![]() |
| Pedreira no Bairro da Estação, 1947. |
25 de abril de 2026
Cantarias em Salto: memória e ofício a partir do relato de Benedicto dos Santos (1934-2022)
24 de abril de 2026
A imigração italiana em Salto
O desenvolvimento do município de Salto, entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, está intrinsecamente ligado à imigração italiana, que reconfigurou tanto o espaço urbano quanto o rural. Atraídos, num primeiro momento, para as fazendas de café do interior paulista, esses imigrantes logo se deslocaram para o núcleo urbano. O impacto demográfico foi tamanho que, em 1905, dos cerca de 4.200 habitantes da cidade, mais de 3.000 eram nascidos na Itália.
![]() |
| Panoramas de Salto no início do século XX. |
O capital têxtil e a moldura urbana
A partir da virada do século, o capital italiano transformou a fisionomia da cidade. O empresário Enrico Dell'Acqua e a Società per l'Esportazione e per l'Industria Italo-Americana adquiriram as pioneiras tecelagens Júpiter e Fortuna. Esse complexo, que em 1919 daria origem à Brasital S/A, passou a ditar o ritmo da urbanização.
A construção das vilas operárias é o reflexo material dessa hegemonia. Para atrair e fixar a mão de obra, a empresa ergueu a Vila da Barra (1911) e, posteriormente, a Vila Operária Brasital (1920-1925), com os famosos "Quintalões". Este último foi um projeto monumental de 244 casas inspirado no Istituto Autonomo Bustese Case Popolari, da região de Busto Arsizio, na Itália. A estética da fábrica, com seus tijolos à vista e ameias gibelinas, assemelhava-se às antigas fortificações de Florença e Verona, impondo uma paisagem europeia ao interior paulista.
Toda essa estrutura forjou a imagem da Brasital como a grande "mãe de Salto", materializando um modelo paternalista que oferecia moradia, creche e armazém, mas exigia em troca uma rigorosa disciplina fabril.
![]() |
| Ao fundo, o complexo da Brasital S/A por volta de 1927. |
A vida rural e o Bairro do Buru
Enquanto as chaminés dominavam o centro urbano, a zona rural era desbravada por dezenas de famílias que, a partir de 1890, adquiriram terras de baixo custo. O núcleo dessa ocupação foi o vasto bairro do Buru, tradicionalmente dividido em Buru de Baixo, do Meio e de Cima.
Nessa geografia, enraizaram-se famílias pioneiras como Zanoni, Stecca, Zambon, Rocchi, Di Siervo, Bethiol, Pauli, Pitorri, Bolognesi, Cortis, Ognibene, Gianotto, Vallini, Quaglino, Ferrari, Santinon, Matiuzzo, Bernardi, Gilberti, Bergamo, Nicácio, Mosca e Fiori. O cotidiano girava em torno do cultivo da terra e de pontos de encontro como a "venda do Buru", da família Santinon.
![]() |
| Sítio Fundão, família Quaglino, c. 1901 |
A tradição agrícola trouxe a viticultura. Vicente Donalísio, ao adquirir um sítio em 1909, importou castas finas da Itália, França e Argentina, ganhando prêmios por sua produção. Outro destaque foi Hermenegildo Milioni, que transformou a chácara da família em um considerável parque industrial dedicado ao vinho.
Sociabilidade, fé e saúde
A religiosidade foi o cimento social no meio rural. Os imigrantes trouxeram a imagem de Nossa Senhora das Neves, estabelecendo novenas e festas em agosto. A organização era coletiva: moças de famílias como os Ribeiro, Leme e Stecca confeccionavam flores artesanais para os andores. A atual capela do bairro data de 1938.
![]() |
| A capela de Nossa Senhora das Neves, em foto dos anos 1970. |
No núcleo urbano, a sociabilidade orbitava em torno do mutualismo. Em 1902, foi fundada a Società Italiana di Mutua Assistenza Giuseppe Verdi, que amparava sócios na doença. Em 1934, a instituição ergueu a grandiosa Casa D'Itália, abrigando o Cine Verdi e o Círculo de Leitura Dante Alighieri.
![]() |
| Casa D'Italia com alunos da Escola Anita Garibaldi em frente, por volta de 1940. |
A saúde também ganhou contornos épicos com o médico milanês Enrico Viscardi. Chegado em 1902, Viscardi clinicava com tamanha dedicação que foi eternizado como o "médico dos pobres". Paralelamente, o casal Giuseppe e Doralice Segabinazzi iniciou um pioneirismo fitoterápico para o tratamento da ciática, atraindo pacientes de todo o Brasil com unguentos feitos de ervas trazidas da Itália.
Educação e a Escola Anita Garibaldi
A Escola Anita Garibaldi, mantida pela Brasital, desempenhou papel vital ao preencher a lacuna educacional após o ensino primário oficial. Sob a direção de João Baptista Dalla Vecchia, a escola oferecia um currículo rigoroso: álgebra, história, geografia, língua italiana e a famosa "caligrafia da Escola Anita".
![]() |
| Alunos da Escola Anita em arquibancada improvisada, montada em frente à Brasital, c. 1938. |
A instituição funcionava como uma ponte para a vida adulta e acadêmica. O falecido advogado saltense Mário Dotta relatou que, no caso dele, a escola foi o preparatório essencial para os exames de admissão do Ginásio Estadual de Itu. O nome da escola, homenageando a companheira brasileira de Giuseppe Garibaldi, era um gesto diplomático de integração cultural.
Música e rivalidades culturais
A vida musical saltense era marcada por uma célebre disputa. De um lado, a Banda Musical Saltense (a "Brasileira"); de outro, a Corporação Musical Giuseppe Verdi (a "Italiana"), regida por maestros como Inocêncio Pradelli. As apresentações alternadas no coreto do Largo Paula Souza polarizavam a cidade entre oriundi e brasileiros, elevando o padrão cultural local com execuções de Verdi, Mascagni e Puccini.
![]() |
| Coreto do Largo Paula Souza em 1936. Hoje, trata-se da área em frente à Biblioteca Municial. |
O trauma da Segunda Guerra Mundial
A eclosão do conflito em 1939 e o alinhamento do Brasil aos Aliados representaram uma violenta fratura para a colônia. O patriotismo que antes levava crianças uniformizadas (os balillas) a gritarem saudações a Mussolini ("Duce, per te!") transformou-se em medo.
O silenciamento foi tático e coercitivo. Valdomira Salesiane Bifano, em depoimento ao Museu da Cidade no início dos anos 1990, relatou o pânico que levou a comunidade a destruir o acervo da biblioteca italiana. A repressão atingiu os bens de capital: as leis de exceção permitiam o confisco de propriedades de cidadãos do Eixo. Francisco Olegário Nitaques lembrou que atividades artísticas e propriedades foram ameaçadas, e a Casa D’Itália foi forçada a encerrar suas atividades associativas em 1941.
O genuíno alívio coletivo e o fim desse período de censura e xenofobia só ocorreriam em 1945, com a rendição do Eixo, quando a população se aglomerou em festa ao redor do coreto no Largo Paula Souza, encerrando um ciclo de transformação e resistência da identidade italiana em solo saltense.
22 de abril de 2026
J. Silvestre: da locução no Cine Ruy Barbosa ao pioneirismo na televisão brasileira
As raízes em Salto: o berço da precisão e do esforço
O salto para a capital: o "teste da Reuters" e a escola do rádio
O pioneirismo na televisão e a dramaturgia ao vivo
A consagração: "O Céu é o Limite" e o ápice de audiência
Gestão pública: a presidência da Radiobrás
A fase no SBT e o embate com Silvio Santos
O sacrifício familiar e a vida nos EUA
Fotos em Salto, em 1984, durante um concurso de beleza, ao lado de Pilzio Di Lelli:



20 de abril de 2026
Anselmo Duarte: do "Russo Louco" em Salto à Palma de Ouro em Cannes
![]() |
Neste 21 de abril, celebramos o aniversário de nascimento de Anselmo Duarte (1920-2009), figura cuja trajetória confunde-se com a própria história da arte cinematográfica nacional. Mais do que o galã que povoou o imaginário das chanchadas e dos dramas da Vera Cruz, Anselmo foi o artífice do maior triunfo do cinema brasileiro: a Palma de Ouro no Festival de Cannes. No entanto, para compreender o cineasta, é preciso primeiro olhar para o menino que corria descalço pelas ruas de terra batida de Salto.
![]() |
| Anselmo Duarte em dezembro de 1920. |
As raízes no solo saltense
Sétimo filho de Olympia Duarte, Anselmo nasceu em uma esquina da atual Rua Monsenhor Couto, em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat. De origem humilde, sua introdução ao mundo das imagens deu-se de forma quase artesanal. No antigo Cine Pavilhão, onde seu irmão Alfredo era projecionista, o jovem Anselmo trabalhava como "molhador de tela" — função técnica da época para evitar o superaquecimento do suporte e permitir a nitidez da projeção.
![]() |
| Olympia, mãe de Anselmo. |
Essas primeiras experiências no escurinho do cinema em Salto foram o prelúdio de uma carreira que ganharia o mundo. Aos 14 anos, partiu para São Paulo, mas levou consigo a identidade do "Russo Louco", apelido de infância que ele recordaria com carinho décadas depois.
![]() |
| Cine Pavilhão, em Salto, nos tempos de Anselmo Duarte ainda menino. |
A construção do mito: do ator ao autor
A estreia de Anselmo no cinema ocorreu em 1942, em um projeto inacabado do cineasta norte-americano Orson Welles (It's All True). Rapidamente, sua presença física e carisma o transformaram no maior galã do país, protagonizando sucessos como Querida Suzana (1947), Tico-Tico no Fubá (1952) e Sinhá Moça (1953).
Contudo, Anselmo Duarte não se satisfez com o estrelato diante das câmeras. Estudioso da técnica, estreou na direção com Absolutamente Certo (1957), mas foi em 1962 que imortalizou seu nome ao adaptar a peça de Dias Gomes, O Pagador de Promessas. Com uma direção que equilibrava o rigor estético e a profundidade dos dilemas sociais e religiosos brasileiros, Anselmo venceu gigantes como Luis Buñuel e Michelangelo Antonioni em Cannes. No ano seguinte, em 1963, o filme alcançaria outro marco: a primeira indicação oficial do Brasil ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.
![]() |
| Anselmo aos 26 anos de idade. |
![]() |
| O auge da carreira de diretor: a premiação no Festival de Cannes, 1962. |
![]() |
| No filme "Pinguinho de Gente". |
![]() |
![]() |
| Nas filmagens de "Quelé do Pajeú", em Salto. |
O último discurso e o legado
Apesar da glória internacional, o vínculo com sua "terra mater" permaneceu inabalável. Em 31 de julho de 2009, meses antes de seu falecimento, Anselmo proferiu seu último discurso público em Salto, durante a inauguração da Sala Palma de Ouro. Naquela ocasião, enfatizou que honrar as raízes culturais é a matéria-prima necessária para o avanço de qualquer sociedade.
![]() |
| Anselmo proferindo seu último discurso público. |
Anselmo Duarte faleceu em novembro de 2009 e, cumprindo um desejo expresso em vida, foi sepultado no Cemitério da Saudade, em Salto. Em sua lápide, lê-se o epitáfio que resume sua existência: "Eis aqui a última história de um contador de histórias".
Ao recordarmos seu nascimento, reafirmamos que a obra de Anselmo Duarte permanece como um símbolo de resistência cultural e da capacidade do cinema brasileiro de dialogar com questões universais a partir de uma perspectiva profundamente autêntica.


.jpg)
.jpg)
























