22 de julho de 2026

Rocha Moutonnée em Salto

Localizado a 100 km da capital paulista, o município de Salto está inserido no eixo formado pelas cidades de Sorocaba, Campinas, Piracicaba e Jundiaí. Suas terras constituem uma região que há várias décadas desperta o interesse de geólogos, geógrafos, paleontólogos e outros estudiosos, atraídos pelos aspectos naturais derivados de sua localização. Esse fato se explica por estarem as terras do município situadas justamente no ponto de contato entre duas regiões geomorfológicas do estado de São Paulo: o Planalto Atlântico, que se inicia na Serra do Mar, e a Depressão Periférica, que, a partir da linha onde Salto se situa, se estende no rumo oeste até atingir a chamada Cuesta de Botucatu, onde tem início o Planalto Ocidental.

Vista por outro ângulo, essa transição mostra a cidade de Salto colocada exatamente na denominada fall line (linha de queda), na margem leste da Depressão Periférica — uma área relativamente plana, com cerca de 600 m de altitude, que se prolonga até subir aos 900 m da Serra de Botucatu. A depressão originou-se através da erosão e do transporte de rochas pela ação do rio Tietê e de outros afluentes que correm para noroeste. O contato entre as regiões pode ser observado nos arredores da cidade de Salto e nos municípios vizinhos de Cabreúva e Itu. Ali, as elevações da Serrinha do Itaguá assinalam o fim do Planalto Atlântico. Nos limites finais do terreno montanhoso corre o rio Tietê, precipitando-se para a linha de queda.

A paisagem de toda a região é caracterizada por um mar de rochas que afloram à superfície. São os matacões, blocos de granito conhecidos geologicamente como "granito de Salto". Essas massas de material fundido se alojaram nas profundezas da crosta da Terra há milhões de anos. Posteriormente, a ação das geleiras, durante as idades glaciais, se incumbiria de causar o processo de erosão, esculpindo as rochas e depositando outros materiais.

Ainda marcado pelas formações rochosas, o terreno finalmente perde a altitude e denota a transição entre regiões. Descortina-se a cidade de Salto e, com ela, a borda oriental da planície sedimentar, o início de um relevo de ondulação mais suave. O Tietê atinge a linha de queda e se prepara para vencer um último trecho encachoeirado. Formado há cerca de 65 milhões de anos, o rio foi responsável por um processo de erosão mais recente que modelou a superfície atual do terreno da região, formando inclusive a queda d'água que surge junto à cidade. Nesse ponto, pode-se observar de modo privilegiado o processo de erosão fluvial, o lento trabalho das águas que correm sobre o leito rochoso, esculpindo pacientemente o granito, graças ao movimento turbilionar de seixos e areia transportados.

É dentro desse peculiar e interessante contexto que surge, a poucos metros da margem esquerda do rio Tietê, um monumento geológico extremamente raro e de notável importância para a ciência: a Rocha Moutonnée de Salto. As rochas denominadas moutonnée são saliências rochosas arredondadas de tamanho variável, cujo formato lembra o de um carneiro deitado. Do nome desse animal em francês, mouton, derivou a palavra moutonnée (acarneirado, com forma de carneiro). Essa forma vista de perfil pode também ser comparada à de uma colher invertida. No caso do exemplar encontrado em Salto, essa visualização se torna difícil devido à dilapidação que a rocha sofreu por exploração comercial. Pela foto se compreende que a parte remanescente da rocha corresponde a apenas 1/5 de seu volume original.

Superfíces de maior interesse geológico.

Descoberta em 1946 pelo geólogo Marger Gutmans, do Instituto Agronômico de Campinas, e descrita ao Segundo Congresso Pan-Americano de Minas e Geologia em 1948, a rocha se revelou um achado de extraordinário valor científico. Mas, para compreender sua real importância, é preciso voltar no tempo — não apenas algumas décadas, mas milhões, centenas de milhões de anos.

Há muito tempo, os cientistas vinham observando com interesse o fato de as margens continentais da África e da América do Sul apresentarem grande semelhança e um encaixe quase perfeito. Esse fato, somado à descoberta de rochas e fósseis semelhantes na Índia, no sul da África e na América do Sul, fez com que surgisse a hipótese — hoje consagrada — de que essas regiões, juntamente com a Austrália e a Antártida, formavam no passado, durante a era Paleozoica, uma gigantesca massa de terras. Era um supercontinente ao qual se deu o nome de Gondwana, em referência ao reino dos Gonds (um povo do centro da Índia, local onde foram encontrados os primeiros fósseis e rochas que comprovaram a teoria).

Há mais de 180 milhões de anos atrás, no período Jurássico, o supercontinente começou a fragmentar-se pelo movimento das grandes placas tectônicas em que se divide a crosta da Terra. Essa movimentação deu início ao processo de separação e migração dos continentes que formavam Gondwana. Ao fim do processo, explicado pela chamada Teoria da Deriva Continental, os continentes atingiram a posição que hoje se verifica. A movimentação das placas se relaciona com as mudanças ocorridas na distribuição dos mares e nas condições climáticas do planeta.

As mais fiéis testemunhas desse passado longínquo são as rochas. Rochas como os blocos graníticos encontrados na região de Salto. Esse granito, e de modo especial a Rocha Moutonnée, testemunha um dos fenômenos mais impressionantes verificados na evolução do planeta: a glaciação (as idades glaciais da Terra). Ainda não estão completamente explicados os motivos causadores dos períodos de intenso resfriamento da Terra. Apontam-se causas de ordem terrestre: a formação de montanhas, a movimentação dos continentes, a atividade vulcânica, alterações na circulação dos oceanos e na composição da atmosfera. Existem ainda outras possíveis causas para a glaciação, de ordem extraterrestre: alterações periódicas no comportamento da órbita da Terra ou na radiação solar recebida pelo planeta.

O que se sabe é que nesses períodos formavam-se geleiras, imensos lençóis de gelo com 1 milhão de quilômetros quadrados ou mais de área e milhares de metros de espessura. Essas impressionantes massas, indicadas no mapa em cor azul, cobriam vastas áreas e se deslocavam sobre regiões mais afastadas dos polos terrestres. De acordo com as evidências geológicas, o atual território do Brasil conheceu pelo menos cinco idades glaciais, todas elas durante a existência do supercontinente de Gondwana. A primeira delas, há 1 bilhão de anos, no período Pré-Cambriano. Seguiram-se outras por volta dos 600, 450 e 350 milhões de anos atrás. A última glaciação ocorreu há cerca de 270 milhões de anos, no período Neopaleozoico, e é de grande interesse porque atingiu a região Sudeste do Brasil.

O lençol de gelo, no caso, deslocou-se a partir da África, de sudeste para noroeste, atingindo a atual bacia do Paraná e a região de Salto. Foi justamente nesse remoto período que uma geleira se deslocou sobre a Rocha Moutonnée, deixando sobre sua superfície os sinais que permitiriam à ciência comprovar, milhões de anos depois, a ocorrência da glaciação no sul do Brasil. Em outras palavras, a rocha é como um livro aberto, e cada porção de sua superfície relata em silêncio uma história fascinante. As geleiras transportavam, dentro e embaixo do gelo, grandes quantidades de fragmentos de rochas e minerais, e funcionavam como lixas ou raspadeiras, raspando a superfície por onde passavam, no chamado processo de abrasão glacial, e empurrando uma pilha de detritos à sua frente. O lado liso e polido da moutonnée se volta para a direção de onde veio a geleira. O lado mais abrupto indica a direção para onde ela seguiu.

Quando o gelo recuava ou derretia, estrias e sulcos ficavam expostos na superfície da rocha. O conjunto de estrias e sulcos pode ser claramente observado na rocha de Salto, na sua face preservada. Esses riscos, alguns mais finos, outros mais profundos, correm paralelamente e evidenciam que a geleira veio de sudeste e avançou no rumo noroeste. A superfície erodida pelo gelo apresenta também outras marcas, chamadas de fraturas de fricção, com forma de meia-lua. A face convexa volta-se para o sentido do movimento da geleira.

Com o derretimento do gelo, os diversos fragmentos transportados eram liberados e, ao se assentarem, formavam sedimentos ou depósitos glaciais. Uma vez consolidados, esses materiais formavam rochas sedimentares que recebem o nome de tilito, apresentando uma composição bastante diversificada, que inclui até seixos de grande porte. Além de seu flanco alisado, estriado e polido, a rocha moutonnée possui outra face, irregular e abrupta, que apresenta fraturas e degraus. Esse lado é resultado do arrancamento produzido pela geleira, ou seja, de sua ação de levantar e remover fragmentos de onde passa. É também o lado que se volta para o rumo tomado pelo gelo.

As rochas moutonnées são de ocorrência muito rara. Além do exemplar encontrado em Salto, só é conhecido mais um no mundo, com características semelhantes, próximo à cidade de Sydney, na Austrália. Infelizmente, por desconhecimento de seu valor, a exploração do granito quase destruiu inteiramente a rocha. A parte remanescente, contudo, foi suficiente para justificar o empenho do governo municipal, dos cidadãos e dos cientistas para obter, junto ao CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), o tombamento da pedra em 23 de abril de 1990, na condição de monumento geológico estadual. Meses depois, já se verificavam as primeiras mobilizações em nome da comunidade científica internacional junto à UNESCO, com vistas ao tombamento da rocha como Patrimônio da Humanidade.

A 16 de fevereiro de 1991, a Rocha Moutonnée teve inaugurado um verdadeiro santuário para sua preservação: o primeiro Parque Ecológico e Geohistórico do continente. Instalado num ponto naturalmente privilegiado, a 2 km do centro da cidade de Salto, o parque ocupa uma área total de 43.338 m² e resultou da participação conjunta de profissionais de diversas áreas: paisagismo, arquitetura, história, museologia e paleontologia. Reunindo recursos da Prefeitura Municipal, da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia e da iniciativa privada — através da Indústria de Papel e Celulose de Salto —, o projeto visou a instalação de uma infraestrutura planejada que se volta à manutenção cuidadosa do parque e ao atendimento e segurança dos visitantes.

No aspecto didático, o parque foi concebido para funcionar como uma escola ao ar livre. Painéis explicativos espalham-se por toda a área e em um pavilhão destinado a atividades didáticas, onde se expõe de modo detalhado o significado da rocha. Os recursos educativos e informativos atendem desde alunos do ensino fundamental até a pós-graduação em geologia, contando com material gráfico e guias para acompanhamento de visitas organizadas por escolas e universidades. A concepção abrangente do projeto do parque permite que ele se volte para outros temas de igual importância e interesse, alertando para a necessidade de se desenvolver uma educação ambiental dirigida à defesa do meio ambiente. Uma pequena amostra desse meio ambiente, de equilíbrio frágil e ameaçado, está nas matas ciliares: as formações vegetais que se localizam à beira dos rios, córregos e lagos. Na região do parque, essa porção de verde é formada por representantes de várias famílias vegetais, variando desde pequenos arbustos até árvores de grande porte.

É de extrema importância a função das matas ciliares dentro do contexto em que se integram, porque atuam como reguladores de rios e córregos, estabilizando o solo das margens, evitando sua erosão e o assoreamento do leito. São responsáveis pela manutenção da qualidade da água, pelo sustento dos organismos aquáticos e de toda a fauna silvestre ribeirinha. Lamentavelmente, as matas ciliares de grande parte dos rios brasileiros acham-se comprometidas por diversos fatores resultantes da ação do homem. Além de preservar um trecho de mata original, o parque apresenta uma arborização planejada com 3.000 mudas de plantas, de 20 espécies diferentes.

Entre todas as coisas que o turista, o estudante e o visitante do parque vão observar, o que se discute bem na sua frente é o rio Tietê. Esse rio, que nasce em Salesópolis, na serra, e que, contrariando todas as leis da natureza, percorre o interior de São Paulo; o rio teimoso, que contraria o que é normal. Esse rio tem uma importância histórica fantástica para o Estado de São Paulo e vai se descortinar na frente das pessoas. Um rio que transcende os limites do Estado e é importantíssimo em termos de Brasil. Um rio doente, que precisa urgentemente de ajuda e de amparo. E a proposta do parque é fazer com que cada pessoa reflita sobre a sua responsabilidade diante desse rio. Não adianta olhar somente a tranqueira, a poluição, a espuma que está à sua volta e lamentar, mas que o visitante se sinta coparticipante desse processo e procure descobrir o que fazer diante disso.

Outrora caudaloso e farto em peixes, o Tietê se viu reduzido à condição de escoadouro e depósito dos refugos da sociedade moderna, como aliás vem ocorrendo com inúmeros outros rios. A natureza não tem condições de processar a decomposição de certos materiais elaborados pelo homem, como os produtos plásticos de uso doméstico e industrial e os detergentes sintéticos. Esse lixo, somado ao esgoto lançado pelas áreas urbanas, altera o nível de oxigenação da água, comprometendo a vida de microorganismos e causando a morte dos peixes. Esses tristes sinais de degradação lançam uma advertência severa e reclamam uma nova postura de responsabilidade coletiva na defesa de bens ameaçados, como os rios e as matas — parcelas de uma casa maior, onde se insere o próprio homem.

Esse parque vai mostrar um pouquinho da história da cidade de Salto. No plano do parque vai se ver também a Matriz de Nossa Senhora, a igreja; vai se ver a primeira indústria da cidade, uma indústria de tecidos (a Brasital). E num conjunto, num plano único, está a história de dezenas, talvez centenas de cidades do interior de São Paulo, que nascem através de uma capela, da religião, e que, por terem um rio ao seu lado, trazem a possibilidade de um industrial montar ali o seu empreendimento. A história de Salto é a história de dezenas de outras localidades. É uma aula de como se formou o interior do Estado de São Paulo.

Também a perspectiva histórica oferecida pelo parque tem seu referencial mais antigo no Porto de Góes, um modesto remanso formado logo abaixo do trecho encachoeirado do rio. O local era habitado por índios Guaianases, que foram se afastando com o avanço de bandeirantes e colonizadores. Segundo os historiadores, trata-se, na verdade, do Pirapitingui mencionado em antigos documentos: o primeiro porto do Tietê (que então se chamava rio Anhembi). Aqui embarcaram as primeiras bandeiras que adentravam os confins do sertão em busca de índios e minas de ouro, atingindo o Mato Grosso e as terras da coroa espanhola no longínquo Paraguai. A partir do início do século XVII, o porto foi abandonado em favor das melhores condições do porto de Araritaguaba (atual Porto Feliz).

A história saltense prossegue com a visão da torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, célula inicial de todo o município. Onde hoje está a matriz, o capitão Antônio Vieira Tavares (sobrinho do famoso bandeirante Raposo Tavares) tomou posse em 1690 do Sítio Cachoeira, adquirido aos sucessores dos donatários da Capitania de São Vicente, e construiu em 1698 uma capela dedicada à Virgem. Ao redor da capela surgia a pequena povoação que permaneceria adormecida por quase 200 anos, até a chegada da ferrovia e das indústrias, por volta de 1870.

A própria razão do nome da cidade pode ser vista no parque. A queda d'água era conhecida pelos índios como Ytu-Guaçu (em português, salto grande). Um espetáculo ainda maior nos tempos em que o Tietê era mais caudaloso e a cachoeira recebia a visita de inúmeros viajantes que passavam pela então província de São Paulo. Figuras célebres, como o escritor e ministro do império José Bonifácio de Andrada e Silva (o Moço, sobrinho do Patriarca da Independência), o pioneiro da fotografia Hercule Florence, o Conde d'Eu e o casal imperial D. Pedro II e Dona Teresa Cristina.

Abaixo da igreja e ao longo do rio, surgem os edifícios da Brasital, sucessora das primeiras fábricas têxteis Júpiter e Fortuna, instaladas em 1873 e 1880. Movidas por turbinas hidráulicas e incluídas entre as pioneiras da industrialização paulista, elas foram grandes responsáveis pelo despertar da pequena vila. Ao lado da Brasital, vê-se a velha Ponte Pênsil. Construída em 1913 para devolver aos pescadores o caminho para o Porto das Canoas — que havia sido obstruído com a construção das fábricas. Restaurada em seu aspecto original, a ponte é um importante componente turístico da cidade.

Finalmente, à direita, está o conjunto de edifícios constituído pela casa de força da Usina Porto de Góes, construída pela extinta empresa Light, de 1924 a 1927. E, a partir da chaminé, a primeira fábrica de papel do Estado de São Paulo, inaugurada em 1889. Hoje, com o nome de Indústria de Papel e Celulose de Salto, produz o papel-moeda utilizado no Brasil.

Pelos caminhos tranquilos do parque, sucedem-se recantos e detalhes nascidos de uma conjugação harmoniosa entre a obra da natureza e a do homem. Um espaço cuja maior proposta é o respeito à vida. Mais que lazer e entretenimento, o Parque Rocha Moutonnée oferece, a cada passo, a oportunidade de aprender que é preciso conciliar o avanço da civilização com o patrimônio natural. Um patrimônio que antecedeu o homem no tempo e que ele não pode criar, mas de cuja preservação depende seu próprio bem-estar e sua sobrevivência.

As lições silenciosas da natureza apontam um ensinamento maior: o de que a Terra e todos os seus seres se entrelaçam numa jornada que os faz dependentes entre si, vindo de um único passado e seguindo para um único futuro.

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Esta é a transcrição da narração do primeiro documentário sobre o tema, disponível no YouTube como registro memorialístico - Moutonnée - A Rocha da Era Glacial – produzido em 1991:

 


 


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