7 de agosto de 2016

Indústria Nacional do Salto

Entre 1898 e 1904, as indústrias pioneiras que se instalaram em Salto às margens do Rio Tietê, logo após a cachoeira, pertenciam a José Weissohn & Cia. (por isso as iniciais J. W. & Cia.). Eram o resultado da fusão das duas tecelagens mais antigas: a Júpiter, fundada em 1875 por José Galvão; e Fortuna, inaugurada em 1880 por Barros Júnior. 

Nessa época, Júpiter e Fortuna eram também conhecidas por Indústria Nacional do Salto. É dessa época a belíssima imagem aqui postada: um conjunto de pinturas que tentava retratar a grandiosidade dos prédios do complexo industrial saltense, um dos pioneiros do Estado de São Paulo e do Brasil. Em 1904, o complexo, juntamente com a Fábrica de Papel Paulista, de Antonio Melchert, seria adquirido por capitais italianos, tornando-se a Fábrica de Tecidos e de Papel Ítalo-Americana, transformada em Brasital S/A em 1919.


A imagem acima, postada no grupo Fotos Antigas de Salto pelo saltense Marcos Buratti, ao que tudo indica é a embalagem do "Brim Fluminense", um dos produtos fabricados pela tecelagem naqueles tempos. Nota-se ao centro um desenho da então Rua do Porto, posteriormente transformada em caminho particular, dando origem a uma disputa que culminaria com a instalação da Ponte Pênsil em 1913. Precioso documento que merece análise pormenorizada, a qual farei brevemente.

Conheça os industriais pioneiros em Salto:

José Galvão de França Pacheco Júnior - Ituano, nasceu em 19 de Janeiro de 1834 e faleceu em Salto em 29 de março de 1889. Foi o primeiro a construir e inaugurar uma fábrica de tecidos em Salto. Todo o maquinário foi adquirido da Platt Brothers Co., da Inglaterra.

Octaviano Pereira Mendes - Ituano, engenheiro civil formado nos Estados Unidos. Em 1887, através de uma associação com seus familiares, inaugurou a terceira fábrica de tecidos de Salto. Mendes ocupou também vários cargos públicos, especialmente na cidade de Itu, onde desenvolveu toda a sua trajetória política pelo Partido Republicano Paulista. Foi um dos membros organizadores da Companhia Ituana de Força e Luz, com capitais exclusivamente ituanos, e adquiriu uma cachoeira existente do rio Tietê no lugar denominado Lavras. Em 1906, concluídos todos os trabalhos da represa e usina, as cidades de Itu e Salto passaram a ser iluminadas por energia elétrica.

Francisco Fernando de Barros Júnior - Nasceu em Capivari em 17 de março de 1856 e faleceu em Salto em 2 de novembro de 1918. Em 1879, retornou ao Brasil depois de concluir o curso de engenharia civil nos Estados Unidos. Barros Júnior, além de industrial, foi também vereador em Itu e Deputado Estadual pelo Partido Republicano Paulista. Em Salto, ocupou diversos cargos públicos, como o de vereador e presidência de intendência – equivalente a prefeito, na época.

Antonio Melchert - Engenheiro paulista que, com seus filhos, construiu e inaugurou a Fábrica de Papel Paulista, em 1889. Foi a primeira do gênero a ser instalada na Província de São Paulo.

Diagrama elaborado com base nas pesquisas de Anicleide Zequini e Ettore Liberalesso. 

"Acham-se adiantadas as obras da fábrica que vai estabelecer no Salto de Ytu o Sr. José Galvão de França Pacheco Júnior... tem ela 50 teares, vai fabricar algodão grosso e é movida por água. A casa é de pedra lavrada e digna de ser observada pela perfeição do trabalho. Parte do maquinismo já está apresentada e espera-se muito breve inauguração."

Desta forma foi que jornal Correio Paulista, da capital, anunciou, em 1875, a construção da primeira fábrica de tecidos de Salto. Localizada junto à cachoeira do rio Tietê, utilizava-se da turbina hidráulica para um maior aproveitamento da força das águas para movimentar os teares.

As soluções tanto construtivas como tecnológicas adotadas por José Galvão serviram, depois, como modelo para outras fábricas. Em 1882 Francisco Fernando de Barros Júnior também instalava, junto ao rio Tietê, pouco abaixo da de José Galvão, uma segunda fábrica de tecidos em Salto.

Na margem esquerda do rio Tietê, em 1889, a Melchert & Cia. inaugurava uma fábrica de papel, a primeira da Província de São Paulo. Dois anos antes, em 1887, Octaviano Pereira Mendes construía, próximo à Estação Ferroviária, a terceira fábrica de tecidos de Salto. Foi a única neste período a ser movimentada totalmente a vapor.

15 de junho de 2016

Tavares e a fundação de Salto

O capitão Antonio Vieira Tavares é considerado o fundador de Salto, por ter erguido a capela de Nossa Senhora do Monte Serrat no seu sítio, denominado Cachoeira, cujas terras correspondiam a parte do atual município de Salto. O fundador era sobrinho do famoso bandeirante Raposo Tavares, que provavelmente o levou a expedições pelo sertão.


Raposo Tavares, tio do fundador de Salto: bandeirante de fama

Tavares vivia no Sítio Cachoeira desde aproximadamente 1690 com sua mulher, Maria Leite, familiares e escravos. Para assistir missa na Vila de Itu tinham de atravessar o Tietê. Além disso, o capitão alegava sofrer de grande moléstia, que lhe dificultava os deslocamentos. Por isso, solicitou autorização da Igreja para erguer uma capela em seu sítio.

O documento no qual Tavares pede autorização para construir a capela.
Abaixo, a transcrição.

Título da Erecção e Instituição da Capella de Nossa Senhora do Monserrate Sita no termo desta Villa no Sitio chamado Salto, e Cachueyra. 
Traslado da Provisão da Erecção
"Muito Reverendo Senhor Doutor Vizitador Geral. Dis Antonio Vieyra Tavary morador em a Villa de Itu, que elle Suppte. tem o Sitio de Sua habitação na paragem chamada Cachueyra, o qual fica dystante da villa hua legua, e tem hua passagem de Rio, com que Sua família não pode acudir a villa para ouvir Missa aos Domingos, e dias Santos, e elle Suppte. o faz com grande modéstia; e por estas razoens, com tão bem por sua devoção quer erigir no dito Seu Sitio hua Igreja com seu Adão. Com a invocação de Nossa Senhora do Monserrate, para cuja família aplicar os bens moveis da Capella da (Acutia), que por ordem delle. Se lhe entregarão por Ser elle o Suppte. Sucessor legítimo do Fundador. Pello que pode [...] lhe faça mercê Conceder Licença para erigir a dita Igreja na sobredita paragem com seu Adão: afirmar de Com Missão do Reverendo Vigário para a benzer Como estiver feita. E receberá a mercê. Despacho. Passe Provisão na forma do estilo Villa de São Paulo: vinte e hum de outubro de mil seiscentos e noventa e sinco annos. Costa. Provisão! O Doutor Manoel da Costa Cordeiro Vizitador Geral das Villas, e Capitanias da Provinça do Sul, Juiz das Presidença e Casamentos pello Illustrissimo Reverendissimo Senhor Dom Joseph de Barros de Alonço por mercê de Deos, e da Santa Sé Apostólica Bispo do Bispado de São Sebastião do Rio de Janeiro, do Concelho de Sua Magestade Ma. Aos que Apresente Nossa Provisão Vierem donde e Paz para sempre em Jesus Cristo Nosso Salvador, que de todos he Verdadeyro Remedio e Salvação. Faremos saber, que hera descrito ao que o Suppte. nos Representou em Sua petição e havermos por bem lhe coceder, licença Como por esta presente lhe concedemos para que possa fazer a Igreja, que pela Invocação de Nossa Sra. do Monserrate; e depois de feita lavantar a Ata para de poder dizer Missa na forma que Se constara fazer nas mais Igreja, a qual Será Situada em lugar livre fora de toda a Constribuição, e serviço das casas de vivenda; codito Suppte.

A capela foi benzida em 16 de junho de 1698, data considerada como de fundação da cidade. Dois anos e meio depois, o casal firmou uma escritura de doação do sítio à capela. Essa doação somente se consumaria em 1712, com o falecimento de Antonio Vieira Tavares.


Área provável do Sítio Cachoeira, marcada sobre foto aérea de 2010, segundo descrições em documentos setecentistas.
Estudo do Prof. Elton Frias Zanoni.


12 de março de 2016

Pinturas de Lydia Dotta Lobo

"O SALTO"
Óleo sobre tela - 1990 - tamanho 40x50 cm. 

"O AREIÃO"
Nome dado pelos pescadores ao local aprazível onde a pesca era abundante, situado após a Ponte Pênsil.
Óleo sobre tela - 1991 - tamanho 50x80 cm.

"BRASITAL, A MÃE DOS SALTENSES"
Indústria de tecidos localizada próximo ao Rio Tietê, que por muitos anos foi considerada "a mãe dos saltenses" pelos benefícios que eram oferecidos aos seus empregados: açougue, armazém, médicos, creche e moradia.
Óleo sobre tela - 1989 - tamanho 30x40 cm.

"UMA VILA MUITO AMADA" - anos 30
Esta era a inesquecível vila operária Brasital que abrigava as famílias de seus trabalhadores. Eram quatro quadras que, no centro das quais, havia o "Quintalão" onde ficavam as "Vascas" (tanques) e fornos coletivos. Era neste local que as donas de casa se encontravam para lavar as roupas e fazer o pão caseiro, além de ser um espaço de lazer dos adultos e das crianças.(Esquina 9 de Junho com Rio Branco).
Óleo sobre tela - 1989 - tamanho 30x40 cm.

"RUA JOSÉ WEISSOHN" - anos 40
Rua de acesso para a entrada da Brasital. Ao lado, o Jardim Velho onde eram realizados passeios dos jovens nos finais de semana (o "Footing"). Neste local havia um serviço de auto-falante onde os rapazes ofereciam músicas às suas namoradas.
Óleo sobre tela - 1989 - tamanho 30x40 cm.

"RUA DA IGREJA" - anos 20
Atual rua Monsenhor Couto, onde se encontra o "Casarão de Pedra", moradia do benemérito Dr. Henrique Viscardi. Nele funcionava a farmácia, onde ele atendia gratuitamente aos pobres.
Óleo sobre tela - 1989 - tamanho 30x40 cm.

"COOPERATIVA OPERÁRIA SALTENSE" - anos 50
Local situado na esquina da Rua 9 de Julho com a Av. Dom Pedro II, atual Convívio Dom Pedro II. Era um prédio onde funcionavam um armazém, açougue, campo de bochas, sala de jogos, bar e um amplo salão de festas, em que eram realizados os eventos sociais da época. Atualmente é a matriz das Lojas Cem.
Óleo sobre tela - 1993 - tamanho 50x80 cm.

"LOJA DOTTA" - anos 40
Prédio localizado na esquina da Rua 9 de Julho com a Rui Barbosa, onde funcionou, por muito tempo, a loja mais completa da cidade. Era um verdadeiro magazine dirigido pela sra. Francisca Millioni Dotta e seus filhos. Atualmente Loja Roma.
Óleo sobre tela - 1989 - tamanho 80x100 cm.

"VARANDA" - anos 70
Nas proximidades da Concha Acústica funcionou esta lanchonete que foi destaque da vida social da cidade na época. O local era ponto de encontro dos jovens e famílias saltenses. Atualmente restaurante Rincão Gaúcho.

"O ARVÃO"
Este arvoredo, que ficava num terreno baldio próximo à chácara de Silvio Brenha (atualmente Chácara Padreca), sombreava a "criançada" da época que se divertia jogando bola de meia.
Óleo sobre tela - 1987 - tamanho 40x50 cm.

"O BARROTE" - anos 30
Sítio localizado à margem esquerda do rio Jundiaí onde eram realizadas as festas juninas da época.
Atualmente local onde se instalou a Eucatex.
Óleo sobre tela - 1986 - tamanho 40x50 cm.

"IGREJA DE SÃO BENEDITO"
Construída em 1956, possui no seu interior obras sacras do pintor italiano Bruno Di Giusti.
Óleo sobre tela - 1987 - tamanho 30x40 cm.

Desde 2007 a maior parte das telas acima está sob guarda do Museu da Cidade de Salto. As legendas das imagens foram transcritas a partir do Calendário Comemorativo 300 anos Salto, produzido em 1998 pela Prefeitura Municipal.

A ARTISTA - Lydia Dotta Lobo nasceu em Salto em 1922 e, ainda menina, teve seus primeiros passos em direção à pintura orientados pelo tio Henrique Dotta. Sua próxima mestra foi a Irmã Terezita, da Congregação das Filhas de São José - que desde 1936 mantém a Escola Sagrada Família, o popular "Coleginho". Depois estudou pintura com o saltense José Roncoletta, alcunhado "Lubra". Em 1974 fez estudos de pintura, durante quatro anos, no Convívio de Arte de Campinas, com o prof. Bernardo Caro, da UNICAMP. Desde agosto de 1988 seus trabalhos ficavam em exposição permanente em seu atelier na Convívio Galeria, à Rua 9 de Julho, 533 - já não mais existente. Participou de inúmeras exposições desde 1968 em Salto, Piracicaba, Limeira, Campinas, Jundiaí, Itu e São Paulo.

No vídeo abaixo, a partir dos 28 minutos e 43 segundos, é possível ver uma entrevista com  Lydia Lobo, realizada em 1987 pela TV Cultura:

20 de fevereiro de 2016

Salto e o granito

Em 2007, na tentativa de dar maior visibilidade ao Parque de Lavras, a Prefeitura de Salto decidiu construir uma praça que serviria de novo acesso ao referido parque, o que se mostrou um grande feito, visto que o turista que visitava o Monumento à Padroeira muitas vezes não se dava conta da existência de um outro espaço aberto à visitação, à distância de poucos metros. Era necessário aproveitar esse fluxo de turistas, o maior da cidade. Foi então que nasceu a Praça do Granito, concebida a partir do contexto geofísico e histórico do próprio espaço que se encontrava e da antiga prática de extração de pedras na cidade, que tinha naquele bairro um de seus pontos de referência. Lavras, inaugurado em 1992, passou então a receber mais visitantes. Esta postagem recupera parte do texto que foi produzido para integrar os painéis histórico-turísticos que concebi para o espaço, bem como registra a intervenção que ali foi feita.

Trabalhador construindo muro na Praça do Granito, 2006.

As fotos a seguir tirei no dia da inauguração da Praça do Granito, em 21/04/2007:


Nicho com seis amostras de granitos existentes em Salto, com variações de cor e granulometria.

Uma das amostras de granito existente em Salto.

Escultura de Eugênio Teribelli, artista saltense, alusiva ao ofício de canteiro.


Todas as pedras cortadas para construção da praça encontravam-se no próprio espaço.
Não houve "importação" de granito. Os trabalhos foram conduzidos por Olívio Parentella.

Aspecto central da Praça do Granito, com "casinha" que serve de guarita.

Um dos painéis integrantes da praça. Ao fundo, área de lazer para as crianças.

O cactos são presença constante na paisagem dominada pelo granito.

O totem de inauguração, concebido por Vanise Begossi.


O GRANITO DE SALTO - O município de Salto possui uma grande reserva de granito, em especial uma variedade conhecida como granito róseo de Salto ou granito vermelho de Salto, que recebe ainda outros nomes. O granito encontrado apresenta variedades de granulometria, da mais grosseira à mais fina, conforme o tamanho dos grãos de minerais encontrados nas rochas. Existe também uma diversidade de tonalidades que podem ser encontradas, o que transformou a cidade num destacado fornecedor desse material no país, no século XX. Pelas suas qualidades, o Granito de Salto pode ser encontrado em obras de cantaria, executadas por trabalhadores saltenses, nos mais diversos locais. São exemplos os altares da Catedral da Sé, em São Paulo, da Basílica de Nossa Senhora Aparecida e da Catedral de Jataí, em Goiás. Ou os arcos na entrada do belo prédio da Bolsa do Café, em Santos, a escadaria principal da sede da Escola Superior de Agricultura (ESALQ), em Piracicaba, inúmeros túmulos maciços em cemitérios paulistanos, além de obras nos Estados Unidos e Canadá.

Informa-nos o químico Jeferson dos Santos, proprietário da Marmoraria Ico: "Além da rocha Moutonnée, Salto possui uma grande reserva geológica de granito – o comercialmente chamado granito Vermelho Salto - entretanto o nome descrito no Departamento Nacional de Produção Mineral é Marrom Itu, apesar da exploração comercial das rochas serem feitas em Salto. O granito de Salto possui algumas diferenças de tonalidade e granulometria, porém a mais acentuada está relacionada com a granulometria da pedra. Na região do Santa Cruz e Cecap encontra-se uma rocha de granulometria grosseira onde os minerais puderam se desenvolver (a chamada grana grossa). Já na região do Bairro do Conte, além rio Tietê, os minerais do granito tem os grãos menores (a chamada grana fina)."


UM OFÍCIO TRADICIONAL - O ofício de canteiro (voltado ao corte de pedras) surgiu em Salto quase na mesma época do seu despertar industrial, no final do século XIX. Famílias inteiras acabaram se dedicando a essa atividade, desenvolvendo uma técnica apurada e aprofundando um saber transmitido de geração a geração. Mesmo quando a indústria ainda garantia a maior parte dos postos de trabalho na cidade, a extração e o corte de pedras contribuíam como expressivos geradores de empregos. A arte dos canteiros de Salto marcou a paisagem urbana da cidade. Além das ruas calçadas com paralelepípedos, muitos prédios expressivos exibem elaborados blocos de granito em suas construções. As bases das antigas tecelagens e da estação ferroviária, a escadaria da Igreja Matriz, o casarão de pedra do Dr. Viscardi e a Usina de Lavras, estão entre os muitos exemplos encontrados. Vale salientar uma pequena diferença quanto ao ofício: quem corta, é o canteiro. E quem assenta o paralelepípedo nas ruas é o calceteiro. Em ambos os casos, muitos saltenses dedicaram grande parte de suas vidas a essas tarefas.

O casarão do Dr. Viscardi, cujas bases são de granito vermelho de Salto, quanto ainda abrigava a Biblioteca, 2006.

UM OFÍCIO TRADICIONAL - O ofício de canteiro (voltado ao corte de pedras) surgiu em Salto quase na mesma época do seu despertar industrial, no final do século XIX. Famílias inteiras acabaram se dedicando a essa atividade, desenvolvendo uma técnica apurada e aprofundando um saber transmitido de geração a geração. Mesmo quando a indústria ainda garantia a maior parte dos postos de trabalho na cidade, a extração e o corte de pedras contribuíam como expressivos geradores de empregos. A arte dos canteiros de Salto marcou a paisagem urbana da cidade. Além das ruas calçadas com paralelepípedos, muitos prédios expressivos exibem elaborados blocos de granito em suas construções. As bases das antigas tecelagens e da estação ferroviária, a escadaria da Igreja Matriz, o casarão de pedra do Dr. Viscardi e a Usina de Lavras, estão entre os muitos exemplos encontrados. Vale salientar uma pequena diferença quanto ao ofício: quem corta, é o canteiro. E quem assenta o paralelepípedo nas ruas é o calceteiro. Em ambos os casos, muitos saltenses dedicaram grande parte de suas vidas a essas tarefas.

Pedreira e oficina de cantaria na região que hoje é o centro de Salto, 1921.
Pedreira no bairro da Estação, 1947.
O trabalho dos calceteiros: colocação de paralelepípedos na Av. Vicente Scivittaro, 1972.

MATACÕES - Os matacões são grandes blocos de granito aglomerados. Cada um desses blocos sofreu erosão, de cima para baixo, criando a sua forma arredondada característica. São rochas com mais de 500 milhões de anos, surgidas no período Neoproterozóico (Pré-Cambriano superior). Ao mesmo tempo em que surgiam, formou-se o solo que encobria parcialmente as pedras. Mais tarde, esse solo foi lavado, deixando os grandes blocos expostos. Os matacões são típicos da paisagem natural dos arredores de Salto, que se localiza no ponto de ruptura entre duas regiões do Estado de São Paulo: o Planalto Atlântico e a Depressão Periférica. Essa queda no relevo é a responsável, por exemplo, pela existência da grande cachoeira no rio Tietê, que dá nome à cidade de Salto.

Matacões fazem parte da paisagem dos arredores de Salto.
Nesta foto, matacões no bairro da Estação e Jardim Itaguaçu.

O MAIS FAMOSO DOS GRANITOS - A cidade de Salto possui um atrativo geológico que traz para cá pesquisadores de todo o Brasil: a rocha Moutonnée. Trata-se de um granito que, há cerca de 270 milhões de anos, teve a sua superfície marcada pela passagem de uma gigantesca geleira. Ficaram arranhaduras e depósitos de outros materiais sobre a rocha, comprovando a era do gelo, num período em que as terras de vários continentes ainda se encontravam unidas, formando o supercontinente que os cientistas chamam de Gondwana. O nome Moutonnée vem do francês, significando forma de carneiro, forma de um carneiro deitado no campo. Só existe mais uma formação rochosa com as mesmas características, em todo o mundo. Trata-se da Glacier Rock, na Austrália. Esse tesouro geológico pode ser conhecido no Parque da Rocha Moutonnée, a pouca distância do centro da cidade de Salto.

Parte da Rocha Moutonnée, que tem seu parque específico. Nesta face estão marcas (estrias) da Era Glacial.

28 de janeiro de 2016

Escravos em fuga, 1887

Transcrevo a seguir dois fragmentos do jornal Imprensa Ytuana que narram um episódio de fuga de escravos. O grupo, de passagem pelo território que hoje é Salto (à época ainda pertencente a Itu), enfrentou a força policial da cidade. Episódio muito interessante e pouco lembrado:

Fuga de escravos
LUCTA - FERIMENTOS
Às 9 horas e tanto da noite de domingo, foi a nossa cidade despertada de sua habitual monotonia, por boatos e noticias incovenientes, pelo terror que incutiam; dizia-se que a força local fora trucidada no caminho do Salto, lugar Cangica, por grande quantidade de negros completamente armados e que se dispunham vir de encontro a nossa população. Boatos é certo, comtudo não deixaram de levar certa preoccupação e sobresalto, despertando a população de modo a indagar e se informar do que acabava de se passar. Momentos depois chegava á cidade uma das praças completamente banhada em sangue a procura do delegado e lhe relatou o resultado da deligencia por elle determinada, que fora motivada por telegramma do inspector da povoação do Salto prevenindo que para esta cidade se dirigia grande quantidade de negros completamente armados e que podião pertubar a ordem publica. Chegados que forão ao lugar Cangica, presentirão grande vozeria e tropel, e como os negros apenas os avistassem dispararão as armas e aggredirão fortemente os soldados, que vencidos pelo numero, forão rechassados, e derão lugar a elles passar. Pela cidade passarão rapidamente, pela rua das Flores, em direcção a S.Paulo, sendo alguns á cavallo, mulheres crianças com cargueiros etc, em marcha apressada. O delegado não tendo mais força para ir ao auxilio das praças que lhe pareciam ter sido victimadas, reuniu grande numero de paizanos e pedio que fossem pela estrada a procura dos soldados. Emquanto esperavam pelo resultado d'essa diligencia, foi dado o signal de rebate pela insistência de boatos mais ou menos pouco tranquilisadores, que continuavão a se espalhar. Reunido regular numero de cidadãos, inclusive pessoas gradas mais ou menos preparados, atravessarão a noite de prevenção. Às 4 horas da madrugada apparecerão os cidadãos que tinhão seguido á procura das praças. Vierão com 4, achandose três seriamente offendidas, que confirmarão as noticias de seo camarada. Pelos conductores forão encontrados os três estendidos no chão, tendo o 40 ido para o Salto ver se podia telegraphar para o delegado. Como faltassem mais três, o delegado de policia em pessoa e com alguns cidadãos dirigio-se para o lugar do conflicto, na supposição de achar os mesmos mortos. Alli chegando ao amanhecer nada encontrarão; apenas bonets, refles, poças de sangue e signaes evidentes de encarniçada lucta. Quanto as praças que faltavão tinhão fugido pelas terras da fazenda Juri-mirim, apparecendo hontem de manhã cedo, pouco contundidas. Consta-nos que as aulhoridades judiciarias e o delegado de policia levaram o facto ao conhecimento do presidente da província. S. Ex.o sr. Presidente da Província e chefe de policia constanos, que telegrapharão pedindo informações dos acontecimentos. Hontem á tarde procedeu-se a corpo de delicto nas praças offendidas. Suppõe-se que os negros são procedentes de fazendas dos municípios de Monte-Mór e Capivary. O espirito da população continúa sobresaltado, predisposto a uma reacção imminente.
Imprensa Ytuana, 18 de outubro de 1887.


Fuga de escravos
MAIS PORMENORES
Às noticias que demos hontem pouco temos que acerescentar. Boatos e versões continuam, porem que nada offerecem de positivo e que sò servem para levar o alarma e o sobresalto a população. Consta-nos que os escravos que por aqui passarão na noite de 16, são pertencentes aos fazendeiros os srs. Antônio Dias e Bento Dias, que ficarão corra as suas propriedades inteiramente abandonadas. Consta-nos mais que por ordem do dr. Chefe de policia sahio de S. Paulo em direcção a estrada velha que vem á esta cidade, uma força de cavallaria. Os corpos dedelicto foram feitos sendo considerados leves os ferimentos. O policiamento que na véspera fora feito por paizanos para garantia da cidade, foi substituído pela torça vinda no expresso. Graças ao zelo e actividade do sr. Visconde de Parnahyba que tem tomado providencias, a população está um pouco tranquillisada, se bem que receie de um momento para outro a repetição das ocurrencias de 16. Hontem, segundo somos informados, indo alguns mocinhos procurar animaes ao pasto, junto à matta que margeia ao rio Pirapetinguy, quatro negros sahindo de uma capoeira, a elles dirigiram-se querendo arrebatar-lhes os cavallos em que montavam ; e como os mocinhos se oppuzessem aos seus intentos, declararam que ante-hontem chegaram dez Companheiros que aguardavam a chegada de mais quarenta, afim de acabar com os caboclos soldados da cidade. Entre esses quatro foi reconhecido um escravo do sr. Oliveira, estabelecido no Bairro Alto, actualmente ausente. Si bem que não nos responsabilisemos pela veracidade deste facto, em todo caso será prudente que as autoridades procurem saber o que ha de positivo sobre boatos desta ordem e que providencias não se façam esperar afim de tranquillisar a nossa população.
Imprensa Ytuana, 19 de outubro de 1887.

No círculo vermelho, a provável região do enfrentamento (bairro Canjica, às margens da Estrada do Jurumirim)

27 de janeiro de 2016

Movimento grevista e a colônia espanhola

A história tradicional contada em Salto normalmente exalta as indústrias pioneiras, descrevendo um mundo perfeito no qual haveria plena harmonia, esquecendo-se dos enfrentamentos que existiam entre patrões e empregados. Naturalizou-se um discurso da "mãe Brasital", mesmo sendo evidente que esta não acolhia e agradava a todos os seus "filhos", especialmente os que não eram de origem italiana.

O historiador Ettore Liberalesso, em entrevista concedida em 2010 para o documentário "O homem e a cidade", declarou: "A Brasital fazia discriminação... Ela deu para Salto muito, muito, muito. Mas havia sempre alguma discriminação." Vale citar que a Brasital S/A chegou a Salto em fins de 1919, assumindo as indústrias que se formaram às margens do rio Tietê desde 1875.

Indícios da discriminação estão em alguns jornais da época, basta investigar com um olhar mais atento. Reproduzo parte de uma matéria de um jornal destinado à colônia espanhola publicado na cidade de São Paulo. Embora não aborde o enfrentamento direto entre patrões e empregados, vê-se a autoridade policial atuar com energia para evitar qualquer problema futuro aos industriais.

Reproduzo no original e traduzo livremente, a seguir, o fragmento de "Las huelgas y sus causas" [As greves e suas causas], Diario Español, 29/03/1920.

Acesse o original clicando aqui

"No caso de Salto de Ytu é uma nova manifestação de que a violência gera a violência.
Naquela povoação, reuniram-se na última quinta-feira os tecelões para determinar se iriam solidarizar-se com a atitude dos tecelões de S. Paulo e com os ferroviários do Rio de Janeiro.
Apareceu o delegado de política, Dr. Juan [João] Rodrigues de Salles Junior, e lhes intimou a se dispersarem.
Responderam-lhe os operários dizendo que não patricavam nenhuma desordem, nem cometiam nenhum delito, posto que somente tratavam de assuntos de próprio interesse, em atitude corretíssima.
Irritou-se o policial, sacou seu revólver e disparou várias vezes contra os operários, ferindo gravemente a Joaquín Moreno, e levemente a Antonio de Oliveira Bueno.
Então Juan Moreno, vendo o crime cometido contra seu irmão e a falta de razão para proceder de modo tão arbitrário, disparou um tiro contra o delegado, ferindo-o gravemente."

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966