25 de maio de 2008

Visitando a Escola Anita

Em meio a pesquisas para a montagem de uma exposição sobre a antiga Escola Anita Garibaldi, conhecida popularmente por Escola Italiana, resolvi folhar as páginas de seu “Livro de visitas e de exames”, destinado a registrar as apreciações dos inspetores de educação da época, que visitavam as escolas com alguma regularidade, atuando, grosso modo, como fiscais. Nesse livro, podem-se ler as apreciações desses sujeitos sobre a escola, referentes aos anos de 1939 a 1968.

Em 11 de maio de 1939, o auxiliar de inspeção Bruno Vollet inaugura o livro e registra brevemente sua passagem pelo “estabelecimento de ensino particular, sob a competente direção do Prof. Sr. João Baptista Dalla Vecchia”, sem outros comentários. Passados três meses, um inspetor escolar, identificado por uma assinatura que permite apenas a leitura de primeiro nome, Gilberto, visita novamente a escola. Nessa ocasião, constata que “o ensino, em suas linhas gerais, está bem encaminhado, de acordo com os programas em uso nas nossas salas”, e que “os trabalhos gráficos apresentavam-se bem elaborados, com variados exercícios”. Ainda, no que se refere ao número de matrículas, esse inspetor contabiliza “81 alunos, sendo 75 masculinos e 6 femininos, nos 3º e 4º ano complementar”.

Treze outras visitas, muitas delas seqüenciais, sendo a última em 1947, foram feitas por esse mesmo inspetor Gilberto. Em sua segunda visita, ainda em 1939, ele assiste “[a]os exercícios de cálculo e leitura dos alunos matriculados nos 4º e 5º anos”. Ao voltar em 1940, apresentando a escola em seu relatório, escreve: “É seu regente o competente Prof. João Baptista (...)”. Nessa ocasião, registra ainda: “Troquei idéias com o Sr. Prof. Sobre o ensino de cálculo, linguagem e leitura”. No ano seguinte, o mesmo traz um panorama dos matriculados: “Por ocasião de minha visita funcionavam os 2º e 3º anos, com a matrícula de 46 alunos e a freqüência de 45. Estas classes funcionavam no período da manhã. À tarde existe a classe do 1º ano, com a matrícula de 55 crianças, sendo 49 masculinas e 6 femininas”. Nas anotações da segunda visita de 1941, lê-se que o prof. Dalla Vecchia, “no desempenho do seu cargo, sempre se revela esforçado e dedicado”. Em 1942, outra apreciação similar, louvando-se “o interesse e a dedicação que o professor (...) demonstra no seu trabalho de educador”.

Em fevereiro de 1945, o mesmo inspetor Gilberto visita a escola, desta vez acompanhado pelo “Exmo. Sr. Prof. Paulo Monte Serrat, DD. Delegado Regional de Ensino de Sorocaba”, que ministrou duas aulas sobre “instrução moral e cívica, (...) prendendo a atenção das crianças”. Passados dois meses, o inspetor retorna à escola e sintetiza sua série de visitas à Escola Anita, ao longo dos anos anteriores, no seguinte comentário: “Levo, todas as vezes que tenho o prazer de visitá-la, a melhor das impressões, quer quanto aos trabalhos escolares, quer quanto ao desenvolvimento dado ao ensino em geral”. Em agosto de 1945, quem inspeciona é Claudio R. da Silva, registrando: “Assisti a uma aula de cálculo no primeiro ano, tendo argüido à classe sobre um dos problemas apresentados. Observei apreciável aproveitamento dos alunos nessa disciplina. Causou-me satisfação o asseio e a ordem reinante nesta casa de ensino, o que demonstra a boa vontade e eficiente trabalho do professor que a dirige”.

Os inspetores que pela escola passam, nos anos seguintes, são todos unânimes em valorizar os esforços empreendidos cotidianamente pelo prof. João Baptista, sempre mencionado como o responsável pelas atividades desenvolvidas terem bons resultados. Sobre sua figura e seu trabalho, se lê outras referências, como: “a boa ordem e o bom aproveitamento [são] oriundos do esforço bem orientado do dirigente [da escola]”, escrito por Alcides de Campos, em 1948; “esforçado e incansável, como sempre”, escrito em pelo mesmo Alcides, em 1949; em 1955, “esforçado e dedicado professor que já há longos anos exerce a profissão”; em 1968 – e último ano – “a escola é dirigida proficuamente pelo prof. João Baptista Dalla Vecchia”. Diante de apreciações como essas, reiteradas ao longo quase 40 anos, resta-nos pensar a Escola Anita Garibaldi como tendo sido a Escola do prof. Dalla Vecchia.


Alunos da Escola Anita Garibaldi no galpão da Casa D'Itália, com o prof. Dalla Vecchia e a profª Rosanna Turri, 1939.

16 de maio de 2008

A banda dos romeiros

O texto e as imagens que apresento hoje são frutos dos esforços de Marco “Manaia” Vicente, que nos enviou, há algumas semanas, material alusivo à Romaria de Salto a Pirapora do Bom Jesus, como fotos da década de 1950 e 1960, e um texto por ele redigido, intitulado “Ao som de clarins, surge uma história” – relato emocionado da história dos romeiros a partir da Banda de Clarins. O que segue é nosso exame desse material.

Foto: Waldemar Ladeira (esq.), Wagner Formigoni, José Garcia e Zé Potinho, s/d.

Em abril de 1953, um grupo de amigos se reuniu para organizar uma romaria com destino a Pirapora do Bom Jesus – a I Romaria de Salto a Pirapora do Bom Jesus – tendo à frente do grupo Etore Birello, como presidente; e João Leopoldino, como vice. Nessa ocasião, a diretoria já formada convidou José Dalla Vecchia, então com 13 anos de idade, para agraciar, com o toque do clarim, tanto a saída como a chegada dos romeiros – tradição musical que persiste até os nossos dias, tendo ocorrido a 55ª edição da Romaria neste ano.

Na segunda Romaria, em 1954, José Dalla Vecchia contou com a companhia de Orlando Cazzelato. Formou-se então a Banda de Clarins Nossa Senhora Aparecida. Novos clarins foram comprados em 1956. A cada ano a Banda crescia. Ao final da década de 1950, ela era composta, além dos dois nomes já citados, pelo sargento Moraes, do Quartel de Itu, e os senhores Antonio Maradine e Agostinho Augusto – além de Ade Manaia e Dorival – agregados em 1957. Ao final da década de 1970, apenas os dois pioneiros não integravam mais a Banda.

Anos mais tarde, com a compra de mais seis clarins, ingressaram os romeiros Arnaldo, Wagner Formigoni, Fugolin, Jair, Chinês e Adalberto. Ao sair o sargento Moraes, ingressaram José Mariano e Osvaldo Arruda – o Jacó. Sobre este último, há que se mencionar que, por muitos anos, ele e sua mulher, Madalena, recolheram prendas nos comércios da cidade – revertidas em refeições, alojamentos, cavalos e uniformes para a Banda. Muitos ensaios ocorriam no antigo Bar da Pedra, na Rua José Galvão, ou na garagem da residência do já falecido romeiro Valter Ladeira. Quando José Dalla Vecchia saiu da Banda, assumiu o seu lugar um dos filhos de José Mariano.

Quando o presidente da Banda era Valdomiro “Cabresto” Cortês, cinco jovens – instruídos pelos autodidatas Dorival e Ade Manaia – ingressaram, com o intuito de gradativamente substituir os velhos romeiros dos clarins. Passaram ainda pela presidência, Orlando Bergamo e Clemente Andrietta. Na gestão deste último, a formação era: Ade e Marco Manaia; Dorival e Chico Currigive; Clemente, Rosano e Cláudio Andrietta. Com outras idas e vindas em sua formação, houve um longo período em que Ade Manaia, sozinho, empunhou o estandarte da Banda.

Além da Romaria, propriamente, os entusiastas dos clarins também têm presença freqüente nos funerais de autoridades, pessoas de destaque e de antigos romeiros. Essa participação, nas palavras de Marco Manaia, se dá “minutos antes de partirem para a derradeira morada, [quando homenageia-se o falecido] com um choroso toque de clarim, ao som da melodia Silêncio (Il Silenzio, de Nino Rosso, Itália/1965), executada por Ade Manaia.

A Banda de Clarins em ação: José Dalla Vecchia, Fugolin,
Ade Manaia, Torero, Antonio Maradine e Antonio Augusto.

7 de maio de 2008

Presença japonesa em Salto

Para se escrever uma história da imigração japonesa em Salto é fundamental que sejam consultados os registros de estrangeiros existentes no Museu da Cidade. O registro nacional dos estrangeiros residentes no Brasil surgiu durante o Estado Novo, com um decreto de Getúlio Vargas de 1938, obrigando todos os indivíduos maiores de 18 anos, que não possuíssem a nacionalidade brasileira, a se registrarem nos órgãos policiais do lugar em que residissem. Estavam isentos desse registro os estrangeiros com mais de sessenta anos de idade à data do decreto. Dos quase novecentos prontuários existentes no Museu, quarenta deles são de japoneses. Embora correspondam a menos de 5% da série documental, a análise desses prontuários propicia algumas conclusões e dá pistas para um trabalho de maior fôlego sobre o tema, constituindo-se num pontapé inicial indispensável.

Os dois prontuários mais antigos datam de novembro de 1940. São do casal Choichi e Haruyo Kimura, ambos nascidos em Osaka. Choichi, o marido, contava, na ocasião em que compareceu à Delegacia de Polícia de Salto, com 48 anos de idade (nascido em 1892) e Haruyo, a mulher, com 44 (era de 1896). O casal chegou ao Brasil em 3 de março de 1930, a bordo do “Montevideo”. Viviam na Chácara do Rosário – ele como lavrador e ela como doméstica. Em 1940, tinham dois filhos menores de 18 anos: o jovem Kiyoyoshi, com 16, e a menina Satie, com 12. Em abril de 1942, Kiyoyoshi Kimura [foto 1], ao atingir a maioridade, compareceu à Delegacia. Naquela data, ele ainda residia com os pais na Chácara do Rosário, “no bairro Canjica, deste município”, trabalhando como lavrador. Em 1945, sua irmã Satie [2] segue o mesmo procedimento e também se registra – ela que tinha menos de 3 anos de idade quando a família desembarcou em Santos.

Há os três prontuários dos irmãos Abe, dois homens e uma mulher, naturais do estado japonês de Fushushima. Filhos do casal Issamu Abe e Yoshimo Abe – Teruo [3], Toshio [4] e a jovem Eiko [5] chegaram muito pequenos ao Brasil. Vieram a bordo do “Arizona Maru” e desembarcaram no porto de Santos em 25 de março de 1935. A mais velha é Eiko, nascida em 1929. Teruo é de 1931 e o caçula Toshio é de 1934. Na ocasião do registro, em 1958, todos eram lavradores no Haras São Luiz.

No ano seguinte, temos dois registros da família Nagata, que se faz presente por meio de duas mulheres. Uma delas é Umeko Nagata [6], solteira, filha de Tohe e Chyo Nagata, que tinha 20 anos e era agricultora por “conta própria” no “bairro Monte Alegre – município de Salto”. Havia desembarcado no porto de Santos há um ano e dez meses, precisamente em 9 de fevereiro de 1958. No mesmo dia, chegou Kinko Nagata [7], casada com Shigemasa Yano e filha de Shinti Nagata e Hatuo Nagata. Trouxe consigo três crianças: Yoshiki, com 9 anos; Hiroshi, com 7; e Hiromitsu, com 4. Kinko, assim como Umeko, residia no bairro Monte Alegre, trabalhando como agricultora.

Vivendo e trabalhando na Chácara Donalísio encontramos Take Hirashima [8], com 63 anos de idade, natural de Fukuoka; e Chiyoka Hirashima [9], com 33 anos, tendo um filho de 7 e outro de 3 anos. Ambas chegaram ao porto de Santos em 14 de março de 1959, a bordo do “Argentina Maru”.

Distribuindo-se quase sempre por bairros rurais, há diversos prontuários de japoneses residentes no então populoso bairro do Buru, trabalhando como lavradores: casos de Chieko Tsuji, casada com Shigeru Tsuji; Choko Zukeran, casado com Fumi Zukeran; e de Hyoji e Shosaku Yamada – respectivamente pai e filho, residentes no Brasil desde 1957. O único caso de japonês trabalhando fora do campo em Salto é o de Tomoharu Murakami [10]. Em 1958, era morador da Rua Joaquim Nabuco e trabalhava “na firma EMAS”, tendo chegado ao Brasil cerca de um ano e meio antes.

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966