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26 de maio de 2026

As igaçabas encontradas em Salto

Antes da colonização, a área de Salto abrigava aldeias de índios guaianás, do grupo tupi-guarani, como a aldeia Paraná-Ytu. Foram eles que batizaram a cachoeira de Ytu Guaçu, que significa "Salto Grande".

A prova material mais contundente dessa presença secular são as igaçabas (urnas funerárias de cerâmica) e pontas de flechas. O avanço urbano e as escavações do século XX trouxeram essas relíquias à superfície, comprovando que a região do Médio Tietê era uma zona de ocupação vasta.

O Museu da Cidade (veja fotos a seguir) documenta achados importantes em diferentes pontos:

Bairro do Buru (Fazenda Chapada) – Década de 1970
Localizado na porção sudoeste/oeste do município. Foi nessa região que, na década de 1970, encontrou-se uma igaçaba nas terras da antiga Fazenda Chapada, testemunhando a ocupação indígena tradicional em áreas hoje rurais/periféricas.

Jardim Celani (Antiga Fazenda Elizabeth) – Outubro de 1980
Ponto situado na malha urbana. Durante as escavações para as obras de fundação do Hospital Municipal, os operários e pesquisadores identificaram mais um fragmento importante da história pré-colonial saltense.

Bairro São Judas Tadeu – 1992
Outra importante urna funerária recuperada no início da década de 1990. O achado ocorreu durante movimentações de terra e terraplanagem na região do bairro São Judas Tadeu, reforçando a ampla distribuição desses vestígios pelo território do município.

Esses achados são fundamentais porque comprovam a presença indígena além dos relatos coloniais. A maioria desses nativos acabou sendo expulsa ou aprisionada pelas bandeiras paulistas para o trabalho escravo. Hoje, as igaçabas são o testemunho material e silencioso dos verdadeiros primeiros habitantes de Salto.





24 de abril de 2026

A imigração italiana em Salto

O desenvolvimento do município de Salto, entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, está intrinsecamente ligado à imigração italiana, que reconfigurou tanto o espaço urbano quanto o rural. Atraídos, num primeiro momento, para as fazendas de café do interior paulista, esses imigrantes logo se deslocaram para o núcleo urbano. O impacto demográfico foi tamanho que, em 1905, dos cerca de 4.200 habitantes da cidade, mais de 3.000 eram nascidos na Itália.


Panoramas de Salto no início do século XX.

O capital têxtil e a moldura urbana

A partir da virada do século, o capital italiano transformou a fisionomia da cidade. O empresário Enrico Dell'Acqua e a Società per l'Esportazione e per l'Industria Italo-Americana adquiriram as pioneiras tecelagens Júpiter e Fortuna. Esse complexo, que em 1919 daria origem à Brasital S/A, passou a ditar o ritmo da urbanização.

A construção das vilas operárias é o reflexo material dessa hegemonia. Para atrair e fixar a mão de obra, a empresa ergueu a Vila da Barra (1911) e, posteriormente, a Vila Operária Brasital (1920-1925), com os famosos "Quintalões". Este último foi um projeto monumental de 244 casas inspirado no Istituto Autonomo Bustese Case Popolari, da região de Busto Arsizio, na Itália. A estética da fábrica, com seus tijolos à vista e ameias gibelinas, assemelhava-se às antigas fortificações de Florença e Verona, impondo uma paisagem europeia ao interior paulista.

Toda essa estrutura forjou a imagem da Brasital como a grande "mãe de Salto", materializando um modelo paternalista que oferecia moradia, creche e armazém, mas exigia em troca uma rigorosa disciplina fabril.

Ao fundo, o complexo da Brasital S/A por volta de 1927.

A vida rural e o Bairro do Buru

Enquanto as chaminés dominavam o centro urbano, a zona rural era desbravada por dezenas de famílias que, a partir de 1890, adquiriram terras de baixo custo. O núcleo dessa ocupação foi o vasto bairro do Buru, tradicionalmente dividido em Buru de Baixo, do Meio e de Cima.

Nessa geografia, enraizaram-se famílias pioneiras como Zanoni, Stecca, Zambon, Rocchi, Di Siervo, Bethiol, Pauli, Pitorri, Bolognesi, Cortis, Ognibene, Gianotto, Vallini, Quaglino, Ferrari, Santinon, Matiuzzo, Bernardi, Gilberti, Bergamo, Nicácio, Mosca e Fiori. O cotidiano girava em torno do cultivo da terra e de pontos de encontro como a "venda do Buru", da família Santinon.

Sítio Fundão, família Quaglino, c. 1901

A tradição agrícola trouxe a viticultura. Vicente Donalísio, ao adquirir um sítio em 1909, importou castas finas da Itália, França e Argentina, ganhando prêmios por sua produção. Outro destaque foi Hermenegildo Milioni, que transformou a chácara da família em um considerável parque industrial dedicado ao vinho.

Sociabilidade, fé e saúde

A religiosidade foi o cimento social no meio rural. Os imigrantes trouxeram a imagem de Nossa Senhora das Neves, estabelecendo novenas e festas em agosto. A organização era coletiva: moças de famílias como os Ribeiro, Leme e Stecca confeccionavam flores artesanais para os andores. A atual capela do bairro data de 1938.

A capela de Nossa Senhora das Neves, em foto dos anos 1970.

No núcleo urbano, a sociabilidade orbitava em torno do mutualismo. Em 1902, foi fundada a Società Italiana di Mutua Assistenza Giuseppe Verdi, que amparava sócios na doença. Em 1934, a instituição ergueu a grandiosa Casa D'Itália, abrigando o Cine Verdi e o Círculo de Leitura Dante Alighieri.

Casa D'Italia com alunos da Escola Anita Garibaldi em frente, por volta de 1940.

A saúde também ganhou contornos épicos com o médico milanês Enrico Viscardi. Chegado em 1902, Viscardi clinicava com tamanha dedicação que foi eternizado como o "médico dos pobres". Paralelamente, o casal Giuseppe e Doralice Segabinazzi iniciou um pioneirismo fitoterápico para o tratamento da ciática, atraindo pacientes de todo o Brasil com unguentos feitos de ervas trazidas da Itália.

Educação e a Escola Anita Garibaldi

A Escola Anita Garibaldi, mantida pela Brasital, desempenhou papel vital ao preencher a lacuna educacional após o ensino primário oficial. Sob a direção de João Baptista Dalla Vecchia, a escola oferecia um currículo rigoroso: álgebra, história, geografia, língua italiana e a famosa "caligrafia da Escola Anita".

Alunos da Escola Anita em arquibancada improvisada, montada em frente à Brasital, c. 1938.

A instituição funcionava como uma ponte para a vida adulta e acadêmica. O falecido advogado saltense Mário Dotta relatou que, no caso dele, a escola foi o preparatório essencial para os exames de admissão do Ginásio Estadual de Itu. O nome da escola, homenageando a companheira brasileira de Giuseppe Garibaldi, era um gesto diplomático de integração cultural.

Música e rivalidades culturais

A vida musical saltense era marcada por uma célebre disputa. De um lado, a Banda Musical Saltense (a "Brasileira"); de outro, a Corporação Musical Giuseppe Verdi (a "Italiana"), regida por maestros como Inocêncio Pradelli. As apresentações alternadas no coreto do Largo Paula Souza polarizavam a cidade entre oriundi e brasileiros, elevando o padrão cultural local com execuções de Verdi, Mascagni e Puccini.

Coreto do Largo Paula Souza em 1936. Hoje, trata-se da área em frente à Biblioteca Municial.

O trauma da Segunda Guerra Mundial

A eclosão do conflito em 1939 e o alinhamento do Brasil aos Aliados representaram uma violenta fratura para a colônia. O patriotismo que antes levava crianças uniformizadas (os balillas) a gritarem saudações a Mussolini ("Duce, per te!") transformou-se em medo.

O silenciamento foi tático e coercitivo. Valdomira Salesiane Bifano, em depoimento ao Museu da Cidade no início dos anos 1990, relatou o pânico que levou a comunidade a destruir o acervo da biblioteca italiana. A repressão atingiu os bens de capital: as leis de exceção permitiam o confisco de propriedades de cidadãos do Eixo. Francisco Olegário Nitaques lembrou que atividades artísticas e propriedades foram ameaçadas, e a Casa D’Itália foi forçada a encerrar suas atividades associativas em 1941.

O genuíno alívio coletivo e o fim desse período de censura e xenofobia só ocorreriam em 1945, com a rendição do Eixo, quando a população se aglomerou em festa ao redor do coreto no Largo Paula Souza, encerrando um ciclo de transformação e resistência da identidade italiana em solo saltense.

3 de setembro de 2023

Hino à Senhora das Neves

O CULTO A NOSSA SENHORA DAS NEVES - Uma família de imigrantes, contam os antigos moradores do bairro rural do Buru, em Salto, trouxe da Itália uma pequena imagem de Nossa Senhora das Neves, propagando o culto sob essa invocação. Foi então que os habitantes dos arredores passaram a se reunir para rezar o terço, desde a época do padre Bartholomeu Taddei. Já naqueles tempos, no mês de agosto, promoviam-se novenas que eram encerradas com a procissão da imagem venerada.

ZEQUINHA MARQUES - O maestro José Maria Marques de Oliveira - popularmente conhecido como Zequinha Marques - nasceu em Salto em 1893, onde faleceu em 1981. Estudou nas escolas isoladas de Salto. Alfaiate, viveu muito mais para a música. Já em 1904 aprendeu a tocar bandolim. Dez anos depois era professor de música. Em 1916, tocava baixo na “Banda Brasileira”, mas em  1918 formou a sua própria banda, que durou três anos. Casou-se em 1921 com Emma Donatto. Foi um dos fundadores da S.I.R. Ideal e da Lira Saltense, tocando também na Orquestra Itaguaçu. Dirigiu por mais de 40 anos o Coro Oficial da Matriz e a famosa orquestra que abrilhantava as festas mais importantes da paróquia. Zequinha exerceu outros cargos, como o de juiz de casamentos. Como compositor, escreveu quatro missas, muitos tríduos, novenas, ladainhas, marchas, hinos sacros, cerca de quarenta músicas, como dobrados, marchas, maxixes. Seu acervo artístico foi doado ao Museu Cidade de Salto.

Zequinha Marques (1893-1981)




Acervo do Museu da Cidade de Salto

Início da procissão no ano de 2005.


23 de novembro de 2018

Os italianos e os bairros rurais de Salto

A IMIGRAÇÃO ITALIANA

Antes de 1860, a península itálica estava dividida em vários pequenos Estados, em geral fracos e dominados por outras potências europeias. A ideia de que a Itália devia formar um só país vinham de longe, mas foi somente no século XIX que ela ganhou força e se completou.

O gradativo processo de unificação da península itálica: 1860-1870

A unificação não melhorou a vida do povo italiano. A crise agrícola de 1880 afetou profundamente as pequenas propriedades, que não suportavam a pesada carga de impostos do governo e não conseguiam competir com a produção agrícola de outros países. A injustiça social, acompanhada de um governo ineficiente, lançava as famílias ao desencanto.

Para muitas famílias italianas o sonho de superar as dificuldades vividas na terra natal passou a ser representado pela expressão “fazer a América”. E assim, muitos italianos atravessaram o Oceano Atlântico e aportaram no Brasil, cheios de esperança. Estima-se que, entre homens, mulheres e crianças, o total tenha ultrapassado um milhão e meio de pessoas.

Os emigrantes, de Antônio Rocco, c. 1910

A CULTURA CAFEEIRA

Diante da necessidade de mão-de-obra barata para a manutenção da lavoura do café, o estado de São Paulo foi o centro da imigração europeia para o Brasil. Dos 4 milhões de estrangeiros que entraram no Brasil entre 1886 e 1934, 56% vieram para São Paulo. Enquanto os alemães preferiam ir para o Sul e os portugueses para o Rio de Janeiro, os italianos fizeram de São Paulo o seu lugar. Quase 2 em cada 3 italianos que imigraram para o Brasil vieram para São Paulo, sendo a maioria esmagadora dirigida aos cafezais.

A colheita, de Antônio Ferrigno, 1903

Por volta de 1890, grande número de famílias italianas se instalou nas lavouras de café existentes no bairro denominado Buru, em Salto – uma região que, à época, se estendia desde a margem direita do córrego do Ajudante e do rio Tietê até as divisas do município de Salto, tendo no meio o próprio rio Buru, que nomeava a essa vasta área.

A então vasta área rural saltense, em mapa de maio de 1931, de autoria do imigrante Henrique Castellari.

OS ITALIANOS EM SALTO

A então Vila de Salto de Ytu, situada entre as regiões cafeeiras de Itu, Campinas e Jundiaí, era um local bastante modesto em fins do século XIX. Contudo, tornou-se um exemplo significativo da força da presença italiana em solo brasileiro. Nos primeiros anos do século XX, era grande o número de italianos que chegava à região de Salto. No ano de 1905, por exemplo, o contingente de naturais da Itália que aqui instalados passava de 3000, quando a população saltense era de aproximadamente 4200 habitantes.

As primeiras levas de italianos começaram a chegar a Salto por volta de 1890 – tempo em que ainda eram pouco numerosas as propriedades rurais e se encontravam vastas áreas cobertas pela mata virgem. Valendo-se dessas terras inexploradas e de baixo custo, nelas se fixaram muitas famílias de imigrantes recém chegadas da Itália ou saídas das fazendas de café dos municípios vizinhos ou áreas próximas.

Sítio Fundão, da família Quaglino, c. 1901

O BAIRRO DO BURU

Uma família de imigrantes trouxe da Itália a primeira imagem de Nossa Senhora das Neves, propagando o culto na região do Buru. Desde o final do século XIX se promoviam novenas, sempre no mês de agosto, que eram encerradas com a procissão da referida imagem. Desde esse tempo festas populares eram realizadas com o intuito de se arrecadas fundos para a construção de uma capela. A capela hoje existente já é a segunda construção e data de 1938.

As famílias Rocchi, Di Siervo, Zambon, Bethiol, Pauli, Pitorri, Bolognesi, Cortis, Ognibene, Zanoni, Gianotto, Vallini, Quaglino, Ferrari, Stecca, Santinon, Matiuzzo, Bernardi, Gilberti, Bergamo, Nicácio, Mosca, Fiori - dentre outras - estiveram ligadas à história de ocupação do bairro do Buru e adjacências, bem como aos trabalhos religiosos na capela de Nossa Senhora das Neves.

João Ivo Stecca, esposa e filhos - uma família do Buru, c. 1940

O casal Dorothéa Ghizzo Zambon (1875-1955) e João Zambon (1873-1958): originários de Treviso (Itália), chegaram ao Brasil em 1888, via porto de Santos. Residiram no Bairro do Buru durante várias décadas.

Capela de Nossa Senhora das Neves, padroeira do Bairro do Buru, em foto da década de 1970.

Nota: este texto fez parte da exposição sobre o mesmo tema que figurou na Festa Ítalo-Saltense de 2010, realizada na Praça XV de Novembro.

2 de janeiro de 2013

As origens da capela do Buru

No final do século XIX, grande número de imigrantes italianos se instalou em Salto, especialmente na zona rural, para trabalhar nas lavouras de café do chamado bairro do Buru – uma vasta área que ia desde as margens direitas do córrego do Ajudante e do rio Tietê até as divisas do município. Embora a estatística para o período não seja muito precisa, estima-se em 3.000 o número de italianos no território saltense em 1905, quando a população total era de pouco mais de 4.200 habitantes. A presença dos oriundi não era ignorada pela Igreja Católica, visto que até 1920 quase todos os padres que estiveram à frente da paróquia de Nossa Senhora do Monte Serrat, a única da cidade naqueles tempos, tinham sobrenomes italianos: Taddei, Fázio, Sorentino, Pepe e Seraphini.

Quando da chegada dos primeiros imigrantes italianos, o Buru era formado por grandes glebas. Com o passar dos anos, gradativamente, essas vastas propriedades foram desmembradas em sítios menores, muitos deles adquiridos por descendentes das primeiras famílias de imigrantes. Sabe-se que à época, numa comparação regional, a terra no Buru era muito barata. Com a nova realidade que o destino impunha a esses homens e mulheres laboriosos, tiveram eles que se adaptar também em termos de fé religiosa. 



A IMAGEM PIONEIRA – Uma família de imigrantes, contam os antigos moradores do bairro, trouxe da Itália uma pequena imagem de Nossa Senhora das Neves, propagando o culto sob essa invocação. Foi então que os habitantes dos arredores passaram a se reunir para rezar o terço, desde a época do padre Bartholomeu Taddei, um jesuíta. Já naqueles tempos, no mês de agosto, promoviam-se novenas que eram encerradas com a procissão da imagem venerada. Também se realizavam festas populares com o objetivo de se levantar fundos para construção de uma capela. Faz, portanto, mais de 120 anos que esses festejos relacionados ao culto acontecem, sendo que a primeira capela em louvor à N. S. das Neves, a capela velha, muito acanhada, foi construída à direita da estrada que sobe em direção à Venda do Buru, logo depois da ponte sobre o rio Buru, sendo nela entronizada a imagem trazida da Itália, hoje sob os cuidados de uma família tradicional família buruana, provavelmente. 

Atendendo aos pedidos do padre João da Silva Couto, Maximiliano Rocchi, esposa e a viúva Adélia Cortis doaram, em 1936, o terreno para a construção da nova capela de Nossa Senhora das Neves, padroeira do bairro. Tratava-se de uma área de 3.000 m2 que começava, como descrevem as escrituras, “na encruzilhada da estrada de Monte Mor, segue pela mesma estrada até um valo, do valo desce por uma cerca até dar em um córrego de água dividindo com José Di Siervo daí volta pela estrada até o ponto de partida”. A área foi outorgada à paróquia de N. S. do Monte Serrat e a doação foi “para fim único e exclusivo de construir a capela com suas dependências, à N. S. das Neves, patrona do bairro do Buru e da Irmandade de N. S. das Neves, com a condição de estes bens serem inalienáveis”. 

Existe uma ata da Igreja Matriz, lavrada em 1937, que se refere à escritura acima citada, à festa que se realizara e ao lançamento da 1ª pedra da nova capela, destacando que havia mais de 1.000 pessoas presentes na ocasião: “FESTA DA 1ª PEDRA da nova capela de N. S. das Neves no Bairro Buru. No dia 9 de maio de 1937 houve uma missa às nove horas, pregação pelo padre João da Silva Couto e as 16 horas benta e lançada a 1ª pedra cuja ata foi a seguinte: Aos nove dias do mês de maio do ano de nascimento de N. S. J. C. de 1937 (...), ocupando o cargo de vigário desta paróquia de N. S. M. Serrat, Arcebispado de São Paulo, o Rvmo. Pe. João da Silva Couto e sendo presidente da Câmara Municipal da cidade Arnaldo de Moraes e prefeito da cidade Francisco de Arruda Teixeira, com a presença do vigário da paróquia padre João da Silva Couto, a diretoria da Irmandade de N. S. das Neves, autoridades civis, sendo paraninfo o sr. João Scarano, arquiteto, construtor, administrador das obras e Hilário Ferrari, realizou-se a solene bênção e colocação da pedra fundamental da nova capela de N. S. das Neves do Bairro Buru, desta paróquia de Salto, cuja construção ora se inicia, ato este assistido por centenas de pessoas do bairro e de todas as classes sociais da cidade, que esta subscrevem. Tocou no ato da cerimônia a Banda Musical Saltense, fazendo eloquente discurso congratulando-se com o povo do bairro o sr. prof. João B. Dalla Vecchia, cujas palavras foram ouvidas com religioso silêncio, encerrando a festa o Rvmo. Pe. Vigário João da Silva Couto, que agradeceu a todos e concitou a Irmandade a levar avante tão grandiosa obra, mais um melhoramento para o bairro (...).” 

Logo depois, em 23 de maio de 1937, a Irmandade se reuniu para escolher uma Comissão que trataria da construção do templo, cuja administração técnica ficou a cargo do engenheiro João Scarano. Essa diretoria ficou assim constituída: presidente, Sebastião de Paula Nicácio; tesoureiro, Jacob Abrão; secretários, Joaquim Ribeiro e Florindo Bethiol Sobrinho; conselheiros: João Zambon, Hilário Ferrari, Fernando Bolognesi, João Antônio Di Siervo, João Stecca, Manoel Teobaldo e Luiz Bracarense. 

A TROCA DE IMAGENS – Conta-se que o padre João da Silva Couto, achando que a primeira imagem de N. S. das Neves era feia, insistia para que se mandasse fazer outra. A diretoria da Irmandade decidiu atender ao pedido do padre, cada membro contribuindo com uma importância para realizar aquele desejo. Uma moradora do bairro, dona Maria Rita da Candelária, que tinha um quadro emoldurado com uma estampa de N. S. das Neves, mostrou-a ao padre, este aprovou a estampa, levando-a para São Paulo, onde a empresa Irmãos Romano S/A confeccionou a imagem que ainda hoje é venerada no Buru. Como a nova imagem não era parecida com a anterior, o povo teve dificuldades em aceitá-la. Isso só foi conseguido a muito custo pelo sacerdote, acabando por se convencer o povo do bairro que ambas tinham o mesmo valor. A nova imagem ficou num oratório da capela velha até que se terminasse a construção do novo templo. 

INAUGURAÇÃO – No dia 11 de dezembro de 1938, com a presença de muita gente vinda de toda parte do município e até de cidades vizinhas, deu-se a inauguração da nova capela de N. S. das Neves, trasladando-se para a mesma as imagens existentes na antiga capelinha próxima ao rio Buru. A solenidade ocorreu às 8h30, com a bênção solene das novas dependências dadas pelo padre João, havendo na missa solene realizada ali pela primeira vez uma primeira comunhão das crianças do bairro. A festa foi abrilhantada pela banda de música da cidade; cantou na ocasião o coro do Círculo Católico da Matriz de Salto. Por deliberação do vigário, a imagem velha de N. S. das Neves e um crucifixo da mesma procedência foram guardados no forro da nova capela, fato que acabaria caindo no esquecimento geral, ninguém mais se recordando onde estavam aquelas imagens por várias décadas.

Abaixo, algumas fotos da capela de Nossa Senhora das Neves que tirei, em companhia de meu pai, durante a Festa do Buru de 2006:

Chegada da imagem após procissão



Fundos da capela

Uma das janelas laterais

Sinos e madeiramento da década de 1930

Vista interna da janela da torre

O altar visto de cima

A imagem de Nossa Senhora das Neves, datada de 1938

Detalhe do teto e parte oposta ao altar, com acesso aos sinos

Em 1936, um estabelecimento comercial que ficava ao lado do local onde se ergueria a nova capela trocou de proprietário: denominada venda do Turco, passou a ser conhecida por venda do Santinon ou, simplesmente, venda do Buru. Ao novo proprietário desse estabelecimento, Guilherme Santinon, o padre João da Silva Couto incumbiu de proceder à demolição da antiga capelinha. Em seu lugar, no entanto, aquele elemento erigiu uma capelinha de beira de estrada, em memória de um tipo popular, conhecido apenas por Miro que, segundo constava, fora encontrado morto à porta da antiga capela de N. S. das Neves. 

NOTA – Publico este histórico motivado pela realização do batismo de meu filho Leonardo que, embora nascido longe de Salto, não escapou da criação de um vínculo com a terra natal de seu pai. Somado a isso, a escolha da capela do Buru tem razões mais antigas: foi nesse bairro que viveram muitos familiares: meu pai, meus avós, bisavós e até trisavós, tendo eles a descendência italiana e a íntima ligação com a história da própria capela.

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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966