22 de abril de 2026

J. Silvestre: da locução no Cine Ruy Barbosa ao pioneirismo na televisão brasileira

J. Silvestre em 1975. Arquivo de O Globo.

A história da comunicação brasileira apresenta capítulos inteiros dedicados a figuras que moldaram a forma como o país consome entretenimento e informação. No entanto, para a cidade de Salto, essa narrativa possui um rosto e um nome muito específicos: João Silvestre. Conhecido nacionalmente como J. Silvestre, ele não foi apenas um apresentador de auditório; foi um intelectual do veículo, um autor prolífico e um mestre do rigor técnico.


As raízes em Salto: o berço da precisão e do esforço

João Silvestre nasceu em Salto no dia 22 de dezembro de 1922 — embora exista uma divergência histórica recorrente que aponte também o dia 14 de dezembro em registros documentais. Filho de imigrantes italianos, sua infância foi permeada pelo ambiente de trabalho e pela cultura nascente do início do século XX. Antes de se tornar o "Mestre de Cerimônias" do Brasil, Silvestre viveu a realidade da industrialização saltense, trabalhando como escriturário em uma fábrica de tecidos local. Este início humilde foi determinante para auxiliar no sustento de sua família e de seus próprios estudos, mas também para incutir nele uma disciplina profissional que levaria para toda a vida.

O verdadeiro divisor de águas em sua juventude foi o Cine Ruy Barbosa, de propriedade de seu pai. Naquele espaço, que era um importante espaço cultural da cidade, o jovem João começou a atuar como locutor do serviço de som. Ali, ele não apenas anunciava os filmes, mas exercitava uma dicção que viria a ser sua marca registrada. Salto assistia ao nascimento de um talento: o rapaz que pronunciava corretamente os nomes de artistas ingleses e americanos, algo raríssimo para a época, e que demonstrava uma sofisticação natural. Ele realizou seus primeiros estudos no Grupo Escolar “Tancredo do Amaral” e cursou o ginásio na vizinha Itu, mas foi em Salto que a semente da locução foi plantada.


Cine Ruy Barbosa, na rua de mesmo nome. Construído por Alexandre e José Silvestre. Em 1942, foi vendido para João de Almeida, funcionando até 1959, quando encerrou as atividades para se transformar no Cine São José. Este, funcionou de 1960 a 1983, sendo propriedade de João de Almeida.


O salto para a capital: o "teste da Reuters" e a escola do rádio

No final da década de 1930, Silvestre mudou-se para São Paulo para cursar a Faculdade de Direito. Entretanto, a vocação para o microfone falou mais alto. Em 1941, ele decidiu participar de um teste na Rádio Bandeirantes de São Paulo. O cenário era intimidador: 350 candidatos para uma vaga de locutor. A história, confirmada pelo próprio apresentador, diz que ele foi contratado por ser o único a pronunciar corretamente o nome da agência de notícias alemã Reuters.

Na Bandeirantes, onde conheceu sua esposa, Nívea Ranzani, ele iniciou uma fase de "aprendizado total". Entre 1941 e 1945, J. Silvestre não aceitava ser apenas a voz que lia os anúncios; ele queria entender a máquina por trás do som. Desempenhou todas as funções possíveis: foi ator de rádio-teatro, sonoplasta, contrarregra, ensaiador e autor. Segundo suas próprias palavras, ele passou por todas as funções no rádio, "menos a de cantor". Essa base técnica foi o que o diferenciou de todos os seus contemporâneos. Ele não era apenas um artista; era um profissional completo que sabia exatamente como a produção deveria funcionar para atingir o ouvinte com perfeição.

Em 1945, transferiu-se para o Rio de Janeiro para trabalhar na Rádio Tupi e teve sua primeira experiência no setor de propaganda na agência Standard. Retornou a São Paulo em 1946, contratado pela Rádio Cultura, onde sua carreira deu um passo decisivo: ele se tornou animador e apresentador de programas de calouros, como o "Quem Sabe Mais, o Homem ou a Mulher?". Foi nesta fase que começou a desenvolver o "tino comercial" e a "sensibilidade para o que o povo gosta", conceitos que ele defenderia anos depois em seus livros.


O pioneirismo na televisão e a dramaturgia ao vivo

J. Silvestre estava presente no exato momento em que a televisão nasceu no Brasil. Em setembro de 1950, participou da primeira transmissão em caráter experimental da TV Tupi de São Paulo. Em janeiro de 1951, esteve na inauguração da TV Tupi Canal 6, no Rio de Janeiro, em um programa histórico estrelado pelo frei e cantor mexicano José Mojica.

Naquela fase heróica, a televisão era feita ao vivo. J. Silvestre destacou-se não apenas como apresentador, mas como um dos primeiros autores e atores de teledramaturgia do país. Escreveu e protagonizou novelas marcantes, como "Meu Trágico Destino" (1953) — que contou com Francisco Cuoco e Armando Bogus no elenco — e a célebre "Os Quatro Filhos" (1952). Paralelamente, mantinha sua verve literária produzindo contos e peças para o rádio-teatro, além de realizar incursões no Teatro de Arena como ator e autor. Ele era um intelectual que via na televisão um espaço para a elevação cultural do público.


"O céu é o limite", TV Tupi, Rio de Janeiro, 1956.


Rio de Janeiro, 1958.


Encontro com Anselmo Duarte, década de 1970: dois ilustres saltenses do século XX.


A consagração: "O Céu é o Limite" e o ápice de audiência

O ano de 1955 marcou o início de uma era com a estreia de "O Céu é o Limite" na TV Tupi do Rio. O programa foi o precursor dos "quiz shows" (programas de perguntas e respostas) no Brasil. O estilo de J. Silvestre era único: ele mantinha uma postura séria, quase professoral, que contrastava com a euforia dos candidatos. Foi então que nasceu o bordão que atravessou gerações: "Absolutamente certo!" (qualquer semelhança com um filme homônimo, dirigido por seu conterrâneo Anselmo Duarte, não é coindidência).

O sucesso foi avassalador. Nos anos 70, o programa atingiu a marca histórica de 84 pontos de audiência, um dos maiores registros da história da televisão brasileira. Enquanto J. Silvestre comandava a versão carioca, a versão paulista era apresentada por Aurélio Campos, mas foi o saltense quem deu ao programa a alma que o imortalizou. O Brasil parava para ver candidatos icônicos, como a "Noivinha da Pavuna", que respondia sobre Lampião, ou a historiadora Micheline Christophe, que permaneceu 29 semanas no ar respondendo sobre o Egito - uma experiência que, segundo ela, determinou sua escolha profissional pela história.

J. Silvestre também foi o primeiro apresentador do clássico "Almoço com as Estrelas", nos anos 60, antes de Airton e Lolita Rodrigues assumirem a atração. Com o suporte da Embratel, lançou o primeiro programa em rede nacional, o "Domingo Alegre da Bondade", e apresentou o popular "O Carnê da Girafa".


Gestão pública: a presidência da Radiobrás

A seriedade e o domínio técnico de J. Silvestre levaram-no a um convite inusitado: assumir a presidência da Radiobrás em Brasília, em 1979, durante o governo de João Figueiredo. No entanto, seu espírito independente e rigoroso gerou atritos imediatos. Ele pediu demissão apenas alguns meses depois, em julho de 1979, alegando "divergências insanáveis" com o então ministro da Comunicação Social, Said Farhat. J. Silvestre não aceitava interferências que ferissem sua visão profissional sobre como a comunicação deveria ser conduzida.


A fase no SBT e o embate com Silvio Santos

Após um hiato iniciado em 1972, no qual se dedicou a escrever, J. Silvestre retornou triunfante em 1982, assinando um contrato milionário com a TVS (atual SBT) de Silvio Santos. Comandou o "Show Sem Limite", trazendo quadros comoventes como "Esta é a Sua Vida", onde homenageou figuras como Renato Aragão e Xuxa.

Contudo, sua passagem pela emissora terminou em um embate histórico. Ao transferir-se para a TV Bandeirantes em 1983, J. Silvestre iniciou uma disputa jurídica pela marca do programa. Ele acusou publicamente Silvio Santos de se apropriar do nome "Show Sem Limite", alegando ser o legítimo criador e detentor da marca. Na Band, continuou inovando com o "Programa J. Silvestre" — considerado o primeiro no estilo talk show moderno da TV brasileira — e atrações como "Essas Mulheres Maravilhosas" e "Porque Hoje é Sábado".


A doutrina literária: Como Vencer na Televisão

Entre 1972 e 1976, afastado do vídeo, Silvestre sistematizou sua experiência no livro Como Vencer na Televisão. A obra, escrita e revisada em suas residências no Brasil e nos Estados Unidos, é um manifesto sobre sua visão de mercado. Ele defendia a tese da "linha de produtos": para J. Silvestre, o profissional de TV deveria ser "completo". Quanto mais funções dominasse - escrever, produzir, dirigir, apresentar -, maior seria sua resiliência perante as crises.

Para ele, o sucesso não dependia apenas de boa aparência, mas de espírito de liderança para dominar a plateia e tino comercial para lidar com patrocinadores. Ele afirmava que a alegria de trabalhar era tamanha que "ele é quem deveria pagar para poder trabalhar". Esta obra permanece como um dos raros registros teóricos escritos por quem efetivamente "fez" a televisão brasileira desde o seu primeiro dia.

J. Silvestre nos tempos de SBT.


O sacrifício familiar e a vida nos EUA

Um dos aspectos mais nobres de sua biografia foi a motivação de sua mudança para a Flórida em 1986. Segundo depoimentos de amigos como Chico Anysio, J. Silvestre sacrificou o auge de sua carreira no Brasil para garantir tratamento especializado a um de seus filhos que possuía necessidades especiais. Ele escolheu Fort Lauderdale para oferecer uma melhor qualidade de vida à sua família, dividindo seu tempo entre São Paulo, Rio e os Estados Unidos.

Na Flórida, manteve uma produtora audiovisual. Em 1997, retornou ao Brasil para um último projeto: o "Domingo Milionário" na TV Manchete. No entanto, este programa não refletia suas ideias; pela primeira vez, J. Silvestre não teve participação na produção ou formulação dos quadros, o que resultou em uma experiência curta e frustrante para o apresentador.


O fim de uma era

J. Silvestre faleceu em 7 de janeiro de 2000, aos 77 anos, no hospital Holy Cross, na Flórida. Ele lutava contra uma doença degenerativa pulmonar que, nos últimos dias, lhe tirou a mobilidade e o obrigou a respirar por aparelhos. Faleceu de insuficiência respiratória enquanto dormia. Atendendo ao seu último desejo, foi cremado e suas cinzas foram lançadas ao mar na costa americana.

Ele deixou a esposa Nívea e quatro filhos: Alexandre, Pedro, João e Paulo. Seu legado é reconhecido por nomes como Walter Avancini e Arthur Sendas - seu melhor amigo e padrinho de casamento de três de seus filhos - como o de um homem honesto, elegante e um chefe de família exemplar.

Patrono da cadeira nº 10 da Academia Saltense de Letras, J. Silvestre - para além de sua importância no cenário de rádio e TV brasileiros - é um símbolo artístico de sua terra natal, nos mesmos patamares de seu contemporâneo Anselmo Duarte. Ele provou que o menino que começou anunciando filmes no Cine Ruy Barbosa poderia ensinar um país inteiro a valorizar o conhecimento. Visionário, deixou um último vaticínio em 1998: "A televisão do futuro é a internet". Hoje, sua memória permanece viva na cidade que ele nunca esqueceu, reafirmando que sua trajetória foi, do início ao fim, "Absolutamente Certa".


Fotos em Salto, em 1984, durante um concurso de beleza, ao lado de Pilzio Di Lelli:








20 de abril de 2026

Anselmo Duarte: do "Russo Louco" em Salto à Palma de Ouro em Cannes


Neste 21 de abril, celebramos o aniversário de nascimento de Anselmo Duarte (1920-2009), figura cuja trajetória confunde-se com a própria história da arte cinematográfica nacional. Mais do que o galã que povoou o imaginário das chanchadas e dos dramas da Vera Cruz, Anselmo foi o artífice do maior triunfo do cinema brasileiro: a Palma de Ouro no Festival de Cannes. No entanto, para compreender o cineasta, é preciso primeiro olhar para o menino que corria descalço pelas ruas de terra batida de Salto.

Anselmo Duarte em dezembro de 1920.


As raízes no solo saltense

Sétimo filho de Olympia Duarte, Anselmo nasceu em uma esquina da atual Rua Monsenhor Couto, em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat. De origem humilde, sua introdução ao mundo das imagens deu-se de forma quase artesanal. No antigo Cine Pavilhão, onde seu irmão Alfredo era projecionista, o jovem Anselmo trabalhava como "molhador de tela" — função técnica da época para evitar o superaquecimento do suporte e permitir a nitidez da projeção.

Olympia, mãe de Anselmo.


Essas primeiras experiências no escurinho do cinema em Salto foram o prelúdio de uma carreira que ganharia o mundo. Aos 14 anos, partiu para São Paulo, mas levou consigo a identidade do "Russo Louco", apelido de infância que ele recordaria com carinho décadas depois.

Cine Pavilhão, em Salto, nos tempos de Anselmo Duarte ainda menino.


A construção do mito: do ator ao autor

A estreia de Anselmo no cinema ocorreu em 1942, em um projeto inacabado do cineasta norte-americano Orson Welles (It's All True). Rapidamente, sua presença física e carisma o transformaram no maior galã do país, protagonizando sucessos como Querida Suzana (1947), Tico-Tico no Fubá (1952) e Sinhá Moça (1953).

Contudo, Anselmo Duarte não se satisfez com o estrelato diante das câmeras. Estudioso da técnica, estreou na direção com Absolutamente Certo (1957), mas foi em 1962 que imortalizou seu nome ao adaptar a peça de Dias Gomes, O Pagador de Promessas. Com uma direção que equilibrava o rigor estético e a profundidade dos dilemas sociais e religiosos brasileiros, Anselmo venceu gigantes como Luis Buñuel e Michelangelo Antonioni em Cannes. No ano seguinte, em 1963, o filme alcançaria outro marco: a primeira indicação oficial do Brasil ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Anselmo aos 26 anos de idade.

O auge da carreira de diretor: a premiação no Festival de Cannes, 1962.

No filme "Pinguinho de Gente".




Nas filmagens de "Quelé do Pajeú", em Salto.


O último discurso e o legado

Apesar da glória internacional, o vínculo com sua "terra mater" permaneceu inabalável. Em 31 de julho de 2009, meses antes de seu falecimento, Anselmo proferiu seu último discurso público em Salto, durante a inauguração da Sala Palma de Ouro. Naquela ocasião, enfatizou que honrar as raízes culturais é a matéria-prima necessária para o avanço de qualquer sociedade.

Anselmo proferindo seu último discurso público.


Anselmo Duarte faleceu em novembro de 2009 e, cumprindo um desejo expresso em vida, foi sepultado no Cemitério da Saudade, em Salto. Em sua lápide, lê-se o epitáfio que resume sua existência: "Eis aqui a última história de um contador de histórias".

Ao recordarmos seu nascimento, reafirmamos que a obra de Anselmo Duarte permanece como um símbolo de resistência cultural e da capacidade do cinema brasileiro de dialogar com questões universais a partir de uma perspectiva profundamente autêntica.

14 de abril de 2026

O legado ambivalente de Eugênio Coltro

Ao revisitar a história administrativa de Salto, torna-se evidente que o quadriênio 1989–1992 não foi um período de neutralidade ou de meras manutenções de rotina; foi, sobretudo, um intervalo marcado por um movimento de coragem política poucas vezes visto em tão curto espaço de tempo. Independentemente do êxito de certas diretrizes ou do fracasso de intervenções que ainda hoje suscitam críticas e controvérsias, é inegável que houve uma disposição deliberada para romper com o imobilismo e projetar a cidade para além de seus muros fabris. Essa postura audaciosa, que buscou redesenhar a identidade local e enfrentar demandas estruturais históricas, deixou marcas indeléveis na paisagem urbana — algumas celebradas como conquistas definitivas, outras questionadas como passivos permanentes — que ainda hoje desafiam a nossa compreensão sobre o desenvolvimento do município.

Coltro é carregado por apoiadores após a vitória no pleito municipal de 1989. Acervo Taperá.


A história política de Salto guarda um capítulo peculiar na virada da década de 1990. A gestão de Eugênio Coltro (1989–1992) - que pareceu sempre um pouco esquecida - é o exemplo clássico de um mandato único que, embora curto, foi capaz de alterar drasticamente a fisionomia e a autoimagem da cidade. Sob sua administração, Salto tentou uma transição ambiciosa: deixar de ser uma cidade marcadamente operária, com uma cachoeira e um monumento à Padroeira que já atraíam visitantes, para se converter em um polo turístico e cultural da região. Essa estratégia teve como um de seus principais articuladores o então jovem Geraldo Garcia, na época à frente da pasta que coordenava essas diretrizes - figura que, décadas depois, viria a ocupar a prefeitura por quatro mandatos, estando o último deles em curso.

Eugênio e Geraldo: dupla de gerações diferentes unida em diversas ações daquele mandato.


Essa parceria foi responsável pela idealização e entrega de marcos como o Parque de Lavras, o Parque do Lago e o Parque Rocha Moutonnée, além da fundação do Museu da Cidade. No entanto, o que na época foi celebrado como uma vanguarda no lazer e turismo regional, hoje impõe um desafio amargo ao poder público. Muitos desses espaços tornaram-se verdadeiros "elefantes brancos": estruturas de manutenção caríssima e logística complexa que sobrecarregam o orçamento municipal, exigindo investimentos constantes, estratégias a título paliativo e que nem sempre se traduzem em um retorno social ou turístico condizente com o custo de mantê-los funcionando.

A mão pesada do planejamento daquela época também deixou marcas profundas e controversas no coração da cidade. A intervenção no centro para a criação do Convívio Dom Pedro II permanece, até hoje, como uma das ações mais questionadas da história local. A implementação do calçadão, que buscou modernizar o centro comercial, foi feita ao custo do corte de inúmeras árvores e da interrupção parcial do trânsito de veículos. O que se pretendia ser um espaço de convivência moderna acabou gerando um debate eterno sobre o impacto ambiental e a perda da dinâmica funcional da principal via da cidade.

A derrubada das árvores da Avenida D. Pedro II.

Protesto em frente ao Fórum, localizado na mesma avenida em obras.


Ao fim de seu mandato, Coltro entregou uma cidade com uma infraestrutura cultural e de lazer robusta, mas também deixou como herança o peso administrativo de sustentar essas mesmas estruturas. Sua trajetória, interrompida por um infarto apenas seis meses após deixar o cargo, é o retrato de uma gestão de extremos: ousada o suficiente para forçar a entrada de Salto no mapa do turismo estadual, mas responsável por escolhas urbanísticas cujos custos - tanto financeiros quanto ambientais - a cidade ainda tenta equilibrar.



O calçadão em obras no início da década de 1990.


Vista do alto de um dos quarteirões do Calçadão já concluído.


Resumo biográfico de Coltro (1934-1993)


Trajetória Civil e Formação Técnica

Eugênio Coltro nasceu em Salto, em 16 de agosto de 1934, filho de João Coltro e Saturna Artone Coltro. Sua formação básica ocorreu no ensino público, frequentando o Grupo Escolar Tancredo do Amaral entre 1942 e 1945, seguindo para a Escola Anita Garibaldi.

Sua vida profissional foi precocemente vinculada ao setor industrial, espinha dorsal da economia saltense na época. Em janeiro de 1949, ingressou na Brasital, onde permaneceu por quase três décadas. Na fábrica, sua carreira foi marcada por uma ascensão administrativa contínua: iniciou como ajudante de escritório e galgou postos nos setores de pagamento e pessoal, vindo a ocupar a chefia do escritório central em 1976. Essa experiência no setor têxtil foi determinante para sua compreensão da dinâmica social da classe operária local.


Carreira no Fisco e Atuação Comunitária

Paralelamente à atividade na indústria, Coltro buscou a estabilidade do serviço público estadual. Após anos de preparação para concursos — um esforço iniciado ainda em 1961 —, logrou êxito ao ser admitido em 1976 como Agente Fiscal de Rendas do Estado. Atuou nas regiões de Itapetininga e Itu, sendo posteriormente promovido a Inspetor Fiscal de Rendas, função na qual se aposentou em 1988, ano em que venceria a eleição para o Executivo.

Fora da esfera estatal, sua inserção na sociedade civil era vasta. No esporte, ocupou cargos diretivos no Clube de Regatas, no E.C. Quinze de Novembro e presidiu o Guarani S.A.C. entre 1969 e 1974. No campo social e religioso, foi figura central na Sociedade São Vicente de Paulo e na Conferência de Santa Teresinha do Menino Jesus, onde atuou por décadas como confrade e presidente, inclusive durante sua vida política ativa.


Vida Pública e Legado Político

Sua entrada na política partidária ocorreu em 1963, quando elegeu-se vereador pelo MTR (Movimento Trabalhista Renovador), legenda que abrigava a então Frente Operária. Durante a legislatura de 1964 a 1969, ocupou a vice-presidência da Câmara Municipal.

Após duas tentativas ao cargo de prefeito (em 1976 e 1982), foi eleito em 1988 para o mandato de 1989 a 1992. Sua gestão foi pautada por um pragmatismo técnico que resultou em números expressivos de infraestrutura: mais de 160 mil metros quadrados de pavimentação e a entrega de cerca de 1.500 unidades habitacionais entre o Jardim Santa Cruz e o Nova Era. No entanto, o foco na modernização urbana trouxe as polêmicas intervenções no centro da cidade, como o calçadão do Convívio Dom Pedro II, marcado pela supressão de vegetação e alteração do fluxo viário.

Casado e pai de três filhos, Eugênio Coltro faleceu em 6 de julho de 1993, vítima de um infarto fulminante, apenas seis meses após concluir seu mandato. Suas cinzas foram sepultadas no Cemitério Municipal de Salto em setembro daquele mesmo ano, encerrando um ciclo de vida pública intrinsecamente ligado à transformação da paisagem urbana e administrativa da cidade.


9 de abril de 2026

Parque Infantil: a inauguração de 1953 e a memória afetiva dos saltenses

A análise histórica da inauguração do Parque Infantil na cidade de Salto, ocorrida em 1º de maio de 1953, revela uma profunda intersecção entre o urbanismo voltado à infância, a retórica política do período pós-varguista e a consolidação de uma identidade operária regional. Documentado pelo periódico O Trabalhador, o evento foi apresentado como uma "autêntica apoteose", termo que transcende o simples ato administrativo para posicionar a obra como um marco da modernidade e do progresso social. A escolha do Dia do Trabalhador para a entrega do equipamento público não foi meramente simbólica, mas uma estratégia de legitimação política que buscava oferecer à classe trabalhadora local - que compunha, segundo o discurso do prefeito na época, cerca de 90% da população saltense - um espaço de lazer e educação que espelhasse o crescimento econômico do país. A presença de figuras centrais da cultura nacional, notadamente o ator e cineasta saltense Anselmo Duarte e a atriz Ilka Soares, conferiu ao evento um status de espetáculo cinematográfico, elevando o orgulho regional e conectando a infraestrutura local ao imaginário de glamour e desenvolvimento da década de 1950.

Do ponto de vista da arquitetura e da pedagogia social, o projeto do parque refletia os preceitos higienistas e desenvolvimentistas que viam o lazer como uma ferramenta de formação do cidadão produtivo. A divisão do espaço em três planos distintos - compreendendo um galpão para aulas, uma área aquática revestida de azulejos e campos destinados à prática desportiva — evidencia uma preocupação com o desenvolvimento integral da criança, unindo a instrução formal à saúde física e à recreação controlada. Esta estrutura visava, em última análise, a "desenvoltura física" e o afastamento da "gurizada" do ócio das ruas, canalizando sua energia para atividades que fomentassem a disciplina e a convivência cívica. O discurso religioso, proferido pelo Monsenhor Couto, e a execução de hinos patrióticos e operários pela Banda Musical Saltense e pela União Musical Gomes-Verdi, selaram uma aliança institucional entre a Igreja, o Estado e o operariado, criando uma narrativa de coesão social em torno da proteção à infância. Assim, o Parque Infantil de Salto não se configurou apenas como um melhoramento público, mas como um monumento à cidadania industrial, onde o direito ao lazer era apresentado como um triunfo da gestão municipal em harmonia com as aspirações da classe trabalhadora.


Aqui está a transcrição literal da notícia principal do jornal O Trabalhador, datado de 3 de maio de 1953:


 

Melhoramento Público

Autentica apoteose a inauguração do Parque Infantil

Anselmo Duarte e Ilka Soares, os inauguradores — Maior Parque Infantil do Estado — Autoridades presentes — Benção pelo Pároco Monsenhor Couto

Com a presença dos grandes astros do cinema nacional, Anselmo Duarte e Ilka Soares, o primeiro, saltense de nascimento, deu-se a 1.o do corrente, dia de homenagem aos trabalhadores de todo o mundo, o ato de inauguração, benção e franquia ao publico do maior parque infantil do Estado de S. Paulo, construido em menos de oito meses na gestão do atual Prefeito.

Estiveram presentes o Deputado Estadual Dr. Antonio de Paula Leite Neto, o Tenente-Coronel Glicerio V. Proença, Comandante do 2.o R. O. 105 de Itu, o Vice-Prefeito de Capivari, o sr. José Dias da Silva. Prefeito e Vereadores locais, grande numero de populares e de crianças.

Anselmo Duarte desatou a fita simbólica do portão de entrada e, em seguida, no Galpão destinado as aulas, proferiu brilhante discurso, o qual publicaremos integralmente em nossa próxima edição; usaram da palavra em seguida o Deputado Paula Leite Neto, a menina Odete de Alencar, em nome da criança saltense, o sr. José Dias da Silva, filho do ex-prefeito Luizinho Dias.

Este, num assomo de entusiasmo, expressou-se em certo trecho de seu discurso: "nesta época de sensacionalismo, mas de respeitosa obediencia ao passado, no que tange ás palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, "vinde a mim as criancinhas"; quando o pranteado Francisco Alves, cantou ás criancinhas, que "Jesus foi criancinha tambem"; vossa excelência, senhor Prefeito, que tambem fostes criança, ides agora de encontro ás justas aspirações da "gurizada" saltense, quando houveste por bem proporcionar à infancia despreocupada e risonho, uma recreação amena e agradavel, e, ao mesmo tempo de grande utilidade na desenvoltura física".

Usou tambem da palavra o sr. Joseano Costa Pinto, Presidente da Camara Municipal local; e finalizando o sr. Prefeito Municipal, visivelmente emocionado, disse da sua satisfação em poder neste dia, entregar a população infantil de Salto essa obra, especialmente realizada para as crianças pobres, pois como é sabido, 90% da população saltense pertence á classe operária.

Pelo Revmo. Monsenhor João da Silva Couto foi então procedida a benção de todas as dependencias do galpão e do parque extendendo essa benção a todos os utensilios do mesmo.

No pateo do parque, pela atriz Ilka Soares, foi hasteado o pavilhão brasileiro, sob os acordes do Hino Nacional executado pela Banda Musical Saltense e cantado por um grupo de crianças.

Fizeram-se ouvir ainda a União Musical "Gomes-Verdi" executando o Hino dos Trabalhadores e o Jazz-Orquestra da Saudade Itaguassu, que continuou, depois, deleitando os presentes com a execução de diversos numeros de musica.

Para finalizar o ato, foi cantado por um grande coro de crianças, a peça "Nossa Canção", alusiva ao Parque Infantil, de autoria do Maestro Silvestre Pereira de Oliveira, com acompanhamento pela Banda Musical Saltense.

A criançada, entretanto, nem bem aberto ao público o parque, tomou conta dos brinquedos e da piscina. A alegria dela era geral e contagiante. Atingia a todos.

O parque conta com três planos: no primeiro, está situado o Galpão para aulas e em volta do mesmo os jogos e divertimentos; no segundo, a piscina, toda revestida de azulejos e o campo de bola ao cesto, volei, etc.; e, no terceiro, um grande tapete verde de grama para a prática de futebol e outros jogos. Ocupa dois terços da quadra em que se localiza o Posto de Puericultura.

Emblemática foto que estampou a primeira página de O Trabalhador: vê-se, à direita, lado a lado: Anselmo Duarte, Ilka Soares e o então prefeito Vicente Schivittaro.


A memória afetiva de diversas gerações


Com base nos relatos colhidos pelo jornal Taperá em sua edição especial de 323 anos (publicada em 2021), o Parque Infantil surge como um dos pilares da memória coletiva de Salto. Localizado na antiga Rua Prudente de Moraes, no terreno que hoje abriga o Centro de Educação e Cultura (CEC) Anselmo Duarte , o espaço é recordado pelos entrevistados como um cenário de "bons tempos" e felicidade. Para muitos saltenses, circular pelo local hoje é reviver uma infância marcada por uma liberdade que já não se encontra nos moldes atuais.

Como fonte histórica, os depoimentos revelam que o parque era muito mais do que um conjunto de brinquedos; era um centro de assistência e convivência. Diversos moradores relatam que o local oferecia uma "deliciosa merenda", onde era comum as crianças tomarem o café da manhã com leite com chocolate, aveia e sopa de legumes com pãozinho. Esse cuidado institucional, aliado à vasta área que incluía jardins e muito espaço aberto, transformava o cotidiano infantil em uma experiência de acolhimento e nutrição, tanto física quanto social.

O uso do espaço era diversificado e atendia a diferentes faixas etárias. Enquanto os menores se divertiam "até cansar" nos balanços, gangorras e gaiolas, a juventude ocupava as quadras poliesportivas e o campo de futebol para a realização de renhidos torneios de futebol de salão, vôlei e basquete. Essas atividades esportivas eram momentos de grande agitação e integração, servindo como base para a formação de amizades que durariam por toda a vida.

Por fim, o Parque Infantil é descrito como um símbolo de uma juventude sadia e de uma cidade que se orgulhava de suas raízes operárias. A transição do antigo parque para o moderno CEC é vista com uma nostalgia respeitosa, onde se reconhece a necessidade das mudanças urbanas, mas se preserva o afeto pelas histórias ali vividas. Os relatos de brincadeiras até o anoitecer e a convivência entre vizinhos nas calçadas próximas reforçam a imagem do parque como o coração pulsante de uma Salto mais serena e comunitária.


Poucas imagens


Ao longo dos últimos anos, tivemos (no grupo "Fotos Antigas de Salto/SP", no Facebook) apenas algumas fotografias de eventos e situações das mais variadas que tiveram como palco o Parque Infantil - definitivamente desativado nos primeiros anos do século XXI, com a instalação do Centro de Educação e Cultura e a Sala Palma de Ouro, cuja inauguração ocorreu em 2009.

No Natal do começo dos anos 1970, gestão de Jesuíno Ruy: distribuição de presentes.

Anos 1970: campeonatos de futebol ocorriam no campo e quadra do Parque Infantil.


Ainda nos anos 1970: interior da piscina sem água; provavelmente evento de Festa Junina.

Crianças recebedo diploma: havia turmas de Educação Infantil ("Jardim da Infância") que funcionavam no espaço.

Evento nos anos 1970


O CEI Tico e Teco, particular, funcionava nas proximidades e usada o espaço para aulas de Educação Física. Na foto, uma turma do ano de 1987, de crianças de 5 anos de idade.

Escoteiros saltenses usaram o espaço entre os anos 1990 e começo dos anos 2000.



7 de abril de 2026

Os quintalões da Brasital

As 244 casas da Vila Operária Brasital, construídas entre 1920 e 1925, serviam de morada a uma parte dos trabalhadores daquela tecelagem. Naqueles anos a área na qual foi instalada a vila correspondia ao limite do espaço urbano de Salto. Nem todos os operários tinham o direito de morar numa dessas casas. A seleção era feita pela fábrica. Na maior parte dos casos eram famílias italianas ou descendentes as selecionadas para lá residir. Isso transformou o local no reduto da cultura italiana em Salto. No centro de cada um dos quatro quarteirões formados existiam os quintalões – espécies de áreas de uso coletivo com acesso pelos fundos de cada casa. Em 1967 a Brasital iniciou, gradativamente, a venda desses imóveis.

Essa estrutura urbana funcionava como um instrumento de gestão da força de trabalho. Ao transpor modelos urbanísticos europeus para o contexto de Salto, a Brasital estabeleceu um sistema de monitoramento que ia além do ambiente fabril. A disposição das casas e a existência dos quintalões coletivos facilitavam a supervisão do comportamento social e doméstico dos operários, integrando a moradia à disciplina produtiva da empresa.


Aspecto da convivência social no espaço comum posterior às residências da Brasital, em Salto. Na imagem do ano de 1945, observa-se a configuração arquitetônica das vilas operárias, onde portões individuais conectavam as moradias ao amplo quintal compartilhado. Identificados na fotografia: Clara Maestrello, Dide Maestrello, Ermelinda (com Valtinho Meluzzi ao colo) e Norma Maestrello. Acervo: Marta Negri Lammoglia e Grupo Fotos Antigas de Salto/SP.


A gênese do espaço: o desenho como estratégia

Diferente das tradicionais vilas operárias do período, que frequentemente se limitavam ao alinhamento de casas geminadas ao longo de uma via pública, os quintalões introduziram o conceito de quarteirão fechado com pátio central de uso coletivo. Este "quintalão" interno era o coração da vida doméstica, abrigando infraestruturas fundamentais para a época, como tanques para lavar roupa (chamadas localmente de "vascas") e fornos comunitários.

Maquete de um quarteirão da Vila Operária Brasital, construída no começo dos anos 1990 para compor o acervo do Museu da Cidade de Salto. Ao centro, um dos "quintalões".



Do ponto de vista da morfologia urbana, essa escolha não foi aleatória. Conforme analisado pela pesquisadora Maria Alzira M. Monfré, o desenho dialoga diretamente com as Siedlüngen alemãs e os Höfen vienenses. Estes modelos buscavam romper com a precariedade dos cortiços, oferecendo espaços que garantissem melhores índices de insolação, ventilação e higiene, elementos centrais no discurso urbanístico do entre-guerras.

Década de 1950

Década de 1960

1962

1962



Controle, higiene e sociabilidade

A implementação dos quintalões pela Brasital, sob a influência do capital italiano e da visão de figuras como Enrico Dell’Acqua, possuía uma dualidade intrínseca. Por um lado, oferecia uma dignidade habitacional superior à média da época, com tipologias variadas que respeitavam a hierarquia e o tamanho das famílias operárias. Por outro, o desenho do pátio interno facilitava a vigilância e o controle social, integrando a vida privada do trabalhador ao domínio da empresa.

Historicamente, em Salto, difundiu-se a narrativa de que essa disposição espacial teria raízes em ideais anarquistas dos operários italianos. Contudo, o rigor acadêmico demonstra que o projeto foi uma emanação direta da administração industrial, amparada por legislação municipal favorável — como a lei de 20 de novembro de 1920, que concedeu isenções fiscais para a construção.

Futebol no quintalão, c. 1970

A imagem da década de 1950 retrata Vilma Piratininga Scalet e sua prima, Maria de Lourdes Falcini Leite, em um momento de descontração na área de uso coletivo da vila. O espaço dos quintalões, característico do projeto urbanístico da tecelagem, servia como ponto de convivência entre as famílias de operários, majoritariamente de origem italiana, reforçando os laços comunitários sob a organização da fábrica.


Registro de moradores, em 1978, da Rua Rio Branco, evidenciando a convivência entre as famílias da vizinhança. O registro captura o cotidiano dos jovens que cresceram nas imediações da Vila Brasital, mantendo viva a memória das relações comunitárias da cidade.



Patrimônio e memória pública

Hoje, os quintalões transcendem sua função original de moradia fabril. Eles são testemunhos materiais da "cidade industrial" e provocam uma reflexão necessária sobre como desenhamos nossas cidades contemporâneas. Enquanto o urbanismo atual muitas vezes prioriza o lote isolado e a fragmentação social, o modelo da Brasital demonstra o potencial da unidade de vizinhança e do espaço semipúblico como indutor de convivência.

Preservar a história dos quintalões é, portanto, um exercício de história pública. É compreender como o capital, o trabalho e a arquitetura se entrelaçaram para definir a identidade saltense. Mais do que meras estruturas de tijolos, esses espaços são documentos vivos de uma época em que a indústria não apenas produzia tecidos, mas desenhava o próprio modo de vida urbano.

As quatro imagens a seguir são de 1974 e registram os últimos tempos dos quintalões ainda em suas feições originais. Fotos de José Roberto Merlin.






Aspecto recente de um dos "quintalões". Foto de 1983 (esquerda) e 2012 (direita):




Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966