A historiografia de Salto frequentemente exalta a Brasital S/A sob a inocente aura paternalista de "Mãe de Salto", destacando as benfeitorias urbanas, como a construção de vilas operárias, creches e armazéns de emergência. No entanto, uma análise aprofundada revela que essas concessões coexistiam com extenuantes jornadas de trabalho - muitas vezes de doze horas ininterruptas no turno da noite, envolvendo crianças a partir dos dez ou onze anos de idade. Esse cenário gerou um ambiente de forte tensão e resistência, liderado por imigrantes e, de forma contundente, pelas operárias.
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| Interior da malharia da Brasital em 1920. |
As primeiras revoltas e o tiroteio histórico
Nas primeiras décadas do século XX, grande parte da
população saltense era composta por imigrantes espanhóis e, principalmente,
italianos - muitos trazendo consigo ideários anarquistas e socialistas. Como
não havia legislação trabalhista que medisse as relações patronais, as greves
tornaram-se o único recurso de reivindicação.
Ainda sob a gestão da pioneira Ítalo-Americana, os conflitos
atingiam níveis extremos de violência. Em um dos motins, o gerente do
cotonifício chegou a ser amarrado por um operário exaltado, que fugiu para a
Argentina logo após o ato para escapar da prisão. O caso de maior repercussão,
no entanto, ocorreu na segunda década do século XX e envolveu o presidente do
Partido Socialista local.
Durante uma agitação operária, a polícia foi acionada e o
delegado de Salto passou a interpelar diretamente o líder socialista. Nesse
momento, um grevista que estava ao seu lado desacatou a autoridade policial,
recebendo voz de prisão imediata. O operário resistiu com violência; em
resposta, o escrivão ameaçou sacar seu revólver, sendo acompanhado pelo próprio
delegado. O confronto resultou em um tiroteio no qual o delegado foi gravemente
baleado, enquanto o atirador fugiu sem deixar pistas.
O episódio rendeu a Salto a reputação de "cidade
turbulenta" e provocou uma dura retaliação do Estado: um tenente da Força
Pública foi enviado de trem com um pelotão armado, desembarcando ao som de
cornetas para intimidar a população. A Força Pública instaurou um rígido toque
de recolher às 18 horas, caçou suspeitos e deportou os indivíduos considerados
"perniciosos" para a cidade de Itararé, impondo o pânico no
município.
A força das tecelãs e a ameaça de massacre
Se a mão de obra feminina era amplamente explorada, ela
também foi a espinha dorsal do movimento paredista. As tecelãs protagonizaram
paralisações históricas. Em uma dessas greves, iniciada na tecelagem e aderida
pelas demais seções, o delegado de polícia e o diretor técnico da fábrica
tentaram entrar no salão para pacificar os ânimos. A tentativa falhou: o
diretor foi violentamente repelido e agredido a guarda-chuvas por uma tecelã,
sendo também atacado por outro operário, o que forçou o recuo imediato das
autoridades.
A combatividade feminina gerou outro momento de extrema
tensão em uma nova greve das tecelãs. Temendo o avanço do movimento, a
Delegacia Regional de Sorocaba enviou um pelotão armado que se posicionou nos
portões da fábrica. O superintendente da Brasital, Giuseppe Bianchi, ciente de
que a invasão de tropas armadas em um recinto fechado repleto de operárias
resultaria em um massacre, intercedeu. Ele pediu licença à polícia, entrou
sozinho no setor e negociou exaustivamente, exigência por exigência, conseguindo
restabelecer o trabalho e evitar a tragédia.
O fim das negociações e a repressão de 1935
Apesar dos acordos pontuais para evitar o derramamento de
sangue, a postura da empresa endureceu ao longo dos anos. Em novembro de 1935,
motivados por baixos salários, os trabalhadores desligaram os motores e
iniciaram uma greve que durou entre 15 e 20 dias.
Diferente das concessões anteriores, a repressão desta vez
foi cirúrgica. Ao tentarem retornar aos seus postos após o fim do movimento, as
lideranças e dezenas de grevistas descobriram que suas chapas de identificação
haviam sido retiradas dos relógios de ponto pela administração. Eles foram
sumariamente demitidos e barrados na entrada da fábrica, sem qualquer chance de
negociação.
A história industrial de Salto demonstra que as vilas
operárias e os benefícios assistencialistas não anularam a exploração severa,
mas também evidencia a coragem de uma classe trabalhadora - encabeçada de forma
feroz pelas mulheres - que não hesitou em confrontar diretamente as forças
policiais e o capital multinacional.
A fundação do primeiro sindicato em Salto
A efervescência das greves e o embate contínuo contra as
rígidas engrenagens do sistema fabril inevitavelmente forjaram uma nova
consciência de classe nos trabalhadores de Salto. A percepção de que a revolta
isolada e explosiva era insuficiente ganhou força após um grande movimento
grevista ocorrido em 1932, momento em que a massa operária despertou para a
necessidade de criar uma frente unida e oficializada contra o poderio patronal.
Foi exatamente nesse cenário de extrema tensão que, no dia
11 de novembro de 1932, nasceu a primeira organização de classe da cidade: o
Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Têxtil. A fundação dessa entidade
pioneira desafiou o conservadorismo de uma época em que qualquer mobilização
operária era estritamente vigiada e, não raro, violentamente reprimida.
A espinha dorsal dessa conquista contou de forma inegável
com a força feminina. Itália Manfredini, que ingressara como operária na
Brasital em 1921, destacou-se como a maior líder feminina saltense de todo o
século XX. Pioneira nas lutas sindicais, ela ajudou a erguer as bases da nova
instituição e ocupou cargos vitais em sua diretoria, servindo como a destemida
porta-voz dos operários nos piores momentos de crise e racionamento. Ao lado de
Itália e de outras bravas trabalhadoras - como as irmãs Messas e Maria Fusto -,
perfilaram-se idealistas combativos e operários engajados, a exemplo de Arthur
Migliori e Antonio Boarini.
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| Itália Manfredini (1907-1990) |
Nascida em 1907, Itália Manfredini desafiou as limitações de sua época e se consolidou como uma das maiores líderes femininas do século XX. Desde a juventude em Salto, onde foi uma das primeiras alunas do atual Tancredo do Amaral, ela demonstrou um faro natural para a liderança. Durante quase três décadas na tecelagem Brasital, Itália não foi apenas contramestre, mas a voz corajosa dos operários em períodos de crise e racionamento. Sua força política ajudou a fundar o primeiro sindicato da cidade em 1932, o Círculo Operário e o jornal O Trabalhador, conciliando esse forte perfil ativista com uma atuação sintonizada junto a entidades religiosas locais.
Em 1949, ela mudou de rumo e ingressou no Centro de Saúde de Salto, onde trabalhou até se aposentar na década de 1970. Mas o talento de Itália não parava nos bastidores da saúde e da política: ela também brilhava nos palcos, comandando e estrelando grupos teatrais icônicos das décadas de 50 e 60 ao lado de grandes nomes da arte saltense. Essa trajetória multifacetada e vibrante foi interrompida em abril de 1990, após um acidente de trânsito em Itu, deixando um legado que uniu, em seu último adeus, as esferas sindical, religiosa e artística da região.
A criação do sindicato representou um marco histórico
irreparável para Salto, substituindo os motins desesperados por uma trincheira
institucional de resistência. Esse núcleo inicial não apenas pavimentou o
caminho para a negociação de garantias trabalhistas e sociais, mas também
serviu como a principal escola para futuras gerações de líderes que dariam
continuidade à luta. O caminho desbravado em 1932 permitiu que, nas décadas
seguintes, o sindicato têxtil fosse comandado por defensores ferrenhos da classe,
como Agostinho Rodrigues (presidente de 1945 a 1947), Generoso Bimonti (1950 a
1953), Zelino Moschini (1953 a 1955) e Flávio Costa.
Referências:
- BOMBANA,
João M. "História da Brasital S.A.": o ex-funcionário da empresa relatou
esses eventos em uma série de artigos publicados no jornal O
Trabalhador (1976-1977). O texto de Bombana é a fonte primária que
documenta: a forte presença de anarquistas e socialistas nas primeiras
décadas; o episódio em que o gerente foi amarrado; o tiroteio que baleou o
delegado e o posterior toque de recolher imposto pela Força Pública; os
levantes incisivos das tecelãs; a agressão a guarda-chuvas contra a
chefia; e as demissões em massa após a greve de 1935.
- Depoimento
de Benedito de Quadros (Tico) (História Oral, Arquivo do Museu da Cidade): relato primário do ex-operário e ativista que descreve as origens do
sindicato logo após a greve de 1932, citando nominalmente os fundadores
iniciais, incluindo as mulheres (irmãs Messas, Maria Fusto) e colegas como
Antonio Boarini.
- Depoimento
de Odmar do Amaral Gurgel (Gaó) (História Oral - Arquivo do Museu da
Cidade, 1991): o maestro e ex-operário confirma o contexto da greve de
novembro de 1935 e relata a retaliação silenciosa da empresa, descrevendo
o momento em que os operários chegavam à portaria e encontravam os relógios
vazios, sem suas chapas de ponto.
- Depoimentos
de Benedito e Genoveva de Quadros (História Oral - Arquivo do Museu da
Cidade, 1995): atestam a dura realidade do chão de fábrica, revelando o
ingresso de crianças a partir dos 10 e 11 anos e as jornadas exaustivas de
12 horas noturnas ininterruptas na tecelagem.
- LENZI,
Valter. Coluna "Quem foi Quem": perfis detalhados que
consagram Itália Manfredini como a principal líder feminina do século XX e
narram sua atuação na diretoria do sindicato de 1932, além de trazer as
biografias de Zelino Moschini e Agostinho Rodrigues como líderes e
defensores dos trabalhadores.
- LIBERALESSO,
Ettore. História das Ruas e Praças de Salto (1998): verbetes
biográficos atestam a data exata da fundação do sindicato têxtil
(11.11.1932) liderado por Itália Manfredini, bem como a participação
direta de Arthur Migliori, Generoso Bimonti, Zelino Moschini e Flávio
Costa no comando da entidade ao longo dos anos.
- ZANONI,
Elton Frias. Leituras da Cidade (2012) e História de Salto/SP
(Blog): obras que desconstroem o mito da "Mãe de Salto",
contextualizando a infraestrutura oferecida pela Brasital (como as vilas
operárias e creches) como um contraponto à rígida disciplina fabril
exigida.























