22 de julho de 2026

Rocha Moutonnée em Salto

Localizado a 100 km da capital paulista, o município de Salto está inserido no eixo formado pelas cidades de Sorocaba, Campinas, Piracicaba e Jundiaí. Suas terras constituem uma região que há várias décadas desperta o interesse de geólogos, geógrafos, paleontólogos e outros estudiosos, atraídos pelos aspectos naturais derivados de sua localização. Esse fato se explica por estarem as terras do município situadas justamente no ponto de contato entre duas regiões geomorfológicas do estado de São Paulo: o Planalto Atlântico, que se inicia na Serra do Mar, e a Depressão Periférica, que, a partir da linha onde Salto se situa, se estende no rumo oeste até atingir a chamada Cuesta de Botucatu, onde tem início o Planalto Ocidental.

Vista por outro ângulo, essa transição mostra a cidade de Salto colocada exatamente na denominada fall line (linha de queda), na margem leste da Depressão Periférica — uma área relativamente plana, com cerca de 600 m de altitude, que se prolonga até subir aos 900 m da Serra de Botucatu. A depressão originou-se através da erosão e do transporte de rochas pela ação do rio Tietê e de outros afluentes que correm para noroeste. O contato entre as regiões pode ser observado nos arredores da cidade de Salto e nos municípios vizinhos de Cabreúva e Itu. Ali, as elevações da Serrinha do Itaguá assinalam o fim do Planalto Atlântico. Nos limites finais do terreno montanhoso corre o rio Tietê, precipitando-se para a linha de queda.

A paisagem de toda a região é caracterizada por um mar de rochas que afloram à superfície. São os matacões, blocos de granito conhecidos geologicamente como "granito de Salto". Essas massas de material fundido se alojaram nas profundezas da crosta da Terra há milhões de anos. Posteriormente, a ação das geleiras, durante as idades glaciais, se incumbiria de causar o processo de erosão, esculpindo as rochas e depositando outros materiais.

Ainda marcado pelas formações rochosas, o terreno finalmente perde a altitude e denota a transição entre regiões. Descortina-se a cidade de Salto e, com ela, a borda oriental da planície sedimentar, o início de um relevo de ondulação mais suave. O Tietê atinge a linha de queda e se prepara para vencer um último trecho encachoeirado. Formado há cerca de 65 milhões de anos, o rio foi responsável por um processo de erosão mais recente que modelou a superfície atual do terreno da região, formando inclusive a queda d'água que surge junto à cidade. Nesse ponto, pode-se observar de modo privilegiado o processo de erosão fluvial, o lento trabalho das águas que correm sobre o leito rochoso, esculpindo pacientemente o granito, graças ao movimento turbilionar de seixos e areia transportados.

É dentro desse peculiar e interessante contexto que surge, a poucos metros da margem esquerda do rio Tietê, um monumento geológico extremamente raro e de notável importância para a ciência: a Rocha Moutonnée de Salto. As rochas denominadas moutonnée são saliências rochosas arredondadas de tamanho variável, cujo formato lembra o de um carneiro deitado. Do nome desse animal em francês, mouton, derivou a palavra moutonnée (acarneirado, com forma de carneiro). Essa forma vista de perfil pode também ser comparada à de uma colher invertida. No caso do exemplar encontrado em Salto, essa visualização se torna difícil devido à dilapidação que a rocha sofreu por exploração comercial. Pela foto se compreende que a parte remanescente da rocha corresponde a apenas 1/5 de seu volume original.

Superfíces de maior interesse geológico.

Descoberta em 1946 pelo geólogo Marger Gutmans, do Instituto Agronômico de Campinas, e descrita ao Segundo Congresso Pan-Americano de Minas e Geologia em 1948, a rocha se revelou um achado de extraordinário valor científico. Mas, para compreender sua real importância, é preciso voltar no tempo — não apenas algumas décadas, mas milhões, centenas de milhões de anos.

Há muito tempo, os cientistas vinham observando com interesse o fato de as margens continentais da África e da América do Sul apresentarem grande semelhança e um encaixe quase perfeito. Esse fato, somado à descoberta de rochas e fósseis semelhantes na Índia, no sul da África e na América do Sul, fez com que surgisse a hipótese — hoje consagrada — de que essas regiões, juntamente com a Austrália e a Antártida, formavam no passado, durante a era Paleozoica, uma gigantesca massa de terras. Era um supercontinente ao qual se deu o nome de Gondwana, em referência ao reino dos Gonds (um povo do centro da Índia, local onde foram encontrados os primeiros fósseis e rochas que comprovaram a teoria).

Há mais de 180 milhões de anos atrás, no período Jurássico, o supercontinente começou a fragmentar-se pelo movimento das grandes placas tectônicas em que se divide a crosta da Terra. Essa movimentação deu início ao processo de separação e migração dos continentes que formavam Gondwana. Ao fim do processo, explicado pela chamada Teoria da Deriva Continental, os continentes atingiram a posição que hoje se verifica. A movimentação das placas se relaciona com as mudanças ocorridas na distribuição dos mares e nas condições climáticas do planeta.

As mais fiéis testemunhas desse passado longínquo são as rochas. Rochas como os blocos graníticos encontrados na região de Salto. Esse granito, e de modo especial a Rocha Moutonnée, testemunha um dos fenômenos mais impressionantes verificados na evolução do planeta: a glaciação (as idades glaciais da Terra). Ainda não estão completamente explicados os motivos causadores dos períodos de intenso resfriamento da Terra. Apontam-se causas de ordem terrestre: a formação de montanhas, a movimentação dos continentes, a atividade vulcânica, alterações na circulação dos oceanos e na composição da atmosfera. Existem ainda outras possíveis causas para a glaciação, de ordem extraterrestre: alterações periódicas no comportamento da órbita da Terra ou na radiação solar recebida pelo planeta.

O que se sabe é que nesses períodos formavam-se geleiras, imensos lençóis de gelo com 1 milhão de quilômetros quadrados ou mais de área e milhares de metros de espessura. Essas impressionantes massas, indicadas no mapa em cor azul, cobriam vastas áreas e se deslocavam sobre regiões mais afastadas dos polos terrestres. De acordo com as evidências geológicas, o atual território do Brasil conheceu pelo menos cinco idades glaciais, todas elas durante a existência do supercontinente de Gondwana. A primeira delas, há 1 bilhão de anos, no período Pré-Cambriano. Seguiram-se outras por volta dos 600, 450 e 350 milhões de anos atrás. A última glaciação ocorreu há cerca de 270 milhões de anos, no período Neopaleozoico, e é de grande interesse porque atingiu a região Sudeste do Brasil.

O lençol de gelo, no caso, deslocou-se a partir da África, de sudeste para noroeste, atingindo a atual bacia do Paraná e a região de Salto. Foi justamente nesse remoto período que uma geleira se deslocou sobre a Rocha Moutonnée, deixando sobre sua superfície os sinais que permitiriam à ciência comprovar, milhões de anos depois, a ocorrência da glaciação no sul do Brasil. Em outras palavras, a rocha é como um livro aberto, e cada porção de sua superfície relata em silêncio uma história fascinante. As geleiras transportavam, dentro e embaixo do gelo, grandes quantidades de fragmentos de rochas e minerais, e funcionavam como lixas ou raspadeiras, raspando a superfície por onde passavam, no chamado processo de abrasão glacial, e empurrando uma pilha de detritos à sua frente. O lado liso e polido da moutonnée se volta para a direção de onde veio a geleira. O lado mais abrupto indica a direção para onde ela seguiu.

Quando o gelo recuava ou derretia, estrias e sulcos ficavam expostos na superfície da rocha. O conjunto de estrias e sulcos pode ser claramente observado na rocha de Salto, na sua face preservada. Esses riscos, alguns mais finos, outros mais profundos, correm paralelamente e evidenciam que a geleira veio de sudeste e avançou no rumo noroeste. A superfície erodida pelo gelo apresenta também outras marcas, chamadas de fraturas de fricção, com forma de meia-lua. A face convexa volta-se para o sentido do movimento da geleira.

Com o derretimento do gelo, os diversos fragmentos transportados eram liberados e, ao se assentarem, formavam sedimentos ou depósitos glaciais. Uma vez consolidados, esses materiais formavam rochas sedimentares que recebem o nome de tilito, apresentando uma composição bastante diversificada, que inclui até seixos de grande porte. Além de seu flanco alisado, estriado e polido, a rocha moutonnée possui outra face, irregular e abrupta, que apresenta fraturas e degraus. Esse lado é resultado do arrancamento produzido pela geleira, ou seja, de sua ação de levantar e remover fragmentos de onde passa. É também o lado que se volta para o rumo tomado pelo gelo.

As rochas moutonnées são de ocorrência muito rara. Além do exemplar encontrado em Salto, só é conhecido mais um no mundo, com características semelhantes, próximo à cidade de Sydney, na Austrália. Infelizmente, por desconhecimento de seu valor, a exploração do granito quase destruiu inteiramente a rocha. A parte remanescente, contudo, foi suficiente para justificar o empenho do governo municipal, dos cidadãos e dos cientistas para obter, junto ao CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), o tombamento da pedra em 23 de abril de 1990, na condição de monumento geológico estadual. Meses depois, já se verificavam as primeiras mobilizações em nome da comunidade científica internacional junto à UNESCO, com vistas ao tombamento da rocha como Patrimônio da Humanidade.

A 16 de fevereiro de 1991, a Rocha Moutonnée teve inaugurado um verdadeiro santuário para sua preservação: o primeiro Parque Ecológico e Geohistórico do continente. Instalado num ponto naturalmente privilegiado, a 2 km do centro da cidade de Salto, o parque ocupa uma área total de 43.338 m² e resultou da participação conjunta de profissionais de diversas áreas: paisagismo, arquitetura, história, museologia e paleontologia. Reunindo recursos da Prefeitura Municipal, da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia e da iniciativa privada — através da Indústria de Papel e Celulose de Salto —, o projeto visou a instalação de uma infraestrutura planejada que se volta à manutenção cuidadosa do parque e ao atendimento e segurança dos visitantes.

No aspecto didático, o parque foi concebido para funcionar como uma escola ao ar livre. Painéis explicativos espalham-se por toda a área e em um pavilhão destinado a atividades didáticas, onde se expõe de modo detalhado o significado da rocha. Os recursos educativos e informativos atendem desde alunos do ensino fundamental até a pós-graduação em geologia, contando com material gráfico e guias para acompanhamento de visitas organizadas por escolas e universidades. A concepção abrangente do projeto do parque permite que ele se volte para outros temas de igual importância e interesse, alertando para a necessidade de se desenvolver uma educação ambiental dirigida à defesa do meio ambiente. Uma pequena amostra desse meio ambiente, de equilíbrio frágil e ameaçado, está nas matas ciliares: as formações vegetais que se localizam à beira dos rios, córregos e lagos. Na região do parque, essa porção de verde é formada por representantes de várias famílias vegetais, variando desde pequenos arbustos até árvores de grande porte.

É de extrema importância a função das matas ciliares dentro do contexto em que se integram, porque atuam como reguladores de rios e córregos, estabilizando o solo das margens, evitando sua erosão e o assoreamento do leito. São responsáveis pela manutenção da qualidade da água, pelo sustento dos organismos aquáticos e de toda a fauna silvestre ribeirinha. Lamentavelmente, as matas ciliares de grande parte dos rios brasileiros acham-se comprometidas por diversos fatores resultantes da ação do homem. Além de preservar um trecho de mata original, o parque apresenta uma arborização planejada com 3.000 mudas de plantas, de 20 espécies diferentes.

Entre todas as coisas que o turista, o estudante e o visitante do parque vão observar, o que se discute bem na sua frente é o rio Tietê. Esse rio, que nasce em Salesópolis, na serra, e que, contrariando todas as leis da natureza, percorre o interior de São Paulo; o rio teimoso, que contraria o que é normal. Esse rio tem uma importância histórica fantástica para o Estado de São Paulo e vai se descortinar na frente das pessoas. Um rio que transcende os limites do Estado e é importantíssimo em termos de Brasil. Um rio doente, que precisa urgentemente de ajuda e de amparo. E a proposta do parque é fazer com que cada pessoa reflita sobre a sua responsabilidade diante desse rio. Não adianta olhar somente a tranqueira, a poluição, a espuma que está à sua volta e lamentar, mas que o visitante se sinta coparticipante desse processo e procure descobrir o que fazer diante disso.

Outrora caudaloso e farto em peixes, o Tietê se viu reduzido à condição de escoadouro e depósito dos refugos da sociedade moderna, como aliás vem ocorrendo com inúmeros outros rios. A natureza não tem condições de processar a decomposição de certos materiais elaborados pelo homem, como os produtos plásticos de uso doméstico e industrial e os detergentes sintéticos. Esse lixo, somado ao esgoto lançado pelas áreas urbanas, altera o nível de oxigenação da água, comprometendo a vida de microorganismos e causando a morte dos peixes. Esses tristes sinais de degradação lançam uma advertência severa e reclamam uma nova postura de responsabilidade coletiva na defesa de bens ameaçados, como os rios e as matas — parcelas de uma casa maior, onde se insere o próprio homem.

Esse parque vai mostrar um pouquinho da história da cidade de Salto. No plano do parque vai se ver também a Matriz de Nossa Senhora, a igreja; vai se ver a primeira indústria da cidade, uma indústria de tecidos (a Brasital). E num conjunto, num plano único, está a história de dezenas, talvez centenas de cidades do interior de São Paulo, que nascem através de uma capela, da religião, e que, por terem um rio ao seu lado, trazem a possibilidade de um industrial montar ali o seu empreendimento. A história de Salto é a história de dezenas de outras localidades. É uma aula de como se formou o interior do Estado de São Paulo.

Também a perspectiva histórica oferecida pelo parque tem seu referencial mais antigo no Porto de Góes, um modesto remanso formado logo abaixo do trecho encachoeirado do rio. O local era habitado por índios Guaianases, que foram se afastando com o avanço de bandeirantes e colonizadores. Segundo os historiadores, trata-se, na verdade, do Pirapitingui mencionado em antigos documentos: o primeiro porto do Tietê (que então se chamava rio Anhembi). Aqui embarcaram as primeiras bandeiras que adentravam os confins do sertão em busca de índios e minas de ouro, atingindo o Mato Grosso e as terras da coroa espanhola no longínquo Paraguai. A partir do início do século XVII, o porto foi abandonado em favor das melhores condições do porto de Araritaguaba (atual Porto Feliz).

A história saltense prossegue com a visão da torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, célula inicial de todo o município. Onde hoje está a matriz, o capitão Antônio Vieira Tavares (sobrinho do famoso bandeirante Raposo Tavares) tomou posse em 1690 do Sítio Cachoeira, adquirido aos sucessores dos donatários da Capitania de São Vicente, e construiu em 1698 uma capela dedicada à Virgem. Ao redor da capela surgia a pequena povoação que permaneceria adormecida por quase 200 anos, até a chegada da ferrovia e das indústrias, por volta de 1870.

A própria razão do nome da cidade pode ser vista no parque. A queda d'água era conhecida pelos índios como Ytu-Guaçu (em português, salto grande). Um espetáculo ainda maior nos tempos em que o Tietê era mais caudaloso e a cachoeira recebia a visita de inúmeros viajantes que passavam pela então província de São Paulo. Figuras célebres, como o escritor e ministro do império José Bonifácio de Andrada e Silva (o Moço, sobrinho do Patriarca da Independência), o pioneiro da fotografia Hercule Florence, o Conde d'Eu e o casal imperial D. Pedro II e Dona Teresa Cristina.

Abaixo da igreja e ao longo do rio, surgem os edifícios da Brasital, sucessora das primeiras fábricas têxteis Júpiter e Fortuna, instaladas em 1873 e 1880. Movidas por turbinas hidráulicas e incluídas entre as pioneiras da industrialização paulista, elas foram grandes responsáveis pelo despertar da pequena vila. Ao lado da Brasital, vê-se a velha Ponte Pênsil. Construída em 1913 para devolver aos pescadores o caminho para o Porto das Canoas — que havia sido obstruído com a construção das fábricas. Restaurada em seu aspecto original, a ponte é um importante componente turístico da cidade.

Finalmente, à direita, está o conjunto de edifícios constituído pela casa de força da Usina Porto de Góes, construída pela extinta empresa Light, de 1924 a 1927. E, a partir da chaminé, a primeira fábrica de papel do Estado de São Paulo, inaugurada em 1889. Hoje, com o nome de Indústria de Papel e Celulose de Salto, produz o papel-moeda utilizado no Brasil.

Pelos caminhos tranquilos do parque, sucedem-se recantos e detalhes nascidos de uma conjugação harmoniosa entre a obra da natureza e a do homem. Um espaço cuja maior proposta é o respeito à vida. Mais que lazer e entretenimento, o Parque Rocha Moutonnée oferece, a cada passo, a oportunidade de aprender que é preciso conciliar o avanço da civilização com o patrimônio natural. Um patrimônio que antecedeu o homem no tempo e que ele não pode criar, mas de cuja preservação depende seu próprio bem-estar e sua sobrevivência.

As lições silenciosas da natureza apontam um ensinamento maior: o de que a Terra e todos os seus seres se entrelaçam numa jornada que os faz dependentes entre si, vindo de um único passado e seguindo para um único futuro.

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Esta é a transcrição da narração do primeiro documentário sobre o tema, disponível no YouTube como registro memorialístico - Moutonnée - A Rocha da Era Glacial – produzido em 1991:

 


 


16 de julho de 2026

O busto de Verdi e a II Guerra Mundial

O busto de Verdi no alto da fachada do Museu, em foto de 2009.

No coração de Salto, o edifício histórico que hoje abriga o Museu da Cidade e o Teatro Municipal carrega em sua fachada um símbolo de profunda relevância artística, política e de identidade local: o busto do consagrado maestro italiano Giuseppe Verdi. Erguido originalmente no topo da cimalha central da sede da antiga Società Italiana di Mutua Assistenza Giuseppe Verdi (fundada em 1903), o busto foi instalado para homenagear o gênio da ópera que, em âmbito nacional, também fora carinhosamente associado como um dos inspiradores de Carlos Gomes. O edifício da sociedade, localizado na confluência das ruas José Galvão e Floriano Peixoto, funcionava como o verdadeiro coração da colônia, abrigando a Escola Anita Garibaldi, a biblioteca do Círculo de Leitura Dante Alighieri e o Cine Verdi. Esse complexo de sociabilidade foi expandido na década de 1930 com a construção da imponente Casa D'Italia, inaugurada com grande solenidade em 15 de fevereiro de 1937.

No entanto, a atmosfera de efervescência cultural e coexistência pacífica foi bruscamente interrompida com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. O alinhamento do Brasil à causa dos Aliados e a posterior declaração de guerra contra as potências do Eixo — do qual a Itália fascista de Benito Mussolini era parte ativa — desencadearam uma violenta fratura na sociedade saltense. A expressiva colônia italiana, que em 1905 representava mais de 70% de toda a população da cidade, passou a ser hostilizada sistematicamente, com seus membros sendo pejorativamente tachados de "quintas-colunas" pelos moradores locais. Sob as diretrizes nacionalistas e repressivas do Estado Novo de Getúlio Vargas, o ensino e o uso público da língua italiana foram terminantemente proibidos, as atividades da Sociedade Giuseppe Verdi foram suspensas e a sede fechada, com suas chaves sendo entregues ao delegado de polícia. Tomadas pelo pânico de represálias físicas e confiscos de bens, diversas famílias de imigrantes queimaram às pressas, nos quintais de suas casas, seus próprios acervos de livros e jornais em italiano.

A tensão acumulada na cidade culminou em um episódio de violência coletiva que mirou os símbolos da presença italiana. Uma multidão inflamada, tomada por impulsos patrióticos, reuniu-se nas imediações do bairro de Vila Nova e desceu a Rua 9 de Julho portando escadas, cordas, chuços e pedras. O grupo dirigiu-se à Praça Paula Santos e confluíu pela Rua José Galvão, estacando defronte ao prédio da Escola Anita Garibaldi. Enquanto os líderes da turba bradavam palavras de ordem como "Abaixo o Eixo! Morra a Itália!", manifestantes lançavam pedras contra o busto de Giuseppe Verdi, que repousava no topo da cornija. Diante da dificuldade vertical de alcançar a estátua, um boiadeiro local, habituado ao manejo de gado, armou um laço de couro cru com argola metálica. Após sucessivas tentativas que ricocheteavam na parede de alvenaria, a laçada finalmente se prendeu às reentrâncias do busto. Sob puxões coordenados e violentos da multidão reunida no meio da rua, a estrutura de sustentação começou a oscilar. O pedestal de tijolos e reboco desmoronou, e a estátua despencou pesadamente sobre a calçada.

Curiosamente, a memória oral desse conturbado dia preservou contradições e episódios pitorescos. Devido ao desconhecimento e à pronúncia truncada de muitos populares na época, o nome de Giuseppe Verdi foi comicamente confundido com figuras inexistentes, como "José Peva" ou "José Pereira". Além disso, enquanto relatórios policiais, crônicas escritas e documentos históricos atestam que o busto foi de fato laçado e derrubado de sua platibanda, alguns depoimentos orais de testemunhas oculares colhidos décadas depois sustentaram a versão de que os agressores tentaram, mas não conseguiram derrubar o monumento. Apesar do furor da turba, o episódio registrou gestos notáveis de coragem civil e oposição à barbárie. O honrado cidadão José Rodrigues Scanho foi o único a enfrentar diretamente a multidão enfurecida naquele momento, exclamando: "O que é isto! O que o Maestro Verdi fez de mal a vocês?!". Outra manifestação de repúdio partiu de uma jovem estudante que saía de um colégio de freiras nas proximidades, a qual interveio verbalmente contra os manifestantes questionando o sentido daquele vandalismo gratuito.

As consequências do ataque também se fizeram sentir de forma imediata na economia e na dinâmica comercial do município. Justino Costa Pinto, um influente chefe político local e proprietário da padaria que posteriormente seria batizada como Padaria Primavera, destacou-se como um dos principais instigadores do tumulto, tentando depredar ativamente a fachada do prédio italiano. No entanto, como a quase totalidade de sua clientela de panificação era composta por imigrantes italianos e seus descendentes, a reação da colônia foi imediata e silenciosa. No dia seguinte ao ocorrido, a comunidade italiana promoveu um boicote absoluto ao estabelecimento de Justino. Sem conseguir vender um único pão, ele foi obrigado a desfazer-se do negócio às pressas, vendendo o estabelecimento para o imigrante Antonio Pittorri.

Com o término do conflito em 1945 e o retorno dos expedicionários saltenses que lutaram nos campos da Itália — a maioria deles, ironicamente, portando sobrenomes italianos —, o clima de xenofobia dissipou-se. Como um ato de reparação pelo deplorável vandalismo, o busto de Giuseppe Verdi foi devidamente reconstruído e reconduzido ao seu pedestal original no alto da cimalha. O prédio foi devolvido aos seus diretores anos depois, sendo desapropriado consensualmente nas décadas de 1980 e 1990 para abrigar o Museu da Cidade e o Teatro Giuseppe Verdi. Ali, no topo da fachada histórica, a imagem do maestro permanece altiva, testemunhando a resistência, a dor e a definitiva integração da identidade italiana na história de Salto.


19 de junho de 2026

Prefeitos de Salto (1889 a 2026)

A história administrativa de Salto confunde-se com a própria evolução urbana e social do município. O cargo de chefe do Poder Executivo, inicialmente chamado de intendente e posteriormente de prefeito, foi instituído em 1889, juntamente com a Proclamação da República. Desde então, dezenas de homens conduziram a cidade, cada qual deixando sua marca no desenvolvimento local.

A Prefeitura Municipal funcionou no prédio da Rua Dr. Barros Júnior durante 56 anos, operando no local de 1922 a 1978. A transição para esse endereço ocorreu graças ao então prefeito José de Arruda Mello (o "Zé de Mello"), que comprou o casarão em 1921 para instalar ali o Paço Municipal. Já a saída definitiva aconteceu durante o segundo mandato do prefeito Jesuíno Ruy, que foi o responsável por inaugurar o novo e atual prédio da Prefeitura em 1º de fevereiro de 1978.


Os Pioneiros e o Grande Surto de Progresso

Os primeiros anos da República trouxeram à liderança nomes como Antônio Alves Cruz e Domingos José da Cruz, logo em 1889. Contudo, foi o engenheiro Dr. Francisco Fernando de Barros Júnior quem assumiu como o primeiro intendente oficial em 1890, recebendo a alcunha de "Pai dos Saltenses" por sua atuação heroica e benevolente durante a trágica epidemia de varíola que assolou a região, nos anos anteriores.

Nas décadas seguintes, Júlio Lopes da Silva Fragoso viu a então vila ser elevada à categoria de cidade (1906) e iluminada pela energia elétrica (1907). Pouco depois, Luiz Dias da Silva (que governou entre 1912-1916 e 1917-1918) foi responsável por um dos maiores surtos de progresso de Salto: implantou a rede de água e esgoto, construiu o Matadouro Municipal, a Cadeia Pública, o primeiro Grupo Escolar (Tancredo do Amaral) e a famosa Ponte Pênsil. Foi também em seu governo, no final de 1917, que "Salto de Ytu" passou a se chamar oficialmente apenas "Salto".







A Era Vargas e os Interventores

A Revolução de 1930 alterou a dinâmica política nacional e local. Com a queda da República Velha, prefeitos militares foram nomeados, destacando-se o Major José Garrido (1931-1932). Garrido impulsionou o calçamento a paralelepípedos da Rua 9 de Julho, criou o primeiro brasão e o hino da cidade, sendo lembrado como um grande amigo da população. Outro nome marcante da época foi Hilário Ferrari, imigrante italiano e comerciante que governou entre 1927 e 1930. Ele foi deposto pela Revolução, voltou ao cargo em 1938, mas o deixou meses depois porque o governo de Getúlio Vargas proibiu estrangeiros de exercerem cargos executivos.




O Pós-Guerra e a Expansão Urbana

Nas décadas de 1940 a 1960, a cidade vivenciou forte crescimento de infraestrutura. João Batista Ferrari, o "Tita" (1939-1945 e 1948-1951), destacou-se pela construção de diversas pontes sobre os rios Tietê e Jundiaí e pela instalação do Ginásio Estadual e da Escola Industrial. Em seguida, Vicente Scivittaro, o popular "Chinchino", governou em duas gestões (1952-1955 e 1960-1963), entregando obras fundamentais como a Maternidade Nossa Senhora do Monte Serrat e a Concha Acústica, além de lutar pela criação da Comarca de Salto. Seu sucessor, Joseano Costa Pinto (1964-1969), deu continuidade ao desenvolvimento focando na educação e na criação de inúmeras praças, como a Praça XV de Novembro.




A Frente Operária e a Industrialização

No final dos anos 1960, a política saltense inovou com o surgimento da Frente Operária, um movimento popular de trabalhadores sindicalistas que elegeu Jesuíno Ruy. Jesuíno governou por três mandatos (1969-1973, 1977-1983 e 1993-1996), inaugurando a primeira estação de tratamento de água do município em 1969 e, posteriormente, a polêmica segunda imagem no Monumento à Padroeira. Seu sucessor imediato, Josias Costa Pinto (1973-1977), focou na captação de novas indústrias de grande porte e na criação do Departamento de Água e Esgoto para modernizar o saneamento.


A Modernidade e o Século XXI

A transição para os anos 1990 foi marcada pela gestão de Eugênio Coltro (1989-1992), cuja administração deixou um legado cultural e ambiental profundo com a criação do Museu da Cidade, do Parque da Rocha Moutonnée e do Parque do Lago. No século XXI, a política saltense viu a alternância de gestores como Pílzio Di Lelli, Juvenil Cirelli e Laerte Sonsin Jr., além da figura de José Geraldo Garcia, que se consolidou como o primeiro chefe do Executivo a ser eleito para um quarto mandato na história da cidade (2005-2012, 2017-2020 e 2025-2028*).


*Projeção de mandato.


Conheça a biografia de alguns dos prefeitos de Salto:

Antônio Alves Cruz - Foi o terceiro intendente da história de Salto, embora seu mandato tenha sido um dos mais curtos já registrados. Ele governou a cidade por exatos três meses, entre 7 de janeiro e 6 de abril de 1899, em um período de forte transição política na Primeira República. Seu nome batiza uma das vias do Parque Residencial Marechal Rondon.

Domingos José da Cruz - Sucedeu Antônio Alves Cruz, governando de 6 de abril de 1899 até 7 de janeiro de 1902. Seu mandato foi extremamente turbulento devido às tensões sociais crescentes: a população travou duras brigas contra a diretoria das antigas fábricas Júpiter e Fortuna, que simplesmente bloquearam o acesso público à margem direita do rio Tietê, junto à queda d'água. Naquela época curiosa, Salto contava com apenas 250 eleitores, que votavam todos em uma única sessão.

Francisco Fernando de Barros Júnior (Dr. Barros Júnior) - O inesquecível "Pai dos Saltenses" nasceu em Capivari (SP) em 1856, cursou engenharia civil na Syracuse University (EUA) e chegou a Salto em 1880. Construiu a tecelagem Júpiter (1882) e foi um líder de muitos talentos: abolicionista fervoroso, deputado estadual, juiz de paz e fundador do primeiro jornal local, o Correio do Salto (1888). Na terrível epidemia de varíola de 1887, agiu como herói: montou lazaretos, comprou leitos, importou médicos da capital e chegou a marchar com a banda de música soltando foguetes nas ruas para afugentar o vírus e animar os doentes. Apesar de sua riqueza inicial, ele faliu nos anos seguintes. O primeiro intendente oficial da cidade perdeu sua fortuna, passou a andar humildemente guiando um carro de bois e, em um triste episódio, teve até o crédito negado ao tentar comprar um par de sapatos. Faleceu aos 62 anos, vitimado pela gripe espanhola, trabalhando como coletor de rendas federais.

João de Almeida Campos - Prefeito entre 1902 e 1904, vivenciou marcos importantes do desenvolvimento. Em junho de 1902, recebeu a primeira proposta para dotar a cidade de luz elétrica e deu início às lutas para construir o paço municipal e uma cadeia pública. A curiosidade mais fascinante de seu governo ocorreu quando a Câmara votou uma lei autorizando a doação municipal de cem mil réis para ajudar nas despesas das experiências espaciais de Santos Dumont, em Paris.

Júlio Lopes da Silva Fragoso - Completou o mandato do Dr. Barros Júnior e governou de 1906 a 1908. Foi exatamente sob sua liderança, em 19 de janeiro de 1906, que a então vila foi elevada oficialmente à categoria de cidade (embora ainda se chamasse "Salto de Ytu"). Foi em seu governo que a luz elétrica enfim foi inaugurada, em 1907. Registros mostram que Salto tinha então 6.000 habitantes, 700 casas, 13 ruas, duas praças e duas escolas isoladas.

Domingos Fernandes da Silva - Entrou para a história política por ser o primeiro a governar sob o sistema de vereador-prefeito, implementado em 1908, tendo mandatos entre 1908-1910 e 1911-1912. Em sua gestão, a municipalidade conseguiu uma imensa doação de terras do Estado, o que viabilizou a sanção da lei para construir o que futuramente seria o Grupo Escolar Tancredo do Amaral, em 1909.

José Nastari - Prefeito entre 1910 e 1912, esteve à frente da cidade no momento em que Salto começou a despertar seu potencial turístico organizado, recebendo a primeira proposta da gigante Società Ítalo-Americana para construir o mirante e dar forma ao lazer ao redor da cachoeira.

João Batista Cruz - Entrou para as curiosidades estatísticas da administração saltense: acredita-se que tenha sido o político que ocupou a cadeira do Executivo pelo menor tempo contínuo. Seu relâmpago mandato de prefeito durou meros 11 dias, indo de 28 de julho a 8 de agosto de 1912.

Luiz Dias da Silva - Nascido em Itu em 1875, governou em dois mandatos (1912-1916 e 1917-1918) e promoveu, possivelmente, o maior surto de progresso infraestrutural da história saltense na Primeira República. Foi ele o responsável direto por implantar a primeira rede de água e esgoto, construir o Matadouro Municipal, a Cadeia Pública, o serviço telefônico e a histórica Ponte Pênsil. Foi em seu governo (1917) que o nome da cidade perdeu o "de Ytu". Em 1952, um evento de grande comoção ocorreu na prefeitura para descerrar seu retrato em homenagem.

Regolo Salesiani - Nascido em 1871, foi possivelmente um dos primeiros imigrantes italianos natos a assumir uma prefeitura no Brasil. Governou no curto e calmo biênio de 1916 a 1917, no qual evitou fechamentos no largo da Matriz. Nos anos 1930, ele chegaria a participar ativamente do Fascio de Salto.

Luiz da Silva Leite - Conhecido popularmente como "Luizinho", governou entre 1917 e 1918. Em sua gestão, renovou contratos de eletricidade e presenciou a inauguração, feita pela colônia italiana local, de um monumento no cemitério dedicado aos irmãos Nerone e Raoul Begossi, mortos na Primeira Guerra Mundial. E sancionou, em 29 de dezembro de 1917, a lei que simplificou de vez o nome da cidade para "Salto".

José de Arruda Mello - O "Zé de Mello", antes escrivão da coletoria federal, governou de 1920 a 1926. Em sua longa gestão, Salto viu a imponente Vila Operária da Brasital e a usina de Porto Góes serem erguidas. Durante a violenta Revolução de 1924, enfrentou a escassez de alimentos e decretou o primeiro racionamento e tabelamento de preços de produtos básicos da história local. Em 1921, foi ele quem comprou a velha casa da rua Dr. Barros Júnior para instalar nela o Paço Municipal.

Teotônio Corrêa de Moraes - Comerciante de grande prestígio na época, assumiu a Prefeitura brevemente em 1923, mas sua figura foi central para manter a ordem legislativa; ele ocupava a presidência da Câmara Municipal de Salto bem no momento em que ela foi abruptamente dissolvida pela Revolução de 1930.

Hilário Ferrari - De origem italiana, fixou-se em Salto e fez fortuna com seu "Grande Bazar Saltense" (depois rebatizado como "Armazém Popular"). Muito ligado aos esportes e à sociedade (fundou a S.I.R. Ideal em 1927), foi vereador por quatro vezes. Sua carreira como prefeito foi uma montanha-russa: governou entre 1927 e 1930 até ser deposto pela Revolução, e retornou em 1938. Meses depois, foi forçado a abandonar definitivamente o posto, pois as leis do Estado Novo passaram a proibir estrangeiros de serem prefeitos no Brasil.

Hilário Ferrari

Major José Garrido - Interventor militar em 1931 e 1932, apesar do viés autoritário, ganhou a imensa simpatia da população como realizador. Em pouco tempo, ele calçou as vias a paralelepípedos, demoliu os antigos muros que cercavam o jardim público, abriu escolas, elaborou e oficializou o primeiro Brasão de Armas e o primeiro Hino Oficial de Salto.

Major Garrido no Jardim Público de Salto

Major Garrido em 1932

Francisco de Arruda Teixeira - O "Chiquinho" (prefeito de 1932-1935 e 1936-1938) governou a cidade durante o complexo fechamento das instituições democráticas rumo ao Estado Novo. Chegou a governar quase 20 meses seguidos sem nenhuma câmara de vereadores e conseguiu trazer para Salto uma fundamental agência da Caixa Econômica Estadual.

"Chiquinho", prefeito nos anos 1930

Lafayette Brasil de Almeida - Cidadão engajado e farmacêutico experiente, liderou o município entre 1935 e 1936. A principal marca urbanística de sua curta gestão foi a reformulação toponímica das vias do centro da cidade: foi ele o responsável, por exemplo, por mudar o nome da antiga "Rua de Campinas" para a atual "Rua 9 de Julho".

João Batista das Chagas - Teve uma passagem curiosa e rapidíssima pela liderança municipal, chefiando o Executivo de Salto após assumir por meio de uma pequena comissão por cerca de três meses durante o ano de 1936.

João Baptista Ferrari - Popularmente conhecido como "Tita Ferrari", foi um influente líder político e prefeito de Salto, em São Paulo, cuja administração marcou o segundo surto industrial do município. Membro de uma tradicional dinastia política local — sucedendo seu pai, Hilário Ferrari —, ele governou a cidade com uma visão desenvolvimentista focada na atração de grandes empresas. Sua principal marca administrativa foi a criação de leis de isenção fiscal que atraíram indústrias fundamentais para a economia saltense, como a Brasital e a Eucatex. Reconhecido por seu impacto duradouro no progresso e na infraestrutura urbana, seu legado permanece vivo na memória da cidade e é homenageado no nome de uma importante escola municipal de tempo integral, o Cemus X.

Tita Ferrari

João de Moura Campos - Coletor de impostos estadual e participante do Conselho Municipal de Geografia (1938), ocupou a prefeitura de abril de 1945 a dezembro de 1947. Um fato raríssimo: o rito de sua transmissão de posse ocorreu em São Paulo, nas dependências do Palácio do Governo, diante de uma gigantesca e animada caravana de moradores saltenses.

Vicente Scivittaro - O imensamente popular "Chinchino" (gestões de 1952-1955 e 1960-1963) modernizou as estruturas públicas saltenses. Ele desativou o antigo "Cemitério Velho", concebeu o loteamento do Jardim Três Marias, fez nascer o Ginásio Paula Santos, a Concha Acústica e inaugurou a Maternidade Municipal. Como coroação da sua vida pública, no exato último dia de seu segundo mandato, ele pôde celebrar a sanção da lei que finalmente criava a Comarca de Salto.

O popular "Chinchino"

Hélio Steffen - Natural de Indaiatuba, Hélio foi um intelectual multifacetado: locutor de rádio, ator teatral, professor e advogado. Seu mandato de 1956 a 1959 foi focado no social. Ele reestruturou o jardim central para abrigar a Concha Acústica, criou o sagrado Lanche Escolar das crianças, viabilizou a ETA e asfaltou a velha estrada de terra que ligava Salto a Itu. Ele ainda comprou uma imensa gleba do Parque Bela Vista, de onde germinaram creches, asilo e dezenas de casas populares. Faleceu em 1984.

Hélio Steffen

Joseano Costa Pinto - Prefeito entre 1964 e 1969, esse ex-ator e professor foi o "prefeito verde e organizador" de Salto. Batizou oficialmente mais de 90 ruas que antes eram conhecidas apenas por números, plantou centenas de árvores e criou grandes praças, como a XV de Novembro e a da Saudade. Sob seu governo, Salto ganhou o prédio da Estação de TV (retransmissora de sinal, antes necessária), a iluminação noturna a vapor de mercúrio e o icônico Restaurante do Salto no mirante da cachoeira. Faleceu em 1981.

Joseano, criador da Praça XV em 1968

Jesuíno Ruy - Consolidou-se como uma das figuras políticas mais marcantes da história de Salto ao chefiar o Executivo por três mandatos, despontando originalmente como o principal nome da Frente Operária, um movimento político-sindical de forte apelo popular que alcançou o poder em pleno regime militar para defender a classe trabalhadora. Em sua primeira gestão (1969-1973), demonstrou uma postura enérgica ao dispensar uma empreiteira morosa e utilizar pedreiros da própria prefeitura para acelerar e inaugurar a Estação de Tratamento e Filtragem de Água em 1969, além de viabilizar a construção do prédio do Clube Recreativo dos Trabalhadores Saltenses (CRETS), embora tenha enfrentado forte oposição da Câmara devido à polêmica cobrança de taxas de água em terrenos baldios. No segundo mandato (1977-1983), Ruy entregou grandes obras de infraestrutura e lazer, como o novo prédio da Prefeitura Municipal em 1978 e o imponente Monumento à Padroeira em 1980, cuja construção gerou severas críticas da população que sofria com constantes cortes de água no verão e considerava a imagem supérflua; nessa mesma época, ele expandiu a urbanização ao nomear diversas ruas com figuras históricas locais e chegou a articular com o governador Paulo Maluf uma nova ponte sobre o rio Tietê, que acabou barrada por disputas políticas. Por fim, em sua última passagem pelo Executivo (1993-1996), manteve o foco na organização urbana e cultural, marcada pela criação do Cineclube Anselmo Duarte e por grandes espetáculos como "A Cultura Saltense na Paixão de Cristo", ao mesmo tempo em que continuou a sancionar a nomenclatura de novas vias para preservar a memória do município.

Jesuíno em seu primeiro mandato

Eugênio Coltro - Chefe do Executivo entre 1989 e 1992, tinha origem operária (entrou na Brasital em 1949 e foi da chefia de escritório). Seu mandato foi responsável pelas maiores entregas turísticas, históricas e ambientais. Foi Coltro quem criou o Museu da Cidade, reabriu a interditada Ponte Pênsil, construiu moradias no "Jardim do Éden" e fundou o Parque do Lago e o Parque da Rocha Moutonnée. Faleceu aos 58 anos, meses após deixar o cargo, em 1993.


Veja a lista completa dos chefes do Executivo saltense:

Observações importantes: a repetição de anos na cronologia ocorre porque, entre o final do século XIX e o início do século XX, os chefes do Executivo eram nomeados de forma indireta pela Câmara Municipal, atuando inicialmente como membros do Conselho de Intendência. A partir de 1908, com Domingos Fernandes da Silva, teve início o sistema de "vereador-prefeito", onde os próprios vereadores se alternavam no comando, gerando mandatos interinos e altíssima rotatividade. Exemplos:

  • João Batista Cruz: registra o mandato mais curto da história de Salto, governando por meros 11 dias (de 28 de julho a 8 de agosto de 1912).
  • Antônio Alves Cruz: ocupou o cargo por exatos três meses na transição republicana (janeiro a abril de 1889).
  • João Batista das Chagas: chefiou o Executivo por meio de uma comissão por cerca de três meses em 1936.
  • Orestes Ferrari: mesmo já em um período democrático, governou por apenas cerca de 45 dias no final de 1951. Como vice-presidente da Câmara, ele assumiu o Executivo para cobrir uma licença na reta final do mandato.

Além do antigo sistema indireto, as décadas de 1930 e 1940 (Era Vargas) também geraram sobreposições anuais devido às nomeações e deposições abruptas de prefeitos e interventores estaduais, como as curtas passagens de Hilário Ferrari e do Major José Garrido.

  • Antônio Alves Cruz (1889)
  • Domingos José da Cruz (1889 a 1902)
  • Francisco Fernando de Barros Júnior (1890 a 1895 e 1905 a 1906)
  • João de Almeida Campos (1902 a 1904 e 1926 a 1927)
  • Júlio Lopes da Silva Fragoso (1906 a 1908)
  • Domingos Fernandes da Silva (1908 a 1910, 1911 a 1912 e 1919 a 1920)
  • José Nastari (1910 a 1911 e 1912)
  • João Batista Cruz (1912)
  • Luiz Dias da Silva (1912 a 1916)
  • Regolo Salesiani (1916 a 1917)
  • Luiz da Silva Leite (1917 a 1919)
  • José de Arruda Mello (1920 a 1923 e 1923 a 1926)
  • Teotônio Corrêa de Moraes (1923)
  • Hilário Ferrari (1927 a 1930 e 1938 a 1939)
  • Major José Garrido (1931 a 1932)
  • Francisco de Arruda Teixeira (1932 a 1935 e 1936 a 1938)
  • Lafayette Brasil de Almeida (1935 a 1936)
  • João Batista das Chagas (1936)
  • Ledubino de Aguiar Frias (1939)
  • João Baptista Ferrari (1939 a 1945 e 1948 a 1951)
  • João de Moura Campos (1945 a 1947)
  • Orestes Ferrari (1951)
  • Vicente Scivittaro (1952 a 1955 e 1960 a 1963)
  • Hélio Steffen (1956 a 1959)
  • Joseano Costa Pinto (1964 a 1969)
  • Jesuíno Ruy (1969 a 1973, 1977 a 1983 e 1993 a 1996)
  • Josias Costa Pinto (1973 a 1977)
  • Pílzio Di Lelli (1983 a 1989 e 2001 a 2004)
  • Eugênio Coltro (1989 a 1992)
  • João Guido Conti (1997 a 2000)
  • José Geraldo Garcia (2005 a 2012, 2017 a 2020 e 2025 a 2028*)
  • Juvenil Cirelli (2013 a 2016)
  • Laerte Sonsin Junior (2021 a 2024)
*Projeção do atual mandato.

17 de junho de 2026

História da ferrovia em Salto

A história da ferrovia em Salto teve início em 26 de novembro de 1870, quando os trilhos da Companhia Ytuana de Estradas de Ferro alcançaram as margens do rio Jundiaí, marcando o local da futura estação. A inauguração oficial do edifício, erguido na atual Praça Álvaro Guião sob a direção do mestre de obras João Garcia, ocorreu em 2 de abril de 1873, antecipando-se, curiosamente, à inauguração da estação da vizinha Itu.

Vista de Salto com a estação ferroviária em primeiro plano, 1929.

Naquela época, Salto era uma modesta povoação com menos de mil habitantes, mas a chegada do trem operou como um catalisador decisivo para a sua transformação industrial. O modal viabilizou a instalação pioneira de tecelagens nas imediações da cachoeira, como a fábrica "Fortuna" de José Galvão, em 1875, e a "Júpiter" de Barros Júnior, em 1882, além da Fábrica de Papel Paulista em 1889. O trem tornou-se a artéria vital para essas indústrias, escoando produtos e trazendo matérias-primas e o maquinário importado que ditaram a nova economia local.

Em 1914, a Estação de Salto passou a servir ao ramal de Campinas.  As pessoas faziam a viagem de Salto até Jundiaí nos trens da Ytuana. De lá iam à capital ou ao porto de Santos nos vagões da São Paulo Railway Company. Na foto, vê-se a retirada de fardos de algodão que à época eram transportados até as tecelagens em carroças puxadas por burros.

Além do forte impacto econômico, a ferrovia alterou profundamente a sociabilidade da cidade, em especial durante as tradicionais Festas do Salto, celebradas em louvor à Padroeira Nossa Senhora do Monte Serrat no início de setembro. A partir de 1876, a companhia ferroviária passou a disponibilizar trens especiais, operando em curtos intervalos e com tarifas reduzidas, para transportar o grande volume de ituanos e visitantes que afluíam para as festividades profanas e religiosas da cidade. Inicialmente, o desembarque na estação exigia que os passageiros atravessassem o rio Jundiaí a bordo de uma balsa para acessar o centro urbano, uma barreira superada apenas em agosto de 1888, com a construção de uma ponte de madeira projetada e financiada por Barros Júnior.

Planta da "Villa de Salto de Ytu" em 1889, já indicando a Estação e a ponte sobre o Jundiaí.


Estação Ferroviária de Salto, década de 1930.


Família Rigolin reunida na Estação Ferroviária de Salto no final da década de 1940. Ao centro, Pedro (Pietro) Rigolin com os filhos Carlito, Pedrinho e Eloy (à esquerda), e Agnelo e Libero (à direita). Postagem de Ana Ferreira no Facebook.

Foto da década de 1940. Contribuição no Facebook.


Construção da ponte de madeira sobre o Rio Jundiaí, 1939. Ao fundo, vê-se a Estação de Salto.


Eloy Rigolin, Terezinha Rigolin da Rós Tecchio e Luiza Cazarine Rigolin reunidos na Estação Ferroviária de Salto entre o final dos anos 1940 e início dos anos 1950.

O apogeu da Estação de Salto estendeu-se até a década de 1950, período em que o trem reinava absoluto no transporte de cargas e mantinha seis ligações diárias de passageiros com a capital paulista. A importância logística era tamanha que, em 1959, o pátio ferroviário contava com cinco desvios particulares direcionados a pedreiras locais e a grandes indústrias como a Brasital (com um desvio de quase 2 km), a Eucatex e a EMAS. A estação coordenava uma intensa e complexa movimentação diária: desembarcava fardos de algodão, celulose e bauxita, e exportava café, granito, artigos de couro do Cortume Telesi, vinho das vinícolas Milioni e Donalísio, além de dezenas de vagões carregados com chapas de fibra e óxido de alumínio.

Foto de 1981, com trens operando. Postagem de Ivan Prado no Facebook.


Anos 1980

Detalhe do portão da estação ferroviária de Salto, 1978. Foto de W. Rigolin.

O declínio do modal ferroviário começou a se desenhar com a expansão e melhoria da malha rodoviária paulista e das linhas de ônibus, culminando no encerramento definitivo do transporte de passageiros em 1976. Tendo operado sob a administração de diversas companhias ao longo de sua história – Ytuana, Sorocabana e, por fim, FEPASA –, a estação histórica foi desativada em 1987, quando a ferrovia ganhou um novo traçado fora do centro urbano, construído para além da Eucatex. Posteriormente, o icônico edifício foi ressignificado e passou a abrigar atividades educacionais e culturais, preservando na paisagem da praça a memória da era de ouro dos trilhos saltenses.


Fotos do ano seguinte à desativação da Estação de Salto, tiradas por Anicleide Zequini (abril de 1988):









Apropriação turística com o "Trem Republicano"

A desativação da malha ferroviária central na década de 1980 parecia ter encerrado em definitivo a relação de Salto com os trilhos, mas o patrimônio histórico foi resgatado por meio de um ambicioso projeto de turismo regional. Em dezembro de 2020, o leito ferroviário que conecta as cidades de Itu e Salto foi reativado com a inauguração oficial do Trem Republicano, um passeio turístico operado pela concessionária Serra Verde Express. O nome do atrativo faz uma linha direta de conexão com a Convenção de Itu de 1873, marco fundamental do movimento que culminou na Proclamação da República, oferecendo aos visitantes uma verdadeira viagem no tempo ao longo de um trajeto cênico de pouco mais de sete quilômetros. As composições contam com vagões temáticos que homenageiam personalidades históricas da região, como o próprio engenheiro e industrial saltense Barros Júnior, unindo o lazer à difusão da história local.

Essa nova vocação turística transformou o antigo complexo da Praça Álvaro Guião em um movimentado ponto de convergência cultural e de recepção de visitantes de todo o país. O prédio da antiga estação foi totalmente restaurado, preservando sua fachada original de 1898.


Tópicos importantes da história da ferrovia em Salto

  • A chegada dos trilhos da Companhia Ytuana em 26 de novembro de 1870 não significou a inauguração imediata do edifício que conhecemos na Praça Álvaro Guião, mas sim a fixação de um marco fundamental no local exato planejado para a futura estação. Nos primeiros anos após a abertura oficial em 1873, a jornada dos passageiros e o transporte de cargas enfrentavam um desafio geográfico considerável, pois o acesso ao centro urbano exigia a travessia do rio Jundiaí a bordo de uma balsa, operada exatamente no trecho que hoje corresponde ao final da Rua Monsenhor Couto. Esse obstáculo logístico só foi superado em agosto de 1888 com a instalação da ponte de madeira projetada e custeada pelo Dr. Barros Júnior, uma estrutura estrategicamente erguida pouco acima da ponte que existe nos dias atuais.

  • A intensa movimentação social gerada pelas Festas do Salto no século XIX ficou eternizada nas páginas da imprensa da época, revelando o papel da ferrovia na aproximação das comunidades locais. Um aviso histórico publicado no jornal Imprensa Ytuana, em 4 de setembro de 1881, detalhava com precisão a dinâmica da operação especial montada para os festejos da Padroeira, informando que no dia 8 de setembro os trens extraordinários correriam como de costume. Para a véspera, dia 7, o periódico anunciava um trem especial que partiria de Itu às 5 horas da tarde e regressaria de Salto durante a noite, iniciando sua viagem de volta pontualmente 15 minutos após um prolongado apito da máquina, convocando os ituanos para o embarque.

  • Durante a década de 1950, o transporte ferroviário atingiu seu auge de conectividade na região, oferecendo aos moradores de Salto uma rotina rigorosa e eficiente de viagens diárias com destino à capital paulista. A cidade contava com seis ligações diárias de passageiros, distribuídas simetricamente entre duas rotas principais que garantiam o fluxo contínuo de viajantes. Três dessas conexões partiam nos horários pontuais das 5h00, 11h00 e 18h00 via Jundiaí, onde era realizada a baldeação pelos trilhos da São Paulo Railway; as outras três saídas ocorriam via Mairinque, programadas para deixar a estação exatamente 30 minutos após as primeiras, mantendo com precisão os mesmos intervalos ao longo do dia.

  • A pujança industrial saltense no pátio ferroviário de 1959 ia muito além do transporte de grandes volumes de bauxita, algodão e celulose, englobando uma lista exaustiva de insumos que abasteciam o comércio local e fábricas como a Têxtil Assad Abdala e a Fábrica Picchi. Pelos trilhos desembarcavam mercadorias fundamentais como cimento, madeira, soda cáustica, bobinas de aço e botijões de gás, enquanto a pauta de exportação movimentava a economia regional com o escoamento diário de paralelepípedos, pedra britada e areia extraída diretamente dos leitos dos rios Jundiaí e Tietê. A eficiência desse sistema era traduzida em números expressivos pelas estatísticas da Eucatex, que registravam a saída média de impressionantes 10 vagões carregados de chapas de fibra por dia.

  • A trajetória institucional da Estação de Salto reflete as profundas transformações financeiras e políticas do setor ferroviário paulista, marcado por uma constante sucessão de fusões, falências e estatizações. A linha foi inicialmente organizada em 1870 por comerciantes, industriais e fazendeiros locais sob a bandeira da Cia. Ytuana de Estradas de Ferro, fundindo-se em 1892 com a Sorocabana para formar a Cia. União Sorocabana e Ytuana, que viria a falir em 1903. Após ser adquirida pelo Governo do Estado de São Paulo em 1905, a ferrovia passou pela gestão da concessionária estrangeira The Sorocabana Railway Company entre 1907 e 1919, retornou ao controle estatal direto como Estrada de Ferro Sorocabana e, em 1971, foi incorporada à estatal FEPASA (Ferrovia Paulista S/A), culminando na abertura de um novo ramal moderno em 1985 e na desativação definitiva da centenária estação central em 1987, quando os trilhos foram desviados para além da Eucatex.

Infográfico com a cronologia da ferrovia em Salto.

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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966