9 de março de 2026

Paróquia de São Benedito: um resumo das origens

A gênese da Paróquia de São Benedito remete à década de 1920, período marcado pelo crescimento demográfico da região norte de Salto. Diante da expansão urbana, a comunidade católica local, até então assistida exclusivamente pela Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, demandava um novo espaço para o exercício do culto. Esse anseio começou a materializar-se em fevereiro de 1924 (com registros oscilando entre os dias 21 e 24), quando o casal Manoel José Ferreira de Carvalho, conhecido como "Manduca", e Julieta Duarte de Carvalho, formalizou a doação de uma área de terras à Irmandade de São Benedito, então representada pelo vigário Padre Arthur Leite de Souza.

Casal "Manduca": benfeitores da comunidade. 

O terreno doado apresentava dimensões de 53m × 28m e 78,60m × 82m, limitando-se com um antigo valo e vias públicas ainda sem denominação oficial. Um aspecto historiográfico relevante reside na nomenclatura do local à época: a escritura lavrada no Cartório do 2º Ofício de Itu situava a área na "Villa Operária". Embora tal denominação não tenha se consolidado na cartografia oficial do município, o documento mencionava a existência de um largo fronteiriço a 65 edificações, configurando o que hoje reconhecemos como o bairro Vila Nova.

A despeito da posse precoce do imóvel, o projeto de construção permaneceu em latência por mais de duas décadas. O marco inicial da edificação ocorreu apenas em 19 de dezembro de 1948, com o lançamento da pedra fundamental presidido por Dom Antônio Maria Alves de Siqueira, Bispo Auxiliar de São Paulo. Nos anos subsequentes, o local foi simbolicamente demarcado por uma cruz de madeira preta, até que, em dezembro de 1953, o Monsenhor João da Silva Couto estruturou a Comissão Central de Obras, composta por figuras proeminentes da sociedade saltense, como João Scarano, Victor Bombana e Ettore Liberalesso, contando ainda com o apoio de subcomissões de arrecadação lideradas por José Oliveira Gil e Waldemar Rubinato.

Procissão dedicada a São Benedito, ainda no interior da Matriz de N. S. do Monte Serrat, 1954.

As obras iniciaram-se efetivamente em janeiro de 1954, sob a administração de André Telha. O erguimento do templo foi viabilizado por uma série de mobilizações populares, destacando-se a "Campanha dos Tijolos" (1955) e a "Campanha dos Beneditos" (1956) — esta última mobilizando mais de trezentos colaboradores homônimos ao santo. Em 10 de novembro de 1956, registrou-se o içamento da primeira telha por Júlia B. Pedroso da Silva. A primeira celebração litúrgica no templo, ainda em fase de acabamento, ocorreu em 20 de junho de 1957, durante a solenidade de Corpus Christi, com o auxílio sonoro de alto-falantes operados pelo Padre Vito Kavolis para atender aos fiéis situados no exterior da edificação.

A transição da imagem de São Benedito da Matriz antiga para o novo templo ocorreu em 17 de setembro de 1958, após a inauguração do altar-mor no início daquele ano. A autonomia administrativa da comunidade foi consolidada em 22 de janeiro de 1966, quando se definiu a Rua Rodrigues Alves como linha divisória paroquial. A instalação oficial da Paróquia de São Benedito deu-se em 27 de fevereiro de 1966, data em que o Cônego Gastão Oliboni assumiu como o primeiro pároco. Sob sua gestão, a paróquia expandiu sua atuação com a construção da Capela do Divino Espírito Santo no Parque Bela Vista, inaugurada em 1968. A sucessão pastoral seguiu com o Cônego Ivo Wells (1969-1976), Cônego Vicente Formigão e Cônego Paulo Haenraetz (1977).


Fundos da Igreja em construção em setembro de 1956.

A história recente da Matriz de São Benedito é marcada pelo fortalecimento de sua identidade simbólica e litúrgica. Em 4 de junho de 2000, o Bispo Diocesano Dom Amaury Castanho presidiu a Missa de Dedicação da Igreja, momento em que o altar e a Capela do Santíssimo foram bento e as paredes internas receberam pinturas de temática bíblico-litúrgica. A sacralidade do espaço foi elevada em 29 de abril de 2001 com a recepção de uma relíquia ex-indumentis (fragmentos da pele) do padroeiro, autenticada pelo Vaticano e doada pelo Frei Wilson Zanetti. Por fim, a conclusão do projeto sonoro e arquitetônico deu-se em outubro de 2002, com a bênção e o primeiro repique dos sinos, adquiridos por meio de contribuições da comunidade, encerrando um ciclo de quase oito décadas de construção material e espiritual.

Fachada no dia da primeira missa em 1957.

Curiosidades e tópicos complementares à memória da Paróquia:

  • Um "erro" histórico na escritura - No documento de doação de 1924, o local da igreja foi registrado como "Villa Operária". O curioso é que esse bairro nunca existiu oficialmente com esse nome na nossa região, o que desafia historiadores até hoje!
  • As medidas do solo sagrado - O terreno doado pelo casal "Manduca" e Julieta media exatamente 53m x 28m e 78,60m x 82m. Naquela época, ele fazia divisa com um antigo valo e duas ruas que ainda nem tinham nome.
  • Voz para todos - Na primeira missa celebrada no templo ainda em obras (1957), o Padre Vito Kavolis precisou usar alto-falantes externos para que a multidão do lado de fora pudesse acompanhar a cerimônia no Largo São Benedito.
  • União dos "Beneditos" - Em 1956, houve a "Campanha dos Beneditos", que reuniu doações de mais de 300 colaboradores da cidade que compartilhavam o mesmo nome do santo padroeiro.
  • Uma cruz solitária - Entre o lançamento da pedra fundamental (1948) e o início real das obras (1954), o local ficou marcado por cinco anos apenas por uma simples cruz preta de madeira fincada no terreno.
  • Nomes que fizeram história - Além dos padres, muitos leigos foram fundamentais. Nomes como Victor Bombana, Ettore Liberalesso e Waldemar Rubinato lideraram comissões que bateram de porta em porta para tornar o sonho da igreja uma realidade.
  • A Relíquia do Padroeiro - A Matriz possui um tesouro raro: fragmentos da pele de São Benedito. A relíquia, autenticada pelo Vaticano, foi doada em 2001 pelo Frei Wilson Zanetti e pode ser vista em um nicho sob a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
  • Dedicação e Arte Litúrgica - Em junho de 2000, a Igreja passou pelo rito solene de Dedicação. Foi nessa época que o interior recebeu as pinturas com sinais bíblicos-litúrgicos que vemos hoje e a entronização de uma relíquia de São João da Cruz.
  • O Primeiro Toque dos Sinos - Um marco na paisagem sonora da Vila Nova! Os atuais sinos foram uma conquista da comunidade via doações e repicaram oficialmente pela primeira vez no dia 5 de outubro de 2002.
  • Um gesto simbólico - A história registra que a primeira telha da igreja, em 1956, foi içada por Júlia B. Pedroso da Silva, uma moradora local que vivia exatamente onde hoje se encontra a Casa Paroquial.
  • A motivação original - A necessidade de criar a paróquia surgiu porque, na década de 20, a Região Norte de Salto crescia rapidamente e os fiéis tinham apenas a Matriz do Monte Serrat como opção, o que tornava o acesso difícil para muitos.

Assista ao documentário de 1998 sobre a Paróquia:


A seguir, algumas fotos coletadas no grupo "Fotos Antigas de Salto/SP", no Facebook:


Coral da São Benedito na década de 1970.

Quermesse nos anos 1960.

Altar nos anos 1970.

Grupo de Primeira Comunhão em 1992.

Coral em 1973.

Missa com "esportistas" em 1962.

Encenação de Natal: reis magos, 1977.

2 de fevereiro de 2026

A trajetória de Henrique Viscardi

Figura que desde 1930 dá nome a uma rua de Salto, o médico italiano Enrico (Henrique) Viscardi nasceu em 1858, na cidade de Milão. Sua biografia pode ser dividida em três momentos principais: vivência na terra natal, passagem pela África e permanência no Brasil, especificamente em Salto.

Uma importante fonte de informação a respeito de sua trajetória se encontra numa publicação especial do jornal Fanfulla, editada em 1906 e intitulada Il Brasile e gli Italiani. Trata-se de uma compilação especial que aborda a participação de italianos no desenvolvimento do Brasil, com mais de 1200 páginas, em grande formato. Na página 1036 encontramos os dizeres sobre o doutor Viscardi e uma fotografia dele.


Essa fonte menciona que Viscardi formou-se médico pela Universidade de Pavia, na região da Lombardia, em 1883. No ano seguinte, em virtude de um surto de cólera que se alastrou por toda a península itálica, principalmente Nápoles, ao sul, o jovem estudante se inscreveu na equipe de Felice Cavallotti, político e poeta italiano, e foi em socorro aos doentes daquela região. Em 1886, consta que já dirigia um lazareto destinado aos acometidos pelo mal da cólera. Esses seus primeiros trabalhos lhe renderam duas medalhas destinadas a beneméritos da saúde pública italiana. Por essa mesma época, na biografia de Costantino Lazzari [1857-1927], um socialista lombardo, encontramos menções ao envolvimento de Viscardi como um dos membros “mais ativos e dispostos” da Liga Socialista Milanesa.

O mal da cólera atingiu muitas capitais europeias no século XIX (imagem ilustrativa).

No contexto da política expansionista europeia do final do século XIX, a África representava um grande território além-mar a ser conquistado. O rei italiano Umberto I, já tendo feito um ensaio de colonização na Eritréia, lançou-se numa guerra contra a Abissínia (atual Etiópia), pleiteando o controle de novas áreas. Essa pretensão italiana culminou na Batalha de Adwa, em 1896, na qual os etíopes surpreenderam o mundo ao derrotarem a potência européia e permanecerem independentes sob o reinado de Menelik II. Nesse conflito, Viscardi havia se engajado como capitão-médico. Ao final da mencionada batalha, foi ele quem chefiou a equipe de médicos que cuidou dos 300 prisioneiros que tiveram ou um pé ou uma mão amputados pelos etíopes, antes de serem libertados.

Representação da Batalha de Adwa

Ao retornar à Itália, Viscardi foi condecorado com medalha alusiva aos serviços prestados no campo de batalha e passou os últimos anos do século XIX como médico no Ospedale Maggiore di Milano. Casado na Itália, sabemos que Viscardi deixou lá dois filhos. Há informação que em 1906, Bruno, o mais velho, era Oficial da Marinha; e Mario estudava agronomia em Brescia. Na biografia de Lazzari, os filhos e esposa de Viscardi também são mencionados num trecho de documento do final do XIX que atesta, ainda, a estreita relação entre o socialista e o médico.

Viscardi chegou a Salto em 1902 com uma função pré-determinada: chamado por José Weissohn – industrial italiano estabelecido com suas fábricas às margens do rio Tietê – para assumir a “chefia do serviço sanitário” daquelas tecelagens. Na prática, Viscardi prestava toda a assistência médica necessária aos operários de Weissohn. Várias são as fotos do acervo do Museu da Cidade de Salto na qual estão presentes Viscardi, Weissohn e demais diretores das tecelagens existentes no início do século XX.

José Weissohn

O médico envolveu-se, ainda, no tratamento da ciática e do reumatismo, dando continuidade aos trabalhos pioneiros no combate a esses males a partir dos métodos introduzidos pelo casal Segabinazzi, italianos, também radicados em Salto. Logo que chegou, o médico viveu no Hotel Saturno. Tempos depois se mudou para um casarão de pedra, existente até hoje na Rua Monsenhor Couto. Bem quisto por toda a população saltense daqueles tempos, era chamado de “médico dos pobres” ou “médico das flores”.

O casarão em foto de 2007, quando sediava a Biblioteca Municipal

No referido casarão, Viscardi viveu com uma antiga empregada sua, com a qual teve dois filhos – falecidos com menos de dois anos e antes dele próprio: Antônio Virgílio e Antônia, que estão enterrados em túmulos de mármore branco, cercados por grades de ferro, ao lado do túmulo do pai. Em 1913, quando da morte de Viscardi, uma multidão acompanhou seu enterro, que se deu no então cemitério novo, na Vila Nova, hoje denominado Cemitério da Saudade. Em seu túmulo, que ainda hoje recebe flores, lê-se um epitáfio em língua italiana, que traduzimos: “Nesta sepultura que é a expressão da dor e da admiração de todos, está mudo e frio o coração do Dr. Henrique Viscardi, médico insigne, que era todo caridade e que cessou de palpitar no dia 13 de dezembro de 1913”.

Túmulo de Viscardi no Cemitério da Saudade.



29 de janeiro de 2026

Das lavadeiras do Tietê à torneira: luta e política pela água em Salto (1905 a 1980)

A história do desenvolvimento urbano de Salto confunde-se, em muitos momentos, com a própria história da gestão de seus recursos hídricos. Ao observarmos contexto mais que centenário do serviço de água e esgotos da cidade, iniciado em 1912, não estamos apenas tratando de uma obra de engenharia, mas revisitando um século de disputas políticas, avanços sanitários e a lenta transformação dos hábitos da nossa população.

Capa do livreto com a primeira legislação saltense sobre o tema, 1913.


O pioneirismo e os primeiros conflitos (1905–1913)

Antes de 1912, a vida doméstica em Salto dependia de poços de quintal e das águas dos rios Tietê e Jundiaí, onde as lavadeiras exerciam seu ofício. Os primeiros movimentos para mudar essa realidade surgiram em 1905, na Câmara Municipal, mas foi apenas em 1906, com a proposta do engenheiro Arthur G. Krug, que o projeto ganhou contornos técnicos. Krug desenhou uma Salto moderna, planejando desde o nivelamento das ruas até a localização dos reservatórios.

A concessão do serviço passou por reviravoltas, incluindo uma tentativa frustrada com a Cia. Paulista de Melhoramentos em 1910, até retornar às mãos de Krug em 1911. Uma decisão crucial foi tomada nessa época: a troca da captação do Rio Jundiaí pelo "Piraizinho", cuja água era considerada de qualidade superior.

Com a inauguração do sistema, veio a regulação. A Lei nº 1 de 12 de maio de 1913, documento histórico fundamental, impôs novas normas de conduta: obrigava a construção de latrinas, proibia o desperdício e vetava o fornecimento de água a vizinhos sob pena de corte. Contudo, o progresso trouxe atritos. Já em junho de 1913, moradores enviavam à Câmara um abaixo-assinado denunciando a "arbitrariedade" da empresa concessionária, que invadia quintais privados para instalar coletores sem autorização e cobrava taxas consideradas abusivas antes mesmo da conclusão das obras.

 

A estagnação e a fé nos canos (1930–1950)

Durante as décadas seguintes, a infraestrutura pouco acompanhou o crescimento da cidade. Projetos de 1935 para ampliação da rede de esgotos ficaram apenas no papel. Foi somente nos anos 1950 que a situação se tornou crítica. Salto havia saltado de 500 para 2.500 prédios, mas o volume de água captada permanecia o mesmo de 1912.

A gravidade do problema misturava a administração pública com a fé religiosa. Em um episódio emblemático de junho de 1953, caminhões carregando tubos para a nova adutora desfilaram pela cidade e pararam em frente à Igreja Matriz para serem solenemente benzidos pelo Monsenhor Couto, antes de serem soldados.

Apesar das bênçãos, a qualidade da água era questionável. Em 1959, o Dr. Adriano Randi, médico sanitarista, alertava em livro que a água de Salto era "imprópria para consumo", turva após as chuvas e tratada apenas com cloro. O desperdício era imenso, pois não havia hidrômetros e a cobrança era feita por estimativa.

 

A década perdida e o escândalo dos diques (anos 1960)

Os anos 1960 foram marcados por crises sucessivas. Em 1961, um projeto de estação de tratamento e filtragem teve que ser completamente abandonado devido a "erros técnicos insuperáveis", desperdiçando milhões de cruzeiros.

Porém, o momento mais dramático ocorreu em 1964. Em plena semana da Festa do Salto, as torneiras secaram completamente. A investigação revelou um "crime" contra a saúde pública: proprietários da Fazenda Floresta haviam construído diques clandestinos no córrego de abastecimento para criar piscinas de lazer particular. Foi necessária uma ordem judicial e a intervenção da polícia para destruir as barragens e liberar a água para a população sedenta.

A solução definitiva só começou a se desenhar no final da década. Em 1968, uma nova adutora entrou em funcionamento, e em 19 de novembro de 1969, o prefeito Jesuíno Ruy inaugurou finalmente a Estação de Tratamento de Água (ETA). Em seu discurso, Ruy não poupou críticas aos antecessores, atribuindo o atraso das obras à "politicagem" e ao "ódio do passado".

 

A guerra das taxas e a poluição (anos 1970–1980)

A inauguração da ETA não encerrou os problemas. A década de 1970 foi palco de uma "guerra" entre o Prefeito e a Câmara sobre a cobrança de taxas de água em terrenos baldios (sem construção), gerando revolta popular e disputas judiciais. Mesmo com a nova estação, a falta de água no verão continuou sendo uma constante, muitas vezes atribuída a raios que queimavam transformadores ou ao consumo excessivo.

No início dos anos 1980, a realidade ambiental bateu à porta. Uma análise da CETESB, solicitada pela Prefeitura, constatou que a água servida ainda não atendia aos padrões de potabilidade, exigindo uma lista de 12 reparos urgentes na estação. Mais grave ainda foi a descoberta da origem da poluição: o Ribeirão Piraí estava recebendo despejo de esgoto industrial de uma cerâmica e de um abatedouro de frangos da vizinha Itu, o que deixava a água com cor amarelada e resíduos gordurosos.


Partilhamos, a seguir, algumas fotografias alusivas ao tema. Datam do final da década de 1960:






































Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966