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21 de dezembro de 2009

SALTO - 1966 (Epopéia)

Texto de José Francisco Archimedes Lammoglia (1920 – 1996)

Nestas palavras, desprovidas de qualquer intenção literária, todavia, sinceras e espontâneas, procurei homenagear SALTO. Nelas há um pouco de tudo: as suas lutas, suas conquistas, suas tradições; seus tipos populares e aqueles que, não medindo esforços, com sua ousadia e altivez, concorreram para a formação de nossa história. Claro está que não me seria possível citar a todos nominalmente, embora, de uma forma ou de outra, através da evocação de um fato ou acontecimento, implicitamente, não deixaram de ser lembrados. É, pois, meu desejo que, nelas, os jovens filhos de Salto, encontrem a inspiração necessária, para continuar a fazê-la forte e próspera, a exemplo daqueles que nos antecederam e dos que ainda, nesse sentido, continuam a porfiar.
Dessa forma, acredito que, despretensiosamente, prestei uma homenagem a minha cidade, a quem todos os dias, desde que a deixei para as lutas da vida, uma parte do meu tempo e pensamento tenho dedicado, como uma prece obrigatória.


1695

Salto nasceu,
Salto de Itu,
Salto de Salto!

Cresceu,
Aumentou,
Quadruplicou,
Espalhou;

Agigantou-se febril,
Impulsionando o Brasil!

Roteiro de glória
É a tua história...

Nasceu sob a égide da cruz!
Da gente que soube amar,
Aquele símbolo de Jesus,
No céu se pode contemplar,
O Cruzeiro
Está no teu roteiro...
Tentarei contar:

VIEIRA TAVARES,
Atravessando mares,
Seguiu com seu par de botas,
Águas do vetusto paulista,
TIETÊ da gigante conquista;
A direita da Cascata,
Do salto de outrora,
Sentou,
Descansou,
Sonhou...

Rompeu a aurora,
Não seguiu.

Parou.

O céu olhou,
O chão beijou,
A Capela plantou;

Pequenina Capela,
Simples, mas bela,
Sem enfeite,
Nem arte.

Que Casa hospitaleira
De nossa Mãe Padroeira,
Senhora do Monte-Serrate!
Venerada com devoção,
Por toda gente,
Da imensa região,
Que orando penitente,
Dedica o coração
A oito de Setembro,
Que jamais se finda
E se repetirá sempre,
Cada vez mais linda!

Depois,
A gente chegando,
Construindo,
Povoando;

Ao lado na Mãe piedosa,
Generosa,
Amantíssima,
Milagrosa,

Surgem casas,
Barracos,
Taperás,
Caminhos,
E feras!...
Pontes escoradas,
Pau-a-pique,
Picadas,
Sem calçadas...

Coisas do sertão,
Da mata
Que se abria
Para aflorar o rincão,
Que um dia
Mais do que o ouro,
Mais do que a prata,
Valeria,
O pedacinho
Que nascia
À direita da Cascata.

Os caminhos,
Feitos de sacrifícios,
E carinhos,
Foram desaparecendo;
Sumindo,
Alargando-se,
Endireitando-se,
Arruando-se!

Sul,
Leste,
Norte,
Oeste!

Tornou-se povoado,
Distante uma légua,
Da Itu histórica;
E sem trégua,
Como estrela que cintila,
Passou à Vila;
Vila e cidade perfeita,
Rua larga e direita.

Em promessa fervorosa,
Um dos Paula Leite,
De árvore frondosa,
Esculpiu a imagem poderosa,
Da VIRGEM e doou,
(Aquela que se queimou),
E na Igreja Velha a colocou.

Vila do Salto de Itu
Que a todos recebeu:
Escravos,
Portugueses,
Todos Bravos,
O espanhol,
O italiano,
Por isso cresceu;
E eu me ufano
De ser filho seu,
Imigrante honrado,
Que tem como Pátria
O solo que é meu;
O campo plantado
Pelo braço incansado...
Do nativo, do europeu!

Na vila
Calma,
Serena,
Tranquila,
A Indústria aparece
E se estabelece
Nova era,
Que prospera:

José Weissohn,
José Revel,
José Galvão,
Fizeram a imensidão.
A Ítalo-Americana,
Pioneira,
Fenomenal,
Desenvolve-se cada ano,
Passa a Brasital;
Com sede em Milano,
Constrói casa
“Atrás do céu”
E o trem soltando brasa,
Leva produto seu;
Estrada de Ferro Sorocabana,
Paralelas do Progresso,
No seu avanço,
Faz sucesso;
Com fumaça e faísca,
A máquina chispa
E o povo se arrisca,
Quer crescer.

A estação aumenta,
Bairros surgem:
Itaici,
Pimenta,
Olarias,
Melhorias,
Ninguém aguenta,
Apressam o crescimento
Momento a momento.
Salto vai indo,
Altivo,
Cativo,
Num burilar infindo!

“Fábrica de Papel”
Na América,
A primeira;
Novas casas,
Novos bairros,
Não há barreira,
Nem em baixo,
Nem no alto,
TUDO PELO SALTO!

“A Fábrica Nova”
Deu prova,
A do Otaviano,
Incendiou-se,
Acabou-se.

Doutor Viscardi,
“Pai do pobre”
Imigrante de alma nobre!
Doutor Pocci, Doutor Mário Rocha,
Doutor Barros Júnior,
Republicano do Distrito,
Seu nome ficou escrito;
Doutor Bicudo, Doutor Assis;
O bondoso Doutor Zé Ignácio...
E no Salto feliz
Esteve José Bonifácio!

Janeiro a agosto:
1912
Água e esgoto!
É Salto brilhando,
No mapa contido,
No coração escondido.

1917
Ninguém se intromete,
Passa a Município;
Novo surto
De vulto,
Novo princípio;
Indústria,
Comércio,
Lavoura,
Luz elétrica!

Enfim,
Belo jardim,
No seu marco,
À direita da Cascata!

Taperás!...

Cascata!...

Fulgurante,
De beleza sem igual,
Do barulho turbulante,
Nascia o ideal;
Hoje vive na saudade,
Como peça nacional!

É o progresso,
É o canal
Que vende a Brasital...

Fartura,
Depois crise
Sofre a criatura:
Enchente,
Revolução,
Doente,
Resignação;

Passa a tormenta,
Olha a amplidão,
O povo enfrenta
E o povo fomenta;

CONTINUA A CAMINHADA!...

Banda de música,
Orquestras,
Teatros,
Palestras,
Clubes,
Escolas,
Adultos,
Rapazolas,
Entusiastas
De sua faceira!

A “Banda da Santa”
Zequinha, maestro que encanta.

“Banda Brasileira”,
Castellari, Mauro, Totico
Requinta sonoro e bom,
Que firme sustenta o tom;

“Banda Italiana”,
Pradelli, Baldi, Dalla Vecchia,
Zuppardo, Ivo, Pasquoalim,
Depois “Gomes-Verdi”,
Tantos outros enfim;

Ecoa assim, a serenata,
Por entre o clamor da cascata,
Músicas maviosas,
Francas boemias,
As suas formosas,
As suas Marias.

Cinemas:
Lopes e Mazza. Pavilhão,
O Zé Pé-no-chão;
Pianista, Itaguassu,
Assim também em Itu;
Alzira, São Bento,
Ruy Barbosa, São José,
O Verdi,
E o que admiro
Até o “Cineminha do Ciro”

Grupos escolares,
Um primeiro,
Outro depois,
Tipos populares,
Revolução de 32!

Tita, homem direito,
Dez anos de prefeito,
Sucede Chiquinho Teixeira,
Honrado e de estilo,
Foi sucedido pelo Chichillo,
Souza Aguirre orador oficial,
Em toda data Nacional.
Contado em prova e verso,
Gaó percorre o universo,
Mostra o nosso tesouro,
Anselmo a Palma de Ouro,
Confirma o atestado,
Que deu o Secretário de Estado.

Beterelli com suas trovas
Sempre novas;
“Comeu formiga”
O flautista Taragim;
“Garrafinha virou”
A Miquelina,
Discurso sem fim
Do Jacomim.

Braveza e prosa,
O Hilário Zebu,
Bastião das Nuvens,
Busca o ariticu,
Não perde a fama,
A distribuir programa,
O Bastião Raposa;
Náne Pé-de-Pato,
Por ter pé chato,
Pernas em bodoque,
Luizinho Roque,
Sílvio Ribas, Henrique Tatângelo;
Guerino,
Desde menino,
Rato Branco,
No Salto risonho e franco;
“Lá tem cobra”
“Não sou guindaste”
“Não quero sobra”
“Não sou relógio”
É o Durico,
Mineiro Pobre,
Mineiro Rico;
O Zabé:
“Cantá, pulá,
Mai mió,
O grilo tá no jardim,
Cri-cri-cri,
Fai assim”
Zabé Bobo!
O Nhô Zé,
Zé Batatão,
Vira lobo:
Uma história,
Uma tradição,
Carroceiro,
Sacristão...

SALTO, assim é!
A risada do Urubatão,
O Fanfula do Franchiné;

Roquinho,
Filho do Chicão:
“Amendoim torradinho”
No cinema, na tourada,
No coreto, no circo,
No portão
Do futebol.

Futebol! Futebol!
Italo, o esquadrão,
Que deu paulista campeão!

SALTO X ITU
Confusão,
Briga,
Discussão;
Que espiga;
Polícia,
Sem malícia,
Tibúrcio, Dito Quarenta,
Nenhum sustenta,
Morteiro,
Rojão.

Coisas de irmão!

Padre Monteiro,
O melhor sermão,
Pregador da Festa;

Festa do SALTO,
Que assombro!
Na procissão,
A Padroeira passeava no ombro,
Hoje passeia na mão.

Não zangue, patrão!

Nas esquinas o bate-papo,
Itu é chamado “sapo”,
Revida ele, daí
Chamar Salto “mandi”,
Assim definidos,
Vivem hoje unidos.

Salto de Itu,
Itu da brasilidade,
A fidelíssima,
Roma brasileira,
Da Convenção;
Capital da Região,
Cidade lendária,
Da Virgem Candelária,
Nossa também,
CRISTO não nasceu em Belém?

Na festa todos vêem:
Bolas, bolinhas,
Balões,
Barcos, barquinhas,
Aviões;

Ciganas, Tiro ao alvo,
(Ponha sua carteira a salvo!)
Parques e rodas gigantes,
Luzes, músicas, alto-falantes;
Montanha Russa, Cavalinho de Pau,
Cus-cus, pastéis, mingau,
Pinguço, mulher barbada,
Churrasco, petisco,
Sorvete, soda-limonada;

A Procissão de São Francisco,
Pipocas, paçocas, torrão,
Café, chás, quentão,
Frango, cabrito, leitão;
Roupas feitas, presilhas, chinelas,
Relógios, calçados, blusões,
Máquinas, caçarolas, panelas,
Cadarços, cintos, fivelas;
Cantores, sambas, batuques,
Roletas, mágicos, truques,
Foguetórios e foguetões;
Na festa em benefício,
Com fogos de artifício,
O êxito é total,
E a canseira geral!

Temos ainda agora,
Romaria a Pirapora.

Escolas Municipais,
Rurais,
Coleginho,
Das filhas de São José:
Educação,
Carinho,
E fé;

Escola Anita,
Que palpita,
Ginásio,
Escola Artesanal,
Colégio Industrial,
Escola Normal!
Os professores,
Que primores!
Beliscavam,
Mas ensinavam...

Baxixa, o Paula Santos,
Berreta, João César, Celino,
Rigorosos como tantos;
Cláudio Ribeiro, Bruno, Lordelo,
Austeros, decisivos, modelo,
Joana, Argentina, Cornélia,
Põem em suspense;
Ana Rita, a primeira Saltense,
Argelina, Dinorah, Isabel,
Desfazem a Torre de Babel;
Georgina, Elisa, Laurinda,
Severiano, saudade infinda,
Antonieta, Nair Colli, Rosária,
Antônia Laghi, Plínio, Alice,
Incutem a letra primária;

Motta Navarro, Celina, Serafina,
Otília, Helena, Benedita Rezende,
Com ardor o Salto defende;

Hermelinda, Lucinda, Transvalina,
Maria Ferraro, Cotinha, Maria Augusta,
Nossa homenagem justa;

Lourdes Carvalho, Belica, Jandira,
Gratidão nos inspira;
E outras formam a plêiade,
Que ensinou mestres, engenheiros,
Médico, operário, dentista,
Farmacêutico, advogado, cientista,
Homem do comércio, espectador, artista;

Anastácio, Frias, Paulito,
Gertrudes, Geraldo, Florindo,
Completam o buquê tão lindo.

Progresso!
Progresso!
Progresso!

Sem recesso.
O calçamento,
Major Garrido,
Homem querido,
Foi o pensamento,
Fazia dupla,
Doutor Mendonça
Ficava onça
Pelo tempo perdido;
Centro Popular
De Educação Física e Moral,
Concentrando a criança,
Evoluindo os pais,
Arregimentando os mestres,
Felicitando casais,
Assim começou,
Não parou mais.

“SOU SAPECA,
SOU SAPECA,
PERERECA”

Carnaval,
Pancadão,
Com boizinho,
Banda infernal,
Hoje só de salão...

Esporte avança,
Corinthians,
Que lembrança,
Campeão da Apea!

Ipiranga,
Outro valente,
Astro da Via Láctea;
Juntaram-se,
Uniram-se,
Associaram-se...

Atlética Saltense,
Simpática agremiação,
“A Gloriosa”
Honra e tradição,
Saltense do coração;

Rompe o Guarani,
Cacique,
De briosa equipe,
Popularidade,
Ao derredor e na cidade,
“O mais querido”
Nunca se deu por vencido;

Da refrega descansa,
Vem a bonança
E com ela os amadores,
Outros amores;

XV de Novembro
“Rei da Vila”
Nacional
“O maioral”
Emas,
“Das surpresas, o tal”;
Canto do Rio,
“Apaga qualquer pavio”

Avenida
“Canarinho da Ilha”
Estudante,
Há muito palmilha
Sua trajetória brilhante;
Sivat
Não é nula
Hoje o caçula.

A Siri, o Ideal,
A Siros, do operário,
Tudo igual,
Sociedade repositário,
Do povo fabuloso,
Grandioso,
Extraordinário!

Cooperativa,
A expectativa,
Do calendário,

Sociedade Italiana,
Socorro Mútuo,
Com a farmácia,
Prestando serviço
À economia
É vista com simpatia.

São Vicente de Paulo,
Coisa louca,
Como si, muito pouca!
Tudo aqui é organizado,
O respeito é primado;

Prefeitura,
É a estrutura.
Câmara Municipal,
Sindicatos, Rotary,
Associações religiosas,
Não religiosas,
Entidades,
Reúnem felicidade;
Para todos e em todos,
Com sinceridade,
SALTO, é desse jeito!
Coisa que enche o peito!
Toda sorte de atividade,
No velho, na mocidade,
Preocupados em vencer,
Razão que fez Salto crescer,
E o mundo conhecer,
Através de seus filhos,
Que não temem empecilhos!

São Francisco, Três Marias,
Buru das Romarias,
Vila Teixeira, Vila Nova,
Porto do Góes, Ponte Caída,
Estação mui conhecida,
Bela Vista ou Risca Faca,
Ex-Lageado não impaca,
Guaraú, Pedra Branca,
Conceição, Piraí,
Boa Vista, a daqui,
Chapada e Castanho,
Morro Vermelho,
Hoje é estranho.

Tudo cresce,
Tudo floresce,
Na SALTO querida,
Fazendo feliz a vida!

Effori, Dario, Conte,
Peixoto, Pelis, Barcella,
Rodrigues, Puentedura, Casalli,
Emas, Cerâmicas, Eucatex,
Sivat, Picchi, Baldi,
Bergamo, Carra, Galafassi,
Fabbri, Piratello, Begossi,
Grenci, Maniero, Irmãos Telesi;
E tantos outros cooperadores,
Lavoura, Comércio, Bancos,
São os construtores!

Temos tudo,
Fazemos tudo,
Tudo damos,
Em todos os ramos,

Diria como o soprano,
Cantando em italiano,
“Ecco populo la questione”
Ao sabor do champanhe,
Do Donalísio
E do Milioni,
Na cidade simpática,
Que também cura ciática!

Padre Lourenço,
Padre Pepe,
Padre Arthur,
Projeto do Scarano,
Elaborou com plano;
Monsenhor Couto,
Venerando,
Que a Matriz constrói,
A outra o incêndio destrói,
No entanto, mais se anima,
As bênçãos vem de cima,
Constrói e orienta tudo aquilo,
Do Isolamento fez o Asilo
E do progresso o veredito:
Paróquia de São Benedito!

Católicos,
Apostólicos,
Espíritas,
Crentes,
Protestantes,
Não há ateus,
A terra é de DEUS,
Para o homem,
Sem brigas,
Nem intrigas;
Estas somem
No ardor da luta;
A união é pronta,
O amor desfruta,
A paz desponta,
SALTO, assim é
Na esperança,
No amor,
Na fé!
O povo é todo valente,
Valoroso,
Vibrante,
Fabuloso;

Do Tietê ao Lageado,
Do Jundiaí ao Ajudante,
Neste imenso quadrado,
De trabalho fecundo,
É uma só família,
Em todo este mundo,
De harmonia e compreensão:
Estrangeiros,
Brasileiros,
Paulistas ou não,
Querem ver grande
Esta amada Nação;

País, Esperança do Hemisfério,
Neste rincão desde o Império;

“SOU SAPECA,
SOU SAPECA,
PERERECA”...

Quando tínhamos Monarca,
Aqui esteve o Patriarca;

SALTO, eu te saúdo em toda época!

Eu te beijo agora, SALTO COMARCA!

Archimedes Lammoglia
Agosto de 1966

9 de junho de 2009

Circuito da Memória

Veja o vídeo sobre o Circuito:




Percorrer o interior de um cemitério mais que centenário pode despertar o interesse por uma série de temas envolvendo a história de uma cidade. O Circuito da Memória, a ser instalado no Cemitério da Saudade, com inauguração prevista para as 16h30 da próxima terça-feira, será formado por diversos painéis que trarão breves informações sobre a vida de personalidades significativas para a memória de Salto, além de fatos de destaque e peculiaridades locais. Os painéis estarão situados em frente a cada sepultura que remete ao tema ou personagem abordado. Trata-se de mais um caminho possível para se conhecer um pouco do passado de Salto, a exemplo dos painéis do Museu de Rua dispersos pelo centro velho. Inclusive mais um será acrescido à série, na Praça da Saudade, contando a história dos cemitérios em nossa cidade. O Circuito da Memória será um núcleo externo do Museu da Cidade de Salto. Foi um projeto implementado pela Prefeitura da Estância Turística de Salto, através da Secretaria da Cultura e Turismo, em conjunto com a Associação Cultural de Salto. A seguir, segue uma lista com as personalidades e temas contemplados, com breves dizeres sobre cada um deles.

Dr. Barros Júnior: Industrial e político do final do século XIX e início do XX. Foi o responsável pela instalação da segunda tecelagem em Salto, às margens do rio Tietê, em 1882. Republicano e abolicionista, ocupou os cargos de vereador, deputado estadual e prefeito de Salto. Foi o principal nome envolvido na luta pela criação do município de Salto, desmembrado de Itu, em 1890. Alcunhado “Pai dos Saltenses”, sua sepultura foi alvo de uma recente intervenção, com o objetivo de se recuperar as características originais.

Monsenhor Couto: Vigário em Salto entre 1926 e 1970, João da Silva Couto foi o religioso que mais presença marcou na cidade ao longo do século XX. É de sua época a construção da atual Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat.

Dr. Lammoglia: O saltense José Francisco Archimedes Lammoglia foi médico, advogado e político de destaque. Clinicou por longos anos no Hospital Matarazzo, na capital. Ocupou o posto de deputado estadual por sete mandatos consecutivos, conseguindo inúmeros benefícios para sua terra natal.

Casal Segabinazzi: A cidade de Salto foi palco de uma forma específica de tratamento da dor ciática durante mais de 100 anos. E o casal de italianos Doralice e Giuseppe Segabinazzi são considerados os pioneiros nessa prática, que fazia uso de uma erva específica trazida da Europa. Para Salto se dirigiam, a fim de se tratar do mal, gente de diversas regiões do Brasil, de alguns países do continente americano e até mesmo do Oriente Médio.

Dr. Henrique Viscardi: O italiano Enrico Viscardi formou-se em medicina pela Universidade de Pavia, na Itália, em 1883. Em 1902 Viscardi chegou ao Brasil, instalando-se em Salto, pois fora chamado pelo industrial José Weissohn para assumir a chefia do serviço sanitário das tecelagens aqui existentes. Bem quisto por toda a população saltense daqueles tempos, era chamado de “médico dos pobres”, ou ainda, “médico das flores”. Em seu túmulo, que ainda hoje recebe flores, lê-se o seguinte epitáfio em língua italiana: “Nesta sepultura que é a expressão da dor e da admiração de todos, está mudo e frio o coração do doutor Henrique Viscardi, médico insigne, que era todo caridade e que cessou de palpitar no dia 13 de dezembro de 1913”.

Filhas de São José: Religiosas denominadas Filhas de São José chegaram a Salto em novembro de 1936, por intermédio do padre João da Silva Couto, com o objetivo de dirigir a então Escola Paroquial, que mais tarde se transformaria no Externato Sagrada Família, popularmente conhecido por Coleginho, instituição de ensino ainda hoje em atividade. No jazigo do Instituto existente no Cemitério da Saudade estão sepultadas quatro freiras com atuação em Salto.

Maestros saltenses: Importantes maestros saltenses foram sepultados no Cemitério da Saudade, concentrando-se por mero acaso numa mesma rua. Um deles é Henrique Castellari, que dá nome ao Conservatório Municipal. Outros três, pertencentes a gerações distintas de uma mesma família, estão sepultados na perpétua 43: Antônio, Silvestre e Agostinho Pereira de Oliveira. Nessa que poderia ser batizada de rua dos maestros, se encontram ainda as sepulturas de João Tatangelo e Mário Baldi.

Prof. Dalla Vecchia: João Baptista Dalla Vecchia foi diretor e professor da saudosa Escola Anita Garibaldi por 37 anos. Filho de italianos, ingressou na indústria Brasital, ali trabalhando até 1931. Nesse ano recebeu um convite para dirigir e lecionar na escola que era mantida pela empresa. Maestro, esteve à frente da União Musical Gomes-Verdi por longos anos. Foi vereador e vice-prefeito.

Alfredo Rosa: Trata-se de um lavrador que, de passagem por Salto em 1911, foi tido por ladrão de cavalos. Perseguido por uma multidão enfurecida, foi assassinado. Em seguida soube-se que Alfredo Rosa era inocente. Construída uma capela no local de sua morte, pouco tempo depois surgiram pessoas que atribuíam a ele a ocorrência de milagres. Já os restos mortais de Alfredo Rosa constituem um capítulo à parte, pois foram transferidos de local por diversas vezes, estando hoje numa sepultura no Cemitério da Saudade.

Irmãos Begossi: Não se trata de uma sepultura, mas de um monumento erigido pela colônia italiana, em 1917, em homenagem a dois irmãos ítalo-saltenses, Nerone e Raoul Begossi, que morreram nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial.

A presença italiana: A perpétua de Caetano Liberatore foi a escolhida para referenciar a existência em grande quantidade de antigos túmulos que trazem inscrições em língua italiana, atestando a forte presença da colônia nesta cidade, especialmente no início do século XX.

Prof. Cláudio Ribeiro: Cláudio Ribeiro da Silva foi um professor com passagem marcante pela cidade entre as décadas de 1910 e 1930. Foi também diretor da Escola Tancredo do Amaral. Passagens significativas dos anos em que o professor Cláudio Ribeiro esteve em Salto foram seus trabalhos quando das Revoluções de 1924 e 1932, ocasiões em que capitaneou esforços da localidade em benefício dos combatentes que por aqui transitavam.

Luiz Castellari: Pioneiro da pesquisa histórica em Salto, Luiz Castellari foi, sem dúvida, o maior responsável pela descoberta e divulgação de muitos documentos importantes para a história local, especialmente os do final do século XVII e do início do século XVIII, envolvendo a figura do fundador Antonio Vieira Tavares.

Prof.ª Benedita de Rezende: Considerada uma das educadoras de maior erudição em Salto na primeira metade do século XX, Benedita de Rezende nasceu em Taubaté, e nas décadas 1920 e 1930 lecionou nesta cidade. Aposentada, voltou para Salto, e aqui fixou residência até seu falecimento. Poetisa de rara sensibilidade, escreveu hinos comemorativos, colaborou na imprensa da cidade e ministrou aulas de música e línguas até seus últimos dias de vida.


Parte do folder que produzi para o projeto.

O Circuito da Memória, que será inaugurado quando Salto completar 311 anos de fundação, ao referenciar personalidades e fatos que compõem a história e formação desta terra, materializa mais uma vez uma prática muito prezada por esta comunidade, que é a valorização da memória local.

20 de fevereiro de 2009

Velha guarda

O periódico saltense O Liberal – fundado em 7 de setembro de 1949 – interrompeu sua circulação durante alguns meses em 1952. Na última edição, a de 7 de março, eram seus diretores-redatores Archimedes Lammoglia, Mario Dotta e Paulo Miranda Campos. No retorno em 17 de agosto daquele ano, era o diretor responsável Joaquim A. Sontag e, como diretor secretário, figurava o já citado Lammoglia. Poucas mudanças estruturais ocorreram. O editorial “Ser Saltense”, que sempre aparecia em letras garrafais na primeira página, foi mantido – bem como o bordão “Órgão semanário independente para defesa dos interesses de nossa Terra e de nossa gente”.

Nessa edição de retorno, um dos articulistas, na coluna intitulada “Pessoal da velha guarda”, cita os trabalhos envolvendo o ressurgimento do jornal: “durante o tempo todo em que ‘O Liberal’ ficou sem circular, os seus interessados trabalharam dia e noite estudando possibilidades e traçando diretrizes a fim de que a nossa volta fosse assegurada”. E foi numa dessas reuniões que surgiu a idéia de se manter uma coluna que procurasse “reviver todo um passado que está quase morto na memória dos nossos varões mais velhos”. Assim sendo, na coluna “Pessoal da velha guarda” tentariam “descrever um pouco da vida de cada um [desses antigos habitantes], pontuando em evidência [sic] os mais interessantes fatos, personagens, costumes, tipos (...) da Salto de antanho”.

Na edição seguinte, o primeiro entrevistado foi Tibúrcio de Arruda Campos. O articulista leva a entrevista num tom alegre e com certa dose de comicidade. E assim apresenta o “primeiro elemento a figurar” na coluna: “soldado aposentado da Força Pública do Estado de São Paulo, que mesmo a despeito de receber Cr$ 1.270,00 mensais, anda de porta em porta a vender carvão”. Sobre a cidade do tempo em que aqui chegou, Tibúrcio diz que “Salto não passava de uma cidadezinha suja e esburacada, sem luz, sem comércio, sem água nem [coleta de] esgotos. As únicas coisas boas que possuía eram a Brasital e a Têxtil”. E faz um comentário sobre esta última: “Não sei quem era o dono, mas me recordo que pagava uma miséria a seus operários”. O entrevistado aproveita a oportunidade para desmentir comentários que eram feitos sobre ele há muito tempo: “Olha aqui. Dizem também que eu surrava presos e que ajudei a matar Alfredo Rosa [em 1911], acusado de roubar cavalos. Tudo isso é mentira. Nunca surrei ninguém e só matei uma pessoa na vida. Foi em São Paulo. Estava de serviço quando rebentou uma greve. Fui alvejado, mas felizmente não fui atingido. Armei a carabina e matei o grevista”, disse cabisbaixo e aparentando tristeza. Em determinada passagem, indagado sobre o espírito do povo saltense, queixa-se: “É o povo mais falador e venenoso que já vi na vida...”.

Na semana seguinte, a colunas trouxe como entrevistada Dona Rosalina Leal Nunes – possuidora de “gostos (...) dos mais modernos que se possa imaginar numa senhora de 80 anos”, pois adorava escutar novelas e assistir filmes. Sobre sua vivência em nossa cidade, relata em minúcias um acontecimento que presenciou em sua infância: “Nasci em Itu, mas vim muito criança para Salto. Aqui levei uma vida igual a de todas as crianças da minha idade. (...) Deveria ter uns 8 anos de idade quando D. Pedro II veio a Salto. Lembro-me do seu carro puxado por enormes cavalos, tendo à frente sua guarda pessoal formada por oficiais e soldados vestindo vistosos uniformes preto e vermelho de botões dourados e usando um boné cheio de plumas. Quando ele chegou a Salto, desceu da carruagem acompanhado por uma senhora manca [D. Thereza Christina, esposa de D. Pedro II]. Dirigiu-se à fábrica de José Galvão, que estava localizada onde hoje fica um dos depósitos da Brasital”.

Notas interessantes e valiosas como as transcritas são também encontradas nas semanas que se seguiram, nas vozes de Palmira Milanez, Domingos Lammoglia e Antonio Donatini, respectivamente. Após essas três semanas, sem qualquer justificativa, a coluna não mais figurou nas edições seguintes, dando fim a uma iniciativa muito interessante e lúcida de se registrar as memórias de antigos habitantes sobre a cidade que viram se desenvolver.

Ouça nosso podcast

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966