27 de junho de 2010

A antiga Concha Acústica - II

Foi entregue ontem à população saltense a nova estrutura denominada Pavilhão das Artes – erguida em substituição àquela que ficou conhecida por Concha Acústica e que existiu por mais de quatro décadas – além da remodelação do anfiteatro, agora com assentos, e fonte.

O Pavilhão das Artes situa-se na Praça Archimedes Lammoglia, o logradouro público que mais vezes teve seu nome alterado na história de Salto. Muitas vezes dividida em duas partes, já se chamou Praça da Bandeira, Paula Souza, do Anhembi, 31 de Março e Getúlio Vargas. Unificada, passou a se chamar 16 de Junho, em referência ao dia de fundação da cidade. E finalmente, desde 27 de setembro de 1996, é denominada Praça Dr. José Francisco Archimedes Lammoglia.

O saltense Archimedes Lammoglia, que dá nome à praça em questão, nasceu em 1920. Em 1942 ingressou na Escola Paulista de Medicina, diplomando-se em 1947. Proctologista, residiu durante muitos anos no Hospital Matarazzo, em São Paulo, onde ingressou em 1938 como faxineiro e chegou à chefia do departamento de sua especialidade anos mais tarde. Trabalhou ainda, desde sua formatura, na Santa Casa de Itu – onde atendia gratuitamente aos finais de semana. Em 1954 ingressou na política, sendo eleito vereador da cidade de São Paulo no ano seguinte. Em 1958 foi eleito deputado estadual, reelegendo-se sete vezes consecutivas. Estudou também na Escola de Direito de Niterói, diplomando-se em 1960. Em 1964 foi Secretário Estadual da Saúde. Com sua atuação política ao longo de quatro décadas, foi reconhecido publicamente por conseguir diversos melhoramentos para sua cidade natal, da qual era notável defensor, bem como para outras cidades da região, nas quais era igualmente estimado. Faleceu em Salto em 1996.

Quem observa nos dias de hoje essa praça que carrega o nome do emblemático político e médico saltense não imagina que ela abrigou edificações até meados do século passado. A mais antiga da qual se tem notícia é a casa que pertenceu a José Bonifácio de Andrada e Silva [1827-1886], conhecido por José Bonifácio, “o Moço” – um poeta, jurista, professor e político brasileiro. Esse personagem do Império tinha o mesmo nome de seu tio-avô, o Patriarca da Independência. Numa das vezes em que D. Pedro II visitou Salto, em 1875, foi a casa que Bonifácio mantinha próxima à cabeceira da ponte Salto-Itu, na margem direita do rio Tietê, que hospedou o Imperador. Na condição de anfitrião, Bonifácio declamou a poesia “Sonhando”, escrita especialmente para aquele momento. Mais tarde, em 1889, a referida casa – que ali existiu até 1913 – foi ocupada pela família do engenheiro responsável pela construção da Fábrica de Papel.

Na praça também existiu, até 1958, uma ampla casa construída no final do século XIX, em sua origem um hotel, e que abrigou a partir de 1936 uma instituição particular de ensino, o Externato Sagrada Família. Essa instituição iniciou suas atividades sob a designação Escola Paroquial, dada sua ligação com a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat. Fundada por quatro religiosas da Congregação das Filhas de São José, vindas da Itália, a instituição contou desde o início com o apoio da indústria têxtil Brasital S/A, tendo sido prédio que abrigava a escola doado pela senhora Aurelina Teixeira Campos. Existente até os dias de hoje, o Coleginho – como é popularmente conhecida a instituição – transferiu-se em 1958 para um novo prédio, situado à Av. D. Pedro II nº 804. Isso foi possível a partir de uma permuta de terrenos com entre a Mitra Diocesana de Jundiaí, proprietária do casarão de dona Aurelina desde 1936, e a Prefeitura de Salto – trâmite ocorrido em 1954 e que precisou ser comprovado, para fins de liberação de verbas para as recentes intervenções, perante o Governo do Estado.

Em fins da década de 1950, a pressa em demolir o antigo casarão não se aplicou às obras para um novo uso do espaço que se tornara público. Idas e vindas ocorreriam e por mais de três anos a obra – iniciada pela empresa Cunha Lima Carvalhosa – ficaria parada. Então, nova concorrência pública foi aberta, sendo vencida pelo grupo do arquiteto João Walter Toscano, o mesmo que fora responsável pela remodelação do Jardim Público existente ao lado. A promessa era de concluir a obra em até um ano.

Contudo, a inauguração da Concha Acústica ocorreria apenas em 7 de abril de 1963, com a bênção do Monsenhor João da Silva Couto – pároco da cidade desde 1926 – discurso do prefeito Vicente Scivittaro, queima de fogos de artifício e apresentações de artistas do rádio e da televisão com algum destaque à época.

Vista aérea da Concha Acústica e arredores, 1963.

14 de junho de 2010

O homem e a cidade

Em 16 de junho de 2008 foi exibido um filme no Auditório Gaó, de oito minutos, que editei de forma bastante simples, às pressas, e que contava um pouco da vida do historiador saltense Ettore Liberalesso, homenageado naquela ocasião com a entrega da Medalha Municipal do Mérito pelo poder público de Salto. Em fevereiro de 2010, já transcorrido mais de um ano e meio, reassistindo aquele pequeno vídeo, ocorreu-me a possibilidade de produzi-lo novamente, aprofundando-o, e desta vez com o auxílio de profissionais que pudessem dar um tratamento diferenciado às idéias que eu agora tinha em mente. E parti em busca de auxílio para isso.



Foi então que iniciei os trabalhos que resultaram no documentário em vídeo “O homem e a cidade: uma biografia de Ettore Liberalesso”, em parceria com o editor e cinegrafista Andrei Schoba, que de imediato se dispôs a trabalhar em conjunto. No meio do percurso, contamos com a colaboração do experiente fotógrafo e cinegrafista Edson Piron, responsável pela descoberta e preservação do filme mais antigo de nossa cidade, datado de fins da década de 1930. Elaboramos um roteiro, selecionamos entrevistados, buscamos patrocínios. Em meio ao esforço, nos pareceu impossível dissociar a história de vida do biografado da própria história da cidade: elas se fundem nos 60 minutos do vídeo. Foi a linha que seguimos na produção dessa biografia de Ettore, que é uma forma de agradecimento por seu trabalho e um registro às gerações futuras de um exemplo de dedicação à comunidade na qual se vive. Um trailer pode ser visto em: http://tiny.cc/l9xri


Ettore Liberalesso
Ettore sempre foi figura atuante em clubes, comunidades religiosas, comissões e sociedades locais. São exemplos dessa atuação seu envolvimento com a Sociedade São Vicente de Paulo, o Círculo Católico, a Sociedade Instrutiva e Recreativa Ideal, a Associação Atlética Saltense, a Assistência Vicentina Frederico Ozanam, as comissões de construção da Igreja de São Benedito, da Festa da Padroeira, além do Conselho Administrativo da Paróquia de Nossa Senhora do Monte Serrat. Desde 1979 é membro da Comissão de Nomenclatura de Ruas da Cidade, tornando-se o presidente desta em 1990.


Sua mais importante publicação, Salto: história, vida e tradição – é seguida de outras significativas contribuições, com destaque para a coluna semanal no Jornal Taperá, denominada “Arquivo”, mantida de 1990 a 2010 e que ocupava o espaço agora preenchido por “História e Memória”. As famílias saltenses foram abordadas em várias dessas colunas, que acabaram dando origem a um livro. Em 2009, Ettore lançou Salto: sua história, sua gente – publicação bilíngue e ricamente ilustrada com fotografias da cidade que é a sua paixão.


O envolvimento de Ettore com a implantação do Museu da Cidade de Salto foi decisivo. Como consultor da equipe de implantação, no início da década de 1990, não mediu esforços em sua atuação. Além da orientação histórica, sua participação foi especialmente importante na interface com os doadores das peças mais significativas hoje expostas. Assim sendo, o Museu é a própria materialização do sentimento que Ettore nutre por Salto e sua história. Nesse sentido, seu incansável trabalho como memorialista merece a consideração de toda a comunidade saltense. Documentando fragmentos do passado local em seus escritos, Ettore Liberalesso lega às gerações futuras a possibilidade de compreensão de uma Salto que não mais existe – compreensão esta indispensável para se entender e, especialmente, valorizar nossa cidade no tempo em que vivemos.



Nascido em 31 de março de 1920, o saltense Ettore Liberalesso é nome emblemático em nossa comunidade. Pertencente a uma geração que tem como conterrâneos Anselmo Duarte, Archimedes Lammoglia e Jota Silvestre (todos nascidos em 1920), Ettore é casado com Virgínia Soares Liberalesso – sendo pai de dois filhos. É avô e bisavô. Na infância, cursou, entre 1928 e 1931, o então Grupo Escolar de Salto – hoje Escola Estadual Tancredo do Amaral. Foi aluno de Benedita de Rezende, Alice Barbeito, Antonio Berreta e José de Paula Santos.


Aproveito a coluna desta semana para, além de trazer uma síntese biográfica do protagonista do nosso trabalho, convidar os leitores a acompanhar a primeira exibição do vídeo documentário. Ela ocorrerá no dia do 312º aniversário de Salto, 16 de junho, quarta-feira, como parte do Ato Solene a ser realizado na Sala Palma de Ouro – Centro de Educação e Cultura Anselmo Duarte, às 20h, sendo a entrada franca.


Entre 1933 e 1934, Ettore trabalhou para um senhor cego, Jorge de Souza, lendo jornais por 4 horas diárias. Em agosto de 1934, ingressou na Têxtil Assad Abdala, atual York. Meses mais tarde, transferiu-se para a Brasital, onde permaneceu até 1966, quando se aposentou. Nesse período de mais de 32 anos, Ettore foi pesador da fiação cascame, contínuo de escritório, esteve responsável pelo economato, trabalhou no escritório de pessoal, no departamento de contabilidade administrativa, foi correntista, datilógrafo, arquivista e correspondente. De 1967 a 1971, dirigiu a Auto Salto Administradora de Veículos. E entre 1973 e 1988, foi corretor de imóveis. Foi também vereador da Câmara Municipal de Salto, pela União Democrática Nacional, entre 1952 e 1959.





4 de junho de 2010

A imigração italiana e o Buru

Antes de 1860, a Itália estava dividida em vários pequenos Estados, em geral fracos e dominados por outras potências europeias. Ideias de que a Itália devia formar um só país vinham de longe, mas foi somente no século XIX que ela ganhou força e se completou. A unificação não melhorou a vida do povo italiano. A crise agrícola de 1880 afetou profundamente as pequenas propriedades, que não suportavam apesada carga de impostos do governo e não conseguiam competir com a produção agrícola de outros países. A injustiça social, acompanhada de um governo ineficiente, lançava muitos peninsulares ao desencanto.

Para muitas famílias italianas o sonho de superar as dificuldades vividas na terra natal passou a ser representado pela expressão “fazer a América”. E assim, muitos italianos atravessaram o Oceano Atlântico e aportaram no Brasil, cheios de esperança. Estima-se que, entre homens, mulheres e crianças, o total tenha ultrapassado um milhão e meio de pessoas.

Os emigrantes, de Antônio Rocco, c. 1910

Diante da necessidade de mão-de-obra barata para a manutenção da lavoura do café, São Paulo foi o centro da imigração europeia para o Brasil. Dos quatro milhões de estrangeiros que entraram no Brasil entre 1886 e 1934, 56% vieram para o nosso estado. Enquanto os alemães preferiam ir para o Sul e os portugueses para o Rio de Janeiro, os italianos fizeram do Estado de São Paulo o seu lugar. Quase dois em cada três italianos que imigraram para o Brasil vieram para cá, sendo a maioria esmagadora deles dirigida aos cafezais.

A colheita, de Antônio Ferrigno, 1903

No final do século XIX, grande número de famílias italianas se instalou nas lavouras de café existentes nas proximidades do bairro rural denominado Buru, em Salto – uma região que, à época, se estendia desde a margem direita do córrego do Ajudante e do rio Tietê até as divisas do município de Salto, tendo no meio o próprio rio Buru, que nomeava essa vasta área. Atualmente, seus limites se estendem desde a divisa com os municípios de Indaiatuba e Elias Fausto, na altura do distrito de Cardeal (antigamente denominado Buru de Cima), passando pela região onde está a Capela de Nossa Senhora das Neves (Buru do Meio), até atingir a velha estrada de terra que vai para Capivari (Buru de Baixo).

A então Vila de Salto de Ytu, situada entre as regiões cafeeiras de Itu, Campinas e Jundiaí, era um local bastante modesto em fins do século XIX. Contudo, tornou-se um exemplo significativo da força da presença italiana em solo brasileiro. Nos primeiros anos do século XX era grande o número de italianos que chegava à região de Salto. No ano de 1905, por exemplo, o contingente de naturais da Itália aqui instalados passava de 3000, quando a população saltense era de aproximadamente 4200 habitantes.

As primeiras levas de italianos começaram a chegar a Salto por volta de 1890 – tempo em que ainda eram pouco numerosas as propriedades rurais e se encontravam vastas áreas cobertas pela mata virgem. Valendo-se dessas terras inexploradas e de baixo custo, nelas se fixaram muitas famílias de imigrantes recém chegadas da Itália ou saídas das fazendas de café dos municípios vizinhos ou áreas próximas.


Sítio Fundão, família Quaglino, c. 1901

Uma família de imigrantes trouxe da Itália a primeira imagem de Nossa Senhora das Neves, propagando o culto na região do Buru. Desde o final do século XIX se promoviam novenas, sempre no mês de agosto, que eram encerradas com a procissão da referida imagem. Desde esse tempo festas populares eram realizadas com o intuito de se arrecadas fundos para a construção de uma capela. A capela hoje existente já é a segunda construção e data de 1938.

Capela de Nossa Senhora das Neves, c. 1970

As famílias Rocchi, Di Siervo, Zambon, Bethiol, Pauli, Pitorri, Bolognesi, Cortis, Ognibene, Zanoni, Gianotto, Vallini, Quaglino, Ferrari, Stecca, Santinon, Matiuzzo, Bernardi, Gilberti, Bergamo, Nicácio, Mosca, Fiori - dentre outras - estiveram ligadas à história de ocupação do bairro do Buru e adjacências, bem como aos trabalhos religiosos na capela de Nossa Senhora das Neves.

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966