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16 de junho de 2026

A trajetória de Maria de Lourdes Guarda

A análise historiográfica do catolicismo laico e dos movimentos sociais no Brasil ganha uma dimensão singular por meio da biografia da saltense Maria de Lourdes Guarda. Nascida em 22 de novembro de 1926, em Salto/SP, ela era filha de Innocêncio Guarda e Júlia Froner Guarda. Sua formação inicial reflete o panorama educacional e religioso das elites e da classe média do interior de São Paulo daquela época, tendo sido aluna interna no tradicional Colégio do Patrocínio, instituição pertencente às Irmãs de São José de Chambéry, na vizinha cidade de Itu. Em 1944, aos 18 anos de idade, ela já atuava no campo da educação, lecionando no Colégio da Congregação das Filhas de São José do Caburlotto, localizado em sua cidade natal. Nesse período da juventude, ela lecionou até os 20 anos e acalentava o projeto de ingressar no ambiente conventual na Congregação das Filhas de São José, mimetizando os passos de sua irmã que já havia aderido à vida religiosa, razão pela qual se dedicava intensamente às obras da Igreja. No entanto, o desenvolvimento de uma severa lesão na coluna vertebral, que lhe causava dores agudas e persistentes, alterou permanentemente o curso de sua biografia.


Maria de Lourdes Guarda (destaque) aos 18 anos, quando iniciou a carreira docente.

Maria de Lourdes já no leito hospitalar, após cirurgia, ainda bastante jovem.

Sob a perspectiva da história da medicina e da ortopedia em meados do século XX, o tratamento clínico da jovem saltense ilustra a complexidade e as limitações técnicas das intervenções cirúrgicas daquela época. Em 12 de agosto de 1947, ela foi submetida à sua primeira cirurgia na coluna, uma tentativa inicial que não obteve sucesso na eliminação dos sintomas dolorosos. Nos 5 anos subsequentes, seu prontuário médico registrou um total de 6 intervenções cirúrgicas consecutivas, que se configuraram como tentativas frustradas de restabelecer sua capacidade de marchar. O agravamento do quadro clínico manifestou-se por meio de complicações severas na coluna e pelo processo de gangrena em seu pé direito, o que impôs a necessidade cirúrgica de amputar a perna direita acima do joelho. Adicionalmente, a extração dos ossos dos quadris resultou na atrofia progressiva e na imobilidade total de sua perna esquerda. Para viabilizar sua sobrevivência física sem interromper de forma fatal a circulação sanguínea, foi desenvolvida uma armação de madeira protetora especial. Desse modo, ainda na juventude, ela viu-se completamente imobilizada em um leito, desprovida da capacidade funcional de sentar-se, uma vez que sua sustentação corpórea dependia de um gesso estruturado com uma canaleta nas costas, estendendo-se continuamente do pescoço até a altura do joelho.

Lourdes recebia inúmeras visitas, mesmo residindo no hospital.

Do ponto de vista socioeconômico e da micro-história do cotidiano hospitalar, a permanência da saltense nas instituições de saúde desafiou as convenções de passividade e dependência associadas aos pacientes crônicos do período, totalizando 49 anos de vivência em leitos hospitalares. Em agosto de 1972, ela completou a marca de 25 anos de internação contínua nas dependências do histórico Hospital Humberto Primo, popularmente conhecido como Hospital Matarazzo, localizado na cidade de São Paulo. Para manter sua autonomia financeira e arcar com os custos das diárias hospitalares daquela instituição paulistana, ela desenvolveu uma atividade econômica regular a partir do leito, confeccionando peças de tricô e bordados sob encomenda. O quarto número 259 do Hospital Matarazzo converteu-se gradualmente em um espaço de sociabilidade e de convergência intelectual e assistencial na capital, funcionando como um ponto de encontro e atração. O local reunia amigos e indivíduos de todas as classes sociais que buscavam auxílio para suas vulnerabilidades materiais e psicológicas, além de pessoas com deficiência que diariamente chegavam de vários pontos do país. De seu leito, ela operava uma intensa atividade de acolhimento, atendendo a frequentes telefonemas, realizando encaminhamentos institucionais com o apoio de uma rede de amigos e oferecendo palavras de conforto e ajuda material aos necessitados. Relatos documentais de seus contemporâneos enfatizam que, contrastando com o quadro de invalidez, ela exibia um semblante corado e olhos azuis brilhantes, sustentando publicamente o axioma de que nenhuma deficiência constituía um impedimento para a vida — posicionamento sintetizado em sua célebre afirmação de que havia deixado de andar, mas não de viver —, o que encontrava eco teológico na leitura da Segunda Epístola de São Paulo aos Coríntios, capítulo 12, versículo 9. Ademais, sua atuação política e social incluiu engajamento direto em movimentos voltados à preservação histórica e funcional da própria instituição de saúde onde residia, atuando para salvar o Hospital Humberto Primo da desativação.

Para se deslocar Brasil afora, Lourdes começou a utilizar uma Kombi que a levava na cama.


Em leito adaptado em um avião, em deslocamento de sua militância ativa pelos deficientes.




A inserção definitiva de Maria de Lourdes Guarda na historiografia dos movimentos civis e pastorais da América Latina consolidou-se por meio de sua liderança na Fraternidade Cristã de Pessoas com Deficiência. Este movimento internacional, originado na França, foi formalmente absorvido por sua atuação militante no período de 1981 a 1992, intervalo de mais de dez anos no qual ela exerceu o cargo de coordenadora nacional da organização no Brasil, acumulando também a liderança da Fraternidade Cristã de Defesa de Deficientes. Apesar de suas severas restrições de mobilidade urbana, ela articulou redes de apoio logístico e, por meio da doação de passagens concedidas por uma empresa aérea, realizou extensas viagens de mobilização social, acomodada em sua maca, por diversas regiões do território brasileiro e por outros países do continente latino-americano. Essa atuação resultou na fundação direta de mais de 250 grupos da fraternidade em solo nacional, estabelecendo um novo paradigma de protagonismo, defesa de direitos e cidadania para as pessoas institucionalizadas ou portadoras de limitações motoras em uma época de intensa efervescência dos direitos civis.


Com irmão e cunhada, em foto de 1975.

O falecimento da liderança católica ocorreu em 5 de maio de 1996, na capital paulista, cidade onde passou a maior parte de sua existência. Nos últimos tempos de vida, ela havia sido transferida para outra instituição de saúde em decorrência do fechamento do Hospital Matarazzo. O estágio final de sua biografia médica revela o impacto do confinamento prolongado: ela já não possuía um dos rins, o pulmão direito encontrava-se inativo, sofria com um tumor na bexiga e enfrentava severas chagas dermatológicas nas costas causadas pela decúbito dorsal permanente, condições que não abalaram sua fé cristã ou sua energia interior. Inicialmente, o sepultamento ocorreu no Cemitério da Saudade, em sua cidade natal de Salto. Quinze anos após o óbito, em uma articulação que remonta a 1º de agosto de 2003, quando o padre canadense Paulo André L. Labrosse (então vigário da Paróquia Nossa Senhora do Monte Serrat), e os cidadãos saltenses Francisco Antonio Moschini, Ettore Liberalesso e Pedro Rudine Tonello, juntamente com o ituano Roberto Machado Carvalho, protocolaram uma petição formal junto ao bispo diocesano dom Amaury Castanho. Assim, a Causa-Processo de Beatificação e Canonização foi introduzida na Diocese de Jundiaí. Como desdobramento desse procedimento jurídico-eclesial, em 30 de setembro de 2011, seus restos mortais foram exumados e transladados solenemente para a Igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora do Monte Serrat, em Salto, sendo depositados em um altar localizado à esquerda do altar principal (foto a seguir), sob a designação canônica de Serva de Deus.


A evolução subsequente da causa junto à Santa Sé no Vaticano culminou no reconhecimento de suas virtudes heroicas, outorgando-lhe o título de
Venerável, restando o cumprimento das demais etapas regulamentares para a conclusão do processo de canonização. O impacto de sua trajetória na cultura local e nacional materializou-se em produções intelectuais e homenagens públicas. Sua biografia detalhada foi registrada no livro intitulado Um quarto com vista para o mundo, de autoria de Margarida Oliva e Guilherme Salgado Rocha, obra que serviu de substrato para o artigo analítico do jornalista Mauro Chaves, intitulado "O hino à força da vida", publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 5 de abril de 2003. No âmbito institucional do município de Salto, a memória da ativista foi perenizada pelo poder executivo em 14 de fevereiro de 2004, mediante a atribuição de seu nome à escola municipal de ensino fundamental Cemus IX. Atualmente, o procedimento jurídico e teológico concentra-se na fase de recepção de relatos de graças e comprovação de milagres por intercessão, centralizados administrativamente na Cúria Diocesana de Jundiaí.

Notícia no Estadão.

9 de março de 2026

Paróquia de São Benedito: um resumo das origens

A gênese da Paróquia de São Benedito remete à década de 1920, período marcado pelo crescimento demográfico da região norte de Salto. Diante da expansão urbana, a comunidade católica local, até então assistida exclusivamente pela Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, demandava um novo espaço para o exercício do culto. Esse anseio começou a materializar-se em fevereiro de 1924 (com registros oscilando entre os dias 21 e 24), quando o casal Manoel José Ferreira de Carvalho, conhecido como "Manduca", e Julieta Duarte de Carvalho, formalizou a doação de uma área de terras à Irmandade de São Benedito, então representada pelo vigário Padre Arthur Leite de Souza.

Casal "Manduca": benfeitores da comunidade. 

O terreno doado apresentava dimensões de 53m × 28m e 78,60m × 82m, limitando-se com um antigo valo e vias públicas ainda sem denominação oficial. Um aspecto historiográfico relevante reside na nomenclatura do local à época: a escritura lavrada no Cartório do 2º Ofício de Itu situava a área na "Villa Operária". Embora tal denominação não tenha se consolidado na cartografia oficial do município, o documento mencionava a existência de um largo fronteiriço a 65 edificações, configurando o que hoje reconhecemos como o bairro Vila Nova.

A despeito da posse precoce do imóvel, o projeto de construção permaneceu em latência por mais de duas décadas. O marco inicial da edificação ocorreu apenas em 19 de dezembro de 1948, com o lançamento da pedra fundamental presidido por Dom Antônio Maria Alves de Siqueira, Bispo Auxiliar de São Paulo. Nos anos subsequentes, o local foi simbolicamente demarcado por uma cruz de madeira preta, até que, em dezembro de 1953, o Monsenhor João da Silva Couto estruturou a Comissão Central de Obras, composta por figuras proeminentes da sociedade saltense, como João Scarano, Victor Bombana e Ettore Liberalesso, contando ainda com o apoio de subcomissões de arrecadação lideradas por José Oliveira Gil e Waldemar Rubinato.

Procissão dedicada a São Benedito, ainda no interior da Matriz de N. S. do Monte Serrat, 1954.

As obras iniciaram-se efetivamente em janeiro de 1954, sob a administração de André Telha. O erguimento do templo foi viabilizado por uma série de mobilizações populares, destacando-se a "Campanha dos Tijolos" (1955) e a "Campanha dos Beneditos" (1956) — esta última mobilizando mais de trezentos colaboradores homônimos ao santo. Em 10 de novembro de 1956, registrou-se o içamento da primeira telha por Júlia B. Pedroso da Silva. A primeira celebração litúrgica no templo, ainda em fase de acabamento, ocorreu em 20 de junho de 1957, durante a solenidade de Corpus Christi, com o auxílio sonoro de alto-falantes operados pelo Padre Vito Kavolis para atender aos fiéis situados no exterior da edificação.

A transição da imagem de São Benedito da Matriz antiga para o novo templo ocorreu em 17 de setembro de 1958, após a inauguração do altar-mor no início daquele ano. A autonomia administrativa da comunidade foi consolidada em 22 de janeiro de 1966, quando se definiu a Rua Rodrigues Alves como linha divisória paroquial. A instalação oficial da Paróquia de São Benedito deu-se em 27 de fevereiro de 1966, data em que o Cônego Gastão Oliboni assumiu como o primeiro pároco. Sob sua gestão, a paróquia expandiu sua atuação com a construção da Capela do Divino Espírito Santo no Parque Bela Vista, inaugurada em 1968. A sucessão pastoral seguiu com o Cônego Ivo Wells (1969-1976), Cônego Vicente Formigão e Cônego Paulo Haenraetz (1977).


Fundos da Igreja em construção em setembro de 1956.

A história recente da Matriz de São Benedito é marcada pelo fortalecimento de sua identidade simbólica e litúrgica. Em 4 de junho de 2000, o Bispo Diocesano Dom Amaury Castanho presidiu a Missa de Dedicação da Igreja, momento em que o altar e a Capela do Santíssimo foram bento e as paredes internas receberam pinturas de temática bíblico-litúrgica. A sacralidade do espaço foi elevada em 29 de abril de 2001 com a recepção de uma relíquia ex-indumentis (fragmentos da pele) do padroeiro, autenticada pelo Vaticano e doada pelo Frei Wilson Zanetti. Por fim, a conclusão do projeto sonoro e arquitetônico deu-se em outubro de 2002, com a bênção e o primeiro repique dos sinos, adquiridos por meio de contribuições da comunidade, encerrando um ciclo de quase oito décadas de construção material e espiritual.

Fachada no dia da primeira missa em 1957.

Curiosidades e tópicos complementares à memória da Paróquia:

  • Um "erro" histórico na escritura - No documento de doação de 1924, o local da igreja foi registrado como "Villa Operária". O curioso é que esse bairro nunca existiu oficialmente com esse nome na nossa região, o que desafia historiadores até hoje!
  • As medidas do solo sagrado - O terreno doado pelo casal "Manduca" e Julieta media exatamente 53m x 28m e 78,60m x 82m. Naquela época, ele fazia divisa com um antigo valo e duas ruas que ainda nem tinham nome.
  • Voz para todos - Na primeira missa celebrada no templo ainda em obras (1957), o Padre Vito Kavolis precisou usar alto-falantes externos para que a multidão do lado de fora pudesse acompanhar a cerimônia no Largo São Benedito.
  • União dos "Beneditos" - Em 1956, houve a "Campanha dos Beneditos", que reuniu doações de mais de 300 colaboradores da cidade que compartilhavam o mesmo nome do santo padroeiro.
  • Uma cruz solitária - Entre o lançamento da pedra fundamental (1948) e o início real das obras (1954), o local ficou marcado por cinco anos apenas por uma simples cruz preta de madeira fincada no terreno.
  • Nomes que fizeram história - Além dos padres, muitos leigos foram fundamentais. Nomes como Victor Bombana, Ettore Liberalesso e Waldemar Rubinato lideraram comissões que bateram de porta em porta para tornar o sonho da igreja uma realidade.
  • A Relíquia do Padroeiro - A Matriz possui um tesouro raro: fragmentos da pele de São Benedito. A relíquia, autenticada pelo Vaticano, foi doada em 2001 pelo Frei Wilson Zanetti e pode ser vista em um nicho sob a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
  • Dedicação e Arte Litúrgica - Em junho de 2000, a Igreja passou pelo rito solene de Dedicação. Foi nessa época que o interior recebeu as pinturas com sinais bíblicos-litúrgicos que vemos hoje e a entronização de uma relíquia de São João da Cruz.
  • O Primeiro Toque dos Sinos - Um marco na paisagem sonora da Vila Nova! Os atuais sinos foram uma conquista da comunidade via doações e repicaram oficialmente pela primeira vez no dia 5 de outubro de 2002.
  • Um gesto simbólico - A história registra que a primeira telha da igreja, em 1956, foi içada por Júlia B. Pedroso da Silva, uma moradora local que vivia exatamente onde hoje se encontra a Casa Paroquial.
  • A motivação original - A necessidade de criar a paróquia surgiu porque, na década de 20, a Região Norte de Salto crescia rapidamente e os fiéis tinham apenas a Matriz do Monte Serrat como opção, o que tornava o acesso difícil para muitos.

Assista ao documentário de 1998 sobre a Paróquia:


A seguir, algumas fotos coletadas no grupo "Fotos Antigas de Salto/SP", no Facebook:


Coral da São Benedito na década de 1970.

Quermesse nos anos 1960.

Altar nos anos 1970.

Grupo de Primeira Comunhão em 1992.

Coral em 1973.

Missa com "esportistas" em 1962.

Encenação de Natal: reis magos, 1977.

2 de setembro de 2017

Monsenhor Mário Negro (1922-2006)

Texto de Valderez Antonio Bergamo Silva, publicado originalmente no jornal Taperá, em 2006.


MONSENHOR

Era o meu modelo de padre. Porreta e da pá-virada.

Certa vez, precisei telefonar-lhe para combinar detalhes sobre uma cerimônia da Semana Santa em praça pública. O carnaval tinha passado fazia poucas semanas e eu, na época dirigente de cultura da cidade, havia mandado decorar a rua dos desfiles com grandes painéis que evocavam os orixás do candomblé, em homenagem aos cem anos da abolição da escravidão e às raízes africanas do povo brasileiro. Lembrei, depois, que o padre talvez não tivesse gostado muito e, diplomaticamente, expliquei por que era uma referência cultural legítima, uma homenagem a uma das vertentes da formação brasileira, coisa e tal. Disse que ele tinha “um coração compreensivo”  e que certamente tinha entendido a razão dos enormes desenhos de Iemanjá, Iansã, Ogum, Oxalá, pairando no centro da cidade. Ele pegou o gancho da minha fala e me devolveu a espetada pelo telefone:

- Claro, o coração do padre é tão compreensivo que vira  terreiro de macumba.

Esse homem direto, franco, freqüentemente rude, foi Mário Negro, o padre da minha infância, o monsenhor de minha cidade natal, o amigo querido que fui a sepultar, dias atrás.

Quando chegou à cidade, no final dos anos 1960, criou o hábito que, em seu funeral, todos os de minha geração cuidavam de lembrar. Nas manhãs de domingo tomava de um tambor, um bumbo, e saía pelas ruas da cidade arrebanhando a garotada para a chamada Missa das Crianças. Depois de percorrer ruas a fio, o cortejo – que lembrava o flautista de Hamelin, da lenda medieval do homem que hipnotizava meninos com o toque da flauta – chegava à frente da Igreja Matriz. Fazia, então, as crianças seguirem em fila, pisando criteriosamente uma fita pregada no chão, até se acomodarem nos bancos para assistirem à missa. Ficou também, na memória da cidade, como o homem que, num descuido, despencou do campanário da igreja, estatelando-se no duro chão de pedra do adro. E sobreviveu. Homem de peripécias curiosas, houve o episódio em que viu-se enganado por uma trupe de cinema, que o convenceu a fazer uma ponta como ator, celebrando um casamento numa dada cena do filme que se rodava na cidade. Só depois da estréia, a pequena cidade – e o padre, inocente – viram tratar-se de um filme pornográfico dos que surgiam na época.

Haverá, certamente, quem prefira lembrá-lo como o homem turrão e genioso, que bronqueou com beatas, implicou com isto e aquilo, brigou com o prefeito, desafiou até o bispo. Eu o vejo como fruto perfeito da Igreja, naquilo que ela efetivamente é: feita de homens; não de anjos. A Igreja militante e peregrina, santa justamente porque só se torna possível à custa de aprendizados, marchas, erros, acertos, martírios e sofrido exercício da fé. O sacerdote octogenário que minha cidade perdeu foi o homem sabedor dos limites do homem. Aquele, bem-humorado, que ministrava uma palestra em minha escola, quando o conclave de cardeais se reunia para escolher o sucessor do recém-falecido papa Paulo VI. Mário Negro explicava aos jovens que o Espírito Santo é quem escolhe o papa, e que, em tese, não precisava ser um cardeal, poderia ser qualquer um, até ele. Quando, com deliciosa malícia no sorriso, acrescentou: - Esse risco, porém, não existe, porque Deus não comete besteiras.

Mário, que me lembrou Pedro, o pescador, como eu quis dizer na oração fúnebre junto a sua sepultura. O Pedro também teimoso, carregado de dúvidas e erros, de humanidade profunda, a quem Cristo perguntou por três vezes: Pedro, tu me amas ? E, ao ouvir a resposta positiva do apóstolo, então, por três vezes pediu: - Apascenta as minhas ovelhas.

As ovelhas o padre de minha infância apascentou daquele modo, arrebanhando-as meninas pelas ruas da cidade. Ou comovendo-se até às lágrimas, numa voz soluçante de homem, quando se inflamava na pregação da Descida da Cruz. Cuidou do seu rebanho quando bradava, numa empolgação inigualável, acolhendo nas escadarias da igreja, por mais de trinta anos, a procissão e o andor da Senhora do Monte Serrat, padroeira da terra onde foi missionário infatigável. E ainda na infalível disposição em atender os moribundos, em encomendar as almas segundo seu credo, em consolar as famílias chorosas, em ter oficiado missa mesmo na manhã do seu último dia de vida. Combateu o bom combate, a que alude o apóstolo Paulo, guardou a sua fé, justificou os seus dias, atendeu, em meio aos seus limites de homem, ao pedido que o Nazareno fez ao pescador.

Num de seus últimos gracejos para mim, poucos meses atrás, apareceu numa chácara onde eu me encontrava, conversando com uma amiga que tínhamos em comum. Perguntei por onde havia chegado, que não ouvira barulho de automóvel, apenas o vira emergir de trás dos arbustos do jardim. Ele, sem perder a anedota, me esclareceu: - Cheguei voando. Os padres, depois que fazem oitenta anos, começam a  virar  anjos.

Para mim, que soube amá-lo, sua imagem, sim, vai-se voando, na minha resignada tristeza, levada na batida do bumbo que ouvia criança, nas cantigas marianas, nos acordes da banda, nas pancadas do sino. Vai-se a figura polêmica. Vai-se o pastor incansável. O amigo dos meus dias de homem. O padre dos meus tempos de menino. 



Monsenhor Mário Negro (1922-2006), que foi o pároco responsável pela Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, em Salto/SP, durante quase trinta anos.

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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966