16 de julho de 2008

As memórias de Zequinha Marques


O maestro Zequinha Marques [1893-1981] em foto da década de 1970.

Em 10 de abril de 1979, José Maria Marques de Oliveira – o popular Zequinha Marques [1893-1981] – foi entrevistado por Edmur Salla. Naquela ocasião, o interlocutor apresentava uma proposta abrangente: Zequinha “irá nos contar tudo aquilo que sabe sobre a história, sobre os principais acontecimentos da cidade de Salto, desde que sua memória consiga perceber até os dias de hoje”. Ouvindo a gravação, pudemos extrair alguns fragmentos e aqui apresentá-los.

Alfaiate e músico ligado à Igreja católica, especialmente, Zequinha iniciou a narrativa de suas memórias tratando da fundação da Banda Giuseppe Verdi, constituída a partir da iniciativa de membros da colônia italiana em Salto, tendo isso ocorrido em 1901. Cita também alguns nomes ligados à banda: José Moretti, Diogo Alves da Costa, Júlio Kraus, Romualdo Mosca, Leonardo Lonardi e Vicenzo Turri – sendo este último o maestro, cargo posteriormente ocupado por João Narcizo do Amaral, “um professor de música, leigo, de Itu”. Menciona ainda que a instalação da banda deu-se sob o patrocínio do industrial José Weissohn – um engenheiro vindo da Itália que adquiriu as duas tecelagens pioneiras instaladas à margem direita do rio Tietê. Em 1903, ocorreu a “a inauguração de um salão que o doutor [Henrique] Viscardi [1858-1913] e a colônia italiana ajudou [sic] a construir (...). Formaram um palanque e a dona Corina Weissohn, senhora do industrial José Weissohn. Esta descobriu a bandeira que estava coberto [sic] o corpo da imagem de Giuseppe Verdi. Neste momento, a banda de música tocou o hino italiano, a Marcha Real Italiana, e soltaram foguetes”.

Zequinha também descreve a primitiva capela de Nossa Senhora do Monte Serrat e seu entorno: “era de quatro paredes, tendo sineiro feito [de] umas madeiras salientes que formavam uma casinha onde estava[m] colocado[s] os sinos ao lado. Era assim a Igreja. Na frente tinha oito paineiras, quatro [de] cada lado, enormes, e mato, capim”. Descreve ainda a substituição dessa construção pela atual: “A Igreja era feita de taipa. [Em] (...) certa época [1928], padre João da Silva Couto [1887-1970] [a] demoliu... Quem demoliu foi a Brasital, por conta dela, sendo um dos demolidor[es] Dante Milioni, que amarrou entre duas janelas um cabo de aço de 5000 peso de potência [sic] e puxou, e demoliu a Igreja e aos poucos o resto das taipas à picareta, até que construíram uma nova que existe até hoje.

Sobre as dimensões da Salto de sua infância, diz que a cidade terminava “na Rua Rui Barbosa. Dali em diante era mato, pasto e cafezal de propriedade de Antonio da Silva Teixeira, [que] depois passou por diversas mãos – esse cafezal e essa vastidão de campo. A Brasital comprou uns trechos do campo e construiu a vila dos operários [as 244 casas que constituíam a Vila Operária Brasital foram construídas entre 1920 e 1925, e até 1967 estavam nas mãos na empresa]. A Rua 9 [de Julho] hoje chamava-se (...) Rua de Campinas, depois foi mudado o nome para Rui Barbosa, e depois devido a um senhor muito fanático pela Revolução de 32, [trocou-se o nome por] 9 de Julho, (...) [que permanece] até hoje”.

Em determinado momento da gravação, o interlocutor solicita a Zequinha Marques que fale “das outras bandas que existiam no Salto”, e Zequinha diz que “tinha a orquestra do doutor Enrico Viscardi, onde catava[m] diversas pessoas: Luís Bonani, Demétrio Ughieri, José Fogueteiro... O doutor Viscardi, muito amigo de cantar, era judeu. Não acreditava em coisa nenhuma, (...) mas como gostava de cantar, formou uma orquestra para cantar nas missas e festas de Salto”. Sobre a figura de Barros Júnior [1856-1918], Zequinha tece breve comentário: “um senhor cujo pai era proprietário da fazenda Morro Vermelho. Rico, mandou o filho, Francisco Fernando de Barros Júnior, estudar nos Estados Unidos, engenharia mecânica (...). Ele fundou a fábrica dele [sic] junto do terreno de José Galvão.”

A gravação inclui outras passagens, sendo em maior quantidade aquelas ligadas a sociedades dançantes e musicais. A última referência é às Festas do Salto. Em suas palavras, ela assim ocorriam, no final do século XIX e início do XX: “No [meu] tempo de criança formava festa dia 8 de setembro em louvor a Nossa Senhora do Monte Serrat e tinha muitas irmandades [que] faziam procissão no dia 8, Dia da Padroeira, até hoje. E as barracas eram feitas de pau-a-pique, de pita, de cambuí... onde vendiam pastéis, quentão, coisas de noite de São João usavam na Festa de Setembro. Cuscuz etc. Doce de batata, de abóbora e... coisas mais e a Festa... [ocorria na praça] Paula Souza... ali eram feitas as festas profanas. [Tinha ainda] um cavalinho de pau que vinha de Tietê, de um homem; dois senhores tocavam realejo...”.


O depoimento que serviu de base para esta coluna pode ser ouvido na íntegra, na Internet, a partir do endereço:
www.salto.sp.gov.br/museu/depoimentos.html

9 de julho de 2008

“Epidemia de grippe”

Na contracapa do livro utilizado para registro do movimento dos internados em Salto durante a pandemia de gripe de 1918, que ficou conhecida por gripe espanhola, vê-se um panfleto nela colado. Intitulado “Ao público”, informa que “a Comissão de Socorros, tendo em vista o franco declínio da gripe nesta cidade, avisa ao povo que o Hospital, instalado no Grupo Escolar, será fechado no próximo domingo, 8 do corrente”. Datado de 6 de dezembro, o panfleto alertava que “os doentes, todos em convalescença” teriam alta no dia seguinte – um sábado. Por fim, assegurava que os médicos continuariam “a receitar às pessoas indigentes, de acordo com a lista em poder dos mesmos”, os “medicamentos [que] se encontram no Hospital”. Além disso, garantia-se que a Comissão continuaria “a distribuir gêneros alimentícios aos necessitados”.

A gripe espanhola apareceu em duas ondas diferentes. Na primeira, em fevereiro de 1918, embora bastante contagiosa, era uma doença branda, não causando mais do que três dias de febre e mal-estar. Já na segunda, em agosto, tornou-se mortal. Se a primeira onda de gripe atingiu em especial os Estados Unidos e a Europa, a segunda devastou o mundo inteiro. No Brasil, ela chegou ao final de setembro de 1918: marinheiros que prestaram serviço militar em Dakar, na costa da África, desembarcaram doentes no porto de Recife. Em duas semanas, surgiram casos de gripe em outras cidades do Nordeste, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Nos jornais, multiplicavam-se receitas, como pitadas de tabaco e queima de alfazema ou incenso para evitar o contágio e desinfetar o ar. Com o avanço da pandemia, sal de quinino, remédio usado no tratamento da malária e muito popular na época, passou a ser distribuído à população, mesmo sem qualquer comprovação científica de sua eficiência contra o vírus da gripe. Diante do desconhecimento de medidas terapêuticas para evitar o contágio ou curar os doentes, as autoridades aconselhavam apenas que se evitassem as aglomerações. A partir desse raciocínio, criaram-se os hospitais de isolamento.

Em Salto, o total de pessoas internadas no hospital de isolamento improvisado no Grupo Escolar – atual Escola Estadual Tancredo do Amaral – foi de 61. O primeiro a ser internado, em 19 de novembro, foi o jovem Eduardo Carlos (14 anos de idade), “morador no Morro Vermelho” e “empregado do Sr. Manoel da Silva Ladeira, residente na Vila Nova”. A última internada, em 6 de dezembro, foi Julia Ribeiro, jovem de 17 anos “natural de Santa Bárbara” e “moradora à Rua Paysandu nº 119” – conforme registrou o diretor dos trabalhos, Silvino Silveira. Num rápido exame dos registros, observam-se casos como os de Maria Benedicta (30), Maria de Lourdes (6), José (10) e Agenor da Silva (8) – respectivamente mãe e seus três filhos, internados todos no dia 21 de novembro. Há, ainda, situações como as da família Tardelli, em que no espaço de poucos dias vários de seus membros foram gradativamente internados. O balancete final dos 19 dias de funcionamento mostra que das 61 pessoas que passaram pelo hospital improvisado, com um número máximo de 26 concomitantes em três desses dias, houve dois falecimentos: Fernando Tardelli, de 44 anos; e Aurélio Biaggi, de 49 – ambos italianos.

Salto nas criações de Pretti

Em 7 de setembro de 1909, na cidade de Salto, nasceu Flávio Pretti. Nome sempre mencionado quando de qualquer levantamento de nossos expoentes artísticos locais, Pretti deixou a cidade aos 20 anos, quando foi para São Paulo trabalhar como desenhista das Indústrias Matarazzo, em 1929. Quatro anos mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro, empregando-se na Companhia América Fabril, onde atuou no desenvolvimento de padronagens para tecido. Foi na então capital da República que completou seus estudos, no seio da Sociedade Brasileira de Belas Artes. Trabalhou também no periódico carioca Diário de Notícias, produzindo caricaturas. Em 1940, retornou a São Paulo, onde instalou seu atelier denominado Publicidades Flávis, na Avenida Celso Garcia.

Em meio aos diversos enquadramentos temáticos de sua obra, Pretti possui algumas criações sobre Salto e em Salto. Os azulejos de Homens que construíram esta cidade (1968), nas proximidades da Cachoeira, no caminho da Ponte Pênsil, constituem um exemplo. Neles, estão representadas as figuras do indígena, do negro, do bandeirante, do padre, do trabalhador rural e do operário fabril – num discurso que tenta integrar e nivelar a importância de grupos sociais e momentos históricos distintos na constituição da cidade. Da mesma época são algumas criações produzidas originalmente para o antigo Restaurante do Salto que, nas palavras do artista, “representavam cenas locais”. Assim, Zé Batatão, antigo sacristão da Igreja Matriz; e Chicão, que vendia amendoim na porta do cinema, tornam-se temas de seus trabalhos.

No final da década de 1970, Pretti produziu outra série de azulejos que pode ser vista ainda hoje no Ginásio Municipal de Esportes. Diante da encomenda do prefeito da época, o artista sintetizou com simplicidade sua criação, em gravação de 1990: “pintei diversos, vários esportes: o salto de trampolim, o salto de altura, o levantador de peso, o lançador de dardo, basquete feminino, o corredor, corrida com barreira, tênis (...), pequenos azulejos [e] a entrada de algumas dependências do Ginásio”. Questionado sobre a recorrência de certos temas em suas criações, como os carros de bois, Pretti, com a mesma simplicidade, justificou: “Eu pinto carros de boi, esse povoado todo do Salto [...], peguei daqui. A figura da terra onde nasci, o que eu via constantemente [...]. Sempre funciona a veia saltense [...], e tudo que eu faço eu sinto a veia saltense. A minha tradição – bem ou mal – minha tradição.”

Outras produções ligadas à terra de Pretti são a O Salto – óleo sobre tela que se encontra no Museu da Cidade; O Canteiro, que retrata o ofício do cortador de pedras – ofício com relevância local na época da infância de Pretti; além das criações que se encontram na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat: Anjo com bandolim e Anjo com cítara.


Zé Batatão [tipo popular saltense]
Flávio Pretti, 1965
Aquarela e guache s/ papel
Acervo do Museu da Cidade de Salto


Um depoimento de Flávio Pretti [1909-1996], concedido em 1990, pode ser ouvido na íntegra na Internet a partir do endereço: www.salto.sp.gov.br/museu/depoimentos.html

1 de julho de 2008

Notas sobre o Buru

A partir desta semana, veicularei nesta coluna textos criados a partir da audição de depoimentos existentes no Museu da Cidade de Salto, gravados em sua maior parte no início da década de 1990. O primeiro a figurar aqui é o de Palmira Merlin Santinon. Durante a gravação de quase 23 minutos, efetuada em abril de 1993, o principal tema presente na conversa entre Palmira e seus interlocutores é o bairro rural do Buru.

A depoente
Palmira nasceu em 14/06/1912 “num lugar [...] [chamado] Ribeiro”, próximo a Capivari. Em 1923, veio para a cidade de Salto. Nesta, viveu até seus 18 anos, quando se casou com Guilherme Santinon e foi morar no bairro rural do Atuaú, onde seu marido já residia. Logo em seguida, o casal comprou terras no bairro do Buru, onde administraram por muito tempo a Venda do Buru. Nessa área, que antes de pertencer à família Santinon denominava-se Sítio do Turco – e por conseqüência tinha-se o Armazém do Turco – Palmira viveu por 55 anos. Assim sendo, o tempo a ser abordado pela depoente, ao falar do Buru, vai do início da década de 1930 até meados da década de 1980.

Os três Burus

Território vasto e, até bem pouco tempo atrás, muito distante do núcleo urbano de Salto (era recorrente entre os saltenses a expressão “tão longe como daqui ao Buru...”), dividia-se em três partes: Buru de Baixo, Buru do Meio e Buru de Cima. Segundo a depoente, essa divisão era feita por meio de águas, com alguns córregos fazendo as vezes de divisa entre uma fração do bairro e outra. O Buru no qual se localizava a Venda era o “do Meio”. Sabe-se que essa divisão era adotada há muito tempo, desde o final do século XVIII, pelo menos. O censo populacional de Itu de 1792 – cuja documentação, sob guarda do Arquivo do Estado de São Paulo, denomina-se “Maços de População de Itu” – alocou o “Boyri de Sima” e o “Boyri de Baixo” na 5ª Companhia. Pela circunscrição das demais Companhias nas quais o território ituano estava divido (incluindo os atuais territórios de Indaiatuba, Jundiaí e Piracicaba, por exemplo), nos parece lógico ser denominado Boyri o nosso Buru.

Famílias e sítios
A depoente citou as famílias que residiam no Buru no tempo em que lá viveu: Stecca, Zambon, Mosca, Bracarense, Garcia, Ribeiro, Gianotto, Quaglino, Keiller e a família de José Eduardo. Solicitada a citar nomes de sítios do Buru, menciona que não era muito comum os sítios terem nome, tinha-se sim o nome do proprietário associado às terras. Assim sendo, lembra-se dos sítios Aleluia, do sítio dos Di Siervo, dos Bracarense, dos Mosca, dos Zanoni, do doutor Janjão e da fazenda dos Anastácios. Em um levantamento topográfico de Salto de 1931, é possível a localização de algumas outras propriedades então existentes, como os sítios Nova Trento e o de J. Bergamo.

Outros temas são abordados nessa gravação disponível integralmente na Internet:
www.salto.sp.gov.br/museu/depoimentos/dep30.wma

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966