2 de abril de 2026

Jardim Tropical e Concha Acústica no projeto de Toscano

João Walter Toscano (1933–2011), arquiteto natural de Itu e graduado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) em 1957, desenvolveu em Salto um projeto de reurbanização para a área do antigo Jardim Público da Praça da Cachoeira. O conjunto, inaugurado em 1963, compreende o Jardim Tropical e a Concha Acústica, estruturas denominadas Praça Archimedes Lammoglia desde 1996. O projeto insere-se no período inicial da produção de Toscano, ocorrido após a conclusão da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Itu (1959) e antes de sua especialização em estruturas metálicas, que marcou sua trajetória posterior em obras de infraestrutura urbana na capital paulista.

A intervenção em Salto aplicou diretrizes da Escola Paulista de arquitetura, caracterizada pela exposição dos elementos estruturais e pelo uso do concreto aparente. Nas fotografias do acervo pessoal do arquiteto, datadas de 1963 (veja-as a seguir), observa-se o estado original das obras imediatamente após a execução, evidenciando a setorização do espaço e a implantação da Concha Acústica em conformidade com a topografia das margens do Rio Tietê. O partido arquitetônico adotado buscou o ordenamento do fluxo de pedestres e a criação de áreas de permanência que utilizam a visibilidade do salto d'água como eixo ordenador do desenho urbano.

No que se refere à materialidade, o projeto registrou a utilização de componentes locais na composição dos fechamentos e muros. Assim como em outros projetos contemporâneos de sua autoria na região, Toscano empregou seixos rolados extraídos do leito do Rio Tietê, técnica que conferiu uma textura específica aos planos verticais da praça. Esse uso de recursos regionais, aliado ao rigor geométrico das estruturas de concreto, define a transição entre o paisagismo tradicional anterior e a introdução da linguagem moderna no centro histórico de Salto durante a década de 1960.

Os registros fotográficos de 1963 documentam a finalização de um sistema que previa a integração entre o mobiliário urbano e o meio ambiente. A análise técnica dessas imagens permite identificar a escala das intervenções e o detalhamento construtivo de Toscano antes de sua consolidação como docente da FAU-Mackenzie e de sua atuação em grandes concursos nacionais. O conjunto da Praça Archimedes Lammoglia permanece como o principal registro da produção pública de João Walter Toscano no município, representando a aplicação de conceitos de planejamento e desenho urbano do modernismo brasileiro no contexto de uma cidade do interior paulista.



O contexto da inauguração em 1963, capturado nas fotografias de seu acervo pessoal, revela uma ruptura intencional com o modelo de "jardim público" tradicional que predominava até então:















O erro arquitetônico: do traço de Toscano ao Pavilhão Sem Sentido

A história urbana de Salto sofreu um golpe estético irreparável em 2010. O que antes era a síntese do modernismo regional - a icônica Concha Acústica - foi soterrado por uma intervenção pretensiosa denominada "Pavilhão das Artes". Sob o pretexto de "modernização", a reforma ignorou o valor histórico do projeto original de João Walter Toscano para instalar uma estrutura metálica de gosto duvidoso e custos astronômicos.

Planta do projeto original da reforma da Praça, desde o Jardim Tropical até a área da Concha.

Perfil do projeto original e contextualização, em livro sobre Toscano.

A descaracterização foi total: a leveza da forma e a integração com a paisagem do Tietê deram lugar a um esqueleto de metal que mais parece um anexo industrial inconcluso do que um centro cultural. O mais irônico de tudo é que, aos autores da mudança, era necessário tirar de cena uma "concha" que de "acústica", nada tinha. Contudo, a cada evento que se realiza, hoje, no espaço - faz-se necessário agregar uma pequena cobertura improvisada para garantir o mínimo de salubridade aos que lá se apresentam. Destruiu-se uma obra de um dos maiores arquitetos paulistas para entregar um elefante branco que, ironicamente, tentou "renovar" o que já era atemporal. O resultado é um monumento ao desperdício de verba pública e um insulto à memória arquitetônica da cidade.



A Evolução Cronológica do Espaço

Para entender o que foi perdido, é preciso percorrer a longa trajetória deste logradouro, o mais renomeado da história de Salto.

O terreno que hoje compõe a praça era, originalmente, ocupado por edificações privadas esparças:

  • A Casa de José Bonifácio, o Moço: localizada na cabeceira da ponte Salto-Itu, hospedou o Imperador D. Pedro II em 1875. Foi demolida em 1913.

Casa de José Bonifácio, o moço, no final do XIX.

  • O Casarão de Dona Aurelina: construído no final do século XIX, funcionou inicialmente como hotel. A partir de 1936, tornou-se a Escola Paroquial (Externato Sagrada Família), mantida por religiosas italianas com apoio da tecelagem Brasital.

O casarão nos primeiros tempos de Escola Paroquial, 1938.

Antes da unificação, parte da área era o Largo do Rocio, um espaço rústico entre rochas e tecelagens. Em 1931, a área foi urbanizada como Jardim Público, tornando-se o coração social da cidade, onde os saltenses se reuniam para ouvir música via rádio e acompanhar jogos de futebol por transmissões sonoras.

Com a transferência do "Coleginho" para a Avenida Dom Pedro II em 1958, o casarão foi demolido, liberando espaço para uma transformação radical. O prefeito da época contratou o então jovem arquiteto e paisagista João Walter Toscano (egresso da FAU-USP e futuro expoente da arquitetura paulista).

  • O Conceito: Toscano projetou o Jardim Tropical e a Concha Acústica. O projeto utilizava a topografia para criar um anfiteatro natural com escadarias amplas, integrando a hoje denominada Praça Archimedes Lammoglia ao cenário do Rio Tietê.

  • A Execução: após atrasos e trocas de empreiteiras, a Concha Acústica foi inaugurada em 7 de abril de 1963, tornando-se o principal palco de eventos culturais e políticos da região por mais de 40 anos.

João Walter Toscano (1933-2011), arquiteto ituano formado pela FAU-USP, consolidou-se como um expoente da arquitetura paulista pelo uso inovador do aço em projetos de infraestrutura. Entre suas obras mais relevantes na capital paulista, destacam-se a Estação Sumaré do Metrô, suspensa sobre o Vale do Pacaembu, e a Estação Ciência, na Lapa, além da icônica Concha Acústica, que exemplifica sua habilidade em unir rigor técnico e leveza formal ao longo de sua trajetória.


Após passar por nomes como Praça da Bandeira, Paula Souza, 31 de Março e 16 de Junho, o espaço recebeu, em 27 de setembro de 1996, sua denominação atual: Praça Dr. José Francisco Archimedes Lammoglia, homenageando o médico e político saltense que foi Secretário Estadual da Saúde e deputado por sete mandatos.

A era de ouro do traço de Toscano encerrou-se com a entrega do Pavilhão das Artes em junho de 2010. A estrutura de concreto da antiga concha foi substituída pela cobertura metálica atual, alterando permanentemente a identidade visual de um importante ícone paisagístico de Salto.

A Concha na fase de construção, no começo da década de 1960.

1963


1963

1963

1975

1984

1999

2003

2004

Resumo das Denominações Históricas

ÉpocaDenominação Principal
Séc. XIXLargo do Rocio
1931Jardim Público / Praça Paula Souza
1958Jardim Tropical
Anos 60/70Praça 31 de Março / Getúlio Vargas
Anos 80Praça 16 de Junho
1996 - AtualPraça Dr. Archimedes Lammoglia

30 de março de 2026

Alfaiates saltenses nos anos 1930

Nos anos 1930, a cidade de Salto mantinha uma população quase estática de pouco mais de 12 mil habitantes. O crescimento natural da época era freado pelo êxodo: os reflexos da crise de 1929 empurravam famílias inteiras para o ABC Paulista e para o bairro do Belenzinho, na capital, em busca de oportunidades. No entanto, quem ficava na cidade testemunhava o apogeu de uma profissão que o tempo e a industrialização tornariam rara: a alfaiataria.

Naquela época, o "sob medida" era a regra, e as oficinas de costura - compostas pelo mestre, oficiais e aprendizes - eram verdadeiros pontos de encontro e formação profissional.

O corredor da elegância: Rua José Galvão


A Rua José Galvão era o grande polo do setor. Próximo ao antigo "Largo" (Mazzamutto), atendia o "Bepi", cujo sobrenome o tempo apagou. No número 171, brilhava a oficina de Pedro Montagnan, um dos nomes mais requisitados da cidade.

Perto dali, a história também registrou passagens breves e marcantes, como a de Alfredo Buratti, que partiu precocemente aos 22 anos, vítima de uma epidemia de tifo. Outros nomes, como o de "Rierim" Salvadori e Santo Lelli, também deixaram sua marca na região antes de mudarem seus endereços de trabalho.

O alfaiatate Santo Lelli: Giuseppe Sante Lelli (1868-1940), natural de Cesena, Forlì, Itália. Chegou ao Brasil, via porto de Santos, em 1897 - junto com sua esposa Adele e seus filhos Marsiglio e Arsilia. É tataravô do autor deste blog. Sabe-se que foi quem ensionou o ofício a Júlio de Aguiar Frias (1896-1976), um de seus genros.

Pelas Ruas do Centro


Na Rua Monsenhor Couto (à época denominada 7 de Setembro), a tradição era mantida pelos Irmãos Malvezzi (Américo e Hermogenes). Após uma breve tentativa de vida em São Paulo, retornaram a Salto em 1931 para fundar uma das oficinas mais produtivas da época. Na mesma rua, a "Alfaiataria do Campinas", de Antônio Luiz de Camargo, encerrava suas atividades logo no início da década, em 1930.

Já na Rua Dr. Barros, o movimento era intenso. Benigno "Bibi" Nastari orgulhava-se de vestir a elite local, sempre acompanhado por uma equipe de oficiais e aprendizes. Outro gigante do setor era Pedro Garavello; sua oficina (no atual nº 617) foi, talvez, a maior empregadora da cidade, chegando a ter cinco alfaiates trabalhando simultaneamente - muitos dos quais se tornariam mestres autônomos no futuro.

Ainda na Dr. Barros, nomes como Cármino Hyppólito, Acácio Rodrigues de Moraes e o misterioso Genésio ajudavam a compor o cenário comercial da via.

Tradição em cada Esquina


A Rua Rui Barbosa (então chamada de Rua Paysandú) abrigava cinco oficinas distintas, destacando-se a de Vitorio Lui, que também fornecia materiais de costura para os colegas. Por lá também passaram o jundiaiense Carlos Gavirolli, Miguel Prestinioni, Elétro Carra e Júlio de Aguiar Frias.

Outra figura emblemática era Zalfieri Zanni, o popular "Fuga". Ele começou a carreira ainda jovem na sala de casa, na Avenida Dom Pedro II, e percorreu diversos endereços no centro, deixando um legado de inúmeros aprendizes formados sob sua tutela.

Nomes como "Zequinha" Marques, e as históricas oficinas de Brás Felizola (o "Mineiro Rico") e Brás Ferraro ficavam na Rua Nove de Julho.

Zequinha Marques (1893-1981)

O Fim de uma Era


A comparação com o passado é nostálgica. Se nos anos 1930 havia uma alfaiataria para cada 800 habitantes, hoje - com uma população saltando para quase 110 mil - restam pouquíssimos profissionais do ramo na região.


Confraternização anual dos alfaiates de Salto, 1977.


Homenagens


No desfile do aniversário de Salto de 2008, o Colégio Prudente de Moraes homenageou os alfaiates da história de Salto. Alguns remanescentes desfilaram em carro alegórico. Naquela manhã tivemos a oportunidade de reverenciarmos o nobre trabalho de todas as gerações de alfaiates que atuaram por longos anos em nossa cidade.




Para acompanhar o percurso pela Avenida Dom Pedro II, foi composta uma música alusiva ao tema. Ouça (voz de Jacob Olímpio da Rocha e letra de Juliano Oliveira):

La Traviata dos Alfaiates de Salto


A cidade de Salto, notável por seus
Alfaiates com suas roupas elegantes
Cada um com seu corte e o traquejo de seus
Alfinetes vestiam a cidade toda nossa gente

Bepi, Montagnan, Buratti, Salvadori, Lelli, Malvezzi
Prestinhoni, Nastari, Hippólyto, Canova, Cruchello e Carlito
Garavello, Frias, Dutra, Zanni, Mazetto
Outros mais e também Zequinha Marques

Pra contarmos a história, cantamos com orgulho
Tão marcante em nossa memória
Relembramos nossa tradição, personagens
Importantes do nosso passado

Bepi, Montagnan, Buratti, Salvadori, Lelli, Malvezzi
Prestinhoni, Nastari, Hippólyto, Canova, Cruchello e Carlito
Garavello, Frias, Dutra, Zanni, Mazetto
Outros mais e também Zequinha Marques

Garavello, Frias, Dutra, Zanni, Mazetto
Outros mais e também Zequinha Marques
São nossos alfaiates
São nossos alfaiates




A seguir, listamos aos alfaiates de Salto nos anos 1930 que foram localizados em artigo escrito por Ettore Liberalesso nos anos 1990 para o Jornal Taperá (alguns nomes não estão completos):

Alfaiates e proprietários:

  • Bepi (sobrenome não recordado - "Alfaiataria do Bepi")
  • Pedro Montagnan
  • Alfredo Buratti
  • Maximiano (conhecido como "Rierim" Salvadori)
  • Santo Lelli
  • Irmãos Malvezzi (Américo e Hermogenes Malvezzi)
  • Antônio Luiz de Camargo (apelidado de "Alfaiataria do Campinas")
  • Pedro Garavello
  • Benigno Nastari (o "Bibi Nastari")
  • Cármino Hyppólito (e seus irmãos Antônio e José)
  • José Zanoni
  • Acácio Rodrigues de Moraes ("Alfaiataria do Acácio")
  • Genésio
  • Vitorio Lui
  • Carlos Gavirolli
  • Miguel Prestinioni
  • Elétro Carra
  • Júlio de Aguiar Frias
  • Zalfieri Zanni (o "Fuga")
  • "Zequinha" Marques (José Maria Marques de Oliveira)
  • Brás Ferraro (Alfaiataria Trento e Trieste)
  • Crucello
  • Canovas

Oficiais e aprendizes:
  • Valter Mazzeto, Osvaldo Salvadori, Álvaro Scalet, Mário Effori, Carlos Lammoglia, Eduardo Castellari, Augusto Salvadori, Carmino e José Hyppólito, Luiz Pais Leme, Emanoelli, Olavo Roveri, Orlando Orlandini, Sérgio Stoppa, Valentim Moschini, Paulo Ghizzo, Alcindo Castilho, Onofre de Ângelo, Olívio Zacarias, entre outros.


Alguns viraram nome de rua...


Alfaiates que emprestam seus nomes às vias de Salto:

  • Acácio Rodrigues de Moraes foi o proprietário da tradicional "Alfaiataria do Acácio", estabelecimento que funcionou originalmente na Rua Dr. Barros. Sua contribuição à memória da cidade é preservada pela Rua Acácio Rodrigues de Moraes, localizada no Jardim Saltense. A via tem seu início na Avenida Brasília e estende-se até o encontro com a Rua Zalfieri Zanni.
  • José Maria Marques de Oliveira, popularmente conhecido como "Zequinha" Marques, embora tenha alcançado grande destaque como maestro, era alfaiate de profissão. Ele é homenageado com a Avenida José Maria Marques de Oliveira, uma das vias mais extensas e importantes do município. A avenida começa no trevo próximo ao Hospital Municipal (Avenida Getúlio Vargas) e atravessa diversos bairros, como a Vila Norma, Jardim São Judas Tadeu, Piccolo Paese e o condomínio Haras São Luiz.
  • Valentim José Moschini adotou o ofício de alfaiate após ser aprendiz de outro nome conhecido da área, Pedro Montagnan. Seu nome denomina a Rua Valentim José Moschini, também situada no Jardim Saltense. O trajeto desta rua inicia-se na Rua Teófilo Leite e termina na Rua Vesúvio, consolidando a presença histórica da categoria profissional naquela região do bairro.
  • Zalfieri Zanni, conhecido pelo apelido "Fuga", ingressou na alfaiataria por necessidade de adaptação, tornando-se mestre das tesouras após um acidente que o impossibilitou de continuar exercendo a profissão de pedreiro. Ele dá nome à Rua Zalfieri Zanni, localizada no Jardim Saltense. A via conecta a Rua Teophilo Leite à Rua André Telha, cruzando-se, inclusive, com a rua dedicada ao colega de profissão Acácio Rodrigues de Moraes.

27 de março de 2026

Monsenhor João da Silva Couto

A trajetória de João da Silva Couto em Salto, iniciada em 31 de janeiro de 1926 e encerrada com sua morte em 30 de abril de 1970, representa um dos períodos de maior transformação infraestrutural e institucional da paróquia de Nossa Senhora do Monte Serrat. Nascido na Fazenda da Graça, em Itu, no ano de 1887, Couto formou-se em Teologia e Filosofia no Seminário Provincial de São Paulo antes de assumir postos em Bragança Paulista e Cabreúva. Sua chegada a Salto coincidiu com uma fase de expansão urbana, na qual o sacerdote atuou como um articulador entre o poder público, as famílias tradicionais e a classe operária emergente.

Monsenhor Couto em foto posada dos anos 1960.

O registro histórico de sua gestão é marcado por uma intensa atividade construtiva e organizacional. Em 1928, ele iniciou a edificação da nova Igreja Matriz, projeto que demandou oito anos de execução e foi inaugurado em 1º de maio de 1936. Durante esse intervalo, as atividades litúrgicas foram transferidas para o Salão Paroquial, construído previamente. Um evento crítico desse período foi o incêndio de 18 de janeiro de 1935, que destruiu a imagem da padroeira datada de 1727.

Matriz em construção, entre 1928 e 1936.

Em 1934, durante os trabalhos de edificação da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, membros da comissão e colaboradores posam no canteiro de obras. Sentado ao centro da imagem, observa-se o Padre João da Silva Couto, figura central na articulação para o novo templo após o incêndio da estrutura anterior.

Composição da fotografia: A fileira superior (em pé) inclui Ângelo Nardin, Emídio Morato, Juca Salomão e Pedro Stefani. Na fileira inferior (sentados), figuram José Stoppa, Ângelo Willas, Jacomazzi, João Scarrano, Padre João, Maximiliano Salvadori e Ângelo Pavanelli. Algumas identidades permanecem incertas. (Fonte: Acervo José Pavanelli)


Monsenhor Couto ao centro, em 1936, junto ao Coro e Orquestra da Matriz.

A atuação de Monsenhor Couto também se estendeu à ocupação territorial da cidade e à assistência social. Em 1936, estabeleceu as Irmãs "Filhas de São José" no Externato Sagrado Família, em imóvel doado por Aurelina Teixeira Campos. No âmbito civil e trabalhista, fundou o Círculo Operário de Salto em 1946 e o jornal O Trabalhador em 1949 - estruturas que visavam organizar a base social católica frente às transformações industriais da época. A expansão para os bairros periféricos foi consolidada com a construção de capelas como a de Nossa Senhora das Neves, no Buru, e a de Santo Antônio, no Guaraú, além do lançamento da pedra fundamental da Igreja de São Benedito, na Vila Nova, em 1948.

Registro do batismo de Laerte Millanez Junior na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat. A imagem documenta a cotidiana atuação sacramental de Monsenhor João da Silva Couto, que esteve à frente da paróquia por mais de quatro décadas, consolidando profundos laços com as trajetórias familiares da comunidade saltense. Foto de 1955.


Em 7 de setembro de 1960, a comunidade católica de Salto reuniu-se nas escadarias da Igreja Matriz para a Primeira Festa de São Francisco de Assis. O evento, que coincidiu com as celebrações de Nossa Senhora do Monte Serrat, serviu como marco documental para os integrantes do Círculo Católico de Salto.

Na composição da imagem, destacam-se as figuras de autoridade eclesiástica ao centro: o Monsenhor João da Silva Couto e o Padre Luís. Entre os membros da associação presentes, identificam-se, na extremidade direita da primeira fila em pé, os irmãos Carlinhos e Celso Andrietta, seguidos por Norberto Bérgamo na quarta posição. O registro preserva ainda a fisionomia de cidadãos atuantes na vida social e religiosa do município, como Chico Veneta, a família Andrietta e membros da família Bérgamo.


Monsenhor Couto, em 1966, abençoando a inauguração do Conservatório Henrique Castellari.

Ao completar 50 anos de sacerdócio em 1966, João da Silva Couto recebeu o título de "Cidadão Saltense" pela Câmara Municipal, período em que já ostentava o título de Monsenhor. Após o seu falecimento, a administração municipal e a comunidade local formalizaram sua memória por meio de monumentos públicos, como a herma de granito e bronze inaugurada em 1971 e o mausoléu oficial construído em 1973. O centenário de seu nascimento, em 1987, marcou o último grande ciclo de homenagens oficiais no Cemitério Municipal.

O busto na Praça da Matriz (Antonio Vieira Tavares).
Foto da década de 1970. Contribuição de Luiza Gentile de Aguiar.

Nome de rua ainda em vida

A toponímia urbana de Salto também registrou a influência de João da Silva Couto ainda em vida, por meio da alteração em 25 de junho de 1959, durante a gestão do prefeito Hélio Steffen. A via que passou a portar o nome do sacerdote possuía um histórico de nomenclaturas que remontava ao século XIX, quando era conhecida como Rua da Igreja, termo mantido até que uma comissão da Câmara de Itu trocasse a designação anterior por Rua Sete de Setembro. Geograficamente estratégica, a rua estabelece a conexão entre o Largo São João Batista e a intersecção com as praças da Bandeira — onde se localiza a Igreja Matriz — e Antônio Vieira Tavares. Essa homenagem oficial, ocorrida onze anos antes de seu falecimento, substituiu um nome de forte apelo cívico nacional pelo do clérigo, consolidando sua presença na malha central do município.

Trecho da Rua 7 de Setembro (c.1940) - posteriormente rebatizada como Rua Monsenhor Couto.


Sepultura de Monsenhor Couto, com painel histórico do Circuito da Memória - projeto idealizado pelo autor deste blog em 2009.


26 de março de 2026

Barragem e Usina de Porto Góes

A construção da barragem e usina hidrelétrica de Porto Góes teve início em 1924, pela indústria Brasital S/A, que visava abastecer seu complexo fabril instalado nas proximidades. A concessão estadual para a construção de uma usina próxima à cachoeira fora obtida pelo grupo industrial antecessor, a Società Italo-Americana, nos primeiros anos da década de 1910.

Mas a Brasital
não concluiu a obra. Em 1927 a concessão foi cedida para a Companhia Ituana de Força e Luz – que no mesmo ano teve seu controle acionário transferido para a The São Paulo Tramway Light & Power Co. Ltd. – conhecida simplesmente por Light. Nas obras, concluídas pela Light em 1928, cerca de 1500 homens trabalharam.


Todo o aparato necessário para que a usina de Porto Góes entrasse em funcionamento alterou significativamente a paisagem do entorno da cachoeira que dá nome à cidade. O volume d’água que hoje se observa foi bastante reduzido em virtude da abertura do canal de descarga, que também resultou numa ilha artificial na margem esquerda, na qual a vegetação natural se preservou desde então.


Ao lado dos prédios remanescentes da antiga Brasital, formou-se um conjunto que é símbolo da arquitetura industrial paulista das primeiras décadas do século XX. Tecnicamente, a usina de Porto Góes apresenta duas unidades geradoras dotadas de turbinas tipo Francis, de eixo vertical, com capacidade instalada de geração de 11 MW, vazão turbinável de 56 m³/s e desnível nominal de 25 metros. Atualmente, está sob o controle da Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A., a EMAE.




Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966