21 de dezembro de 2009

SALTO - 1966 (Epopéia)

Texto de José Francisco Archimedes Lammoglia (1920 – 1996)

Nestas palavras, desprovidas de qualquer intenção literária, todavia, sinceras e espontâneas, procurei homenagear SALTO. Nelas há um pouco de tudo: as suas lutas, suas conquistas, suas tradições; seus tipos populares e aqueles que, não medindo esforços, com sua ousadia e altivez, concorreram para a formação de nossa história. Claro está que não me seria possível citar a todos nominalmente, embora, de uma forma ou de outra, através da evocação de um fato ou acontecimento, implicitamente, não deixaram de ser lembrados. É, pois, meu desejo que, nelas, os jovens filhos de Salto, encontrem a inspiração necessária, para continuar a fazê-la forte e próspera, a exemplo daqueles que nos antecederam e dos que ainda, nesse sentido, continuam a porfiar.
Dessa forma, acredito que, despretensiosamente, prestei uma homenagem a minha cidade, a quem todos os dias, desde que a deixei para as lutas da vida, uma parte do meu tempo e pensamento tenho dedicado, como uma prece obrigatória.


1695

Salto nasceu,
Salto de Itu,
Salto de Salto!

Cresceu,
Aumentou,
Quadruplicou,
Espalhou;

Agigantou-se febril,
Impulsionando o Brasil!

Roteiro de glória
É a tua história...

Nasceu sob a égide da cruz!
Da gente que soube amar,
Aquele símbolo de Jesus,
No céu se pode contemplar,
O Cruzeiro
Está no teu roteiro...
Tentarei contar:

VIEIRA TAVARES,
Atravessando mares,
Seguiu com seu par de botas,
Águas do vetusto paulista,
TIETÊ da gigante conquista;
A direita da Cascata,
Do salto de outrora,
Sentou,
Descansou,
Sonhou...

Rompeu a aurora,
Não seguiu.

Parou.

O céu olhou,
O chão beijou,
A Capela plantou;

Pequenina Capela,
Simples, mas bela,
Sem enfeite,
Nem arte.

Que Casa hospitaleira
De nossa Mãe Padroeira,
Senhora do Monte-Serrate!
Venerada com devoção,
Por toda gente,
Da imensa região,
Que orando penitente,
Dedica o coração
A oito de Setembro,
Que jamais se finda
E se repetirá sempre,
Cada vez mais linda!

Depois,
A gente chegando,
Construindo,
Povoando;

Ao lado na Mãe piedosa,
Generosa,
Amantíssima,
Milagrosa,

Surgem casas,
Barracos,
Taperás,
Caminhos,
E feras!...
Pontes escoradas,
Pau-a-pique,
Picadas,
Sem calçadas...

Coisas do sertão,
Da mata
Que se abria
Para aflorar o rincão,
Que um dia
Mais do que o ouro,
Mais do que a prata,
Valeria,
O pedacinho
Que nascia
À direita da Cascata.

Os caminhos,
Feitos de sacrifícios,
E carinhos,
Foram desaparecendo;
Sumindo,
Alargando-se,
Endireitando-se,
Arruando-se!

Sul,
Leste,
Norte,
Oeste!

Tornou-se povoado,
Distante uma légua,
Da Itu histórica;
E sem trégua,
Como estrela que cintila,
Passou à Vila;
Vila e cidade perfeita,
Rua larga e direita.

Em promessa fervorosa,
Um dos Paula Leite,
De árvore frondosa,
Esculpiu a imagem poderosa,
Da VIRGEM e doou,
(Aquela que se queimou),
E na Igreja Velha a colocou.

Vila do Salto de Itu
Que a todos recebeu:
Escravos,
Portugueses,
Todos Bravos,
O espanhol,
O italiano,
Por isso cresceu;
E eu me ufano
De ser filho seu,
Imigrante honrado,
Que tem como Pátria
O solo que é meu;
O campo plantado
Pelo braço incansado...
Do nativo, do europeu!

Na vila
Calma,
Serena,
Tranquila,
A Indústria aparece
E se estabelece
Nova era,
Que prospera:

José Weissohn,
José Revel,
José Galvão,
Fizeram a imensidão.
A Ítalo-Americana,
Pioneira,
Fenomenal,
Desenvolve-se cada ano,
Passa a Brasital;
Com sede em Milano,
Constrói casa
“Atrás do céu”
E o trem soltando brasa,
Leva produto seu;
Estrada de Ferro Sorocabana,
Paralelas do Progresso,
No seu avanço,
Faz sucesso;
Com fumaça e faísca,
A máquina chispa
E o povo se arrisca,
Quer crescer.

A estação aumenta,
Bairros surgem:
Itaici,
Pimenta,
Olarias,
Melhorias,
Ninguém aguenta,
Apressam o crescimento
Momento a momento.
Salto vai indo,
Altivo,
Cativo,
Num burilar infindo!

“Fábrica de Papel”
Na América,
A primeira;
Novas casas,
Novos bairros,
Não há barreira,
Nem em baixo,
Nem no alto,
TUDO PELO SALTO!

“A Fábrica Nova”
Deu prova,
A do Otaviano,
Incendiou-se,
Acabou-se.

Doutor Viscardi,
“Pai do pobre”
Imigrante de alma nobre!
Doutor Pocci, Doutor Mário Rocha,
Doutor Barros Júnior,
Republicano do Distrito,
Seu nome ficou escrito;
Doutor Bicudo, Doutor Assis;
O bondoso Doutor Zé Ignácio...
E no Salto feliz
Esteve José Bonifácio!

Janeiro a agosto:
1912
Água e esgoto!
É Salto brilhando,
No mapa contido,
No coração escondido.

1917
Ninguém se intromete,
Passa a Município;
Novo surto
De vulto,
Novo princípio;
Indústria,
Comércio,
Lavoura,
Luz elétrica!

Enfim,
Belo jardim,
No seu marco,
À direita da Cascata!

Taperás!...

Cascata!...

Fulgurante,
De beleza sem igual,
Do barulho turbulante,
Nascia o ideal;
Hoje vive na saudade,
Como peça nacional!

É o progresso,
É o canal
Que vende a Brasital...

Fartura,
Depois crise
Sofre a criatura:
Enchente,
Revolução,
Doente,
Resignação;

Passa a tormenta,
Olha a amplidão,
O povo enfrenta
E o povo fomenta;

CONTINUA A CAMINHADA!...

Banda de música,
Orquestras,
Teatros,
Palestras,
Clubes,
Escolas,
Adultos,
Rapazolas,
Entusiastas
De sua faceira!

A “Banda da Santa”
Zequinha, maestro que encanta.

“Banda Brasileira”,
Castellari, Mauro, Totico
Requinta sonoro e bom,
Que firme sustenta o tom;

“Banda Italiana”,
Pradelli, Baldi, Dalla Vecchia,
Zuppardo, Ivo, Pasquoalim,
Depois “Gomes-Verdi”,
Tantos outros enfim;

Ecoa assim, a serenata,
Por entre o clamor da cascata,
Músicas maviosas,
Francas boemias,
As suas formosas,
As suas Marias.

Cinemas:
Lopes e Mazza. Pavilhão,
O Zé Pé-no-chão;
Pianista, Itaguassu,
Assim também em Itu;
Alzira, São Bento,
Ruy Barbosa, São José,
O Verdi,
E o que admiro
Até o “Cineminha do Ciro”

Grupos escolares,
Um primeiro,
Outro depois,
Tipos populares,
Revolução de 32!

Tita, homem direito,
Dez anos de prefeito,
Sucede Chiquinho Teixeira,
Honrado e de estilo,
Foi sucedido pelo Chichillo,
Souza Aguirre orador oficial,
Em toda data Nacional.
Contado em prova e verso,
Gaó percorre o universo,
Mostra o nosso tesouro,
Anselmo a Palma de Ouro,
Confirma o atestado,
Que deu o Secretário de Estado.

Beterelli com suas trovas
Sempre novas;
“Comeu formiga”
O flautista Taragim;
“Garrafinha virou”
A Miquelina,
Discurso sem fim
Do Jacomim.

Braveza e prosa,
O Hilário Zebu,
Bastião das Nuvens,
Busca o ariticu,
Não perde a fama,
A distribuir programa,
O Bastião Raposa;
Náne Pé-de-Pato,
Por ter pé chato,
Pernas em bodoque,
Luizinho Roque,
Sílvio Ribas, Henrique Tatângelo;
Guerino,
Desde menino,
Rato Branco,
No Salto risonho e franco;
“Lá tem cobra”
“Não sou guindaste”
“Não quero sobra”
“Não sou relógio”
É o Durico,
Mineiro Pobre,
Mineiro Rico;
O Zabé:
“Cantá, pulá,
Mai mió,
O grilo tá no jardim,
Cri-cri-cri,
Fai assim”
Zabé Bobo!
O Nhô Zé,
Zé Batatão,
Vira lobo:
Uma história,
Uma tradição,
Carroceiro,
Sacristão...

SALTO, assim é!
A risada do Urubatão,
O Fanfula do Franchiné;

Roquinho,
Filho do Chicão:
“Amendoim torradinho”
No cinema, na tourada,
No coreto, no circo,
No portão
Do futebol.

Futebol! Futebol!
Italo, o esquadrão,
Que deu paulista campeão!

SALTO X ITU
Confusão,
Briga,
Discussão;
Que espiga;
Polícia,
Sem malícia,
Tibúrcio, Dito Quarenta,
Nenhum sustenta,
Morteiro,
Rojão.

Coisas de irmão!

Padre Monteiro,
O melhor sermão,
Pregador da Festa;

Festa do SALTO,
Que assombro!
Na procissão,
A Padroeira passeava no ombro,
Hoje passeia na mão.

Não zangue, patrão!

Nas esquinas o bate-papo,
Itu é chamado “sapo”,
Revida ele, daí
Chamar Salto “mandi”,
Assim definidos,
Vivem hoje unidos.

Salto de Itu,
Itu da brasilidade,
A fidelíssima,
Roma brasileira,
Da Convenção;
Capital da Região,
Cidade lendária,
Da Virgem Candelária,
Nossa também,
CRISTO não nasceu em Belém?

Na festa todos vêem:
Bolas, bolinhas,
Balões,
Barcos, barquinhas,
Aviões;

Ciganas, Tiro ao alvo,
(Ponha sua carteira a salvo!)
Parques e rodas gigantes,
Luzes, músicas, alto-falantes;
Montanha Russa, Cavalinho de Pau,
Cus-cus, pastéis, mingau,
Pinguço, mulher barbada,
Churrasco, petisco,
Sorvete, soda-limonada;

A Procissão de São Francisco,
Pipocas, paçocas, torrão,
Café, chás, quentão,
Frango, cabrito, leitão;
Roupas feitas, presilhas, chinelas,
Relógios, calçados, blusões,
Máquinas, caçarolas, panelas,
Cadarços, cintos, fivelas;
Cantores, sambas, batuques,
Roletas, mágicos, truques,
Foguetórios e foguetões;
Na festa em benefício,
Com fogos de artifício,
O êxito é total,
E a canseira geral!

Temos ainda agora,
Romaria a Pirapora.

Escolas Municipais,
Rurais,
Coleginho,
Das filhas de São José:
Educação,
Carinho,
E fé;

Escola Anita,
Que palpita,
Ginásio,
Escola Artesanal,
Colégio Industrial,
Escola Normal!
Os professores,
Que primores!
Beliscavam,
Mas ensinavam...

Baxixa, o Paula Santos,
Berreta, João César, Celino,
Rigorosos como tantos;
Cláudio Ribeiro, Bruno, Lordelo,
Austeros, decisivos, modelo,
Joana, Argentina, Cornélia,
Põem em suspense;
Ana Rita, a primeira Saltense,
Argelina, Dinorah, Isabel,
Desfazem a Torre de Babel;
Georgina, Elisa, Laurinda,
Severiano, saudade infinda,
Antonieta, Nair Colli, Rosária,
Antônia Laghi, Plínio, Alice,
Incutem a letra primária;

Motta Navarro, Celina, Serafina,
Otília, Helena, Benedita Rezende,
Com ardor o Salto defende;

Hermelinda, Lucinda, Transvalina,
Maria Ferraro, Cotinha, Maria Augusta,
Nossa homenagem justa;

Lourdes Carvalho, Belica, Jandira,
Gratidão nos inspira;
E outras formam a plêiade,
Que ensinou mestres, engenheiros,
Médico, operário, dentista,
Farmacêutico, advogado, cientista,
Homem do comércio, espectador, artista;

Anastácio, Frias, Paulito,
Gertrudes, Geraldo, Florindo,
Completam o buquê tão lindo.

Progresso!
Progresso!
Progresso!

Sem recesso.
O calçamento,
Major Garrido,
Homem querido,
Foi o pensamento,
Fazia dupla,
Doutor Mendonça
Ficava onça
Pelo tempo perdido;
Centro Popular
De Educação Física e Moral,
Concentrando a criança,
Evoluindo os pais,
Arregimentando os mestres,
Felicitando casais,
Assim começou,
Não parou mais.

“SOU SAPECA,
SOU SAPECA,
PERERECA”

Carnaval,
Pancadão,
Com boizinho,
Banda infernal,
Hoje só de salão...

Esporte avança,
Corinthians,
Que lembrança,
Campeão da Apea!

Ipiranga,
Outro valente,
Astro da Via Láctea;
Juntaram-se,
Uniram-se,
Associaram-se...

Atlética Saltense,
Simpática agremiação,
“A Gloriosa”
Honra e tradição,
Saltense do coração;

Rompe o Guarani,
Cacique,
De briosa equipe,
Popularidade,
Ao derredor e na cidade,
“O mais querido”
Nunca se deu por vencido;

Da refrega descansa,
Vem a bonança
E com ela os amadores,
Outros amores;

XV de Novembro
“Rei da Vila”
Nacional
“O maioral”
Emas,
“Das surpresas, o tal”;
Canto do Rio,
“Apaga qualquer pavio”

Avenida
“Canarinho da Ilha”
Estudante,
Há muito palmilha
Sua trajetória brilhante;
Sivat
Não é nula
Hoje o caçula.

A Siri, o Ideal,
A Siros, do operário,
Tudo igual,
Sociedade repositário,
Do povo fabuloso,
Grandioso,
Extraordinário!

Cooperativa,
A expectativa,
Do calendário,

Sociedade Italiana,
Socorro Mútuo,
Com a farmácia,
Prestando serviço
À economia
É vista com simpatia.

São Vicente de Paulo,
Coisa louca,
Como si, muito pouca!
Tudo aqui é organizado,
O respeito é primado;

Prefeitura,
É a estrutura.
Câmara Municipal,
Sindicatos, Rotary,
Associações religiosas,
Não religiosas,
Entidades,
Reúnem felicidade;
Para todos e em todos,
Com sinceridade,
SALTO, é desse jeito!
Coisa que enche o peito!
Toda sorte de atividade,
No velho, na mocidade,
Preocupados em vencer,
Razão que fez Salto crescer,
E o mundo conhecer,
Através de seus filhos,
Que não temem empecilhos!

São Francisco, Três Marias,
Buru das Romarias,
Vila Teixeira, Vila Nova,
Porto do Góes, Ponte Caída,
Estação mui conhecida,
Bela Vista ou Risca Faca,
Ex-Lageado não impaca,
Guaraú, Pedra Branca,
Conceição, Piraí,
Boa Vista, a daqui,
Chapada e Castanho,
Morro Vermelho,
Hoje é estranho.

Tudo cresce,
Tudo floresce,
Na SALTO querida,
Fazendo feliz a vida!

Effori, Dario, Conte,
Peixoto, Pelis, Barcella,
Rodrigues, Puentedura, Casalli,
Emas, Cerâmicas, Eucatex,
Sivat, Picchi, Baldi,
Bergamo, Carra, Galafassi,
Fabbri, Piratello, Begossi,
Grenci, Maniero, Irmãos Telesi;
E tantos outros cooperadores,
Lavoura, Comércio, Bancos,
São os construtores!

Temos tudo,
Fazemos tudo,
Tudo damos,
Em todos os ramos,

Diria como o soprano,
Cantando em italiano,
“Ecco populo la questione”
Ao sabor do champanhe,
Do Donalísio
E do Milioni,
Na cidade simpática,
Que também cura ciática!

Padre Lourenço,
Padre Pepe,
Padre Arthur,
Projeto do Scarano,
Elaborou com plano;
Monsenhor Couto,
Venerando,
Que a Matriz constrói,
A outra o incêndio destrói,
No entanto, mais se anima,
As bênçãos vem de cima,
Constrói e orienta tudo aquilo,
Do Isolamento fez o Asilo
E do progresso o veredito:
Paróquia de São Benedito!

Católicos,
Apostólicos,
Espíritas,
Crentes,
Protestantes,
Não há ateus,
A terra é de DEUS,
Para o homem,
Sem brigas,
Nem intrigas;
Estas somem
No ardor da luta;
A união é pronta,
O amor desfruta,
A paz desponta,
SALTO, assim é
Na esperança,
No amor,
Na fé!
O povo é todo valente,
Valoroso,
Vibrante,
Fabuloso;

Do Tietê ao Lageado,
Do Jundiaí ao Ajudante,
Neste imenso quadrado,
De trabalho fecundo,
É uma só família,
Em todo este mundo,
De harmonia e compreensão:
Estrangeiros,
Brasileiros,
Paulistas ou não,
Querem ver grande
Esta amada Nação;

País, Esperança do Hemisfério,
Neste rincão desde o Império;

“SOU SAPECA,
SOU SAPECA,
PERERECA”...

Quando tínhamos Monarca,
Aqui esteve o Patriarca;

SALTO, eu te saúdo em toda época!

Eu te beijo agora, SALTO COMARCA!

Archimedes Lammoglia
Agosto de 1966

14 de dezembro de 2009

Hilário Ferrari



Hilário Ferrari nasceu em 1880, na cidade de Mântua, na Itália. Era filho de Casimiro Ferrari e Albina Longhi. Chegou ao Brasil em 1883, na companhia dos pais e seis irmãos, desembarcando no porto de Santos. Inicialmente, a família se dirigiu à Fazenda da Grama, em Indaiatuba. Hilário casou-se em 1900 com Rosa Patucci, tendo 13 filhos. Em 1904 veio para Salto, instalando-se na zona rural, no bairro do Buru. Destacou-se na lavoura e na pecuária, em especial no trato de cavalos.

Em 1912 mudou-se, com a família, para a zona urbana de Salto. Passou então a participar ativamente da vida social e política da cidade. Tornou-se proprietário do Grande Bazar Saltense, atual Armazém Popular, ainda hoje em atividade e administrado por seus descendentes. Teve grande propriedade para além da antiga estação ferroviária. Esteve envolvido com a atividade esportiva, em especial com o futebol, participando de vários clubes locais, como o Ítalo Futebol Clube, o Corinthians Saltense e a Associação Atlética Saltense. Foi um dos fundadores, em 1927, e primeiro presidente da extinta Sociedade Instrutiva e Recreativa Ideal. Colaborou ainda com outras entidades, tais como a São Vicente e a Socorro Mútuo.

Na vida política, o italiano Hilário Ferrari foi vereador por quatro mandatos. Chegou a assumir a Prefeitura entre 1927 e 1930, sendo deposto em decorrência da Revolução de 30. Foi reconduzido ao cargo de prefeito em 1938, permanecendo por poucos meses, já que o governo brasileiro passou a não mais permitir o exercício desse cargo por estrangeiros. Como prefeito, Ferrari foi responsável, principalmente, por equilibrar as finanças do município, em seu primeiro mandato, e zelar por pontes e estradas, no segundo. Falecido em 1968, seu nome foi dado a uma escola rural, a uma rua no bairro Marechal Rondon, bem como a uma rodovia.

O italiano Hilário Ferrari, prefeito de Salto em duas oportunidades, em foto de 1960.

10 de dezembro de 2009

As enchentes de 1929 e 1983

Nessa semana foi notável a elevação do nível das águas nos dois maiores rios que cortam a nossa cidade, o Tietê e o Jundiaí. Muitos foram os saltenses que se dirigiram aos pontos de observação mais privilegiados, como a Praça Archimedes Lammoglia – em específico ao mirante sobre o Memorial do Rio Tietê – e aos arredores da Ilha Grande e da Ponte dos Pescadores. Houve aqueles que foram ao Parque do Lago e viram o lago confundir-se com o próprio rio Tietê. Contudo, o volume observado nos últimos dias é bem menor se comparado ao que se viu em Salto nos anos de 1929 e 1983. Abaixo, um vídeo da cachoeira com volume anormal de água, na noite de 08/12/2009:



1929
Embora existam referências de meados do século XIX a respeito de uma grande enchente que destruiu a ponte que ligava as margens do rio Tietê, na altura do atual bairro da Barra, passando por uma ilha (conhecida antigamente por Ilha da Santa Feia, pouco acima da atual ponte Salto-Itu), os relatos de antigos moradores de Salto informavam que a enchente de 1929 havia sido realmente extraordinária. Uma das fotos que se tem desse episódio, de autoria de Biágio Ferraro, mostra as águas cobrindo a Ilha dos Amores, onde existia um coreto. Naquele instante captado pela câmera, as águas ainda não haviam atingido seu ponto máximo, já que, horas mais tarde, elas levariam o telhado do coreto mencionado, visto que chegaram até a calçada da Rua José Weissohn.

Vista da Ilha dos Amores, ao centro, na enchente de 1929. Foto tirada de uma das torres da Brasital.

A Usina de Lavras – inaugurada em 1906, junto à margem direita do rio Tietê, à montante do salto – sofreu grandes danos com a enchente de 1929. A elevação do nível das águas atingiu a casa das máquinas e comprometeu os equipamentos. Após essa enchente, Lavras foi desativada. Quando voltou a operar, em 1935, algumas medidas foram tomadas com o intuito de se evitar estragos semelhantes: os geradores foram colocados sobre cavaletes e nas janelas ao lado do rio foram levantadas muretas. Lavras seria paralisada definitivamente em 1956, já estando, então, bastante obsoleta.


Dependências da Brasital, próximas à Ilha Grande, na enchente de 1929.


1983
Nos primeiros dias de fevereiro de 1983, a cidade de Salto foi assolada por aquela que, segundo muitos, foi a maior das enchentes já vista pelos saltenses. No dia 2, as notícias vindas da capital e de outras cidades rio acima anunciavam os estragos possíveis de ocorrerem em Salto com a chegada do grande volume de águas. As autoridades locais, empossadas no dia anterior, trataram de tomar providências visando minorar os estragos e riscos. Cerca de duzentas famílias, moradoras de áreas de baixada, como uma parte do Jardim Três Marias, foram transferidas às pressas.

No dia 5, sábado, o jornal Taperá trazia o seguinte título em sua primeira página: “A cidade invadida pelas águas de 2 rios”. E detalhava o drama: “O nível das águas superou, na última 3ª feira, as marcas existentes na usina da Eletropaulo, no Porto Góes e numa das dependências da Brasital S.A., em cerca de um metro [comparação feita com a enchente de 1929]. Locais jamais atingidos anteriormente, nas proximidades dos rios Jundiaí e Tietê, desta feita foram invadidos pelas águas, como parte da avenida Vicente Scivittaro, Jardim das Nações, Largo S. João, rua Mal. Deodoro, rua Coelho Neto e outras do Jardim 3 Marias, final das ruas Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. Diversas indústrias também sofreram grandes prejuízos, sendo que algumas chegaram a paralisar suas atividades. Dezenas de famílias ficaram desabrigadas, sendo amparadas por familiares, amigos, Poder Público, clubes de serviço e por outras pessoas (...).”

A cobertura jornalística da enchente, no mesmo Taperá, trazia ainda episódios notáveis ocorridos nos dias anteriores. Ao abordar o drama das famílias atingidas, em “Ato de heroísmo”, conta-se como uma família foi salva: “A maioria dos saltenses deram mostras de seu espírito de solidariedade, mas houve alguns casos expressivos, (...). Foi o que aconteceu com Celso Andreotti e Euclides Rocco, que ao tomarem conhecimento que a família Arpis, com 8 pessoas, estava presa na casa em que residem no estádio ‘Luiz Milanez’, na Ilha Grande, imediatamente conseguiram um bote a motor, de propriedade de João Rocco e realizaram diversas viagens até o local, da meia-noite até as 4 e meia da manhã. Trouxeram todas as pessoas que se encontravam na casa, enfrentando o perigo da correnteza, salvando ainda diversos objetos de sua propriedade. Quando Celso e Euclides chegaram à casa, seus moradores já estavam com água pela cintura e desesperados com a possibilidade de serem levados pela correnteza, o que, felizmente, não ocorreu. Parte da casa, além do bar, vestiários, alambrado e arquibancada do estádio da A. A. Avenida foi destruída, mas não se verificou nenhuma vítima fatal.”

Outro episódio refere-se ao salvamento dos animais do mini-zoológico então existente na Ilha dos Amores: "[A Ilha] foi quase inteiramente coberta pelas águas, fazendo com que diversos animais viessem a morrer afogados ou sendo levados pelas águas. Os que conseguiram sobreviver começaram a ser retirados ontem, pela Polícia Florestal, a partir das 9 horas da manhã. Foram utilizadas, inicialmente, escadas fornecidas pela Brasital, pois a ponte que dá acesso à ilha foi derrubada pela correnteza. Como não foi possível chegar à ilha através desse meio, foi solicitada a vinda de helicóptero da Votec, de Sorocaba, que transportou os componentes da Polícia Florestal e Militar até a ilha. Eles conseguiram retirar o veado, dois macacos, um quati, a onça e outros animais. Dois macacos e a capivara fugiram assustados com o barulho do helicóptero e caíram nas águas, não podendo ser salvos.”


A seguir, veja 21 fotos da enchente de 1983 postada por colaboradores do grupo Fotos Antigas de Salto/SP no Facebook, administrado pelo autor deste blog:























27 de novembro de 2009

O livro esquecido de Tancredo do Amaral

A escola mais antiga de Salto, ainda hoje em atividade, é a Escola Estadual Professor Tancredo do Amaral. Ela foi criada por meio de decreto estadual de 20/10/1913, sob a denominação Grupo Escolar de Salto de Ytu, e iniciou suas atividades no dia 28 daquele mês. Em sua origem, reuniu 8 escolas espalhadas pelo município e criou mais duas classes, totalizando 407 matrículas em seu primeiro ano de funcionamento.

O Grupo Escolar de Salto recebeu o nome de Tancredo do Amaral apenas em 21 de abril de 1932. Tratava-se de uma homenagem ao primeiro professor formado a lecionar em Salto. O paulistano Tancredo Leite do Amaral Coutinho diplomou-se pela Escola Normal da Capital em 1887. Lecionou por 2 anos em Salto, logo que se formou. Em 1906, formado em Direito, passou a integrar o quadro de funcionários do Ministério Público. Anos depois foi nomeado Juiz de Direito da Comarca de Santa Isabel, onde se aposentou em 1923. Faleceu em Santo Bernardo do Campo, em 1928.

Ao longo da vida Tancredo foi crítico teatral, fez parte da redação do jornal Correio Paulistano e publicou livros didáticos, como História de São Paulo ensinada pela biografia de seus vultos mais notáveis. Esta é sua obra de maior relevo. Tal publicação é de 1895 e foi editada por Alves & Cia. Destinava-se “aos estabelecimentos de instrução popular”, enquadrando-se no segmento de “educação cívica”. No primeiro capítulo, Tancredo versa sobre “Como deve ser estudada a história”, num texto bastante peculiar, carregado de conceitos caros a ele e aos seus contemporâneos, que podem até nos parecer inocentes, hoje: “As nações, meus jovens estudantes, que são grandes agrupamentos de famílias que habitam um território determinado, com certa denominação, e que possuem um governo que dirige, tem a sua história, que é o conjunto dos fatos mais ou menos notáveis, que se ligam ao seu desenvolvimento e ao seu progresso, desde o começo de sua organização. A história de um povo, porém, que é, senão a história dos seus grandes homens, dos seus vultos mais notáveis, que têm trabalhado pelo ideal humano, que é o aperfeiçoamento sempre crescente, o progresso em uma palavra? Que é a história de um país, senão a história de cada um, empregando a sua inteligência e o seu labor nos diversos ramos da atividade humana para elevar o seu torrão natal, a sua Pátria, para honrar a Humanidade?”

O livro divide-se em quatro partes. Na Parte Primeira, “Preliminares”, trata-se de como se deve estudar a história, da origem do povo paulista, e se faz, ainda, uma descrição física de São Paulo, tratando-se também de sua fauna e flora. Na Parte Segunda, nomeada “São Paulo no domínio da metrópole”, alguns aspectos da história colonial paulista, bem como biografias associadas a esse período, dão o tom da narrativa. É a seção mais bem trabalhada e interessante do livro, na qual a figura dos bandeirantes é posta em destaque, sendo vários deles biografados sucintamente. Na Parte Terceira, “São Paulo no regime do Império”, sujeitos como Libero Badaró, o padre Diogo Antonio Feijó, o pintor Almeida Júnior e o músico Carlos Gomes são lembrados. A Parte Quarta e última trata, fundamentalmente, da história recente à época da publicação, e exalta figuras, muitas das quais com grande destaque no cenário político daquele final de século, como Rangel Pestana, Bernardino de Campos, Cerqueira César e Cesário Motta Júnior – este, inclusive, é a quem Tancredo dedica o livro. A seguir, transcrevo uma das biografias, a título de exemplo:

BARTOLOMEU BUENO DA SILVA, O ANHANGUERA

Nasceu na vila de Paranaíba e era filho de Francisco Bueno, sobrinho de Amador Bueno da Ribeira e de D. Filippa Vaz. Em 1682 este notável sertanista, à frente de numerosa bandeira, invadiu os sertões onde se achava a famosa tribo Goyá que habitava as terras mais ocidentais de Minas e São Paulo, descobrindo que havia ouro ali, por ter observado que as mulheres indígenas ornavam a cabeça com folhetas daquele metal. Antes de Bartolomeu Bueno, já diversos bandeirantes paulistas haviam explorado quase todo o sertão dos hoje estados de Goiás e Mato Grosso, porém sem resultado. Bueno com facilidade sujeitou a tribo que acabava de encontrar, por ser pouco bravia, e regressou a São Paulo com grande número de índios e muito ouro. Nessa excursão levou consigo um seu filho menor, que mais tarde descobriu as minas achadas por seu pai. Convém aqui narrar o estratagema de que se serviu Bueno para arrancar dos índios a declaração do lugar onde existia ouro. Lançou fogo a um vaso de aguardente, que fez explosão; e os índios aterrados foram compelidos a satisfazer os seus desejos, recebendo então Bueno dos mesmos o nome de Anhanguera, que quer dizer Diabo Velho. Pedro Taques, escritor conceituado, também refere que Bueno tinha um olho furado e que foi daí que lhe veio tal denominação. Foi casado em primeiras núpcias com D. Isabel Cardoso e em segunda com D. Maria de Moraes, deixando do primeiro consórcio nove filhos. Faleceu no lugar que foi seu berço, em fins do século XVII.


Folha de rosto da referida publicação de Tancredo, de 1895.

18 de novembro de 2009

Oradores saltenses do século XX

Oswaldo de Souza Aguirre (1896-1965)
Nasceu e faleceu em Santo André/SP, mas viveu a maior parte de sua vida em Salto, entre 1920 e 1950, onde foi sepultado. Foi escrivão de polícia no antigo prédio que abrigava a cadeia e a delegacia, na Avenida D. Pedro II, no local em que hoje se encontra o Fórum. Zeloso cumpridor de seu trabalho, também obteve destaque na comunidade saltense como orador eloqüente e sempre solicitado nos eventos cívicos ou quando da visita a Salto de autoridades de destaque.

Seu nome está fortemente associado à história da imprensa saltense, tendo colaborado em diversos jornais da cidade, a exemplo de O Ferrão, O Serrote, O Argus, O Povo, O Trabalhador. Foi ainda redator de O Saltense e diretor do Correio de Salto. Dentre seus escritos encontram-se até mesmo poesias. A sala de imprensa da Prefeitura de Salto, até a alguns anos atrás, recebia o seu nome – homenagem prestada em 1967. Foi diretor do clube Ideal, em 1928. Estava rotineiramente envolvido com as atividades das diversas sociedades e clubes locais.


Inauguração da sala de imprensa Oswaldo de Souza Aguirre, com a presença de Archimedes Lammoglia, Joseano Costa Pinto e Paulo Maluf, 1967.

Hélio Steffen (1923-1984)
Foi vereador de Salto por dois mandatos e prefeito entre 1956 e 1959. Durante os mais de trinta anos em que participou ativamente da vida social e política saltense, Hélio Steffen notabilizou-se como excelente orador, discursando em inúmeros eventos da comunidade ao longo de sua vida. Nasceu na Fazenda Cruz Alta, município de Indaiatuba, sendo filho de Christina Clemente e Eduardo Steffen. Veio para Salto ainda criança, estudando no Grupo Escolar Tancredo do Amaral. Posteriormente, estudou em Itu, na Escola Normal Regente Feijó, instituição na qual se formou professor, em 1950. Dez anos mais tarde, pela Faculdade de Direito de Niterói, diplomou-se advogado.

A partir de 1940 trabalhou como locutor numa rádio de Sorocaba, tendo passado também pela Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro. No final dessa década, de volta a Salto, Steffen participou do Grêmio Teatral Antonio Vieira Tavares, então existente. Aprovado num concurso estadual, em 1951, foi trabalhar como fiscal de rendas na região de Dracena/SP, serviço ao qual se manteve ligado até se aposentar, por problemas de saúde. Em 1956 casou-se com Haydée Leal Nunes, tendo dois filhos.

Como prefeito, Steffen foi responsável por algumas ações significativas para a Salto daqueles tempos, como a construção da Escola Prof. Cláudio Ribeiro da Silva, o asfaltamento da estrada velha Salto-Itu e a aquisição do terreno no qual seria instalada a Escola Prof. Acylino do Amaral Gurgel, dentre outros órgãos, no Bela Vista. A estação de tratamento de água também foi viabilizada no seu mandato. Como empresário, dedicou-se ao ramo da cerâmica vermelha desde 1957.


Hélio Steffen, prefeito de Salto no final da década de 1950.

6 de novembro de 2009

Tipos populares saltenses

Urubatão: figura conhecidíssima na cidade nas décadas de 1970 e 1980, Urubatão, como era popularmente chamado, nasceu em Porto Feliz e se chamava Waldomiro Corrêa da Cruz. Veio para Salto por volta de 1956. Trabalhou em diversos locais na cidade, como na serraria de Walter Carra, na Prefeitura de Salto no calçamento de ruas e na indústria Picchi. Trabalhou ainda na antiga Sorocabana, ajudando a descarregar vagões de madeira. Era famoso por suas gargalhadas escandalosas que seguiam as piadas que sempre estava a contar. Foi dado como morto quando, em meados de 1983, desapareceu de Salto por algum tempo, publicando-se, à época, cartas lamentando sua morte nos jornais locais. Quando reapareceu na cidade, assustou muita gente. Urubatão faleceu de fato em 2002, deixando um legado de inúmeras histórias aos que com ele conviveram e diversas crônicas às quais serviu de inspiração.

Zé Batatão:
seu verdadeiro nome era José Fernandes de Oliveira. Nascido em Monte Mor em 1873, ainda bem jovem veio para Salto. Casou-se com Maria Cecília de Jesus e morou sempre nas proximidades da Igreja Matriz, mas residiu por algum tempo também na Vila Vicentina. Trabalhava com a carrocinha da Prefeitura, fazendo pequenos carretos e foi de grande valia quando das epidemias que assolaram Salto em 1917, 1921 e 1924, disponibilizando sua carroça tanto para transportar vítimas da varíola e da febre amarela para o hospital de isolamento como os mortos para o cemitério local. Foi zelador da Igreja Matriz e presença imprescindível nas procissões do Senhor Morto, como carregador da cadeira da Verônica, e nas cerimônias de lava-pés, representando um dos apóstolos. Andava sempre com um porrete de madeira que servia para dispersar a chusma de moleques que o atormentava com o apelido por ele detestado. Acabou falecendo no Abrigo de Velhos em 1964, para onde foi levado após o falecimento de Nhá Cicília. Zé Batatão foi indiscutivelmente um dos tipos mais populares que a cidade já teve.


Jacomim:
Outro tipo que foi muito popular em Salto e também muito ligado à Igreja, ao padre João da Silva Couto e ao Círculo Católico, foi Giácomo Guidi, o Jacomim. Freqüentador assíduo da Chácara Vendramini juntamente com o Maestro Zequinha Marques e os circulistas, era dado a fazer discursos, nos quais sempre misturava algumas palavras em latim, nem sempre corretas, assimiladas através da convivência com os padres da época. A maior popularidade de Jacomim, no entanto, veio de um fato curioso, acontecido por volta de 1918, durante uma epidemia de gripe espanhola que atingiu a cidade. Ele adoeceu e foi dado como morto, ficando o seu corpo no velório para ser sepultado na manhã seguinte. Lá pelas tantas, eis que o rapaz, então com nove anos, aparece em casa, para o espanto geral da população da cidade. Jacomim faleceu somente aos 52 anos, na periferia de São Paulo.


Julinho:
Homem que aos domingos vinha da zona rural, onde morava, para a cidade. Sempre muito sujo e maltrapilho, saboreando restos de frutas que recolhia das latas de lixo à porta das quitandas, acabou seus dias no Asilo de Velhos, onde evitava o banho e a cadeira de barbeiro. Taragim: Tipo popular que vagava pelas ruas da cidade, o mulato João Taragim introduziu no linguajar comum de Salto uma expressão para cumprimentar as pessoas: o famoso “Ó”, que acabou virando mania dos saltenses. Trabalhou numa granja, mas não conseguia dominar o vício da bebida e, aos domingos, geralmente amarrava bebedeiras, as quais, às vezes, duravam dias a fio. Perambulava pela cidade, inofensivo, cantarolando uns versos que ficaram no folclore geral: “Taragim comeu formiga... Taragim não come mais”. Faleceu no Abrigo de Velhos. Chicão: Chamava-se Francisco de Paula. Naqueles esfrangalhados chinelos de sola de corda, com o seu inseparável cesto de amendoins carregados por braços magros, ele encarnava um tipo engraçado por excelência. Infalível às portas dos cinemas desde os tempos do Cine Pavilhão, do Verdi, do Rio Branco e do São Bento, estava sempre apregoando o conhecido estribilho: “Torradinho... amendoim...”. João Perna-de-pau: Sujeito que puxava a perna direita que tinha sido amputada e fora substituída por um grotesco aparelho ortopédico de madeira. Fazia carretos com sua carrocinha de mão, produto de uma subscrição popular. Morreu afogado no rio Jundiaí. Xuxo: Era um homem manco de nascença, que arrastava suas pernas atrofiadas e estava sempre implicando com a turma de moleques que o enxovalhava. Saladino: Era um sujeito alto, de andar compassado e olhos esgueirados. Passava temporadas em Salto, mas na realidade era de Itu. Era o terror da criançada da época. Sempre cumprimentando todo mundo, andava pelos lados da Estação, sorrindo, na sua quase demência. Gostava muito de falar sobre batalhas da Guerra do Paraguai.


Zabé:
Tipo que mal conseguia articular algumas poucas palavras. Causava espanto nas pessoas da cidade quando se punha a dançar e cantar. Sempre com sua trouxa de roupas ao lado e sua inseparável marmita, vestia várias peças de roupa ao mesmo tempo: calças, camisas, blusas, meias e paletós. Dizem que teria freqüentado o Primeiro Grupo Escolar de Salto nos primeiros dias de sua instalação. Andava pelas ruas a cantarolar sempre o mesmo refrão: “Terezinha!... de Jesus!... abre a porta!... e acende a luz!” - e deliciava-se de tanto rir, vendo a garotada a sua volta a fazer roda e bater palmas para ele. Maria da Pinga: Era uma senhora que vagava pela cidade, sem destino, sempre acompanhada de um cachorro. Levava sempre uma garrafa com pinga debaixo da axila ou dentro do bolso do casaco e, pela mão, puxava uma cordinha com uma lata velha ou uma caixa de fósforos amarrada na ponta. Ao ser avistada pelos freqüentadores dos bares da cidade, ouvia sempre a pergunta: “E aí, Maria, vai uma pinga?”


Guerino Rato Branco:
Sujeito magro e muito vermelho que imitava a fala cantada dos paulistanos dos anos 30. Ao caminhar pela cidade, indagava sempre a quem passava: “Paga uma pinga aí?” Faleceu em frente à porta de um bar localizado na Vila Nova. Bastião Raposa: Era um negro de cabelo oxigenado, sobrinho da cozinheira de uma pensão da Rua Rui Barbosa. Bastião participou da Revolução de 1932 e vivia a contar suas proezas nos campos de treinamento e de batalha. Ferrinho: Rapaz que andava pela cidade sempre de calças arregaçadas, resmungando. Em dias de chuva, gostava de pisotear as poças d'água que corriam nas sarjetas, esbravejando. Era freqüentador assíduo do Parque Infantil, aonde ia todo dia para brincar e tomar a merenda oferecida lá. Negra Ada: Era uma negra velha que não fazia mal a ninguém. Costumava invadir o quintal das casas para apanhar frutas meio apodrecidas que caiam das árvores, das quais se alimentava.


Zé Pé-no-chão:
Fazendo jus à sua alcunha, constava que Zé nunca tinha conseguido calçar sapatos. Trabalhava como pintor de painéis que eram distribuídos pelas esquinas da cidade, divulgando os filmes da semana. Esmerava-se, sobretudo, em copiar a grafia dos nomes corretos dos artistas estrangeiros, gabando-se de tal habilidade. Maminho: Rapaz excepcional que morava com os pais no casarão que existia na esquina das ruas 9 de Julho e Rui Barbosa. Era baixo, gordo, atarracado, calvo e ficava na janela do casarão, vendo o movimento da rua. Por vezes, tomado de certa irritação, cuspia ou jogava objetos nas pessoas que passavam pela calçada. Minhocão: Seu nome verdadeiro é Lázaro Imperatto. Morador de Salto há muito tempo, é vendedor de algodão-doce e tem hoje por volta de 75 anos. Figura folclórica da cidade, Minhocão anda pelas ruas equilibrando a sua vara de algodão doce, com a qual executa diversos tipos de malabarismo para alegrar as crianças e fregueses, hoje com menos habilidade, por conta da idade avançada. Afirma de que foi o inventor do famoso sorvetão de Itu. Chegou a participar do Programa do Chacrinha, na rede Globo.


Ainda podemos citar outros tipos populares que já passaram pela cidade, como o negro Durico, que se dizia grande filósofo; Roquinho, filho de Chicão, que o sucedeu na profissão, nos trajes, no físico, mas não apregoava a sua mercadoria e ficava horas em frente aos estabelecimentos comerciais com sua cesta de amendoins, sem dizer uma única palavra; Glorinha, senhora mulata, sempre muito suja e com os cabelos desgrenhados, que pedia de casa em casa e não dizia coisa-com-coisa; Zé da Catarina, que andava pela cidade a cantar; Benedito Come-fogo, um ituano pardo que era pintor de paredes e um dia, embriagado, chegou a dormir encostado a uma porta que tinha acabado de pintar e acabou ficando preso a ela. Temos, hoje, o Zé do Algodão Doce, que milita no mesmo ofício de Minhocão, com o diferencial de “promover eventos” e ter alguns CDs de música gravados em sua própria homenagem, os quais são por ele vendidos a cinco reais pelas ruas centrais de Salto.

23 de outubro de 2009

Maestro Gaó

Odmar do Amaral Gurgel, conhecido artisticamente como Maestro Gaó, foi regente, pianista, radialista e compositor musical durante mais de sete décadas. Saltense nascido em 12 de fevereiro de 1909, era filho de Joanna e Acylino do Amaral Gurgel, ambos professores e músicos em Salto. Tendo no lar as influências primordiais, já aos cinco anos Gaó estava alfabetizado e começava a estudar música. Era aluno do 1º Grupo Escolar de Salto, do qual seu pai chegou a ser diretor. Aos onze anos, o futuro maestro renomado já participava de uma orquestra de salão, da qual se tornou o regente com apenas 11 anos. À noite, em Salto, o trabalho do jovem Gaó era ir ao Cine Pavilhão para selecionar as músicas da orquestra, da qual seu pai era clarinetista, adaptando-as às diversas cenas dos filmes mudos daqueles tempos. Certa vez, o jornal carioca Correio da Manhã, em texto de Carlos Lacerda, publicou sobre Gaó, após uma brilhante apresentação sua: “A Sinfonia do Brasil, que procura exprimir na variedade dos motivos, a grandeza do Brasil através da arte, encontrou o seu animador. Por pitoresca coincidência nesse espetáculo de exaltação ao esforço e valor do povo brasileiro, o criador de beleza foi um rapaz de Salto do Itú [sic], que aprendeu piano em casa com seus pais, professores públicos, e constitui uma lição de valor e de esforço próprios, lição aos músicos e a toda gente.”


Família do Maestro Gaó. São os pais: Acylino e Joanna. Os filhos (da esquerda para a direita): Ayr, Grafir, Oisb, Walkyr e Odmar (Gaó), c.1920.

Em 1920 Gaó compôs sua primeira música, uma mazurca, e a batizou "Primeira inspiração". As seguintes foram "O cantor sincero" e "Myosotis", oferecida à sua mãe. Buscando desenvolver seu talento, foi para São Paulo, tendo como primeiro professor o pianista Samuel Arcanjo dos Santos, responsável por sua preparação para o ingresso no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Nesses cinco primeiros anos na capital, residiu numa pensão – onde conheceu sua futura esposa, que era filha do proprietário – e foi empregado de uma loja de música, a Casa Di Franco. No citado conservatório teve como professores Mário Andrade, Carlos Paglucci e Savino de Beneditis. Enquanto estudava, Gaó sobrevivia toando na Jazz Band Manon e na Casa Di Franco, o que lhe propiciou o contato com renomados músicos da época, tais como Tupinambá, Eduardo Santo e Ernesto Nazareth. Assim, diplomou-se concertista em 1927.

Até 1924 assinou suas músicas com suas iniciais: O.A.G., mas aconselhado por um amigo, nessa data, inverteu-as, passando a se chamar artisticamente Gaó. Nessa mesma década atuou na rádio Educadora Paulista - pouco tempo depois rebatizada como rádio Gazeta - onde dirigiu um quarteto de cordas. Atuou também na rádio Cruzeiro do Sul. Por essa época, tornou-se exclusivo da gravadora de discos Colúmbia, da qual chegou a ser diretor, contexto no qual surgiu seu primeiro quarteto de jazz. Como solista da Orquesta Colbaz, por ele criada, obteve destaque com as músicas "Branca", "Tico-tico no fubá" (ambas composições de Zequinha de Abreu) e com os discos "Gaó, seu piano e sua orquestra", "Gaó bem brasileiro" e "Gaó viaja pelo mundo". Teve participações na sonorização de filmes, especialmente na Atlântida. Dirigiu as rádios Cruzeiro do Sul e Cosmo e criou programas de sucesso, como "Hora da saudade" e "Hora dos calouros". Compôs logotons para programas famosos à época. Já no final da década de 1930 Gaó era figura de relevo no cenário artístico paulistano.


Gaó ao piano, na rádio Cruzeiro do Sul, década de 1930.

Sua ida para o Rio de Janeiro, para trabalhar nas rádios Ipanema e Mauá, foi seguida de um curto período em solo argentino, na rádio Belgrano, com posterior retorno ao Rio, quanto a rádio Nacional o contratou. Ainda na então capital federal, Gaó trabalhou no Cassino da Urca, tendo participado de festas de figuras eminentes do cenário nacional. Esteve também à frente da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo, por curto período, e na direção da rádio Globo carioca. Em 1945 Gaó foi para os Estados Unidos, lá permanecendo por duas décadas, sendo tratado por “embaixador do samba”. Apresentou-se algumas vezes, inclusive, ao lado de Carmem Miranda. Por esses anos, ainda mantinha contato com seus conterrâneos saltenses. Suas cartas eram muitas vezes publicadas nos jornais locais. De volta ao Brasil, radicou-se em Mogi das Cruzes, onde faleceria em setembro de 1992. Muito bem acolhido nessa cidade, a escritora mogiana Botyra Camorim escreveu uma biografia sobre Gaó, intitulada Sonata em quadro movimentos. Gaó também publicou um livro, Teoria moderna de música, ao completar o jubileu de ouro de sua carreira. A última homenagem a ele prestada ainda em vida, em Salto, deu-se em dezembro de 1988, quando da inauguração de um auditório levando seu nome, anexo ao Conservatório Municipal. Nesse espaço, Gaó se apresentou pela última vez na terra natal, em 1991, no evento que foi chamado de “Noite da gratidão”.

Nota: As músicas de cada um dos personagens da Turma da Mônica, criados por Maurício de Sousa, são composições do Maestro Gaó. Você pode ouvi-las no site: http://www.monica.com.br/musicas/midi/welcome.htm

Dados artísticos de Gaó no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: Iniciou a carreira radiofônica em 1926, quando ingressou na Rádio Educadora Paulista. Em 1930, formou e passou a dirigir a orquestra Colbaz que gravou uma série de discos na Columbia incluindo os primeiros registros dos choros "Os pintinhos no terreiro"e "Tico-tico no fubá", e da valsa "Branca", de Zequinha de Abreu. Em 1931, contratado pela gravadora Columbia, registrou como pianista as canções "Jaci", "Saudades", e "Ilusão que se vai", as três de Jaime Redondo, e o fox-trot "Nola", de Felix Arndt. No mesmo ano, seus choros "Arreliento" e "Suspirando" foram gravados na Columbia pela Orquestra Colbaz sob sua direção. Ainda em 1931, gravou ao piano pela Columbia os fox-trot "My syncopated girl", de sua autoria, e "All of a twist", de Billy Mayerl, e os choros "Quando o banjo toca" e "Teimoso", de sua autoria. Entre 1932 e 1936, atuou nas Rádios Cruzeiro do Sul e Cosmos, em São Paulo, veio depois para o Rio de Janeiro e atuou nas Rádios Nacional e Ipanema. Ainda em 1932, teve a marcha "Marcha Caloric" gravada pela Orquestra Caloric na Columbia. Em 1934, sua valsa "Você é minha felicidade" foi gravada pela Orquestra de Salão Columbia, e o fox-trot "Silhueta" foi registrado pelo instrumentista Jonas ao saxofone. Em 1935, criou uma orquestra de dança com a qual gravou na Columbia os fox-trot "Há cha cha", de Werner e Hahn, e "June in january", de Robin e Rainger. No mesmo ano, gravou ao piano a "Rapsódia mal começada" partes I e II com arranjos seus sobre temas de Schubert. Em 1937, gravou ao piano com Ernesto Trepeccioni ao violino a toada "Araponga" e a lenda brasileira "Aparição de iara", ambas de Marcelo Tupinambá. Nesse ano, formou a Gaó, sua nova orquestra e coro com a qual acompanhou a gravação das marchas "Gauchinha" e "Já tirei o meu chapéu", ambas de Lamartine Babo, a primeira nas vozes de Lamartine Babo e Sílvio Alcântara, e a segunda nas vozes de Lamartine Babo e Silvino Neto. Nesse ano, acompanhou mais algumas gravações na Columbia: Cândido Botelho na canção "Eu amo todas as mulheres", de Robert Stoll e Cândido Botelho, e na rumba "Marinella", de Roger, Scotto e Cândido Botelho, Lais Marival no maracatu "Meu ganzá" e no samba-canção "Saudades do morro", ambas de H. Celso e A. Santos, e Raul Torres, no samba-canção "Mentira", de Fernando Lobo e Capiba, e no frevo-canção "Mauricéia", de Marambá e Aníbal Portela. Em 1938, acompanhou com sua orquestra o cantor Jorge Fernandes na gravação da canção "Adeus da Bahia", de Nelson Vaz, do motivo popular "Meu limão, meu limoeiro", com arranjos seus, no samba "Caboclo feliz", de sua autoria e Luiz Peixoto, na canção "Moreninha", de Georgina de Melo, no maracatu "Senzala", de Durval Borges e José Carlos Burle, e na "Ladainha", de Cassiano Ricardo e Armando Fernandes, e a cantora Silvinha Melo nos fox "Soldadinho de chumbo", de Marcelo Tupinambá e Galda de Paiva, e "Quando cantas "to you", de Joubert de Carvalho. Em 1939, gravou ao piano com o grupo Gaó e Seu Ritmo as marchas "Pirulito", de João de Barro e Alberto Ribeiro, "Joujoux e balangandans", de Lamartine Babo, e "Eu não te dou a chupeta", de Silvino Neto e Plínio Bretas, todas em ritmo de fox, e o fox-trot "Canaries serenade", de Billy Mayerl. No começo da década de 1940, passou a trabalhar. na gravadora Odeon. Antes porém, ainda dirigindo a orquestra Columbia acompanhou Zilá Fonseca na gravação das marchas "A charanga do Oskar", de Aloísio Silva Araújo, Francisco Malfitano e Geraldo Mendonça, "Sonho de uma noite de verão", de Aloísio Silva Araújo e Francisco Malfitano, "Pulga maldita", de motivos populares com arranjos de Francisco Malfitano, e "Pigmaleão", de Frazão e Francisco Malfitano. Em 1944, acompanhou com sua orquestra na Odeon o Trio de Ouro na gravação da fantasia "O fantasma dos povos", de Herivelto Martins e Aldo Cabral, em duas partes, e a cantora Odete Amaral no samba "Casa sem número", de Laurindo de Almeida e Dias da Cruz, e no choro "Mais devagar coração", de Gastão Viana e Mário Rossi. Nessea época, dirigiu a orquestra do Cassino da Urca. Em 1945, acompanhou com sua orquestra do Cassino da Urca o cantor Léo Albano na gravação da valsa "Ao cair de uma estrela" e no samba "Cabrochinha", ambas de Laurindo de Almeida e Edgard de Almeida, e a cantora Heleninha Costa no choro "Amor", de Laurindo de Almeida e Valdemar de Abreu, e no samba "Você é tudo que eu sonhei", de Laurindo de Almeida e Del Loro, dessa vez com seu sexteto, gravações efetuadas na Continental. Nesse ano, viajou para os Estados Unidos onde permaneceu por seis anos. Em 1946, voltou por breve tempo e acompanhou com sua orquestra de concertos na Victor o cantor Gilberto Milfont na gravação das canções "Geremoabo" e "Maringá", de Joubert de Carvalho. Na década de 1950 foi contratado pelas Organizações Victor Costa atuando com sucesso na Rádio Record. Em 1954, atuou no programa "Quando os maestros se encontram" da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Nesse ano, acompanhou com sua orquestra na Odeon a cantora Norma Ardanuy na gravação do samba "São Paulo de Anchieta", de Vanda Ardanuy, e na toada "Rabicho", de Marcelo Tupinambá, e a cantora Hebe Camargo na gravação dos sambas "Vou pra Paris", de Antônio Maria e Fernando Lobo, e "Aconteceu em São Paulo", de Antônio Maria, no fado "Tudo isso é fado", de Fernando Carvalho e Aníbal Nazareth, e no bailarico "Festa portuguesa", de Antonio Rago e Mário Vieira. Em 1955, acompanhou noovamente a cantora Hebe Camargo com sua orquestra na gravação do fox "Johnny Guitar", de Victor Young em versão de Júlio Nagib, e na canção "O que eu queria dizer ao teu ouvido", de Hekel Tavares e Mendonça Junior. Em 1960, gravou com sua orquestra pela Odeon o LP "Gaó viaja pelo mundo" numa viagem através de composições de várias partes do mundo no qual foram interpretadas as músicas "Brasileirinho", de Waldir Azevedo, "Asunción", de F. Riera, "Mi Buenos Aires querido", de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, "Jamaican rumba", de A. Benjamin, "Port-au-prince", de B. Wayne, "Havana special", de O'Farril, "Malagueña", de Ernesto Lecuona, "Coimbra", de Raul Ferrão e José Galhardo, "Sous le ciel de Paris", de H. Giraud, "Arrivederci Roma", de R. Rascel, Garinel e Giovanini, "Wien du stalt meiner traeume", de R. Sieozynski, e "Manhattan", de Rodgers e Hart. Gravou em 1964, pela Odeon, o LP "Gaó, seu piano e orquestra" no qual interpretou músicas de sua autoria como "Diamante azul", "Mimoso", e "Minha garota sincopada", além de clássicos da música popular brasileira como "Odeon", de Ernesto Nazareth, e "Samba em prelúdio", de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Dois anos depois, lançou pela London/Odeon o LP "The melodic sound of Gaó's piano and The Ipanema strings" interpretando onze clássicos da música popular brasileria: "Murmurando", de Mário Rossi e Fon-Fon, "Curare", de Bororó, "Apanhei-te cavaquinho", de Ernesto Nazareth, "Flor de abacate", de Alvaro Sandin, "Naquele tempo", de Pixinguinha e Benedito Lacerda, "Da cor do pecado", de Bororó, "Ai yoyo (Linda flor)", de Henrique Vogeler e Luiz Peixoto, "Saudade", de Lauro Miranda, "André de sapato novo", de André Victor Correia, "Carinhoso", de Pixinguinha e João de Barro, e "Tenebroso", de Ernesto Nazareth, além do choro "Cabeludo", de sua autoria. Em 1967, gravou doze valsas brasileiras clássicas também pela London/Odeon no LP "Valsas brasileiras" no qual interpretou "Expansiva" e "Coração que sente", de Ernesto Nazareth, "Última inspiração", de Peterpan, "Aurora", de Zequinha de Abreu e Salvador J. de Morais, "Saudade de Iguape", de João Batista do Nascimento, "Só pelo amor vale a vida", de Zequinha de Abreu, "Saudades de Ouro Preto", de Antenógenes Silva, "Velho realejo", de Custódio Mesquita e Sady Cabral, "Boa noite amor", de José Maria de Abreu e Francisco Matoso, "Clube XV", de Oscar A. Ferreira, "Longe dos olhos", de Zequinha de Abreu e Salvador J. de Morais, e "Mimi", de Uriel Lourival. Em 1969, gravou o LP "Bem brasileiro" no qual interpretou de sua autoria as músicas "Paquerando" e "Mini-saia", e os clássicos "Brasileirinho", de Waldir Azevedo, "Garoto" e " Zênite", de Ernesto Nazareth, "Tico-tico no fubá", de Zequinha de Abreu, "Atraente", de Chiquinha Gonzaga, "Choro Nº 1", de Villa-Lobos, "No rancho fundo", de Ary Barroso e Lamartine Babo, "Um baile em Catumbi", de Eduardo Souto, e "Chuá chuá", de Pedro de Sá Pereira e Ari Pavão. Nesse ano, sua composição "Paisagem tropical" foi gravada por Osni Silva no LP "Mais uma noite".


Discografia de Gaó:

Jaci/Saudades/Ilusão que se vai/Nola
(1931) Columbia 78

My syncopated girl/All of a twist
(1931) Columbia 78

Quando o banjo toca/Teimoso
(1931) Columbia 78

Há cha cha/June in january
(1935) Columbia 78

Rapsódia mal começada (I)/Rapsódia mal começada (II)
(1935) Columbia 78

Pirulito/Canaries serenade
(1939) Columbia 78

Joujoux e balangandnas/Eu não te dou a chupeta
(1939) Columbia 78

Gaó viaja pelo mundo
(1960) Odeon LP

Gaó, seu piano e orquestra
(1964) Odeon LP

The melodic sound of Gaó's piano and The Ipanema strings
(1966) London/Odeon LP

Valsas brasileiras
(1967) London/Odeon LP

Bem brasileiro
(1969) London/Odeon LP

16 de outubro de 2009

Industriais pioneiros

José Galvão
José Galvão de França Pacheco Júnior, nascido em Itu em 19 de janeiro de 1834, foi o pioneiro da indústria têxtil em Salto. Iniciou a construção de sua fábrica em 1873 - mesmo ano da chegada da ferrovia, com a instalação da estação de Salto - inaugurando-a em 1875 e dando-lhe o nome de Fortuna. Instalado na margem direita do rio Tietê, próximo à cachoeira, o empreendimento de Galvão tinha 1.240 metros quadrados de área construída. A localização nesse ponto não era casual: o potencial energético das águas foi aproveitado com a instalação de uma turbina à água, posteriormente convertida em elétrica. Na comunidade saltense que então se avolumava no final do século XIX, muito em virtude dos braços trazidos para trabalharem em seu empreendimento, Galvão era figura de destaque. Faleceu em 30 de março de 1889 e seu nome, anos mais tarde, foi dado à rua que, até 1908, se chamava Rua da Estação, no centro de Salto.


A construção de maior destaque, ao centro, é a fábrica Fortuna.

Barros Júnior
Filho de senhor de engenho, Barros Júnior nasceu em Capivari, em 1856, e estudou engenharia civil nos Estados Unidos. Formado, retornou ao Brasil e fixou-se em Itu, em 1879, e logo assumiu posição de destaque no seio do Partido Republicano daquela cidade. No ano seguinte iniciou seus investimentos em Salto, inaugurando sua tecelagem em 1882, a segunda em Salto, nomeando-a Júpiter. Até o final da década de 1880, por diversas vezes entrou em disputa com José Galvão, por questões envolvendo seus empreendimentos aqui instalados. Embora pioneiro na indústria, obteve maior destaque como político. Abolicionista, foi vereador em Itu e deputado estadual. Em Salto, foi subdelegado de polícia, intendente, presidente da Câmara e juiz de paz. Durante a epidemia de varíola de 1887, que atingiu toda a província de São Paulo, Barros Júnior notabilizou-se em Salto, também atingida pelo contagioso “mal das bexigas”. Com seu auxílio foram construídos três lazaretos. Barros Júnior foi o principal batalhador pela criação do município de Salto em 1890, com território desmembrado de Itu. Mesmo tendo vendido sua fábrica, Barros Júnior continuou a viver em Salto e a participar da política. Foi também responsável pela ampliação territorial do município, tornando parte das terras da margem esquerda do rio Tietê, antes pertencentes a Itu, área do município de Salto. Até 1907 participou da Câmara local. Em 1918 faleceu, aos 62 anos, vítima de gripe espanhola.

José Weissohn
Em 1898 o engenheiro José Weissohn, vindo da Itália, adquiriu os prédios das duas tecelagens pioneiras, instaladas por José Galvão e Barros Júnior na margem direita do rio Tietê, que desde 1890/91 já haviam sido incorporados por empresas de maior porte. Apesar de já em 1904 ter transferido todo esse patrimônio à Società per l'Esportazione e per l'Industria Italo-Americana, Weissohn continuou em Salto como um dos diretores na sociedade. Residiam, ele e sua família, no chalé da gerência, uma bela edificação à frente da antiga Júpiter. Entre os anos de 1911 e 1913, Weissohn foi um dos elementos que esteve à frente das negociações entre os industriais e o povo, juntamente com o poder público da época. A iniciativa visava resolver o problema de acesso ao porto das Canoas - local piscoso, cujo acesso fora impedido pelos industriais que incorporaram aos seus domínios uma via pública que cortava os prédios das tecelagens e ia até a margem do rio. A solução encontrada foi a construção de uma ponte pênsil, num abismo então existente na margem direita, entre a pedra grande e a pedra alta, ao lado dos prédios da antiga fábrica Fortuna.

José Revel
Vindo da Itália como conselheiro-delegado da Società Italo-Americana, em 1909, José Revel era o maior acionista da empresa, que além da fábrica de Salto tinha outras na Argentina e no Chile. Quando o domínio acionário passou às mãos de outro grupo, em 1º de novembro de 1919, dando origem à Brasital S/A, Revel foi o primeiro presidente da empresa, permanecendo nesse posto até 1923. Pode-se atribuir o crescimento vigoroso da Brasital em seus primeiros anos, especialmente em Salto, aos seus esforços. É de sua época a aquisição das quatro quadras de terreno nas quais seriam construídas as 244 casas da vila operária Brasital. Não é por acaso que uma das ruas que corta as referidas quadras recebeu o nome de José Revel, que viveu em Salto por quase 15 anos.

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966