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15 de junho de 2026

O "Caminho das Esculturas" em Salto

O Caminho das Esculturas, com peças produzidas em 2008 pelo artista Murilo Sá Toledo, é um circuito artístico a céu aberto posicionado de forma estratégica logo após a Ponte Pênsil, margeando o rio Tietê.


A intenção do projeto, que coube a Elton Frias Zanoni (historiador do Museu da Cidade de Salto à época e autor deste blog) e Valderez Antonio da Silva (então Secretário da Cultura e também historiador, falecido em 2018), é a de funcionar como uma linha do tempo visual que resgata os principais arquétipos humanos formadores da sociedade saltense e paulista. Em suas características gerais, o conjunto se destaca pelo realismo e por propor uma narrativa crítica do passado: em vez de apenas exaltar mitos heroicos, a obra integra os diferentes grupos sociais, étnicos e econômicos que interagiram, muitas vezes de forma conflituosa, tendo o rio Tietê como o grande eixo de ligação ao longo dos séculos.

A seguir, apresentamos cada uma das esculturas concebidas:

O "Indígena"


A escultura do Indígena eterniza os primeiros habitantes de nossa região: os índios guaianás. Pertencentes ao grupo tupi-guarani, eles habitavam a antiga aldeia de Paraná-Ytu, estrategicamente localizada nas proximidades da cachoeira. Foram esses nativos que batizaram a grande queda d'água de "Ytu Guaçu", que significa Salto Grande, legando a raiz etimológica que hoje dá nome tanto a Salto quanto à vizinha Itu.

Longe da visão de uma colonização pacífica, a historiografia registra a forte resistência desses povos. Em 1532, o chamado "Cacique de Ytu" liderou um ataque contra a expedição de Martim Afonso de Souza, evidenciando a força indígena local muito antes da fundação das vilas europeias. A materialidade dessa presença milenar é comprovada por importantes vestígios arqueológicos descobertos em Salto, como pontas de flechas e igaçabas (urnas funerárias), vestígios de uma civilização que acabou sendo duramente reprimida e aprisionada pelas investidas das bandeiras paulistas.

Apesar do violento processo de apagamento, a profunda herança indígena jamais foi silenciada. Até meados do século XVIII, a língua predominante na nossa região não era o português, mas sim o "nheengatu" (a língua-geral), de base tupi-guarani. Esse legado formador sobrevive de forma viva na base da cultura caipira, enraizado nos nossos hábitos de higiene, nas técnicas manuais, na culinária e no vasto vocabulário que utilizamos todos os dias.


O "Bandeirante"


A escultura do Bandeirante evoca uma figura central e controversa na formação de Salto e do Estado de São Paulo. Posicionada de forma simbólica após a Ponte Pênsil, próxima ao rio Tietê — a grande "estrada fluvial" que servia de rota para as expedições rumo ao interior —, a obra nos remete diretamente ao próprio fundador da cidade, o capitão e sertanista Antônio Vieira Tavares, sobrinho do célebre Antônio Raposo Tavares.

Historiograficamente, a imagem do bandeirante sofreu profundas revisões. Nas primeiras décadas do século XX, instituições como o Museu Paulista, sob a direção de Affonso de Taunay, empenharam-se em monumentalizar esses homens, forjando o mito do herói épico e civilizador responsável por expandir as fronteiras do país. A historiografia moderna, no entanto, revela uma realidade bem mais complexa e violenta: essas expedições eram, em grande parte, empresas predatórias focadas na guerra e na escravização maciça de indígenas — os "negros da terra" — para suprir a demanda por mão de obra nas fazendas do planalto paulista.

Ao observarmos essa estátua hoje, somos convidados a uma reflexão crítica sobre as nossas raízes. O monumento não serve apenas para exaltar a intrepidez física daqueles que adentraram o desconhecido, mas também para nos confrontar com as contradições cruéis que forjaram a sociedade paulista. É o retrato de uma época de luzes e imensas sombras, eternizada às margens do rio que testemunhou tanto o pioneirismo quanto a desintegração dos povos nativos.


O "Jesuíta"


A escultura do religioso Jesuíta traz à tona a figura central dessa ordem religiosa na exploração do rio Tietê, muitas vezes personificada pelo padre José de Anchieta, posteriormnte transformado em santo. A obra nos remete à forte aura mítica construída ao redor desses missionários, eternizada em episódios como a famosa lenda do naufrágio de Anchieta nas corredeiras da nossa região, num local que os nativos batizaram de "Avaremanduava" (lugar onde o padre caiu). Segundo a tradição oral, após a canoa virar, o jesuíta teria sido resgatado do fundo do rio pelo índio Araguaçu, sentado calmamente sobre uma pedra enquanto lia o seu breviário.

A historiografia moderna, no entanto, despe o missionário do véu puramente celestial para analisá-lo como uma engrenagem fundamental do projeto colonial. Longe de serem apenas protetores passivos, os religiosos atuaram como agentes de profunda intervenção cultural, instituindo os chamados "aldeamentos" — como a efêmera Aldeia de Maniçoba, erguida nas proximidades da nossa região na década de 1550. Esses espaços, concebidos para catequizar e regimentar os nativos como força de trabalho cristã e dócil, acabaram por acelerar a desintegração das sociedades indígenas originais, já que os jesuítas combatiam ferozmente a influência dos pajés e impunham uma nova concepção europeia de tempo, família e trabalho.

Contemplar essa estátua às margens do Tietê é deparar-se com os complexos conflitos do nosso passado formativo. A cruz e a espada travaram intensas disputas de interesses: enquanto os padres tentavam resguardar os indígenas da escravidão predatória promovida pelos bandeirantes (o que lhes rendeu muito ódio e culminou na expulsão dos jesuítas da capitania paulista em 1640), eles próprios exerciam sobre os nativos outra forma de subordinação. Assim, a escultura do religioso convida a uma reflexão crítica sobre a conquista espiritual e cultural que, ao lado da força das armas, forjou definitivamente a sociedade paulista.


O "Viajante"


A escultura do Viajante faz alusão à intensa passagem de naturalistas, pintores e cientistas estrangeiros por Salto, sobretudo ao longo do século XIX. Atraídos pela força imponente do "Ytu Guaçu" e pelo ineditismo da natureza tropical, nomes célebres como os franceses Auguste de Saint-Hilaire, Hercule Florence e Jean-Baptiste Debret registraram a grande cachoeira do rio Tietê em textos e aquarelas que se tornaram fontes documentais inestimáveis para a nossa história.

A historiografia contemporânea, contudo, nos alerta que o olhar desses viajantes estava longe de ser uma constatação neutra ou puramente científica. Suas narrativas e imagens refletiam uma matriz cultural europeia hegemônica, ajudando a forjar para o Velho Mundo a visão de um Brasil exótico e selvagem. O sucesso editorial desses diários de viagem baseava-se em apresentar a terra e a gente nativa através de filtros de superioridade civilizatória e deslumbramento romântico, criando um imaginário sobre o país que acabou influenciando a nossa própria autoimagem.

Ao contemplar a figura do Viajante Europeu às margens do Tietê, somos provocados a refletir sobre a própria construção da nossa memória. A estátua simboliza esse encontro complexo entre o observador forasteiro e a realidade local, lembrando-nos que uma parte significativa do nosso passado visual e escrito foi eternizada pelos olhos dos outros. É um convite para revisitarmos essas fontes históricas não como verdades absolutas, mas como espelhos de uma época que precisamos reinterpretar de forma crítica.


O "Pescador"


A escultura do Pescador homenageia uma figura que, por séculos, tirou do rio Tietê o seu sustento. Mais do que um simples ofício, a pesca em Salto carrega uma herança milenar que remonta aos índios guaianás e atravessou o período colonial como uma prática essencial de subsistência. Com a fartura de espécies como dourados, pacus, piracanjubas e mandis, o rio foi, durante muito tempo, a principal fonte de alimento para as famílias ribeirinhas.

Historiograficamente, a figura do pescador na virada para o século XX encarna a resistência de um modo de vida tradicional caipira frente ao avanço do capitalismo industrial. Com a instalação das tecelagens pioneiras, os industriais passaram a privatizar e murar as margens do rio, bloqueando vias históricas como a antiga Rua do Porto, que dava acesso ao piscoso Porto das Canoas. Esse embate direto entre a disciplina fabril e a liberdade ribeirinha gerou intensos conflitos populares, que só foram resolvidos com a construção da icônica Ponte Pênsil em 1913, erguida pelas fábricas justamente como um acordo para devolver aos pescadores o caminho até as águas.

Contemplar essa obra hoje é deparar-se com uma memória dupla: a social e a ambiental. A escultura evoca lembranças afetivas de personagens folclóricos como o Chico Turco, que mantinha viveiros de peixes frescos na Ilha Grande e atendia turistas até a metade do século XX. Contudo, a obra também nos confronta com a triste realidade ecológica contemporânea, já que o avanço da poluição metropolitana extinguiu a atividade pesqueira a partir da década de 1950. Assim, o Pescador de bronze permanece não apenas como um tributo à nossa gente simples, mas como um melancólico alerta sobre o rio vivo que perdemos.


A "Operária"


A escultura da Operária simboliza a transformação mais profunda da história de Salto: a transição da pacata vila agrícola para uma efervescente cidade fabril. Com a instalação das tecelagens pioneiras Júpiter (1875) e Fortuna (1882), e posteriormente a consolidação da Brasital S/A, a força motriz da cachoeira passou a girar milhares de fusos e teares. Essa obra homenageia a massa trabalhadora, em grande parte formada por imigrantes italianos e seus descendentes, que ergueu a infraestrutura local e reescreveu a identidade da cidade.

Historiograficamente, a figura operária saltense carrega uma singularidade marcante: o absoluto protagonismo feminino. Por volta de 1940, as mulheres chegaram a representar cerca de 75% da força de trabalho empregada nas tecelagens locais. A historiografia moderna afasta a visão romantizada do passado fabril para evidenciar a dura realidade de uma extenuante dupla jornada. As operárias enfrentavam pesados turnos nas máquinas e, ao voltarem para casa, assumiam sozinhas o peso do trabalho doméstico, lavando roupas e assando pães nas áreas coletivas das vilas operárias, os famosos "Quintalões".

Contemplar a figura da Operária às margens do Tietê é reconhecer os verdadeiros construtores da sociedade saltense moderna. O monumento nos recorda que o alicerce do progresso não repousa apenas nos capitais dos grandes industriais, mas sobretudo na força invisível e na resistência diária dessas trabalhadoras. A estátua reverencia a memória de figuras históricas reais, como Itália Manfredini, tecelã que se tornou uma das maiores líderes sindicais do século XX na cidade, lembrando-nos que o desenvolvimento local foi conquistado com muita luta e suor.


O artista


O escultor paulista Murilo Sá Toledo (acima, em foto de 2010) é reconhecido pela produção de monumentos públicos de caráter histórico, dedicados à representação da memória e da identidade nacional brasileira. Sua produção fundamenta-se em uma abordagem figurativa de orientação realista, direcionada à composição de figuras e episódios estruturantes da história do país. Dentre seus trabalhos de maior circulação no espaço urbano, destacam-se a estátua de Zumbi dos Palmares, localizada na Praça da Sé, em São Paulo, o Monumento aos Bandeirantes, em Santana de Parnaíba, e a representação do Marechal Deodoro da Fonseca. Por meio do trabalho técnico em bronze, a obra de Sá Toledo opera como um vetor de patrimonialização visual, que documenta personagens históricos e estimula o debate acerca dos processos de formação social e política do Brasil.

13 de março de 2009

Jesuítas e a escultura de Anchieta em Salto

A Companhia de Jesus, cujos membros são conhecidos como jesuítas, é uma ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo liderado pelo militar basco Inácio de Loyola. A ordem surgiu num momento de conflitos dentro do cristianismo, com a reforma protestante questionando a Igreja Católica Romana.

Nesse contexto, os jesuítas propunham obediência total à Igreja Romana e pretendiam ampliar o número de seguidores do catolicismo por meio da catequese de povos que eles consideravam pagãos, por terem outras crenças ou religiões. A partir disso, muitos membros da Companhia de Jesus se instalaram em áreas da América e da Ásia.

Em 1549 chegaram ao Brasil os primeiros missionários jesuítas. O grupo pioneiro, que tinha como superior o padre Manoel da Nóbrega, colaborou com Tomé de Sousa na fundação da cidade de Salvador e criou o Colégio da Bahia. Em 1553 foi criada a Província Jesuítica do Brasil, mesmo ano da chegada do padre José de Anchieta. Gradativamente, os jesuítas estenderam sua presença por outras capitanias – inclusive São Vicente – instalando um colégio nos campos de Piratininga, em 1554, considerado marco da fundação da cidade de São Paulo.


O mistério da aldeia perdida

Em 1553, antes mesmo da fundação de São Paulo, o padre Manoel da Nóbrega, superior dos jesuítas no Brasil, estabeleceu uma aldeia para catequese dos índios no interior do continente. Ela foi batizada de Maniçoba (palavra que, na língua indígena, significa folha ou pé de mandioca). A aldeia durou menos de um ano, sendo abandonada devido a ataques de índios ou brancos hostis, doenças ou outro motivo.

O grande mistério é a localização exata de Maniçoba, que ainda hoje motiva debates. Antigos textos dizem que Nóbrega caminhou “trinta e cinco léguas pelo sertão adentro”, desde o litoral, até alcançar “um rio donde embarcam para os carijós” (somado a outras evidências, considera-se que seja o rio Tietê). Isso localizaria a aldeia na região compreendida entre Itu e Porto Feliz. Surgem, como possibilidades já cogitadas, o Porto Góes, aqui logo abaixo da cachoeira de Salto, o antigo Araritaguaba (atual Porto Feliz), ou ainda os arredores da cidade de Itu. De qualquer forma, a misteriosa aldeia de Maniçoba é um testemunho sobre a antiguidade da presença colonizadora européia nestas terras.


José de Anchieta, o apóstolo do Brasil


"José de Anchieta", obra de Murilo Sá Toledo (2008)

José de Anchieta [1534-1597], representado em escultura existente no Complexo Cachoeira (foto acima), nasceu em Tenerife, nas Ilhas Canárias, Espanha. Ainda garoto, ingressou na Companhia de Jesus, onde desenvolveu formação cultural e religiosa. Desde cedo se interessou por literatura. Escreveu contos, poemas, sermões e textos dramáticos. Expressava-se em latim, português, espanhol e tupi. Anchieta chegou ao Brasil em 1553, na comitiva do governador-geral Duarte da Costa. Em 1554, ao lado do padre Manoel da Nóbrega, fundou o colégio que se tornaria a cidade de São Paulo, tendo inclusive participado ativamente de sua defesa quando da invasão dos índios tamoios. Participou também da expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, em 1567. É de sua autoria a primeira gramática da língua tupi, publicada em Coimbra, em 1595. Faleceu em Reritiba (hoje Anchieta), no Estado do Espírito Santo. Tornado beato pela Igreja Católica, caminha para a canonização, sendo conhecido como Apóstolo do Brasil.

O naufrágio do padre

No ano de 1568 o padre José de Anchieta passou por nossa região, como língua (intérprete) de uma expedição em direção ao interior da então capitania de São Vicente, utilizando-se do rio Tietê. Em determinado trecho encachoeirado a canoa na qual o padre estava virou, sumindo diante da força das águas. Instantes após o incidente, os tripulantes todos emergiram, exceto Anchieta, que permaneceu submerso por longo tempo. Diante disso, um índio de nome Araguaçu decidiu mergulhar a procura do padre, acabando por retirá-lo das águas. Diz a lenda que Anchieta foi encontrado no fundo do rio, sentado numa pedra, calmamente lendo seu livro de orações. O local do acidente foi batizado de Avaremanduava, que significa “lugar onde o padre naufragou”, e localiza-se logo abaixo da cidade de Porto Feliz.


Quadrinhos do artista Rodrigo Schiavon, com textos meus, representando a lenda do naufrágio de Anchieta, 2008.

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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966