20 de fevereiro de 2016

Salto e o granito

Em 2007, na tentativa de dar maior visibilidade ao Parque de Lavras, a Prefeitura de Salto decidiu construir uma praça que serviria de novo acesso ao referido parque, o que se mostrou um grande feito, visto que o turista que visitava o Monumento à Padroeira muitas vezes não se dava conta da existência de um outro espaço aberto à visitação, à distância de poucos metros. Era necessário aproveitar esse fluxo de turistas, o maior da cidade. Foi então que nasceu a Praça do Granito, concebida a partir do contexto geofísico e histórico do próprio espaço que se encontrava e da antiga prática de extração de pedras na cidade, que tinha naquele bairro um de seus pontos de referência. Lavras, inaugurado em 1992, passou então a receber mais visitantes. Esta postagem recupera parte do texto que foi produzido para integrar os painéis histórico-turísticos que concebi para o espaço, bem como registra a intervenção que ali foi feita.

Trabalhador construindo muro na Praça do Granito, 2006.

As fotos a seguir tirei no dia da inauguração da Praça do Granito, em 21/04/2007:


Nicho com seis amostras de granitos existentes em Salto, com variações de cor e granulometria.

Uma das amostras de granito existente em Salto.

Escultura de Eugênio Teribelli, artista saltense, alusiva ao ofício de canteiro.


Todas as pedras cortadas para construção da praça encontravam-se no próprio espaço.
Não houve "importação" de granito. Os trabalhos foram conduzidos por Olívio Parentella.

Aspecto central da Praça do Granito, com "casinha" que serve de guarita.

Um dos painéis integrantes da praça. Ao fundo, área de lazer para as crianças.

O cactos são presença constante na paisagem dominada pelo granito.

O totem de inauguração, concebido por Vanise Begossi.


O GRANITO DE SALTO - O município de Salto possui uma grande reserva de granito, em especial uma variedade conhecida como granito róseo de Salto ou granito vermelho de Salto, que recebe ainda outros nomes. O granito encontrado apresenta variedades de granulometria, da mais grosseira à mais fina, conforme o tamanho dos grãos de minerais encontrados nas rochas. Existe também uma diversidade de tonalidades que podem ser encontradas, o que transformou a cidade num destacado fornecedor desse material no país, no século XX. Pelas suas qualidades, o Granito de Salto pode ser encontrado em obras de cantaria, executadas por trabalhadores saltenses, nos mais diversos locais. São exemplos os altares da Catedral da Sé, em São Paulo, da Basílica de Nossa Senhora Aparecida e da Catedral de Jataí, em Goiás. Ou os arcos na entrada do belo prédio da Bolsa do Café, em Santos, a escadaria principal da sede da Escola Superior de Agricultura (ESALQ), em Piracicaba, inúmeros túmulos maciços em cemitérios paulistanos, além de obras nos Estados Unidos e Canadá.

Informa-nos o químico Jeferson dos Santos, proprietário da Marmoraria Ico: "Além da rocha Moutonnée, Salto possui uma grande reserva geológica de granito – o comercialmente chamado granito Vermelho Salto - entretanto o nome descrito no Departamento Nacional de Produção Mineral é Marrom Itu, apesar da exploração comercial das rochas serem feitas em Salto. O granito de Salto possui algumas diferenças de tonalidade e granulometria, porém a mais acentuada está relacionada com a granulometria da pedra. Na região do Santa Cruz e Cecap encontra-se uma rocha de granulometria grosseira onde os minerais puderam se desenvolver (a chamada grana grossa). Já na região do Bairro do Conte, além rio Tietê, os minerais do granito tem os grãos menores (a chamada grana fina)."


UM OFÍCIO TRADICIONAL - O ofício de canteiro (voltado ao corte de pedras) surgiu em Salto quase na mesma época do seu despertar industrial, no final do século XIX. Famílias inteiras acabaram se dedicando a essa atividade, desenvolvendo uma técnica apurada e aprofundando um saber transmitido de geração a geração. Mesmo quando a indústria ainda garantia a maior parte dos postos de trabalho na cidade, a extração e o corte de pedras contribuíam como expressivos geradores de empregos. A arte dos canteiros de Salto marcou a paisagem urbana da cidade. Além das ruas calçadas com paralelepípedos, muitos prédios expressivos exibem elaborados blocos de granito em suas construções. As bases das antigas tecelagens e da estação ferroviária, a escadaria da Igreja Matriz, o casarão de pedra do Dr. Viscardi e a Usina de Lavras, estão entre os muitos exemplos encontrados. Vale salientar uma pequena diferença quanto ao ofício: quem corta, é o canteiro. E quem assenta o paralelepípedo nas ruas é o calceteiro. Em ambos os casos, muitos saltenses dedicaram grande parte de suas vidas a essas tarefas.

O casarão do Dr. Viscardi, cujas bases são de granito vermelho de Salto, quanto ainda abrigava a Biblioteca, 2006.

UM OFÍCIO TRADICIONAL - O ofício de canteiro (voltado ao corte de pedras) surgiu em Salto quase na mesma época do seu despertar industrial, no final do século XIX. Famílias inteiras acabaram se dedicando a essa atividade, desenvolvendo uma técnica apurada e aprofundando um saber transmitido de geração a geração. Mesmo quando a indústria ainda garantia a maior parte dos postos de trabalho na cidade, a extração e o corte de pedras contribuíam como expressivos geradores de empregos. A arte dos canteiros de Salto marcou a paisagem urbana da cidade. Além das ruas calçadas com paralelepípedos, muitos prédios expressivos exibem elaborados blocos de granito em suas construções. As bases das antigas tecelagens e da estação ferroviária, a escadaria da Igreja Matriz, o casarão de pedra do Dr. Viscardi e a Usina de Lavras, estão entre os muitos exemplos encontrados. Vale salientar uma pequena diferença quanto ao ofício: quem corta, é o canteiro. E quem assenta o paralelepípedo nas ruas é o calceteiro. Em ambos os casos, muitos saltenses dedicaram grande parte de suas vidas a essas tarefas.

Pedreira e oficina de cantaria na região que hoje é o centro de Salto, 1921.
Pedreira no bairro da Estação, 1947.
O trabalho dos calceteiros: colocação de paralelepípedos na Av. Vicente Scivittaro, 1972.

MATACÕES - Os matacões são grandes blocos de granito aglomerados. Cada um desses blocos sofreu erosão, de cima para baixo, criando a sua forma arredondada característica. São rochas com mais de 500 milhões de anos, surgidas no período Neoproterozóico (Pré-Cambriano superior). Ao mesmo tempo em que surgiam, formou-se o solo que encobria parcialmente as pedras. Mais tarde, esse solo foi lavado, deixando os grandes blocos expostos. Os matacões são típicos da paisagem natural dos arredores de Salto, que se localiza no ponto de ruptura entre duas regiões do Estado de São Paulo: o Planalto Atlântico e a Depressão Periférica. Essa queda no relevo é a responsável, por exemplo, pela existência da grande cachoeira no rio Tietê, que dá nome à cidade de Salto.

Matacões fazem parte da paisagem dos arredores de Salto.
Nesta foto, matacões no bairro da Estação e Jardim Itaguaçu.

O MAIS FAMOSO DOS GRANITOS - A cidade de Salto possui um atrativo geológico que traz para cá pesquisadores de todo o Brasil: a rocha Moutonnée. Trata-se de um granito que, há cerca de 270 milhões de anos, teve a sua superfície marcada pela passagem de uma gigantesca geleira. Ficaram arranhaduras e depósitos de outros materiais sobre a rocha, comprovando a era do gelo, num período em que as terras de vários continentes ainda se encontravam unidas, formando o supercontinente que os cientistas chamam de Gondwana. O nome Moutonnée vem do francês, significando forma de carneiro, forma de um carneiro deitado no campo. Só existe mais uma formação rochosa com as mesmas características, em todo o mundo. Trata-se da Glacier Rock, na Austrália. Esse tesouro geológico pode ser conhecido no Parque da Rocha Moutonnée, a pouca distância do centro da cidade de Salto.

Parte da Rocha Moutonnée, que tem seu parque específico. Nesta face estão marcas (estrias) da Era Glacial.

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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966