24 de abril de 2026

A imigração italiana em Salto

O desenvolvimento do município de Salto, entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, está intrinsecamente ligado à imigração italiana, que reconfigurou tanto o espaço urbano quanto o rural. Atraídos, num primeiro momento, para as fazendas de café do interior paulista, esses imigrantes logo se deslocaram para o núcleo urbano. O impacto demográfico foi tamanho que, em 1905, dos cerca de 4.200 habitantes da cidade, mais de 3.000 eram nascidos na Itália.


Panoramas de Salto no início do século XX.

O capital têxtil e a moldura urbana

A partir da virada do século, o capital italiano transformou a fisionomia da cidade. O empresário Enrico Dell'Acqua e a Società per l'Esportazione e per l'Industria Italo-Americana adquiriram as pioneiras tecelagens Júpiter e Fortuna. Esse complexo, que em 1919 daria origem à Brasital S/A, passou a ditar o ritmo da urbanização.

A construção das vilas operárias é o reflexo material dessa hegemonia. Para atrair e fixar a mão de obra, a empresa ergueu a Vila da Barra (1911) e, posteriormente, a Vila Operária Brasital (1920-1925), com os famosos "Quintalões". Este último foi um projeto monumental de 244 casas inspirado no Istituto Autonomo Bustese Case Popolari, da região de Busto Arsizio, na Itália. A estética da fábrica, com seus tijolos à vista e ameias gibelinas, assemelhava-se às antigas fortificações de Florença e Verona, impondo uma paisagem europeia ao interior paulista.

Toda essa estrutura forjou a imagem da Brasital como a grande "mãe de Salto", materializando um modelo paternalista que oferecia moradia, creche e armazém, mas exigia em troca uma rigorosa disciplina fabril.

Ao fundo, o complexo da Brasital S/A por volta de 1927.

A vida rural e o Bairro do Buru

Enquanto as chaminés dominavam o centro urbano, a zona rural era desbravada por dezenas de famílias que, a partir de 1890, adquiriram terras de baixo custo. O núcleo dessa ocupação foi o vasto bairro do Buru, tradicionalmente dividido em Buru de Baixo, do Meio e de Cima.

Nessa geografia, enraizaram-se famílias pioneiras como Zanoni, Stecca, Zambon, Rocchi, Di Siervo, Bethiol, Pauli, Pitorri, Bolognesi, Cortis, Ognibene, Gianotto, Vallini, Quaglino, Ferrari, Santinon, Matiuzzo, Bernardi, Gilberti, Bergamo, Nicácio, Mosca e Fiori. O cotidiano girava em torno do cultivo da terra e de pontos de encontro como a "venda do Buru", da família Santinon.

Sítio Fundão, família Quaglino, c. 1901

A tradição agrícola trouxe a viticultura. Vicente Donalísio, ao adquirir um sítio em 1909, importou castas finas da Itália, França e Argentina, ganhando prêmios por sua produção. Outro destaque foi Hermenegildo Milioni, que transformou a chácara da família em um considerável parque industrial dedicado ao vinho.

Sociabilidade, fé e saúde

A religiosidade foi o cimento social no meio rural. Os imigrantes trouxeram a imagem de Nossa Senhora das Neves, estabelecendo novenas e festas em agosto. A organização era coletiva: moças de famílias como os Ribeiro, Leme e Stecca confeccionavam flores artesanais para os andores. A atual capela do bairro data de 1938.

A capela de Nossa Senhora das Neves, em foto dos anos 1970.

No núcleo urbano, a sociabilidade orbitava em torno do mutualismo. Em 1902, foi fundada a Società Italiana di Mutua Assistenza Giuseppe Verdi, que amparava sócios na doença. Em 1934, a instituição ergueu a grandiosa Casa D'Itália, abrigando o Cine Verdi e o Círculo de Leitura Dante Alighieri.

Casa D'Italia com alunos da Escola Anita Garibaldi em frente, por volta de 1940.

A saúde também ganhou contornos épicos com o médico milanês Enrico Viscardi. Chegado em 1902, Viscardi clinicava com tamanha dedicação que foi eternizado como o "médico dos pobres". Paralelamente, o casal Giuseppe e Doralice Segabinazzi iniciou um pioneirismo fitoterápico para o tratamento da ciática, atraindo pacientes de todo o Brasil com unguentos feitos de ervas trazidas da Itália.

Educação e a Escola Anita Garibaldi

A Escola Anita Garibaldi, mantida pela Brasital, desempenhou papel vital ao preencher a lacuna educacional após o ensino primário oficial. Sob a direção de João Baptista Dalla Vecchia, a escola oferecia um currículo rigoroso: álgebra, história, geografia, língua italiana e a famosa "caligrafia da Escola Anita".

Alunos da Escola Anita em arquibancada improvisada, montada em frente à Brasital, c. 1938.

A instituição funcionava como uma ponte para a vida adulta e acadêmica. O falecido advogado saltense Mário Dotta relatou que, no caso dele, a escola foi o preparatório essencial para os exames de admissão do Ginásio Estadual de Itu. O nome da escola, homenageando a companheira brasileira de Giuseppe Garibaldi, era um gesto diplomático de integração cultural.

Música e rivalidades culturais

A vida musical saltense era marcada por uma célebre disputa. De um lado, a Banda Musical Saltense (a "Brasileira"); de outro, a Corporação Musical Giuseppe Verdi (a "Italiana"), regida por maestros como Inocêncio Pradelli. As apresentações alternadas no coreto do Largo Paula Souza polarizavam a cidade entre oriundi e brasileiros, elevando o padrão cultural local com execuções de Verdi, Mascagni e Puccini.

Coreto do Largo Paula Souza em 1936. Hoje, trata-se da área em frente à Biblioteca Municial.

O trauma da Segunda Guerra Mundial

A eclosão do conflito em 1939 e o alinhamento do Brasil aos Aliados representaram uma violenta fratura para a colônia. O patriotismo que antes levava crianças uniformizadas (os balillas) a gritarem saudações a Mussolini ("Duce, per te!") transformou-se em medo.

O silenciamento foi tático e coercitivo. Valdomira Salesiane Bifano, em depoimento ao Museu da Cidade no início dos anos 1990, relatou o pânico que levou a comunidade a destruir o acervo da biblioteca italiana. A repressão atingiu os bens de capital: as leis de exceção permitiam o confisco de propriedades de cidadãos do Eixo. Francisco Olegário Nitaques lembrou que atividades artísticas e propriedades foram ameaçadas, e a Casa D’Itália foi forçada a encerrar suas atividades associativas em 1941.

O genuíno alívio coletivo e o fim desse período de censura e xenofobia só ocorreriam em 1945, com a rendição do Eixo, quando a população se aglomerou em festa ao redor do coreto no Largo Paula Souza, encerrando um ciclo de transformação e resistência da identidade italiana em solo saltense.

22 de abril de 2026

J. Silvestre: da locução no Cine Ruy Barbosa ao pioneirismo na televisão brasileira

J. Silvestre em 1975. Arquivo de O Globo.

A história da comunicação brasileira apresenta capítulos inteiros dedicados a figuras que moldaram a forma como o país consome entretenimento e informação. No entanto, para a cidade de Salto, essa narrativa possui um rosto e um nome muito específicos: João Silvestre. Conhecido nacionalmente como J. Silvestre, ele não foi apenas um apresentador de auditório; foi um intelectual do veículo, um autor prolífico e um mestre do rigor técnico.


As raízes em Salto: o berço da precisão e do esforço

João Silvestre nasceu em Salto no dia 22 de dezembro de 1922 — embora exista uma divergência histórica recorrente que aponte também o dia 14 de dezembro em registros documentais. Filho de imigrantes italianos, sua infância foi permeada pelo ambiente de trabalho e pela cultura nascente do início do século XX. Antes de se tornar o "Mestre de Cerimônias" do Brasil, Silvestre viveu a realidade da industrialização saltense, trabalhando como escriturário em uma fábrica de tecidos local. Este início humilde foi determinante para auxiliar no sustento de sua família e de seus próprios estudos, mas também para incutir nele uma disciplina profissional que levaria para toda a vida.

O verdadeiro divisor de águas em sua juventude foi o Cine Ruy Barbosa, de propriedade de seu pai. Naquele espaço, que era um importante espaço cultural da cidade, o jovem João começou a atuar como locutor do serviço de som. Ali, ele não apenas anunciava os filmes, mas exercitava uma dicção que viria a ser sua marca registrada. Salto assistia ao nascimento de um talento: o rapaz que pronunciava corretamente os nomes de artistas ingleses e americanos, algo raríssimo para a época, e que demonstrava uma sofisticação natural. Ele realizou seus primeiros estudos no Grupo Escolar “Tancredo do Amaral” e cursou o ginásio na vizinha Itu, mas foi em Salto que a semente da locução foi plantada.


Cine Ruy Barbosa, na rua de mesmo nome. Construído por Alexandre e José Silvestre. Em 1942, foi vendido para João de Almeida, funcionando até 1959, quando encerrou as atividades para se transformar no Cine São José. Este, funcionou de 1960 a 1983, sendo propriedade de João de Almeida.


O salto para a capital: o "teste da Reuters" e a escola do rádio

No final da década de 1930, Silvestre mudou-se para São Paulo para cursar a Faculdade de Direito. Entretanto, a vocação para o microfone falou mais alto. Em 1941, ele decidiu participar de um teste na Rádio Bandeirantes de São Paulo. O cenário era intimidador: 350 candidatos para uma vaga de locutor. A história, confirmada pelo próprio apresentador, diz que ele foi contratado por ser o único a pronunciar corretamente o nome da agência de notícias alemã Reuters.

Na Bandeirantes, onde conheceu sua esposa, Nívea Ranzani, ele iniciou uma fase de "aprendizado total". Entre 1941 e 1945, J. Silvestre não aceitava ser apenas a voz que lia os anúncios; ele queria entender a máquina por trás do som. Desempenhou todas as funções possíveis: foi ator de rádio-teatro, sonoplasta, contrarregra, ensaiador e autor. Segundo suas próprias palavras, ele passou por todas as funções no rádio, "menos a de cantor". Essa base técnica foi o que o diferenciou de todos os seus contemporâneos. Ele não era apenas um artista; era um profissional completo que sabia exatamente como a produção deveria funcionar para atingir o ouvinte com perfeição.

Em 1945, transferiu-se para o Rio de Janeiro para trabalhar na Rádio Tupi e teve sua primeira experiência no setor de propaganda na agência Standard. Retornou a São Paulo em 1946, contratado pela Rádio Cultura, onde sua carreira deu um passo decisivo: ele se tornou animador e apresentador de programas de calouros, como o "Quem Sabe Mais, o Homem ou a Mulher?". Foi nesta fase que começou a desenvolver o "tino comercial" e a "sensibilidade para o que o povo gosta", conceitos que ele defenderia anos depois em seus livros.


O pioneirismo na televisão e a dramaturgia ao vivo

J. Silvestre estava presente no exato momento em que a televisão nasceu no Brasil. Em setembro de 1950, participou da primeira transmissão em caráter experimental da TV Tupi de São Paulo. Em janeiro de 1951, esteve na inauguração da TV Tupi Canal 6, no Rio de Janeiro, em um programa histórico estrelado pelo frei e cantor mexicano José Mojica.

Naquela fase heróica, a televisão era feita ao vivo. J. Silvestre destacou-se não apenas como apresentador, mas como um dos primeiros autores e atores de teledramaturgia do país. Escreveu e protagonizou novelas marcantes, como "Meu Trágico Destino" (1953) — que contou com Francisco Cuoco e Armando Bogus no elenco — e a célebre "Os Quatro Filhos" (1952). Paralelamente, mantinha sua verve literária produzindo contos e peças para o rádio-teatro, além de realizar incursões no Teatro de Arena como ator e autor. Ele era um intelectual que via na televisão um espaço para a elevação cultural do público.


"O céu é o limite", TV Tupi, Rio de Janeiro, 1956.


Rio de Janeiro, 1958.


Encontro com Anselmo Duarte, década de 1970: dois ilustres saltenses do século XX.


A consagração: "O Céu é o Limite" e o ápice de audiência

O ano de 1955 marcou o início de uma era com a estreia de "O Céu é o Limite" na TV Tupi do Rio. O programa foi o precursor dos "quiz shows" (programas de perguntas e respostas) no Brasil. O estilo de J. Silvestre era único: ele mantinha uma postura séria, quase professoral, que contrastava com a euforia dos candidatos. Foi então que nasceu o bordão que atravessou gerações: "Absolutamente certo!" (qualquer semelhança com um filme homônimo, dirigido por seu conterrâneo Anselmo Duarte, não é coindidência).

O sucesso foi avassalador. Nos anos 70, o programa atingiu a marca histórica de 84 pontos de audiência, um dos maiores registros da história da televisão brasileira. Enquanto J. Silvestre comandava a versão carioca, a versão paulista era apresentada por Aurélio Campos, mas foi o saltense quem deu ao programa a alma que o imortalizou. O Brasil parava para ver candidatos icônicos, como a "Noivinha da Pavuna", que respondia sobre Lampião, ou a historiadora Micheline Christophe, que permaneceu 29 semanas no ar respondendo sobre o Egito - uma experiência que, segundo ela, determinou sua escolha profissional pela história.

J. Silvestre também foi o primeiro apresentador do clássico "Almoço com as Estrelas", nos anos 60, antes de Airton e Lolita Rodrigues assumirem a atração. Com o suporte da Embratel, lançou o primeiro programa em rede nacional, o "Domingo Alegre da Bondade", e apresentou o popular "O Carnê da Girafa".


Gestão pública: a presidência da Radiobrás

A seriedade e o domínio técnico de J. Silvestre levaram-no a um convite inusitado: assumir a presidência da Radiobrás em Brasília, em 1979, durante o governo de João Figueiredo. No entanto, seu espírito independente e rigoroso gerou atritos imediatos. Ele pediu demissão apenas alguns meses depois, em julho de 1979, alegando "divergências insanáveis" com o então ministro da Comunicação Social, Said Farhat. J. Silvestre não aceitava interferências que ferissem sua visão profissional sobre como a comunicação deveria ser conduzida.


A fase no SBT e o embate com Silvio Santos

Após um hiato iniciado em 1972, no qual se dedicou a escrever, J. Silvestre retornou triunfante em 1982, assinando um contrato milionário com a TVS (atual SBT) de Silvio Santos. Comandou o "Show Sem Limite", trazendo quadros comoventes como "Esta é a Sua Vida", onde homenageou figuras como Renato Aragão e Xuxa.

Contudo, sua passagem pela emissora terminou em um embate histórico. Ao transferir-se para a TV Bandeirantes em 1983, J. Silvestre iniciou uma disputa jurídica pela marca do programa. Ele acusou publicamente Silvio Santos de se apropriar do nome "Show Sem Limite", alegando ser o legítimo criador e detentor da marca. Na Band, continuou inovando com o "Programa J. Silvestre" — considerado o primeiro no estilo talk show moderno da TV brasileira — e atrações como "Essas Mulheres Maravilhosas" e "Porque Hoje é Sábado".


A doutrina literária: Como Vencer na Televisão

Entre 1972 e 1976, afastado do vídeo, Silvestre sistematizou sua experiência no livro Como Vencer na Televisão. A obra, escrita e revisada em suas residências no Brasil e nos Estados Unidos, é um manifesto sobre sua visão de mercado. Ele defendia a tese da "linha de produtos": para J. Silvestre, o profissional de TV deveria ser "completo". Quanto mais funções dominasse - escrever, produzir, dirigir, apresentar -, maior seria sua resiliência perante as crises.

Para ele, o sucesso não dependia apenas de boa aparência, mas de espírito de liderança para dominar a plateia e tino comercial para lidar com patrocinadores. Ele afirmava que a alegria de trabalhar era tamanha que "ele é quem deveria pagar para poder trabalhar". Esta obra permanece como um dos raros registros teóricos escritos por quem efetivamente "fez" a televisão brasileira desde o seu primeiro dia.

J. Silvestre nos tempos de SBT.


O sacrifício familiar e a vida nos EUA

Um dos aspectos mais nobres de sua biografia foi a motivação de sua mudança para a Flórida em 1986. Segundo depoimentos de amigos como Chico Anysio, J. Silvestre sacrificou o auge de sua carreira no Brasil para garantir tratamento especializado a um de seus filhos que possuía necessidades especiais. Ele escolheu Fort Lauderdale para oferecer uma melhor qualidade de vida à sua família, dividindo seu tempo entre São Paulo, Rio e os Estados Unidos.

Na Flórida, manteve uma produtora audiovisual. Em 1997, retornou ao Brasil para um último projeto: o "Domingo Milionário" na TV Manchete. No entanto, este programa não refletia suas ideias; pela primeira vez, J. Silvestre não teve participação na produção ou formulação dos quadros, o que resultou em uma experiência curta e frustrante para o apresentador.


O fim de uma era

J. Silvestre faleceu em 7 de janeiro de 2000, aos 77 anos, no hospital Holy Cross, na Flórida. Ele lutava contra uma doença degenerativa pulmonar que, nos últimos dias, lhe tirou a mobilidade e o obrigou a respirar por aparelhos. Faleceu de insuficiência respiratória enquanto dormia. Atendendo ao seu último desejo, foi cremado e suas cinzas foram lançadas ao mar na costa americana.

Ele deixou a esposa Nívea e quatro filhos: Alexandre, Pedro, João e Paulo. Seu legado é reconhecido por nomes como Walter Avancini e Arthur Sendas - seu melhor amigo e padrinho de casamento de três de seus filhos - como o de um homem honesto, elegante e um chefe de família exemplar.

Patrono da cadeira nº 10 da Academia Saltense de Letras, J. Silvestre - para além de sua importância no cenário de rádio e TV brasileiros - é um símbolo artístico de sua terra natal, nos mesmos patamares de seu contemporâneo Anselmo Duarte. Ele provou que o menino que começou anunciando filmes no Cine Ruy Barbosa poderia ensinar um país inteiro a valorizar o conhecimento. Visionário, deixou um último vaticínio em 1998: "A televisão do futuro é a internet". Hoje, sua memória permanece viva na cidade que ele nunca esqueceu, reafirmando que sua trajetória foi, do início ao fim, "Absolutamente Certa".


Fotos em Salto, em 1984, durante um concurso de beleza, ao lado de Pilzio Di Lelli:








20 de abril de 2026

Anselmo Duarte: do "Russo Louco" em Salto à Palma de Ouro em Cannes


Neste 21 de abril, celebramos o aniversário de nascimento de Anselmo Duarte (1920-2009), figura cuja trajetória confunde-se com a própria história da arte cinematográfica nacional. Mais do que o galã que povoou o imaginário das chanchadas e dos dramas da Vera Cruz, Anselmo foi o artífice do maior triunfo do cinema brasileiro: a Palma de Ouro no Festival de Cannes. No entanto, para compreender o cineasta, é preciso primeiro olhar para o menino que corria descalço pelas ruas de terra batida de Salto.

Anselmo Duarte em dezembro de 1920.


As raízes no solo saltense

Sétimo filho de Olympia Duarte, Anselmo nasceu em uma esquina da atual Rua Monsenhor Couto, em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat. De origem humilde, sua introdução ao mundo das imagens deu-se de forma quase artesanal. No antigo Cine Pavilhão, onde seu irmão Alfredo era projecionista, o jovem Anselmo trabalhava como "molhador de tela" — função técnica da época para evitar o superaquecimento do suporte e permitir a nitidez da projeção.

Olympia, mãe de Anselmo.


Essas primeiras experiências no escurinho do cinema em Salto foram o prelúdio de uma carreira que ganharia o mundo. Aos 14 anos, partiu para São Paulo, mas levou consigo a identidade do "Russo Louco", apelido de infância que ele recordaria com carinho décadas depois.

Cine Pavilhão, em Salto, nos tempos de Anselmo Duarte ainda menino.


A construção do mito: do ator ao autor

A estreia de Anselmo no cinema ocorreu em 1942, em um projeto inacabado do cineasta norte-americano Orson Welles (It's All True). Rapidamente, sua presença física e carisma o transformaram no maior galã do país, protagonizando sucessos como Querida Suzana (1947), Tico-Tico no Fubá (1952) e Sinhá Moça (1953).

Contudo, Anselmo Duarte não se satisfez com o estrelato diante das câmeras. Estudioso da técnica, estreou na direção com Absolutamente Certo (1957), mas foi em 1962 que imortalizou seu nome ao adaptar a peça de Dias Gomes, O Pagador de Promessas. Com uma direção que equilibrava o rigor estético e a profundidade dos dilemas sociais e religiosos brasileiros, Anselmo venceu gigantes como Luis Buñuel e Michelangelo Antonioni em Cannes. No ano seguinte, em 1963, o filme alcançaria outro marco: a primeira indicação oficial do Brasil ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Anselmo aos 26 anos de idade.

O auge da carreira de diretor: a premiação no Festival de Cannes, 1962.

No filme "Pinguinho de Gente".




Nas filmagens de "Quelé do Pajeú", em Salto.


O último discurso e o legado

Apesar da glória internacional, o vínculo com sua "terra mater" permaneceu inabalável. Em 31 de julho de 2009, meses antes de seu falecimento, Anselmo proferiu seu último discurso público em Salto, durante a inauguração da Sala Palma de Ouro. Naquela ocasião, enfatizou que honrar as raízes culturais é a matéria-prima necessária para o avanço de qualquer sociedade.

Anselmo proferindo seu último discurso público.


Anselmo Duarte faleceu em novembro de 2009 e, cumprindo um desejo expresso em vida, foi sepultado no Cemitério da Saudade, em Salto. Em sua lápide, lê-se o epitáfio que resume sua existência: "Eis aqui a última história de um contador de histórias".

Ao recordarmos seu nascimento, reafirmamos que a obra de Anselmo Duarte permanece como um símbolo de resistência cultural e da capacidade do cinema brasileiro de dialogar com questões universais a partir de uma perspectiva profundamente autêntica.

Ouça nosso podcast

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966