior parte dos gêneros dos municípios vizinhos. A distribuição das verduras ficava a cargo das quitandas, cujos proprietários também são citados: João Navarro Filho, Celeste Trentin, Hideo Figita, Alcides Calefo, Expedito Thereza, Shogo Handa, José A. Fabri, José Plácido Ferraz do Amaral e Antonio Rossi. Randi observa ainda que alguns chacareiros vendiam “seus produtos diretamente ao consumidor por meio de carrinhos puxados a burro” que transitavam pela cidade.

7 de julho de 2010

Maestro Castellari

Figura de grande destaque na cidade de Salto na primeira metade do século XX, Henrique (ou Enrico) Castellari nasceu em Parma, na Itália, em 27 de junho de 1880. Veio com seus pais para o Brasil a bordo do Aquitania, aportando no Rio de Janeiro em 14 de abril de 1891. Sua família, por breve período, fixou-se na cidade vizinha de Porto Feliz. Em sua adolescência, já em Salto, Castellari era encarregado de acender e apagar os lampiões da incipiente cidade – uma das primeiras dentre tantas ocupações e ofícios que exerceu ao longo de sua vida em Salto.

Castellari, no que se refere aos estudos musicais, iniciou-se com João Francisco das Chagas, pai de Luiza Isabel das Chagas – senhora com quem se casou em 2 de julho de 1900 e teve 9 filhos: Luiz, João, José Maria, Benedita, Odália, Maria Inácia, Belmira, Henrique e Eduardo. Pouco tempo depois Castellari ingressou na banda do maestro ituano João Narcizo do Amaral, e com ele terminou seus estudos. Em Salto, no início de sua carreira musical, fez parte do Coro e Orquestra Nossa Senhora do Monte Serrat, da Igreja Matriz, capitaneada por um médico italiano aqui radicado, o Dr. Henrique Viscardi.

Em 1902 Castellari já era regente da Banda Musical Saltense, fundada em 1878. Dirigindo-a por cerca de 50 anos, alcançou considerável destaque no cenário estadual. A sede dessa banda, à Rua Dr. Barros Júnior, foi construída por sua iniciativa entre os anos de 1919 e 1922. Também conhecida por “banda brasileira”, em oposição à “banda italiana”, por meio dela Castellari ensinou música a centenas de pessoas. Foi também compositor. Destaca-se entre suas peças uma que trata dos costumes regionais, intitulada “Uma Festa de São João na Roça”, apresentada pela primeira vez em 1923. Ao todo – dentre marchas, dobrados, valsas, tangos, maxixes e sambas – compôs mais de 200 músicas.

Além de seus trabalhos com música, Castellari foi um dos pioneiros da construção civil em Salto. Com registro junto ao CREA como agrimensor, é dele o primeiro levantamento topográfico do município, realizado em 1931 a pedido do prefeito interventor Major José Garrido. Além disso, três plantas do perímetro urbano da cidade de Salto que integram o acervo do Museu municipal são de sua autoria: uma de 1935, com a rede de esgotos detalhada; outra de 1936, com a localização dos terrenos não-edificados; e uma de 1938, em escala 1:4000. Trabalhando também com marcenaria durante muito tempo, foi Castellari o responsável pelo madeiramento do telhando da nova Igreja Matriz, inaugurada em 1936.

Falecido em 19 de dezembro de 1951, a memória do maestro Castellari se faz presente em nossa cidade de diversas formas. Durante muito tempo o maestro manteve uma chácara na região da cidade chamada Vila Nova. Mais tarde vendida e loteada, um logradouro dessa área – na qual hoje está o edifício Cidade Alta – recebeu seu nome: Travessa Maestro Castellari. Entretanto, a mais significativa homenagem foi a atribuição de seu nome ao Conservatório Musical inaugurado em 1967, particular em sua origem, e que constituiu o embrião do que hoje é Conservatório Municipal Maestro Henrique Castellari, com sede no prédio antes ocupado pelo Hotel Saturno, no início da Rua Monsenhor Couto.

Deparei-me um dia desses com uma longa carta do maestro Castellari, sob guarda do Museu da Cidade de Salto, destinada ao então Interventor do Estado de São Paulo, Adhemar de Barros. A carta data de 30 de abril de 1940 e, ao que me parece, trata-se do rascunho da que muito provavelmente foi remetida. Dizia o maestro, no texto por ele chamado de “memorial”, que a finalidade daqueles escritos era “impetrar (...) uma proteção valiosa para a arte musical em Salto”. Nesse intuito de obter o amparo de uma autoridade, o maestro Castellari iniciava seu memorial pelo histórico da Banda Musical Saltense, que abaixo transcrevo:

“A Banda Musical Saltense foi fundada no ano de 1878, por um grupo de pessoas de boa vontade e vocação musical, quando Salto era ainda uma pequena povoação (...). Foram seus fundadores Joaquim Florindo, Romão Ribas, João Manquinho, João de Assis e outros, todos já falecidos. Depois de 1880, mais ou menos, o benemérito saltense, Dr. Francisco de Barros Júnior, já falecido, ex-Deputado Estadual, (...), avocou-se a direção da referida Banda Musical. Assim, forneceu-lhe instrumental novo, músicas novas, mantendo o maestro João Narciso do Amaral (...), dando trabalho aos músicos em seu estabelecimento industrial e correndo todas as demais despesas da Banda por sua conta. Mais tarde, [em] 1890, referido industrial, vendendo sua indústria, afastou-se da direção da Banda, confiando todo o instrumental e pertences da mesma à guarda da Matriz local, (...).

Dessa época em diante, a Banda ficou sem regente, sem recursos financeiros, indo para a frente por dedicação dos músicos Romão Ribas e João Francisco das Chagas, (...). Em 1902, como músico que era dessa Corporação, assumi a regência e chefia, coadjuvado pelos meus companheiros e músicos, senhores Isaac de Moura Campos, Silvestre Leal Nunes, Joaquim Florindo – todos falecidos, e Antonio Pereira de Oliveira, ainda existente. A Banda, nessa época, achava-se em condições precárias (...) já por falta de instrumentos, etc. Afinal, com muito esforço e boa vontade, consegui reorganizá-la, (...). Hoje, ela é composta de mais de 50 músicos, possui boa sede sita à rua Dr. Barros Júnior, conta com mais de 70 instrumentos e pertences musicais, todos em bom estado de conservação, tem um grande repertório de músicas clássicas, um bom fardamento de brim branco (brim esse doado pela Fábrica Brasital, desta cidade) para 62 músicos, (...), possui Caixa Beneficente para socorrer os músicos necessitados, aula de música para formar novos elementos para a Corporação (medida essa de muito acerto, sem o que a Banda extinguir-se-ia). O terreno em que a sede foi construída foi adquirido por escritura pública, em nome da Banda, não podendo a sede ser vendida ou hipotecada e, em caso de dissolução da Sociedade, os músicos existentes no ato tomarão sob seu cuidado, de acordo com as autoridades locais, os bens existentes, sendo que os músicos remanescentes poderão formar outra Banda, sempre porém com o mesmo nome: ‘Banda Musical Saltense’.”

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966