17 de dezembro de 2008

A origem da Brasital S/A e seu desenvolvimento

O texto que segue é a transcrição de um fragmento da série de textos (sob o título "A origem da Brasital S/A e seu desenvolvimento") escritos por João M. Bombana no periódico saltense O Trabalhador, entre 06.11.1976 e 15.01.1977. Foram mantidas as iniciais maiúsculas originais e os grifos do autor.

No então Salto de Ytu, existiam duas fábricas: uma de fiação de algodão, inaugurada em 1876, precisamente há um século, de propriedade do sr. José Galvão de França Pacheco Júnior, e uma tecelagem, de propriedade do dr. Francisco Fernando de Barros Júnior, esta última inaugurada em 1882. Cada uma dessas duas fábricas possuía a sua Usina Elétrica, denominadas Júpiter e Fortuna, respectivamente. Para isso, aproveitavam as águas da Cachoeira do rio Tietê, que tinha uma vazão em potencial fabulosa. As duas fábricas acima referidas foram adquiridas pelo dr. José Weissohn, que juntou-as numa só. Da gestão do dr. José Weissohn sabe-se que foi muito profícua e ele muito generoso e humano. Basta dizer que ao passar a propriedade para a Empresa sucessora, deixou convencionado que a carne bovina, que era vendida aos seus operários no açougue por ele montado, não poderia ser vendida por mais de $500 (quinhentos réis) o quilo. Além disso, deixou também estipulado que a sua cozinheira, d. Lúcia, enquanto vivesse, deveria receber seus vencimentos, além do direito de residir na casa onde morava, a qual estava localizada ao lado do chalet da Diretoria.
A empresa sucessora, ou seja a Società Italo-Americana, cujo emblema apresentava S.I.A., estava localizada na Itália, em Milão, também possuía fábricas na Argentina e no Chile, com a denominação de Vedetta. Como primeiro Presidente da SIA fora nomeado o sr. Ermano Mosterts. Conselheiro delegado o sr. Carlos Castiglioni e Conselheiros o dr. José Weissohn e outros. O primeiro procurador foi o sr. Cav. Giuseppe Revel e Gerente o sr. David Picchetti, que mais tarde foi substituído pelo sr. Celli e este pelo sr. Ciriani, vindos da Itália, devidamente contratados e como Diretor Técnico veio o sr. Seminatti. Tanto o sr. Celli como o sr. Picchetti eram apaixonados pela equitação, tanto é que possuíam belíssimos cavalos para montaria. A Mestrança era composta de elementos vindos da Itália, também contratados. Assim vieram os srs. Beltramo (pai, filho e filha), Goffi, Gronda, Biffi, MOndone, Paglia, Boggio, Conterno, Aliata, Stussi, Vasco, Visetti, Gardini, Chilento, Girelli, Bianchi, Eng. Preti, Cassani, Primazzi, Rafaele Bianco e outros.
Em 1890 foi instalada em São Roque, pelo industrial Eng. Enrico Dall’Acqua, uma Tecelagem, a qual mais tarde também foi adquirida pela Società Italo-Americana, cujos Diretores Técnicos também vieram da Itália, a saber: srs. Vistarini, Suigo e Ale e os Mestres, srs. Cereda e Colombo. Assim, o patrimônio da S.I.A. era constituído do Cotonifício em Salto e da Tecelagem em São Roque. A fábrica de São Roque possuía a Usina Elétrica, que era gerada [sic] nos tanques denominados Vedetta e Enrico Dell’Acqua, que eram suficientes para movimentar os teares e demais máquinas auxiliares. Na Tecelagem de São Roque existem os famosos teares Grossemnhainer, para a fabricação de Colchas Isabel, as quais eram tecidas com tramas próprias produzidas nos sel facigs (miulas – em Salto, exclusivamente para esse artigo). Possuía também os teares Jacquada, de onde saíam os famosos atoalhados e guardanapos. Para estes, como para as colchas, não havia produção que chegasse para o atendimento da freguesia que era selecionada. Existiam teares onde eram fabricadas as faixasCapo Sala para o Mestre de Tecelagem, Maestrinas para as Inspetoras, Espularinas para as Boninadeiras e Ortidoi para as Urdideiras e outros mais. para crianças recém-nascidas. Interessante, que nessa fábrica foram introduzidos os princípios italianos daquela época, até há pouco tempo ainda ouviam-se termos daquele país, como Capo Sala para o Mestre de Tecelagem, Maestrinas para as Inspetoras, Espularinas para as Boninadeiras e Ortidoi para as Urdideiras e outros mais.
O vapor era produzido por caldeiras a lenha, a qual era retirada das matas adquiridas para essa finalidade e transportada por carroças puxadas por muares selecionados, pois os locais onde retiravam a lenha eram montanhosos e de difícil acesso. A matéria-prima (fios de algodão) para o abastecimento da Tecelagem, era remetida pela fábrica de Salto, através da Estrada de Ferro Ituana, hoje Fepasa. Pela Società Italo-Americana foi adquirida a Fábrica de Papel, que foi inaugurada em 19.9.1889, pelo Engenheiro Antonio Melchert. A razão social Merlchert & Cia. E a fábrica é a mais antiga do Brasil, conforme consta dos anais. Quando ela foi inaugurada, estiveram presentes, dentre outros, os srs. Otaviano Pereira Mendes, Padre Miguel Corrêa Pacheco, Francisco Glicério, Bento Quirino dos Santos, Bernardino de Campos, Marquês de Três Rios, Barão de Tatuhy, Barão de Araraquara, dr. Ignácio de Mesquita, Coronel Rodovalho, Coronel Anhaia, Carlos Paes de Barros, Ramos de Azevedo, Alfredo Maia, José Vicente de Azevedo, José Pereira de Queiroz, Correa Dias, dr. Charles Bally, Alfredo Faria, representando a Gazeta e o Diário de Campinas, João Batista Jordão, Fontes Júnior, Tancredo do Amara e o representante da Liga Ituana, dr. José Maria Lisboa.
A fábrica, que ainda está situada na margem esquerda do rio Tietê, contava com energia própria e para isso utilizava a água que era conduzida pelo canal, cujo nível do ponto inicial até o terminal era de 55 pés, produzindo 800 HP; os canos para a turbina tinham 15 m de diâmetro e 76,5 m de extensão. No início da gestão da Italo-Americana, na Fábrica de Papel, esta foi convencionada com diversos empregadores, sendo o último o sr. Nicolino Matarazzo. Terminado o prazo convencionado e como não entregaram a Fábrica, foi preciso embargar seu funcionamento e em seguida dinamitar o canal d’água que abastecia a turbina geradora de energia elétrica. Só assim deixou de funcionar e foi entregue a S.I.A.
Com mais essa aquisição, tornou-se a Società Italo-Americana proprietária de 3 fábricas, Cotonifício Salto, Fábrica de Papel de Salto e Fábrica de Tecidos de S. Roque. Por razões de medrança, a empresa passou para a razão social de Società per L’Importazione e Exportazione Italo-Americana, deixando de ser SIA, mas continuando com as fábricas na Argentina e no Chile. Na ocasião da Guerra Européia, diversos mestres que eram italianos, deixaram a empresa e partiram para a Guerra, na qualidade de reservistas do Exército Italiano e não mais voltaram.
Com a transformação da Guerra Européia em Mundial (a primeira), havia pouca possibilidade de virem técnicos estrangeiros para o Brasil, nessa ocasião foi constituída a Brasital S/A, resultante da fusão das Empresas Società per L’Importazione e Exportazione Italo-Americana e Belli & Cia., sendo esta consorciada daquela.
Com o advento da Brasital S/A, isto em 01/11/1919, funcionou como advogado o Dr. Adolpho Nardy Filho, contratado para elaborar os Estatutos Sociais da mesma.
Uma vez tudo legalizado, começaram as reformas, ampliações e expansões das três Fábricas.
A nova Razão Social, constituída de Capital Nacional, passou também a aproveitar a Prata da Casa, contratando pessoal aqui no Brasil.
Para Procurador Geral da Brasital S/A foi nomeado o Sr. Cav. Caldirola e em virtude do mesmo não ter tomado posse do cargo foi nomeado para esse cargo o Sr. Bruto Belli.
A primeira Diretoria da Brasital S/A foi eleita em 1/11/1919, sendo composta dos seguintes senhores: Presidente Cav. Rag. Guido Sacchi, Vice-Pres. Conde Com. Alessandro Seciliano; Membros do Conselho, Cav. Reg. Guido Sacchi, Com. Arrido Stoffel, Bruto Belli; Diretor Geral: Bruno Belli. Membros efetivos do Conselho Fiscal: Dr. Cav. Antonio Rossi, Cav. Humberto Lambrosso e Dr. Arthur Krug. Suplentes do Conselho Fiscal: Ricardo Arrigoni, Giovanni Ballarini e Lyder Sandal.
O Capital Social era formado entre acionistas brasileiros e italianos. O resultado do primeiro exercício apresentado pela Brasital S/A, referente ao período de 1/11/1919 a 31/10/1920, foi o seguinte:
[...]
Com a sede em São Paulo, Filiais em Santos, Rio de Janeiro, Osasco, Salto e São Roque, a Brasital S/A desenvolvia-se em todos os seus setores.
A Fábrica de Papel foi reformada completamente, tanto os prédios como as máquinas, principalmente a contínua nº 1 (a mais antiga do Brasil) e quando concluída a reforma, posta em serviço, produzia cerca de 100.000 quilos de papéis por mês.

A capela como marco da fundação

A capela primitiva

O capitão Antônio Vieira Tavares, ao se instalar por volta de 1690 em seu Sítio Cachoeira, hoje território do município de Salto, quis construir “uma igreja com seu adro com a invocação de Nossa Senhora do Monte Serrat”, como consta na “Provisão de Ereção” do templo, documento de 1696. Dois anos mais tarde, em 16 de junho de 1698, o vigário da Vila de Itu, Felipe de Campos, visitou a capela já construída e, “achando-a mui decente e com todos os paramentos necessários para (...) se celebrar o sacrifício da missa”, a benzeu. Considera-se hoje essa data como sendo a de fundação da cidade de Salto.

No ano de 1700, Tavares e sua mulher, Maria Leite, firmaram em escritura pública a intenção de doar o Sítio Cachoeira com tudo o que nele havia, incluindo escravos negros e índios, para a “Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat”, acrescentando que era sua vontade que “se conservasse a dita capela para sempre no mesmo lugar”. A doação se consumou, tendo morrido Tavares por último, em 1712. A capela foi preservada até 1928, quando foi demolida para dar lugar ao prédio atual. Resistiu, portanto, por 230 anos.


Vista da capela primitiva e de seu pátio frontal. À esquerda, casa dos operários da fábrica Fortuna, c.1900.


A igreja atual

No início do século XX, a capela primitiva tornou-se pequena para Salto. A primeira pedra do novo templo foi assentada em fevereiro de 1928, sendo pároco o padre João da Silva Couto. Prontos os alicerces ao redor da velha capela, suas grossas paredes de taipa foram demolidas. Em várias ocasiões os operários das fábricas, especialmente da Brasital, consentiram que fosse descontado dos salários o equivalente a um dia de trabalho, em prol da construção. A nova igreja foi benzida e inaugurada em 1º de maio de 1936, fazendo-se o revestimento externo posteriormente. Foram responsáveis técnicos pela obra o engenheiro Paschoal Purcchio e o construtor João Scarano.


Atual prédio da Igreja Matriz durante sua construção, entre 1928 e 1936.


A primeira imagem (1698 – 1797)

Entronizada pelo capitão Antônio Vieira Tavares, quando da bênção da capela primitiva, pode ainda hoje ser vista no interior da Igreja Matriz, no altar lateral esquerdo.


A imagem incendiada (1797 – 1935)

Em fins do século XVIII, o padre ituano João Leite Ferraz, senhor muito rico e devoto de Nossa Senhora do Monte Serrat, encarregou-se de restaurar a capela original. Achava ele que a imagem que ali se encontrava era “pequena e sem estética” e desejava substituí-la por outra, “majestosa e digna de admiração”.

Em 1797, o ituano Francisco de Paula Leite de Barros, desejando se casar com Maria Joaquina de Campos, pediu a intervenção do padre, pois este era tutor da moça e amigo de sua família. Em troca desse favor, o padre achou que o pretendente deveria pagar-lhe uma penitência, e mandou-o ir à beira do tanque do Sítio Grande, no bairro do Piraí, e de lá trazer um tronco de cedro “de muito boas águas”, o que o jovem fez com grande esforço. Não contente, o padre o mandou buscar na Vila de Parnaíba (atual Santana de Parnaíba) um santeiro de fama na época, o mulato de nome Guilherme. Assim, o jovem Paula Leite trouxe o artista que esculpiu a segunda imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat.

Mais de um século depois, na noite de 18 de janeiro de 1935, um curto-circuito na instalação da igreja em obras, na parte que funcionava como matriz provisória, provocou o incêndio que destruiu a imagem de 1797. O que restou foi a cabeça carbonizada, que se encontra hoje no Museu da Cidade de Salto. A Igreja da Candelária, em Itu, possui duas imagens feitas do mesmo tronco de cedro, uma Senhora do Rosário e um São Miguel Arcanjo.


A imagem atual (desde 1935)

Para substituir a imagem incendiada, a mesma família Paula Leite, de Itu, se reuniu e abriu um “livro de ouro”, angariando fundos para que fosse esculpida uma outra imagem, também em cedro. O trabalho ficou por conta do escultor S. Scopoli, e a nova imagem foi apresentada aos fiéis em setembro de 1935. É essa imagem que se encontra hoje no altar-mor da Igreja Matriz.


A imagem primitiva de fins do séc. XVII (1); a incendiada, de 1797 (2); e a atual (3), de 1935.

11 de dezembro de 2008

Bom Dia São Paulo - 11/12/2008

Comerciantes do final do século XIX

Em 21 de julho de 1890 o presidente do primeiro Conselho de Intendência, Francisco Fernando de Barros Júnior [1856-1918], abria um livro de escrituração e rubricava suas páginas “para nele serem lavrados todos os termos de nivelamento, alinhamento e alvarás de licença da Vila do Salto”. Nesse documento de 50 páginas encontram-se anotações que cobrem o período de maio de 1890 – antes mesmo do procedimento acima mencionado – até agosto de 1898.

A primeira anotação foi sobre um nivelamento, o da casa de Paulino Galvão de Almeida, situada na esquina das ruas do Porto e do Riachuelo (atuais José Weissohn e 23 de Maio). Esse procedimento foi acompanhado pelo arruador, Domingos José da Cruz; pelo fiscal da Intendência, Evaristo de Góes Pacheco; e pelo secretário – responsável pela anotação no livro – Belmiro José de Araújo.

Quanto aos comércios, a primeira licença foi concedida, ainda em 1890, a D. Maria Lima, “para abrir sua casa de negócio de secos e molhados, aguardente e gêneros da terra”. A segunda foi concedida a Francisco Xavier da Costa, “para continuar com sua farmácia”. Orlando Antonio recebeu alvará “para abrir a sua padaria”; Januario de Monte Santo, “para continuar com seu negócio de secos, molhados, gêneros da terra e aguardente”; Manoel José Ferreira de Carvalho, “para continuar com seu negócio de secos e molhados, aguardente, ferragens, armarinho e calçados”. Como se nota por essas primeiras licenças, concedidas entre 1890 e 1891, a maioria delas se destinava a negócios de secos e molhados. São os casos também dos estabelecimentos de Ernesto Nobre Moro, Joaquim Antonio da Silva, Fernando Dias, Emilio Della Nina, entre outros.

As anotações de 1898, já no final do livro, foram feitas pela pena do secretário da Câmara Municipal, Silvestre Leal Nunes. Vejamos, na tabela abaixo, alguns nomes que receberam as licenças daquele ano, bem como a localização e o tipo de negócio:


7 de dezembro de 2008

O saltense volta a ter orgulho



Os trabalhos inaugurados na noite de 6 de dezembro de 2008, no entorno da cachoeira que dá nome a nossa cidade, serão responsáveis por um novo uso daquele espaço. Novas funções estarão a ele associadas. Será novamente um local emblemático para o saltense, que por longos anos perdeu o orgulho que sentia em explicar sua própria origem, ilustrando-a com uma visita à cachoeira. Afinal, Salto só é Salto pela cachoeira – o Ytu Guaçu, na língua indígena. E apenas deixou de ser um distrito rural da cidade vizinha, tornando-se independente, por conta da instalação de indústrias nas imediações, motivadas principalmente pelo potencial de aproveitamento da força hidráulica oferecida pela queda d’água.

Como já tem sido divulgado pela imprensa, Salto ganhará neste final de semana, além de uma praça remodelada, duas novas atrações: o Memorial do Rio Tietê e o Caminho das Esculturas. As intervenções ocorridas na Praça Archimedes Lammoglia (no trecho conhecido como Jardim Tropical), na Ilha dos Amores, no antigo Restaurante do Salto, na Ponte Pênsil e no espaço para além dela (agora nomeado Caminho das Esculturas), foram todas concebidas parcialmente carregadas de historicismo (doutrina que estuda seus objetos do ponto de vista da origem e desenvolvimento deles, vinculando-os às condições concretas que os acompanham). Trocando em miúdos, pensou-se na memória do espaço no qual se intervinha. A colocação de um gazebo que remete ao antigo coreto da Ilha dos Amores é um exemplo disso.

E para marcar essa opção, novos painéis do Museu de Rua foram instalados. A intenção desses painéis é veicular informações históricas e documentos iconográficos em espaços representativos da história local, atribuindo sentidos a quem por eles transita. Um deles, que figurará ao lado do busto da personalidade que dá nome à Praça, detalha esse aspecto. Outro, ao centro do Jardim Tropical, mostra as várias formas e nomes que o espaço já teve, desde o século XIX, quando se chamava Largo do Rocio. Ao atravessar a ponte metálica que liga o Jardim à Ilha dos Amores, o visitante encontrará um painel específico sobre a Ilha e outro sobre a Barragem e Usina de Porto Góes, já que a partir da Ilha se tem um ponto de visualização privilegiado da barragem em quase toda sua extensão.

Os painéis de azulejos de Flávio Pretti, que desde 1968 estiveram ao lado do antigo Restaurante do Salto, permaneceram. E uma placa sobre o artista dá conta de situar sua obra no contexto da época de criação. Sob a pérgula do Mirante, ao lado de um banco em granito de Salto, está um outro painel, com forma distinta – e que marca o início de um circuito de painéis similares que tem por fio condutor o rio Tietê. Nele, trata-se dos ilustres visitantes que por aqui passaram e viram a cachoeira, de D. Pedro II até o atual Presidente da República. Já ao lado da Ponte Pênsil, a história dela, propriamente. Próximo, um outro painel aborda as tecelagens pioneiras que se instalaram à margem direita.

Antes, quem optar por descer diretamente ao Memorial do Rio Tietê terá contato com uma história que transcende os limites locais. No início, explica-se a nomenclatura do rio. Em seguida, sua importância histórica é abordada nos painéis sobre bandeiras e monções – além de um sobre as vilas pioneiras que se instalaram às margens, ainda no período colonial da história brasileira. Noutro bloco, trata-se da cultura produzida no Vale do Tietê, com destaque para um equipamento concebido para contar as principais lendas do rio na forma de um grande gibi, criado com desenhos do artista saltense Rodrigo Schiavon. Nessas duas seções, monitores de TV exibirão vídeos alusivos à temática. Na seção seguinte, trata-se das formas utilizadas pelo homem para se servir do rio; barragens e usinas ganham relevo no vídeo que será projetado numa das paredes. A esperança da despoluição e as ações com esse intuito empreendidas até o momento presente são abordadas nas seções finais. Por último, o visitante encontra uma pinacoteca, a Galeria da Cachoeira – com reproduções em grande formato de pinturas históricas do Ytu Guaçu produzidas por artistas de renome nacional e internacional, além de uma fotografia de um dos pioneiros dessa arte no Brasil, Marc Ferrez – que fotografou a cachoeira por volta de 1880.

Ao atravessar a quase centenária Ponte Pênsil, tem-se o início do já mencionado Caminho das Esculturas. O índio, o bandeirante, o padre jesuíta José de Anchieta, o viajante europeu, o pescador e a operária são figuras representadas em esculturas do artista plástico Murilo Sá Toledo – todas acompanhadas de painéis explicativos. Na base do antigo teleférico da Brasital, dois painéis em vidro dão conta de explicar a sua existência no passado. Em vidro também foi criado o painel que figura nas proximidades da escultura da operária, no qual foram dispostas algumas fotografias do início do século XX com aspectos do interior das antigas tecelagens de Salto. Ao final do percurso, o painel “Para além do caminho, você encontra...” irradia alguns pontos de interesse nas proximidades, como é o caso do Parque Rocha Moutonnée, da Ilha Grande, da Fábrica de Papel, da Ilha da EMAE, entre outros.

Acredita-se que, com as informações apresentadas, possa o saltense e o visitante de fora perceber o valor histórico que a área contemplada com as obras tem. A recuperação de antigos valores e os novos significados despertados, por tudo o que foi agregado, tem esse intuito.

2 de dezembro de 2008

O marco zero da cidade

A Praça Antonio Viera Tavares é o marco zero da cidade de Salto. Antes de 1911, a área da Praça atual era conhecida como Pátio da Capela, ou Pátio da Igreja. Dessa data em diante passou a se chamar Praça XV de Novembro. Apenas no ano de 1934 ela receberia o nome do fundador da cidade. Nesse momento, a praça também abrangia o entorno da Igreja Matriz, que só em 1955 receberia nome diferenciado, passando a se chamar Praça da Bandeira.



Esse espaço corresponde ao núcleo inicial da ocupação de Salto no final do século XVII. O capitão Tavares e sua mulher Maria Leite o teriam escolhido para a instalação da capela primitiva muito provavelmente pela vista da cachoeira no rio Tietê. No final do século XIX, vê-se o surgimento da cidade operária. A atividade fabril prospera. A partir de 1919 tem início o domínio da indústria Brasital, que marcará a paisagem não apenas por suas construções, mas também pela presença de seus trabalhadores.





Embora fosse região de circulação intensa, até o início da década de 1940 essa área era um simples descampado. Nessa época ela recebeu o primeiro tratamento paisagístico, obra inaugurada em 1942.

26 de novembro de 2008

A creche da Brasital

O prédio no qual hoje está a Secretaria da Cultura e Turismo, na esquina da Praça Antonio Vieira Tavares com a Rua José Weissohn, foi originalmente concebido para abrigar a creche da Brasital S/A, indústria têxtil situada a sua frente, da qual muito já falamos em colunas anteriores.


Fachada do prédio da creche da Brasital por volta de 1950, ainda com um terraço.

Fundada em 26 de fevereiro de 1948, por iniciativa do engenheiro Giuseppe Bianchi – procurador da Brasital naquela época – a creche destinava-se exclusivamente aos filhos dos operários da empresa. As atividades iniciaram-se em 21 de abril do mesmo ano. Por muito tempo a creche foi dirigida por freiras vindas de São Paulo e pertencentes à ordem das Filhas de São José – que está em Salto desde a instalação do colégio Sagrada Família em 1936. Eram elas as responsáveis por cuidar das crianças enquanto as mães trabalhavam.


Primeira turma de crianças, 1948.


É costume dizer que a creche funcionou como um jardim da infância da cidade numa época em que essa modalidade escolar ainda não existia aqui. De início, freqüentavam o espaço crianças entre dois meses e sete anos. Por volta de 1950, cerca de 120 crianças filhas dos operários da mantenedora eram assistidas naquele prédio.

Às mães era permitido sair do serviço por alguns minutos, durante o expediente, para se dirigirem ao lactário da creche a fim de amamentarem seus filhos. Outras crianças eram alimentadas por mamadeiras preparadas pelas próprias freiras. Às maiores era preparado mingau e sopa. E um pediatra consultava três vezes por semana as crianças que estivessem doentes


Berçário, 1952.


A partir de 1969, com a reorganização de seu sistema de assistência social, a Brasital limitou o atendimento a crianças com até três anos de idade. Em 1975, deslocou em definitivo a assistência para um de seus chalés, o que durou até quando foi vendida, em 1981, ao Grupo Santista. Em dezembro de 1986 o prédio que serviu como creche da Brasital durante 27 anos foi desapropriado pela municipalidade e em 1991 foi cedido ao INSS, que lá permaneceu por alguns anos.

12 de novembro de 2008

A lenda do tesouro do Salto de Ytu

Retirada de um batelão das águas do rio Tietê.
Ilustração de Wasth Rodrigues presente no livro História do rio Tietê, de Mello Nóbrega.

Até algumas décadas atrás, na área compreendida entre o porto Góes e o antigo traçado da linha de trem da FEPASA, eram nítidos os sinais de escavações em busca do tesouro do rio Tietê. Com o passar dos anos, tanto esses vestígios como o conhecimento da lenda por parte das novas gerações se apagaram.

Em Salto, a partir da cachoeira, o rio Tietê corre por entre muitas pedras até as imediações da Ilha Grande, onde se apresenta calmo. Nesse remanso, ao sopé da colina na qual está a rocha Moutonnée, estaria o porto Góes (ou porto do Góes). Existem indícios de que tal porto foi ponto de partida alternativo de algumas expedições rumo a Cuiabá – as monções. Alternativo pois tinham como local de partida preferencial o porto de Araritaguaba, a Porto Feliz dos dias de hoje. O mesmo raciocínio se aplica quando do retorno de Cuiabá, tendo-se o porto Góes como local de desembarque. Percorrer a distância entre porto Góes e Araritaguaba por água – em que pese a existência de pequenos trechos encachoeirados – teria suas vantagens, em especial o menor tempo gasto para se chegar a vilas como Itu, Parnaíba ou São Paulo.

As monções eram expedições de transporte de pessoas e mercadorias diversas – tais como mantimentos, ferramentas, tecidos, armas e munição – além do ouro extraído das minas descobertas nas primeiras décadas do século XVIII. E era esse ouro o carregamento principal das viagens de retorno. Em algumas ocasiões, tocaias foram armadas com o intuito de subtrair o ouro carregado por monçoeiros. E foi em torno de uma situação dessas que se constituiu a lenda do tesouro do Salto de Ytu.

Tendo a informação de que um grupo de batelões subia o rio Tietê com o intuito de alcançar o último remanso antes da cachoeira, um numeroso grupo de homens se pôs a esperar por eles na região em que o ribeirão Guaraú, afluente da margem esquerda, deságua no rio Tietê. Apesar do ataque surpresa, o enfrentamento teria durado dias – tempo suficiente para que o carregamento de ouro fosse enterrado entre uma pedreira e outra, dentre as tantas existentes naquele terreno. Contudo, passados alguns dias, os expedicionários recém-chegados foram derrotados, sendo dizimados por completo, acredita-se.

A lenda do tesouro do Salto constituiu-se a partir desses elementos, embora não se saiba se o grupo vencedor localizou ou não o ouro enterrado; ou mesmo se alguns expedicionários do grupo derrotado teriam escapado e retornado tempos depois para recolher o produto da viagem a Cuiabá, estrategicamente escondido. O que persiste é que o tesouro, uma vez enterrado, ainda possa estar em algum local nas imediações do porto Góes...

Quadrinhos elaborados em 2008 para um equipamento disponível no Memorial do Rio Tietê, em Salto.

Escola Anita Garibaldi

Desde a primeira década do século XX, Salto contou com escolas mantidas pela colônia italiana. A primeira delas denominava-se Dante Alighieri. Nesse período, Francisco Salerno, Othelo Donato e Leone Camerra se destacaram enquanto docentes.

Na década de 1920, a Escola Dante Alighieri passa a se chamar Anita Garibaldi, em referência à companheira brasileira de Giuseppe Garibaldi, guerrilheiro italiano conhecido como “herói de dois mundos”, por conta de sua participação em revoluções tanto na América – caso da Farroupilha, no Rio Grande do Sul – quanto na Europa.

Em sua origem, a escola voltava-se para a difusão da língua e da cultura italiana, à luz da ideologia fascista, com o governo italiano, sob o comando de Benito Mussolini, enviando o material didático, como livros de História e Geografia, dentro dos programas de propaganda patriótica para italianos residentes no exterior.

Mantida pela indústria têxtil Brasital, a Escola Anita teve como diretor e professor, de 1931 a 1968, João Baptista Dalla Vecchia. Trajando terno jaquetão azul marinho, camisa branca e gravata azul; figura austera e apaixonada por seu ofício, podia-se mesmo dizer que “ele era a escola, a escola era ele”.

Em 1934, Rosanna Turri foi agregada à Escola, permanecendo longo período ao lado do professor Dalla Vecchia. As imagens que seguem, tomadas em 1996, mostram a professora rememorando um poema que ensinava aos alunos, em língua italiana.

Neste momento, as imagens que vemos, do final da década de 1930, mostram os alunos da Escola Anita percorrendo a Rua José Galvão, tendo ao fundo a Casa D’Italia, onde funcionava a escola; e se exercitando, acompanhados pelos professores Dalla Vecchia e Rosanna Turri.

A Escola Anita era um estabelecimento de ensino complementar. Atendia, normalmente, aos egressos do curso primário do Grupo Escolar Tancredo do Amaral que ainda não tinham idade suficiente para ingressar no mercado de trabalho. As vagas nessa escola eram disputadíssimas, especialmente numa época em que Salto não possuía estabelecimentos de ensino com classes que fossem além da quarta série.

Além do currículo normal, o professor Dalla Vecchia ministrava aulas de música, língua italiana, religião, ginástica e caligrafia. Esta, por sua vez, constituía-se numa marca dos alunos que a freqüentassem: era a caligrafia do Dalla Vecchia, a caligrafia da Escola Anita.

Ao final da década de 1960, a Escola Anita perdia sua razão de ser. Salto já contava com novos estabelecimentos de ensino, que agora ocupavam um espaço que, antes, era por ela suprido. Com a última turma, formada há 40 anos, aposentava-se o velho mestre Dalla Vecchia, aos 72 anos.




João Batista Dalla Vecchia [1896-1981]

Professor da Escola Anita Garibaldi por 37 anos, João Batista Dalla Vecchia nasceu em Itu, em 1896. Filho de italianos, aos 8 anos de idade mudou-se com sua família para a Argentina, e, dois anos mais tarde, para a Itália. No início de 1914, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial, os Dalla Vecchia retornaram ao Brasil, e João Batista ingressou na Brasital, ali trabalhando até 1931. Nesse ano, recebeu um convite para lecionar na escola mantida pela empresa. De início, João Batista centralizava todasas funções: era diretor, professor, secretário e bedel. Poucos anos depois, passou a contar com o auxílio da professora Rosanna Turri, com a qual trabalharia lado a lado até 1968, quando do encerramento das atividades da escola.

Além de professor, Dalla Vecchia foi assíduo colaborador da paróquia de Nossa Senhora do Monte Serrat e de seu vigário, o padre João da Silva Couto [1887-1970], ajudando-o em várias empreitadas. Foi um dos diretores do Ítalo Futebol Clube, na década de 1920. Por muitos anos, foi músico da Corporação Musical Giuseppe Verdi, sendo, em seguida, um dos fundadores e regentes da União Musical Gomes-Verdi, que surgiu em 1939. Na política, foi vereador de 28 de maio de 1936 a 30 de janeiro de 1937 e de 1º de janeiro de 1948 a 31 de janeiro de 1951, data em que renunciou ao cargo. Também foi vice-prefeito na gestão de Vicente Scivittaro, entre os anos de 1960 e 1963.

6 de novembro de 2008

Uma imagem, um casamento, um incêndio

Nas últimas décadas do século XVIII, o açúcar constituía a base econômica da região de Itu. Grande parte da população tinha suas atividades ligadas à produção e ao comércio desse produto. Nas ocasiões de grandes secas, que tantos prejuízos causavam com incêndios nos canaviais e demais lavouras, a imagem da Nossa Senhora do Monte Serrat era conduzida em procissão até a Igreja Matriz de Itu, onde ficava até que viessem as primeiras chuvas. Quando isso ocorria, a imagem era reconduzida à capela de onde havia saído, no povoado de Salto de Ytu.

Em fins do século XVIII, o padre ituano João Leite Ferraz, senhor muito rico e devotado a Nossa Senhora do Monte Serrat, encarregou-se de restaurar a capela original a ela dedicada, construída em 1698. Achava ele que a imagem primitiva que ali se encontrava era “pequena e sem estética”, e por isso desejava substituí-la por outra “majestosa e digna de admiração”.

Passava-se o ano de 1797 quanto o moço de nome Francisco de Paula Leite de Barros se apresentou ao padre solicitando sua intercessão, já que era seu desejo casar-se com Maria Joaquina de Campos, da qual o padre era tutor e amigo da família.

Por esse favor, o padre Ferraz achou que o pretendente deveria pagar-lhe em penitências, e para isso disse ao jovem que fosse até a beira do tanque do Sítio Grande, no bairro do Piraí, e de lá trouxesse um tronco de cedro “de muito boas águas”. Assim o jovem pretendente fez, entregando o tronco no largo da Matriz de Itu, após enormes esforços.

Não contente, o padre solicitou ao jovem que buscasse na vila de Parnaíba, atual cidade de Santana de Parnaíba, um santeiro de fama na época, o mulato cativo de nome Guilherme. Dias depois o jovem Paula Leite trouxe o santeiro para que esculpisse a imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat. Daquele tronco sairiam ainda, pelas mãos do mesmo artista, duas outras imagens: São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora do Rosário, ambas ainda hoje existentes na Matriz da Candelária, em Itu. Estas três imagens podem ser chamadas de “imagens irmãs”, já que foram esculpidas da mesma tora e pelo mesmo artista.

Mais de um século depois, na noite de 18 de janeiro de 1935, um curto-circuito na instalação elétrica da Igreja em reformas, na cidade de Salto, na parte que funcionou como Matriz provisória, provocou o incêndio que destruiu a imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat entronizada em 1797. Naquela trágica noite, as chamas já tomavam conta do altar-mor quando populares tentaram salvar a imagem, sem contudo obter sucesso. Na manhã seguinte, após exame pericial da polícia, foi encontrado entre os escombros um pedaço de madeira carbonizada: era a cabeça da imagem incendiada.


Três imagens esculpidas pelo santeiro Guilherme: N.S. do Rosário, N.S. do Monte Serrat e São Miguel Arcanjo.

28 de outubro de 2008

A morada dos taperás

Quem vê a margem esquerda do rio Tietê, nas imediações da cachoeira, vê uma ilha artificial. Ela surgiu entre os anos de 1924 e 1927 - período de construção da barragem, canal e da usina de Porto Góes, que ainda hoje gera energia elétrica. E foi justamente a abertura desse canal que isolou uma determinada porção de terra, dando origem à hoje chamada Ilha da EMAE, por conta de estar sob os cuidados da Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A. - tendo sido conhecida também, em diferentes momentos do século passado, por Ilha da Light e Ilha da Eletropaulo.

Entre as fendas dos afloramentos graníticos que constituem a Ilha da EMAE era muito comum a presença dos pássaros denominados taperás, especialmente nas proximidades na cachoeira. Esses parentes próximos das andorinhas faziam dessas fendas seu local de repouso. Viajantes europeus em meados do século XIX já mencionavam em seus textos a existência dessas aves. O escritor viajante português Augusto-Emílio Zaluar [1826-1882], em seu livro Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861), em meio aos parágrafos que dedicou a sua passagem pelos arredores de Itu, legou-nos uma bela descrição envolvendo os taperás de Salto:

“Lançando os olhos ao horizonte, vimos vir lá de seus extremos confins uma espécie de nuvem negra e compacta, que se avançava com rapidez nos ares, mudando apenas ligeiramente de forma. Era um imenso bando dessa espécie de andorinhas a que se dá aqui o nome de taperás.
Quando pairou acima de nossas cabeças aquela massa escura, abrindo-se pelo meio, formou um círculo de largas dimensões, e começou a girar vertiginoso, até que, voltando outra vez à sua forma primitiva, tornou a afastar-se tão alto e tão longe que a perdemos de vista. Pouco depois volveu, fez a mesma evolução e tornou a retirar-se, repetindo ainda umas duas ou três vezes este movimento aéreo.

Como, porém, a noite se aproximasse, e nós continuássemos em nossa posição imóvel sobre os rochedos, as taperás começaram a cortar com um vôo oblíquo o espaço que as separava da terra, e a esconder-se nas fendas escuras das rochas que formam o parapeito oposto do outro lado do rio. Parecia na violência e silvo uma chuva de setas, que, disparadas de um arco invisível, se cruzavam sobre nossas cabeças.

Era-nos preciso a pena do célebre naturalista americano Audubon para podermos dar uma idéia deste quadro!

Quando as fendas dos rochedos estavam já cheias de taperás, o que tornava ainda mais escuros os interstícios das pedras denegridas, um de nossos companheiros, apontando a espingarda de dois canos, carregada de tariva, à fenda onde havia maior porção dessas aves, disparou dois tiros, um após o outro, cujo estampido foi reboando lugubremente de penedo em penedo até se perder no fragor das águas.

Senti nesse momento confranger-se-me o coração. As avezinhas que escaparam ao chumbo levantaram vôo apavoradas, e as que ficaram mortas ou feridas, caindo na correnteza, foram enoveladas na espuma, aparecendo de vez em quando boiando à tona d’água, para depois sumirem-se de todo, sepultadas no abismo.

Pobres taperás, antes não fôssemos perturbar a sua existência inocente!”

Cerca de duas décadas mais tarde, o cuidado com os taperás foi preocupação do industrial e político local Francisco Fernando de Barros Júnior [1856-1918] - o doutor Barros Júnior, cognominado “Pai dos Saltenses”. Em sessão da Câmara Municipal de Itu, em 1883, Barros Júnior solicitava: “Indico que se acrescente ao art. 45 o parágrafo único seguinte: Fica proibida a matança dos pássaros denominados Taperás do Salto. O contraventor pagará 5$000 de multa”.

Nos últimos anos, com a chegada da poluição no rio Tietê, a quantidade de taperás sobrevoando nossa cidade diminuiu consideravelmente. Contudo, por conta dos numerosos bandos dessas aves ao longo das décadas e séculos anteriores, elas se tornaram um símbolo de Salto, estando presentes no brasão de armas, na bandeira e no hino da cidade, nos versos: “Salto! Da linda cascata, das praças floridas, dos bandos de taperás. Salto! Que eles encantam, voando e cantando pra lá e pra cá”, de autoria de Archimedes Lammoglia.


Taperás repousando nas pedras próximas à cachoeira, década de 1970.

24 de outubro de 2008

Povoações pioneiras às margens do rio

Ao se seguir pelas águas do rio Tietê – num atlas histórico que tratasse em alguma de suas páginas do início da colonização do território paulista – de sua nascente até as imediações do que, até meados do século XIX denominava-se “sertão bravio”, encontraríamos as seguintes vilas e cidades listadas abaixo. As notas que se seguem contam um pouco da história e de como esses locais estiveram vinculados ao rio especialmente em suas origens:

Mogi das Cruzes
Denominada M’Bogy pelos índios, que significa “rio das cobras”, era como os primitivos habitantes das imediações se referiam ao Tietê. Há menção a um português de nome Brás Cubas que, por volta de 1560, obteve uma sesmaria que vinha até as terras da atual Mogi, aí estabelecendo uma fazenda. É de 1601 o primeiro caminho que ligava a localidade a São Paulo. Mogi foi elevada a vila em 1611, por iniciativa de Gaspar Vaz.

São Paulo
A fundação de São Paulo insere-se no processo de ocupação e exploração das terras americanas pelos portugueses, a partir do século XVI. A região de ocupação inicial pelos padres jesuítas, em 1554, localizava-se entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, este sendo afluente do rio Tietê. Até o século XVIII, São Paulo era um dos centros de onde partiam as bandeiras para os sertões.

Barueri
A origem da cidade foi um aldeamento fundado em 1560 pelo padre José de Anchieta, na margem direita do rio Tietê, pouco acima da confluência com o rio Barueri Mirim. Instalou-se aí a capela de N. S. da Escada. Por muitos anos, a aldeia resistiu aos freqüentes ataques de bandeirantes que desciam o rio Tietê em direção ao interior, aprisionando índios para mão-de-obra escrava.

Santana de Parnaíba
Nascida às margens do rio Tietê, há registros de que o primeiro a se instalar na região foi o português Manuel Fernandes Ramos, participante de uma expedição realizada em 1561 para explorar o sertão, rio Tietê abaixo, em busca de ouro. A capela de Sant’Anna, erguida por seus herdeiros e sua mulher Suzana Dias, data de 1580. Foi importante centro bandeirista.

Pirapora do Bom Jesus
Conta a tradição popular que, por volta de 1725, uma imagem do Bom Jesus foi encontrada por um sitiante encostada numa pedra dentro do rio Tietê. Tida por milagreira, a imagem ganhou uma capela, cuja bênção data de 1730. Pirapora, na língua indígena, significa “sinal de peixe”.

Cabreúva
No início do século XVIII, um senhor de engenho ituano, à procura de local adequado para se instalar, subiu a margem direita do rio Tietê. Após explorar a região, escolheu um vale encravado entre três grandes serras que, mais tarde, seriam denominadas Japi, Guaxatuba e Taguá. Tal senhor fixou-se no local em que hoje está a cidade de Cabreúva, dedicando-se ao cultivo da cana-de-açúcar voltado para a produção de aguardente.

Itu
A construção de uma capela a N. S. da Candelária, em 1610, é o marco da fundação da cidade. Muitas das expedições que saíam do porto de Araritaguaba (Porto Feliz), às margens do rio Tietê, com destino às minas de ouro de Cuiabá, eram organizadas em Itu. Nas terras ituanas, consideradas de boa qualidade para o cultivo da cana-de-açúcar, surgiram grandes fazendas exploradas com mão-de-obra escrava. O cultivo da cana serviu de base para desenvolvimento da produção de café, em meados do século XIX. Por ter abrigado a Convenção de Itu, em 1873, ostenta o título de “berço da república”.

Salto
Em 1698, em terras de seu sítio Cachoeira, na margem direita do rio Tietê, Antônio Vieira Tavares instalou uma capela dedicada a N. S. do Monte Serrat. Para os séculos seguintes, cogita-se que algumas expedições pelo rio Tietê tenham partido do porto Góes, logo abaixo da cachoeira, como alternativa ao porto de Araritaguaba. A localidade permaneceria praticamente inerte até 1875, data da instalação da primeira tecelagem nas proximidades da cachoeira que dá nome à cidade, em virtude do potencial energético. Uma segunda tecelagem se instalou em 1882, alicerçando o perfil industrial que a cidade assumiria ao longo do século XX.

Porto Feliz
Situada na margem esquerda do rio Tietê, no local em que os indígenas chamavam de Araritaguaba, o mais remoto registro da localidade data de 1693. O porto natural de Araritaguaba, contudo, tornou-se importante durante o século XVIII, época em que as monções tinham ali seu principal local de partida rumo a Cuiabá. Foi, mais tarde, centro açucareiro.

Tietê
Durante as monções do século XVIII, Pirapora do Curuçá, antiga denominação de Tietê, era um importante porto de reabastecimento e descanso das embarcações que saíam de Araritaguaba. Uma das principais atrações de Tietê é a Festa do Divino, que ocorre desde 1830. O ponto culminante desse evento, que acontece tradicionalmente no último sábado do ano, é o encontro das canoas, que de dá no leito do rio Tietê.


Mapa do Estado de São Paulo com as localidades abordadas em destaque.

20 de outubro de 2008

Fantoches da Brasital

Em seu número 221, de 26 de novembro de 1925, o periódico local O Saltense – “semanário noticioso, dedicado aos interesses do município”, trazia em sua primeira página um artigo intitulado “Abaixo a máscara”. Nele, severas críticas eram dirigidas a um grupo de pessoas que teriam assinado um boletim distribuído pela cidade naquela semana. Tal grupo teria se proclamado, nesse boletim, como integrantes do Partido Republicano Municipal de Salto, deixando inconformados os articulistas do referido órgão da imprensa local, que tinha então como diretor-proprietário Fernando Camargo e como redator-chefe Oswaldo de Souza Aguirre, famoso orador local.

A crítica veiculada no jornal se voltava ao uso dos termos republicano e municipal e à clara ligação do grupo político aos interesses da indústria Brasital S/A: “Envergonhados de se intitularem manequins e fantoches da Brasital, rotulam o partido com um falso nome, enfeitando o seu boletim com palavras bonitas para armar efeito e que (...) nada exprimem, partidas de quem partem”. Essa seria a máscara a ser posta abaixo: “se são da Brasital não iludam a boa fé do público apropriando-se indevidamente de um título que lhes não compete”.

Na página 3 da mesma edição, o “Boletim Eleitoral” nos dá a atmosfera do momento: “Realizam-se em 29 do corrente as eleições para Vereadores à Câmara Municipal e Juízes de Paz. Como se trata de uma questão vital para o Município, o Diretório Político local tem a certeza que o Eleitorado Saltense cujo brio tantas vezes [foi] posto a prova, [e] soube sempre colocar-se à altura do renomado civismo que o norteia, virá em peso sufragar pelas urnas o nome dos cidadãos que irão defender os seus interesses”.

E justamente sobre a defesa dos interesses do município é que pairava a hostilidade em relação ao grupo político alvo das críticas: “Contratados especialmente pela Brasital, para defesa de seus interesses, e não do município que tem os seus legítimos representantes que podem dizer-se independentes, deviam rotular o seu partido com o rótulo devido e que seria: PARTIDO PARTICULAR DA BRASITAL”. Com base nisso, o jornal denunciava o interesse da Brasital em incentivar o eleitorado local a eleger aqueles que seriam seus representantes “dóceis” na Câmara – sujeitos que, de uma forma ou de outra, atuariam de acordo com os interesses não da cidade, e sim da indústria, definida como “uma Companhia que desconhece o seu lugar para açambarcar tudo o que lhe venha matar a fome do outro, a sede de poderio que a vem convulsionando, satanicamente”.

Em “A situação”, nas páginas 2 e 3, o articulista sob o pseudônimo Malchisedeck traça o panorama dos dois últimos triênios da Câmara local, caracterizando-a como favorável à Brasital – e troca em miúdos como se daria a continuidade dos trabalhos: “a Brasital quer tomar conta da Câmara, só para defesa dos seus interesses. É para não dar conta de seus atos a ninguém. Quando precisar de um contrato que lhe garanta uma isenção de imposto é só mandar as cláusulas aos seus comandados que serão logo aprovadas. Até é ridículo: uma Companhia tão rica faça política por ½ dúzia de contos e... ainda fala em pagar eleitores! Isso admira: é quem mais histórias faz para pagar impostos. Paga, na verdade, mas não dispensa a fita.”

15 de outubro de 2008

O Grande Bazar Saltense

Primeiros tempos
O atual Armazém Popular é um estabelecimento centenário, sendo um dos mais antigos em atividade no Brasil. Esse armazém, onde se vendeu e se vende mais de 10.000 produtos diferentes, iniciou suas atividades em 1908. Nessa época, era seu proprietário Estevão de Almeida Campos, vulgo Nhozinho Estevo. Em 1926, Nhozinho Estevo vendeu o então Grande Bazar Saltense a Hilário Ferrari – italiano há tempos radicado no bairro rural do Buru, que chegara à cidade dois anos antes.

O estabelecimento fazia jus ao nome de Grande Bazar, pois lá se encontrava de tudo. Anúncios pintados em sua fachada, entre uma porta e outra, indicavam a variada gama de produtos comercializados: secos e molhados, no atacado e no varejo; louças, porcelanas, camas de ferro, ferramentas para lavoura e artesanatos, óleos, tintas, cal, cimento, produtos de limpeza, querosene, conservas, bebidas, utensílios de alumínio etc. Até mesmo gasolina se vendia, visto que a casa era agente da Anglo-Mexican, vendendo a gasolina da marca Energina, como se vê pela bomba à manivela instalada próxima ao meio-fio, em foto de 1930 (abaixo).


Grande Bazar Saltense ou esquina do Hilário, 1930.

Troca de proprietários
Em 1946, o armazém voltou às mãos da família Almeida Campos, sob a razão social Miranda Campos & Cia. Eram seus proprietários, nessa ocasião, os irmãos José Maria e Paulo Miranda Campos, e “Totó” Almeida Campos – que repassaria sua parte na sociedade a João Arlindo Vendramini, cunhado dos outros dois proprietários. Dez anos mais tarde, Roberto Ferrari readquiriu o armazém, mantendo-se à frente até 1969. Nesse ano, passa o estabelecimento para o controle de seu filho Roberto Vladimir, mais conhecido por Bertinho Ferrari, que desde seus 13 anos trabalhava ao lado do pai.


A mesma esquina, já sob o nome Armazém Popular, década de 1980.

Viagem ao passado
Além da longevidade enquanto estabelecimento comercial em um mesmo ponto, o Armazém Popular – em tempos passados, o Grande Bazar Saltense – mantém viva sua vocação eclética original, possuindo grande variedade de artigos. Alguns itens chamam especialmente a atenção, pela dificuldade de encontrá-los em outros lugares, como os calçados Conga, Bamba e Kichute, da marca Apargatas; fumo-de-corda, cachimbo de barro, isqueiro a gasolina, estilingue, lampião a querosene e palha para cigarro. Lá também sobrevive a antiga prática de marcar o valor das compras em cadernetas, para acerto posterior, no final do mês. Hábitos de um tempo que já se foi.Em seu interior, à vista de suas altas prateleiras de pinho-de-riga, sente-se a atmosfera de um típico comércio das primeiras décadas do século passado. Hoje, quando se vive, cada vez mais, uma pasteurização nas formas de se comprar e vender, visitar o Armazém Popular é um estímulo, aos de imaginação mais fértil, a uma viagem no tempo.

As várias formas de uma praça

Largo do Rocio
Em planta da então Vila do Salto, datada de 1889 (veja abaixo), uma fração da atual Praça Archimedes Lammoglia – nas proximidades da atual Rua 23 de Maio, à época Rua Riachuelo – chamava-se Largo do Rocio. Delimitado por um casarão, de um dos lados, e pelos prédios das tecelagens, de outro – ainda apresentava as rochas tão comuns nas margens do rio Tietê. Era área de trânsito dos que desejassem contemplar a cachoeira a partir da Pedra Alta, onde em 1912 seria instalado um mirante. Naqueles anos, gradativas e pontuais intervenções melhoravam o aspecto daquele espaço.


Arte de Lucas Frias Zanoni

Jardim Público
A urbanização do Largo do Rocio ocorreu na gestão do prefeito-interventor Major José Garrido, em 1931, que o transformou no Jardim Público. No local onde existia uma torre com um relógio, foi instalado também um serviço de rádio. Em vista disso, muitas pessoas, à noite, para lá se dirigiam para ouvir música. Nas tardes de domingo, as atenções se voltavam para as transmissões dos jogos de futebol do campeonato paulista.



Jardim Tropical
Em 1958, o casarão que abrigava um colégio dirigido por freiras – o Externato Sagrada Família – foi demolido, pois a instituição fora transferida para outro ponto da cidade. Assim, o prefeito da época incumbiu o arquiteto e paisagista João Walter Toscano, com escritório aberto naquele ano, de apresentar um projeto que remodelasse não só o espaço ocupado pelo Jardim Público – que foi então modernizado e rebatizado como Jardim Tropical – mas também a parte da praça mais próxima à ponte Salto-Itu. Ali foram instaladas a concha acústica e a escadaria ampla, que forma um anfiteatro, além de uma fonte luminosa.



João Walter Toscano
Reconhecidamente um dos mais destacados arquitetos de sua geração, João Walter Toscano nasceu em Itu, em 1933. Graduou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 1956, onde depois passou a atuar como professor doutor do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto. Nesses mais de 50 anos de profissão, o arquiteto constituiu um currículo invejável, com destaque para inúmeras obras públicas. Em seu início de carreira, Toscano projetou os edifícios para as Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras de Itu e de Assis; o Clube Recreativo de Assis e os planos urbanísticos de cidades no interior do Estado de São Paulo, dentre eles o desta praça – obra inaugurada em 1963.

A cachoeira visitada por ilustres

Desde o século XVII existem relatos sobre a vinda de pessoas das mais diversas procedências para ver a cachoeira que dá nome a esta cidade. Dentre os visitantes que por aqui passaram, alguns merecem destaque.

As três visitas do imperador
Em 23 de agosto de 1875 a cachoeira de Salto foi visitada pelo imperador Dom Pedro II e sua comitiva, não sendo esta a única ocasião em que aqui esteve. Antes, a visitara em 1846, juntamente com a imperatriz D. Thereza Christina – fato que se repetiria pela terceira e última vez em 31 de outubro de 1886. Pedro II fez anotações em seu diário de viagem sobre a cachoeira e as fábricas que visitou:
Salto de Itu. Até à estação do Salto de estrada de ferro e depois a pé. Ligeiro iris na poeira da água do Salto. Andorinhas (Taperós) [sic] que vem dormir entre os rochedos pegados a eles, como morcegos. Fábrica que já começou a trabalhar do Galvão. Movida por água do Tietê. 2600 fusos a 50 e tantos teares. Pano grosso e menos grosso. Vi as oficinas da estrada de ferro. Jantar. Recepção.
Numa das ocasiões, Pedro II posou para uma foto (que se perdeu) na então chamada Pedra Alta, onde hoje se localiza este mirante. Além do imperador, Salto também foi visitada por sua filha, a princesa Isabel; e seu genro, o Conde d’Eu.

Presidente da República
Em 13 de abril de 2006, o Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, acompanhado de sua comitiva, refez o mesmo itinerário dos muitos pintores, naturalistas e viajantes do passado, e contemplou o velho Ytu Guaçu a partir da Ponte Pênsil.

Viajantes, pintores e naturalistas
São vários os relatos de viajantes do século XIX que mencionam a cachoeira de Salto. O francês Auguste de Saint-Hilaire, que esteve diante da cachoeira em 1819, publicou suas impressões sobre a cachoeira no livro Viagem à Província de São Paulo. Em um dos trechos, relata: “Depois de serpentear celeremente por entre as pedras amontoadas, o rio lança-se de repente por um estreito canal, cercado de ambos os lados por uma muralha de pedras a pique, e dali se precipita de uma altura de 25 ou 30 pés com uma impetuosidade inconcebível e um estrondo suficientemente forte para ser ouvido na cidade de Itu.”

Hercule Florence, francês radicado em Campinas, tido por muitos como o inventor da fotografia, em Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas (1825-1829), registra sua passagem pela cachoeira no ano de 1826. Outro exemplo é o viajante português Augusto-Emílio Zaluar, que em Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861) faz referência aos taperás – aves que, em grande número, circundavam a cachoeira e se escondiam por entre as fendas das rochas.

Na lista dos artistas que pintaram a cachoeira, dentre brasileiros e estrangeiros, há nomes como Jean-Baptiste Debret (autor da aquarela abaixo), Miguelzinho Dutra, Hercule Florence, Noêls Aimé Pissi, Almeida Júnior, Pedro Alexandrino e Erich Brill.


Queda do Tietê perto de Itu, 1829
Jean-Baptiste Debret
Aquarela sobre papel
12,9 x 23 cm

Tecelagens às margens do Tietê

A partir de 1875, a presença de empreendimentos fabris às margens do rio Tietê transformou Salto numa localidade voltada para o trabalho. Em geral, a mão-de-obra dessas primeiras fábricas era formada pelo trabalhador livre brasileiro, com numerosa presença de mulheres e crianças, como se pode ver nas fotos dos grupos de operários desse período.


Fábrica Fortuna. Grupo de funcionárias da seção de fiação com seus mestres, 1903.

No final do século XIX, a composição desse quadro inicial se alterou com a chegada de imigrantes europeus, em sua maioria italianos. Este grupo, presente em grande número nas primeiras décadas do século XX em Salto, constituía a maioria dos operários empregados, que em muitos casos eram egressos de fazendas de café do interior paulista.

Foram os descendentes desses primeiros italianos a formar o contingente de trabalhadores das décadas seguintes, pois a política de contratação dava preferência aos filhos de operários ativos na empresa. Durante décadas, o destino de muitos jovens saltenses estava traçado desde o berço: aos 12 ou 14 anos, ingressariam na Brasital S/A – indústria de fiação e tecelagem, proprietária de todo o complexo fabril instalado às margens do rio Tietê, em Salto, entre 1919 e 1981.

Era marcante a presença feminina, com as mulheres representando, por volta de 1940, 75% da mão-de-obra empregada. A elas invariavelmente cabia uma dupla jornada, tendo que conciliar os afazeres domésticos, nos períodos de folga, com o trabalho na fábrica. Os 25% restantes eram homens que trabalhavam na tinturaria, oficinas mecânica, elétrica e de carpintaria, nos escritórios, nas cardas e nos depósitos de algodão e de fios.

Quanto aos menores de 18 anos, as meninas ingressavam como auxiliares das maquinistas, tanto na fiação como na tecelagem. Os meninos ingressavam como ajudantes dos mecânicos, eletricistas e carpinteiros. Outros ingressavam no escritório da fábrica ou como escriturários nas seções da indústria – tais como tecelagem, fiação, tinturaria e oficinas. Informou-me dessa distribuição, durante essa semana, meu amigo Genézio Migliori, que lá trabalhou por 18 anos, tendo ingressado aos 14.

A relação dos operários com o rio sempre foi muito estreita. Existiam lendas em torno da existência de uma canoa fantasma, que podia ser vista nas águas do Tietê através das janelas da fábrica, pelos funcionários do turno da noite. Outro exemplo é a cena comum, até a década de 1950, de operários que saíam do serviço às 16h30 e atravessavam a Ponte Pênsil para ir pescar. Quase sempre havia um parente ou amigo esperando com as varas e as iscas. Ao escurecer, retornavam para suas casas com os peixes, que constituíam a mistura do almoço ou jantar do dia seguinte.

12 de setembro de 2008

Pescadores

Os primeiros pescadores das águas do rio Tietê foram os índios guaianás ou guaianazes, cuja aldeia situava-se nas proximidades do Ytu Guaçu. Pontas de flechas encontradas nas imediações da Ilha Grande, localizada poucos metros à jusante deste painel, atestam a presença indígena. Para esse grupo, a pesca era a base de sua dieta.

Relatórios de antigas expedições militares, montadas numa época em que interior do Estado de São Paulo era um “sertão bravio” – na terminologia da época – registram a abundância de peixes nas águas do rio Tietê e citam algumas das espécies mais comuns então encontradas: dourados, saupés, pacus, piracanjubas, surubins, piracambocus, jaús, piracauxiaras, tabaranas, traíras, bagres e cascudos.

No século XIX, a pesca garantia a subsistência de alguns moradores dessa região, antes da instalação das primeiras tecelagens. Em 1844, por exemplo, o pescador Manoel Roiz da Silva pediu permissão à Câmara de Itu para fazer um girão de pesqueiro abaixo do Salto, no lugar então denominado Tumbador.

No início do século XX, com as primeiras tecelagens já instaladas, surgiram conflitos entre os industriais e os moradores que desejavam pescar na margem direita. O acesso aos pontos mais piscosos exigia o trânsito por áreas que os industriais consideravam de sua propriedade. Diante disso, dificultavam ao máximo o acesso. A instalação da Ponte Pênsil relaciona-se a esse processo.

A partir da década de 1920, viveu na Ilha Grande o pescador sírio conhecido por Chico Turco. Eram famosos os seus viveiros de peixes: grandes gaiolas imersas, nas quais o cliente escolhia ainda vivo o peixe desejado. Até a década de 1950, pescar no rio Tietê era algo possível aos saltenses. Após essa data, a gradativa chegada da poluição paulistana afastou os pescadores. Embora os peixes ainda existam, a contaminação das águas em nossa região impede a atividade pesqueira. Resta-nos, hoje, a esperança do retorno a uma época em que o rio também era visto como uma fonte saudável de alimentos.


Chico Turco exibindo o resultado de uma única noite de pesca no rio Tietê, 1928.

10 de setembro de 2008

Bandeirantes

Denominam-se bandeirantes os homens que, desde o final do século XVI e ao longo do XVII, em expedições que partiam de vilas como São Paulo, Taubaté e Santana de Parnaíba, percorreram os sertões brasileiros em busca, principalmente, de indígenas para a escravização, ouro, prata e pedras preciosas.

O número de componentes de uma expedição bandeirante variava de menos de uma centena a vários milhares. Em geral, as bandeiras de caça ao índio eram mais numerosas. Em média, tinha-se um branco ou mestiço para cada dez índios mansos, flecheiros e carregadores – profundos conhecedores da sobrevivência no mato.

No cotidiano das bandeiras prevalecia a autoridade máxima do chefe, também chamado de cabo-de-tropa ou capitão-do-arraial. Era este o posto ocupado pelos bandeirantes que os livros de história celebrizaram, tais como: Antônio Raposo Tavares (do qual o fundador da cidade de Salto, Antônio Vieira Tavares, era sobrinho), Bartolomeu Bueno da Silva (o Anhangüera), Manuel da Borba Gato, Domingos Jorge Velho, Fernão Dias, entre outros.

Representação de Raposo Tavares, retirada de publicação da Editora Abril, década de 1970.

As nações indígenas ao longo do vale do Tietê foram alvos das expedições bandeirantes desde muito cedo. A bandeira de Nicolau Barreto, de 1601, trouxe consigo grande quantidade de gentio aprisionado no sertão rio abaixo. Foram constantes também os ataques aos indígenas que viviam nas regiões dos atuais estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Houve ainda as investidas às missões jesuíticas estabelecidas em território espanhol. A descoberta de ouro em Minas Gerais, no final do século XVII, e em Mato Grosso e Goiás, nas primeiras décadas do século XVIII, devem-se às bandeiras paulistas.

Os bandeirantes não foram os únicos responsáveis pela ampliação dos territórios portugueses na América e tampouco devem ser considerados heróis-civilizadores. Contudo, o processo de interiorização empreendido pela Coroa portuguesa, no século XVIII, seguiu as rotas abertas por eles. E as atividades econômicas que garantiram a ocupação e o povoamento desses novos territórios muitas vezes se guiaram por caminhos pioneiros e ilhas de colonização – representadas por arraiais, roças, minas e ranchos – resultantes das antigas expedições.

“Ciclo de caça ao índio”, 1923
Henrique Bernardelli
Óleo sobre tela
Acervo do Museu Paulista da USP

4 de setembro de 2008

A Festa do Salto no final do século XIX

Por volta de 1880, a povoação do Salto contava com não mais de 1500 habitantes. Todos os anos, no final do século XIX, normalmente entre os dias 7 e 10 de setembro, os trens da Estrada de Ferro Ytuana trabalhavam com horários e preços especiais: tudo motivado pelas Festas do Salto. Nessas ocasiões, a povoação se enchia de gente vinda de toda a região. Além das atividades religiosas, esse era o momento do ano para a prática de uma série de brincadeiras e divertimentos: mastro cocagne, corridas em sacos, tug-of-war, cabra-cega e boizinho bahiano. Era essa a parte profana da Festa. Não faltavam também as touradas, para as quais se cobravam entradas de um mil-réis. As ruas e casas da povoação eram enfeitadas nessas ocasiões festivas. À noite, grandes fogueiras eram acesas. Gente de todas as classes e de diversos lugares se aglomerava nas ruas de terra batida. A localidade se tornava colorida e ruidosa. Nas barracas montadas pelos “beduínos da roleta” a jogatina tinha lugar. O encerramento da festa, no dia 10, era marcado com os fogos de artifício tradicionalmente preparados pelo Joaquim Corneta, pirotécnico local.

Veja abaixo o que noticiava o jornal Imprensa Ytuana sobre a Festa, em 27.08.1882. Manteve-se, na transcrição, a grafia e a pontuação originais:

"EXPLENDIDAS FESTAS DO SALTO

Desde o dia 7 de Setembro começarão as festas que serão feitas com toda a pompa, terminando no dia 10 com um lindo e variado fogo de arteficio do muito conhecido e apreciado artista pyrotechinico, o nosso Joaquim Corneta. Para intelligencia dos devotos, abaixo damos o programa das festas.

Dia 7. Alem das demais festas costumadas na véspera haverá um trem de recreio que partirá de Ytu com uma banda de muzica as 5 horas da tarde conforme esta annunciado, e a noite haverá retreita e ladainha.
Dia 8. Missa cantada, sermão e procissão a tarde.
Dia 9. Este é o dia dos divertimentos para a rapaziada temos o Mastro Cocagne, corridas em saccos, jogo da cabra cega e o novo divertimento Tug of War da corda, cada um destes jogos dar-se-ha um premio ao vencedor.
Dia 10. Alem dos muitos divertimentos reservados especialmente para este dia, a noite queimar-se-ha os fogos que por si só tornão-se recomendaveis - visto serem caprichosamente feitos para esta festa.

Durante estes dias haverão trens especiaes - para conduzir a Rapaziada e a Estrada de ferro desta vez faz uma redução no preço da passagem, dando bilhetes de primeira classe de ida e volta por 3 patacas e dois vinténs. Chega Rapaziada o gammado la estará."

Segundo o historiador saltense Luiz Castellari (1901-1948), durante as Festas do Salto no final do século XIX, as ruas eram especialmente capinadas e enfeitadas com arcos de bambus e palmas. Ainda, bandeirinhas multicores eram colocadas em ziguezague pelas ruas, lanternas venezianas eram penduradas nos portais e fogueiras enormes iluminavam a povoação nos dias festivos.

José Maria Marques de Oliveira (1890-1981), em depoimento gravado em 1979, sobre as Festas do Salto diz: “No [meu] tempo de criança formava festa dia 8 de setembro em louvor a Nossa Senhora do Monte Serrat e tinha muitas irmandades [que] faziam procissão no dia 8, Dia da Padroeira, até hoje. E as barracas eram feitas de pau-a-pique, de pita, de cambuí... onde vendiam pastéis, quentão, coisas de noite de São João usavam na Festa de Setembro. Cuscuz etc. Doce de batata, de abóbora e... coisas mais e a Festa... [ocorria na praça] Paula Souza... ali eram feitas as festas profanas. [Tinha ainda] um cavalinho de pau que vinha de Tietê, de um homem; dois senhores tocavam realejo...”


A corrida de sacos em desenho do artista saltense Rodrigo Schiavon.

As tecelagens pioneiras

O despertar de Salto ocorreu no último quarto do século XIX, por conta da instalação de indústrias. A posição geográfica privilegiada, junto à cachoeira, foi fator decisivo para os primeiros investimentos fabris – dada a possibilidade do aproveitamento energético. A chegada da ferrovia, com a instalação dos trilhos da Companhia Ituana de Estrada de Ferro, em 1873, também influenciou.



Construção da usina da fábrica Fortuna junto à cachoeira, 1903.


Em 1875, o empresário José Galvão da França Pacheco Júnior inaugurou a primeira fábrica de tecidos na margem direita do rio Tietê, batizando-a de Júpiter. Pouco depois, em 1882, o Dr. Francisco Fernando de Barros Júnior, político republicano conhecido por Pai dos Saltenses, inaugurou a sua tecelagem, à qual deu o nome de Fortuna, poucos metros abaixo daquela pioneira.



Em primeiro plano, o rio Tietê correndo por entre matacões.
Ao fundo, prédios das tecelagens pioneiras e a então Rua do Porto, 1903.


Essas duas tecelagens pioneiras passaram, em 1904, às mãos de um único grupo industrial, a Società per l'Esportazione e per l'Industria Italo-Americana. Em 1919, seu patrimônio foi vendido à Brasital S/A, que permaneceu como proprietária de todo o complexo fabril até 1981. A partir deste ano, passou para o controle do Grupo Santista, que manteve a fábrica em funcionamento até 1995. Hoje, os diversos blocos abrigam um centro universitário.



O mesmo ângulo da imagem acima, já com as torres da Brasital, 1950.



Os industriais pioneiros: José Galvão (esq.) e Barros Júnior.




Curto vídeo de época que mostra a industria têxtil Brasital, a cidade de Salto e a Escola Anita Garibaldi.

29 de agosto de 2008

A Ilha dos Amores

As três pequenas ilhas

Em meados de 1913, a Câmara Municipal de Salto, atendendo a uma solicitação da Società Italo-Americana, tecelagem instalada na margem direita do rio Tietê, trocou três pequenas ilhas situadas logo abaixo da ponte Salto-Itu por um terreno no então Largo Paula Souza, com fundos para o rio. Dessas três ilhas, aquela situada mais próxima à cachoeira ficaria conhecida por Ilha dos Amores.

Antes, em 1911, a Società Italo-Americana obtivera concessão do Estado para instalar uma usina hidroelétrica nas proximidades das ilhas. Tal tecelagem foi adquirida por outro grupo industrial em 1919, a Brasital S/A. Em 1923, as ilhas cedidas dez anos antes também foram incorporadas ao patrimônio do novo grupo. Com a construção da barragem e usina de Porto Góes, as ilhas passaram ao controle da Companhia Ituana de Força e Luz – que assumiu, em 1927, as obras iniciadas pela própria Brasital em 1924.

Uma paisagem romântica

Nos anos em que esteve nas mãos da Società Italo-Americana e da Brasital, o afloramento granítico que constituía a Ilha dos Amores – com uma configuração distinta da atual – recebeu coreto, chafariz e iluminação elétrica. Uma estreita e leve ponte de madeira foi construída, fazendo a ligação com a praça. No coreto, muito próximo à cachoeira, conjuntos musicais se apresentavam aos domingos, entretendo saltenses e visitantes que para cá se dirigiam.


Vista do coreto e parte da Ilha dos Amores, tendo ao fundo a barragem de Porto Góes, c.1930.

A grande enchente de 1929 destruiu a ponte que dava acesso à Ilha, sendo recuperada pouco depois pelo prefeito-interventor Major José Garrido, no início dos anos 1930, utilizando-se de trilhos ferroviários como pilares. Tal ponte resistiu até 1983, quando nova enchente de grandes proporções a carregou. A essa época, no espaço antes ocupado pelo chafariz, existia um mini-zoológico. Quando da subida das águas, na enchente de 1983, os animais que ali estavam foram resgatados às pressas. Em 1988, a Ilha dos Amores sofreu uma remodelação, assumindo os contornos externos vistos ainda hoje. Nessa mesma ocasião, nova ponte de acesso foi instalada – mais robusta e resistente à força das águas.


A enchente de 1929, com a Ilha ao centro.


Ponte de acesso à Ilha e parte do Jardim Público, 1949.

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966