Mostrando postagens com marcador brasital. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador brasital. Mostrar todas as postagens

8 de junho de 2026

A face oculta da Brasital

A historiografia de Salto frequentemente exalta a Brasital S/A sob a inocente aura paternalista de "Mãe de Salto", destacando as benfeitorias urbanas, como a construção de vilas operárias, creches e armazéns de emergência. No entanto, uma análise aprofundada revela que essas concessões coexistiam com extenuantes jornadas de trabalho - muitas vezes de doze horas ininterruptas no turno da noite, envolvendo crianças a partir dos dez ou onze anos de idade. Esse cenário gerou um ambiente de forte tensão e resistência, liderado por imigrantes e, de forma contundente, pelas operárias.

Interior da malharia da Brasital em 1920.


As primeiras revoltas e o tiroteio histórico

Nas primeiras décadas do século XX, grande parte da população saltense era composta por imigrantes espanhóis e, principalmente, italianos - muitos trazendo consigo ideários anarquistas e socialistas. Como não havia legislação trabalhista que medisse as relações patronais, as greves tornaram-se o único recurso de reivindicação.

Ainda sob a gestão da pioneira Ítalo-Americana, os conflitos atingiam níveis extremos de violência. Em um dos motins, o gerente do cotonifício chegou a ser amarrado por um operário exaltado, que fugiu para a Argentina logo após o ato para escapar da prisão. O caso de maior repercussão, no entanto, ocorreu na segunda década do século XX e envolveu o presidente do Partido Socialista local.

Durante uma agitação operária, a polícia foi acionada e o delegado de Salto passou a interpelar diretamente o líder socialista. Nesse momento, um grevista que estava ao seu lado desacatou a autoridade policial, recebendo voz de prisão imediata. O operário resistiu com violência; em resposta, o escrivão ameaçou sacar seu revólver, sendo acompanhado pelo próprio delegado. O confronto resultou em um tiroteio no qual o delegado foi gravemente baleado, enquanto o atirador fugiu sem deixar pistas.

O episódio rendeu a Salto a reputação de "cidade turbulenta" e provocou uma dura retaliação do Estado: um tenente da Força Pública foi enviado de trem com um pelotão armado, desembarcando ao som de cornetas para intimidar a população. A Força Pública instaurou um rígido toque de recolher às 18 horas, caçou suspeitos e deportou os indivíduos considerados "perniciosos" para a cidade de Itararé, impondo o pânico no município.

 

A força das tecelãs e a ameaça de massacre

Se a mão de obra feminina era amplamente explorada, ela também foi a espinha dorsal do movimento paredista. As tecelãs protagonizaram paralisações históricas. Em uma dessas greves, iniciada na tecelagem e aderida pelas demais seções, o delegado de polícia e o diretor técnico da fábrica tentaram entrar no salão para pacificar os ânimos. A tentativa falhou: o diretor foi violentamente repelido e agredido a guarda-chuvas por uma tecelã, sendo também atacado por outro operário, o que forçou o recuo imediato das autoridades.

A combatividade feminina gerou outro momento de extrema tensão em uma nova greve das tecelãs. Temendo o avanço do movimento, a Delegacia Regional de Sorocaba enviou um pelotão armado que se posicionou nos portões da fábrica. O superintendente da Brasital, Giuseppe Bianchi, ciente de que a invasão de tropas armadas em um recinto fechado repleto de operárias resultaria em um massacre, intercedeu. Ele pediu licença à polícia, entrou sozinho no setor e negociou exaustivamente, exigência por exigência, conseguindo restabelecer o trabalho e evitar a tragédia.

 

O fim das negociações e a repressão de 1935

Apesar dos acordos pontuais para evitar o derramamento de sangue, a postura da empresa endureceu ao longo dos anos. Em novembro de 1935, motivados por baixos salários, os trabalhadores desligaram os motores e iniciaram uma greve que durou entre 15 e 20 dias.

Diferente das concessões anteriores, a repressão desta vez foi cirúrgica. Ao tentarem retornar aos seus postos após o fim do movimento, as lideranças e dezenas de grevistas descobriram que suas chapas de identificação haviam sido retiradas dos relógios de ponto pela administração. Eles foram sumariamente demitidos e barrados na entrada da fábrica, sem qualquer chance de negociação.

A história industrial de Salto demonstra que as vilas operárias e os benefícios assistencialistas não anularam a exploração severa, mas também evidencia a coragem de uma classe trabalhadora - encabeçada de forma feroz pelas mulheres - que não hesitou em confrontar diretamente as forças policiais e o capital multinacional.

 

A fundação do primeiro sindicato em Salto

A efervescência das greves e o embate contínuo contra as rígidas engrenagens do sistema fabril inevitavelmente forjaram uma nova consciência de classe nos trabalhadores de Salto. A percepção de que a revolta isolada e explosiva era insuficiente ganhou força após um grande movimento grevista ocorrido em 1932, momento em que a massa operária despertou para a necessidade de criar uma frente unida e oficializada contra o poderio patronal.

Foi exatamente nesse cenário de extrema tensão que, no dia 11 de novembro de 1932, nasceu a primeira organização de classe da cidade: o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Têxtil. A fundação dessa entidade pioneira desafiou o conservadorismo de uma época em que qualquer mobilização operária era estritamente vigiada e, não raro, violentamente reprimida.

A espinha dorsal dessa conquista contou de forma inegável com a força feminina. Itália Manfredini, que ingressara como operária na Brasital em 1921, destacou-se como a maior líder feminina saltense de todo o século XX. Pioneira nas lutas sindicais, ela ajudou a erguer as bases da nova instituição e ocupou cargos vitais em sua diretoria, servindo como a destemida porta-voz dos operários nos piores momentos de crise e racionamento. Ao lado de Itália e de outras bravas trabalhadoras - como as irmãs Messas e Maria Fusto -, perfilaram-se idealistas combativos e operários engajados, a exemplo de Arthur Migliori e Antonio Boarini.

Itália Manfredini (1907-1990)

Nascida em 1907, Itália Manfredini desafiou as limitações de sua época e se consolidou como uma das maiores líderes femininas do século XX. Desde a juventude em Salto, onde foi uma das primeiras alunas do atual Tancredo do Amaral, ela demonstrou um faro natural para a liderança. Durante quase três décadas na tecelagem Brasital, Itália não foi apenas contramestre, mas a voz corajosa dos operários em períodos de crise e racionamento. Sua força política ajudou a fundar o primeiro sindicato da cidade em 1932, o Círculo Operário e o jornal O Trabalhador, conciliando esse forte perfil ativista com uma atuação sintonizada junto a entidades religiosas locais.

Em 1949, ela mudou de rumo e ingressou no Centro de Saúde de Salto, onde trabalhou até se aposentar na década de 1970. Mas o talento de Itália não parava nos bastidores da saúde e da política: ela também brilhava nos palcos, comandando e estrelando grupos teatrais icônicos das décadas de 50 e 60 ao lado de grandes nomes da arte saltense. Essa trajetória multifacetada e vibrante foi interrompida em abril de 1990, após um acidente de trânsito em Itu, deixando um legado que uniu, em seu último adeus, as esferas sindical, religiosa e artística da região.


A criação do sindicato representou um marco histórico irreparável para Salto, substituindo os motins desesperados por uma trincheira institucional de resistência. Esse núcleo inicial não apenas pavimentou o caminho para a negociação de garantias trabalhistas e sociais, mas também serviu como a principal escola para futuras gerações de líderes que dariam continuidade à luta. O caminho desbravado em 1932 permitiu que, nas décadas seguintes, o sindicato têxtil fosse comandado por defensores ferrenhos da classe, como Agostinho Rodrigues (presidente de 1945 a 1947), Generoso Bimonti (1950 a 1953), Zelino Moschini (1953 a 1955) e Flávio Costa.

 


Referências:

  • BOMBANA, João M. "História da Brasital S.A.": o ex-funcionário da empresa relatou esses eventos em uma série de artigos publicados no jornal O Trabalhador (1976-1977). O texto de Bombana é a fonte primária que documenta: a forte presença de anarquistas e socialistas nas primeiras décadas; o episódio em que o gerente foi amarrado; o tiroteio que baleou o delegado e o posterior toque de recolher imposto pela Força Pública; os levantes incisivos das tecelãs; a agressão a guarda-chuvas contra a chefia; e as demissões em massa após a greve de 1935.
  • Depoimento de Benedito de Quadros (Tico) (História Oral, Arquivo do Museu da Cidade): relato primário do ex-operário e ativista que descreve as origens do sindicato logo após a greve de 1932, citando nominalmente os fundadores iniciais, incluindo as mulheres (irmãs Messas, Maria Fusto) e colegas como Antonio Boarini.
  • Depoimento de Odmar do Amaral Gurgel (Gaó) (História Oral - Arquivo do Museu da Cidade, 1991): o maestro e ex-operário confirma o contexto da greve de novembro de 1935 e relata a retaliação silenciosa da empresa, descrevendo o momento em que os operários chegavam à portaria e encontravam os relógios vazios, sem suas chapas de ponto.
  • Depoimentos de Benedito e Genoveva de Quadros (História Oral - Arquivo do Museu da Cidade, 1995): atestam a dura realidade do chão de fábrica, revelando o ingresso de crianças a partir dos 10 e 11 anos e as jornadas exaustivas de 12 horas noturnas ininterruptas na tecelagem.
  • LENZI, Valter. Coluna "Quem foi Quem": perfis detalhados que consagram Itália Manfredini como a principal líder feminina do século XX e narram sua atuação na diretoria do sindicato de 1932, além de trazer as biografias de Zelino Moschini e Agostinho Rodrigues como líderes e defensores dos trabalhadores.
  • LIBERALESSO, Ettore. História das Ruas e Praças de Salto (1998): verbetes biográficos atestam a data exata da fundação do sindicato têxtil (11.11.1932) liderado por Itália Manfredini, bem como a participação direta de Arthur Migliori, Generoso Bimonti, Zelino Moschini e Flávio Costa no comando da entidade ao longo dos anos.
  • ZANONI, Elton Frias. Leituras da Cidade (2012) e História de Salto/SP (Blog): obras que desconstroem o mito da "Mãe de Salto", contextualizando a infraestrutura oferecida pela Brasital (como as vilas operárias e creches) como um contraponto à rígida disciplina fabril exigida.

24 de abril de 2026

A imigração italiana em Salto

O desenvolvimento do município de Salto, entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, está intrinsecamente ligado à imigração italiana, que reconfigurou tanto o espaço urbano quanto o rural. Atraídos, num primeiro momento, para as fazendas de café do interior paulista, esses imigrantes logo se deslocaram para o núcleo urbano. O impacto demográfico foi tamanho que, em 1905, dos cerca de 4.200 habitantes da cidade, mais de 3.000 eram nascidos na Itália.


Panoramas de Salto no início do século XX.

O capital têxtil e a moldura urbana

A partir da virada do século, o capital italiano transformou a fisionomia da cidade. O empresário Enrico Dell'Acqua e a Società per l'Esportazione e per l'Industria Italo-Americana adquiriram as pioneiras tecelagens Júpiter e Fortuna. Esse complexo, que em 1919 daria origem à Brasital S/A, passou a ditar o ritmo da urbanização.

A construção das vilas operárias é o reflexo material dessa hegemonia. Para atrair e fixar a mão de obra, a empresa ergueu a Vila da Barra (1911) e, posteriormente, a Vila Operária Brasital (1920-1925), com os famosos "Quintalões". Este último foi um projeto monumental de 244 casas inspirado no Istituto Autonomo Bustese Case Popolari, da região de Busto Arsizio, na Itália. A estética da fábrica, com seus tijolos à vista e ameias gibelinas, assemelhava-se às antigas fortificações de Florença e Verona, impondo uma paisagem europeia ao interior paulista.

Toda essa estrutura forjou a imagem da Brasital como a grande "mãe de Salto", materializando um modelo paternalista que oferecia moradia, creche e armazém, mas exigia em troca uma rigorosa disciplina fabril.

Ao fundo, o complexo da Brasital S/A por volta de 1927.

A vida rural e o Bairro do Buru

Enquanto as chaminés dominavam o centro urbano, a zona rural era desbravada por dezenas de famílias que, a partir de 1890, adquiriram terras de baixo custo. O núcleo dessa ocupação foi o vasto bairro do Buru, tradicionalmente dividido em Buru de Baixo, do Meio e de Cima.

Nessa geografia, enraizaram-se famílias pioneiras como Zanoni, Stecca, Zambon, Rocchi, Di Siervo, Bethiol, Pauli, Pitorri, Bolognesi, Cortis, Ognibene, Gianotto, Vallini, Quaglino, Ferrari, Santinon, Matiuzzo, Bernardi, Gilberti, Bergamo, Nicácio, Mosca e Fiori. O cotidiano girava em torno do cultivo da terra e de pontos de encontro como a "venda do Buru", da família Santinon.

Sítio Fundão, família Quaglino, c. 1901

A tradição agrícola trouxe a viticultura. Vicente Donalísio, ao adquirir um sítio em 1909, importou castas finas da Itália, França e Argentina, ganhando prêmios por sua produção. Outro destaque foi Hermenegildo Milioni, que transformou a chácara da família em um considerável parque industrial dedicado ao vinho.

Sociabilidade, fé e saúde

A religiosidade foi o cimento social no meio rural. Os imigrantes trouxeram a imagem de Nossa Senhora das Neves, estabelecendo novenas e festas em agosto. A organização era coletiva: moças de famílias como os Ribeiro, Leme e Stecca confeccionavam flores artesanais para os andores. A atual capela do bairro data de 1938.

A capela de Nossa Senhora das Neves, em foto dos anos 1970.

No núcleo urbano, a sociabilidade orbitava em torno do mutualismo. Em 1902, foi fundada a Società Italiana di Mutua Assistenza Giuseppe Verdi, que amparava sócios na doença. Em 1934, a instituição ergueu a grandiosa Casa D'Itália, abrigando o Cine Verdi e o Círculo de Leitura Dante Alighieri.

Casa D'Italia com alunos da Escola Anita Garibaldi em frente, por volta de 1940.

A saúde também ganhou contornos épicos com o médico milanês Enrico Viscardi. Chegado em 1902, Viscardi clinicava com tamanha dedicação que foi eternizado como o "médico dos pobres". Paralelamente, o casal Giuseppe e Doralice Segabinazzi iniciou um pioneirismo fitoterápico para o tratamento da ciática, atraindo pacientes de todo o Brasil com unguentos feitos de ervas trazidas da Itália.

Educação e a Escola Anita Garibaldi

A Escola Anita Garibaldi, mantida pela Brasital, desempenhou papel vital ao preencher a lacuna educacional após o ensino primário oficial. Sob a direção de João Baptista Dalla Vecchia, a escola oferecia um currículo rigoroso: álgebra, história, geografia, língua italiana e a famosa "caligrafia da Escola Anita".

Alunos da Escola Anita em arquibancada improvisada, montada em frente à Brasital, c. 1938.

A instituição funcionava como uma ponte para a vida adulta e acadêmica. O falecido advogado saltense Mário Dotta relatou que, no caso dele, a escola foi o preparatório essencial para os exames de admissão do Ginásio Estadual de Itu. O nome da escola, homenageando a companheira brasileira de Giuseppe Garibaldi, era um gesto diplomático de integração cultural.

Música e rivalidades culturais

A vida musical saltense era marcada por uma célebre disputa. De um lado, a Banda Musical Saltense (a "Brasileira"); de outro, a Corporação Musical Giuseppe Verdi (a "Italiana"), regida por maestros como Inocêncio Pradelli. As apresentações alternadas no coreto do Largo Paula Souza polarizavam a cidade entre oriundi e brasileiros, elevando o padrão cultural local com execuções de Verdi, Mascagni e Puccini.

Coreto do Largo Paula Souza em 1936. Hoje, trata-se da área em frente à Biblioteca Municial.

O trauma da Segunda Guerra Mundial

A eclosão do conflito em 1939 e o alinhamento do Brasil aos Aliados representaram uma violenta fratura para a colônia. O patriotismo que antes levava crianças uniformizadas (os balillas) a gritarem saudações a Mussolini ("Duce, per te!") transformou-se em medo.

O silenciamento foi tático e coercitivo. Valdomira Salesiane Bifano, em depoimento ao Museu da Cidade no início dos anos 1990, relatou o pânico que levou a comunidade a destruir o acervo da biblioteca italiana. A repressão atingiu os bens de capital: as leis de exceção permitiam o confisco de propriedades de cidadãos do Eixo. Francisco Olegário Nitaques lembrou que atividades artísticas e propriedades foram ameaçadas, e a Casa D’Itália foi forçada a encerrar suas atividades associativas em 1941.

O genuíno alívio coletivo e o fim desse período de censura e xenofobia só ocorreriam em 1945, com a rendição do Eixo, quando a população se aglomerou em festa ao redor do coreto no Largo Paula Souza, encerrando um ciclo de transformação e resistência da identidade italiana em solo saltense.

26 de março de 2026

Barragem e Usina de Porto Góes

A construção da barragem e usina hidrelétrica de Porto Góes teve início em 1924, pela indústria Brasital S/A, que visava abastecer seu complexo fabril instalado nas proximidades. A concessão estadual para a construção de uma usina próxima à cachoeira fora obtida pelo grupo industrial antecessor, a Società Italo-Americana, nos primeiros anos da década de 1910.

Mas a Brasital
não concluiu a obra. Em 1927 a concessão foi cedida para a Companhia Ituana de Força e Luz – que no mesmo ano teve seu controle acionário transferido para a The São Paulo Tramway Light & Power Co. Ltd. – conhecida simplesmente por Light. Nas obras, concluídas pela Light em 1928, cerca de 1500 homens trabalharam.


Todo o aparato necessário para que a usina de Porto Góes entrasse em funcionamento alterou significativamente a paisagem do entorno da cachoeira que dá nome à cidade. O volume d’água que hoje se observa foi bastante reduzido em virtude da abertura do canal de descarga, que também resultou numa ilha artificial na margem esquerda, na qual a vegetação natural se preservou desde então.


Ao lado dos prédios remanescentes da antiga Brasital, formou-se um conjunto que é símbolo da arquitetura industrial paulista das primeiras décadas do século XX. Tecnicamente, a usina de Porto Góes apresenta duas unidades geradoras dotadas de turbinas tipo Francis, de eixo vertical, com capacidade instalada de geração de 11 MW, vazão turbinável de 56 m³/s e desnível nominal de 25 metros. Atualmente, está sob o controle da Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A., a EMAE.




21 de fevereiro de 2021

O teleférico da Brasital

As duas fábricas de tecido pioneiras em Salto, instaladas nesta margem do rio Tietê, bem como a fábrica de papel situada na margem oposta – todas surgidas no último quarto do século XIX – passaram, em 1904, a pertencer a uma única proprietária: a Società per l’Esportazione e per l’Industria Italo-Americana. Esta se tornou, ao mesmo tempo, produtora de tecidos e de papel.

Em 1919, a Italo-Americana passou para as mãos da Brasital S/A, que incorporou todo o patrimônio de sua antecessora. Apenas em 1976 a fábrica de papel foi desmembrada da fábrica de tecidos, passando a ter um proprietário distinto.

O vínculo entre essas fábricas, naquela época, se dava em virtude da matéria-prima para a produção do papel – fibras de celulose – vir das sobras das fábricas de tecidos. Era comum, inclusive, a fábrica de papel anunciar em jornais da época o seu interesse em adquirir roupas velhas e trapos de linho ou de algodão.

O teleférico da Brasital ligava as fábricas de tecido e de papel, uma em cada margem do rio. Por meio de uma barqueta, pessoas – inclusive gerentes – e materiais de pequeno porte eram transportados com a agilidade necessária, constituindo a linha mais curta entre as duas fábricas.

Teleférico, próximo à torre de sustentação, que ligava a Fábrica de Tecido da Brasital à Fábrica de Papel. Desativado nos anos 60.

Ponte Pênsil e Rio Tietê, 1945.

Rio Tietê, a partir da Ponte Pênsil, tendo ao fundo o teleférico da Brasital que ligava à Fábrica de Papel.


10 de março de 2019

Vídeo histórico! Brasital, italianos e parte da cidade de Salto em fins dos anos 1930.



Trecho de vídeo que apresenta as instalações da Brasital em Salto, suas vilas operárias e as instalações da Casa d'Itália. Aproximadamente 1938.

TRANSCRIÇÃO DO ÁUDIO

EM ITALIANO:

La Società Anonima Brasital è una tra le più importanti organizzazioni industriali dello Stato di San Paolo. Trarre il nome che prese nel 1919, l'azienda, fondata da Enrico Dell'Acqua e sviluppata in seguito dalla Società per l'Esportazione e per l'Industria Italo-Americana.
Ecco l'importante gruppo di edifici del cotonificio di Salto, che occupa oltre 1400 operai, maggioranza italiana, e i loro discendenti. Particolare l'adattamento di questi lavoratori alla Brasital, tanto che oggi figli e nipoti lavorano accanto a molti dei primi capi reparto ed operai dell'azienda. I prodotti di questa fabbrica esemplare sono apprezzati in tutto il Brasile.
Gruppo di direttori e capi tecnici.
Gruppo di abitazioni per gli impiegati.
Alcuni aspetti delle case degli operai.
Anche in Salto la Brasital ha una cartiera che è alla prima portata dello Stato di San Paolo.
In Sao Roque, il cortile della fabbrica di tessuti, che rappresenta il nucleo iniziale delle attività svolte in Brasile da Enrico Dell'Acqua.
Casa d'Italia: grazie all'ammirevole iniziativa degli italiani di Salto, e al costante appoggio della Brasital, i nostri connazionali, grandi e piccini, hanno in questa dignitosa sede tante occasione di ricordare la patria lontana.

EM PORTUGUÊS:

A Sociedade Anônima Brasital é uma das mais importantes organizações industriais do Estado de São Paulo. A empresa, denominada Brasital em 1919, é um desenvolvimento da então Sociedade para a Exportação e para a Indústria Ítalo-Americana, fundada por Enrico Dell'Acqua.
Eis o importante conjunto de edifícios da tecelagem de Salto, que emprega 1400 operários, em sua maior parte italianos e seus descendentes. Peculiar o comprometimento desses trabalhadores para com a Brasital, visto que nos dias de hoje filhos e netos trabalham lado a lado a muitos dos primeiros chefes de departamento e operários da empresa. Os produtos desta fábrica exemplar são apreciados em todo o Brasil.
Grupo de diretores e responsáveis técnicos.
Conjunto de casas dos empregados.
Alguns aspectos das casas dos operários.
Também em Salto, a Brasital possui uma fábrica de papel que foi a primeira do Estado de São Paulo.
Em São Roque, as instalações da fábrica de tecidos, que representam o núcleo inicial das atividades desenvolvidas por Enrico Dell'Acqua no Brasil.
Casa d'Italia. Graças à admiravel iniciativa dos italianos de Salto e ao constante apoio da Brasital, os nossos conterrâneos, adultos e crianças, encontram neste digno espaço tantas ocasiões de recordarem a pátria distante.

-----

Nossos agradecimentos pelo trabalho de transcrição e tradução a Flavia Santini e Bruno Elias.

27 de janeiro de 2016

Movimento grevista e a colônia espanhola

A história tradicional contada em Salto normalmente exalta as indústrias pioneiras, descrevendo um mundo perfeito no qual haveria plena harmonia, esquecendo-se dos enfrentamentos que existiam entre patrões e empregados. Naturalizou-se um discurso da "mãe Brasital", mesmo sendo evidente que esta não acolhia e agradava a todos os seus "filhos", especialmente os que não eram de origem italiana.

O historiador Ettore Liberalesso, em entrevista concedida em 2010 para o documentário "O homem e a cidade", declarou: "A Brasital fazia discriminação... Ela deu para Salto muito, muito, muito. Mas havia sempre alguma discriminação." Vale citar que a Brasital S/A chegou a Salto em fins de 1919, assumindo as indústrias que se formaram às margens do rio Tietê desde 1875.

Indícios da discriminação estão em alguns jornais da época, basta investigar com um olhar mais atento. Reproduzo parte de uma matéria de um jornal destinado à colônia espanhola publicado na cidade de São Paulo. Embora não aborde o enfrentamento direto entre patrões e empregados, vê-se a autoridade policial atuar com energia para evitar qualquer problema futuro aos industriais.

Reproduzo no original e traduzo livremente, a seguir, o fragmento de "Las huelgas y sus causas" [As greves e suas causas], Diario Español, 29/03/1920.

Acesse o original clicando aqui

"No caso de Salto de Ytu é uma nova manifestação de que a violência gera a violência.
Naquela povoação, reuniram-se na última quinta-feira os tecelões para determinar se iriam solidarizar-se com a atitude dos tecelões de S. Paulo e com os ferroviários do Rio de Janeiro.
Apareceu o delegado de política, Dr. Juan [João] Rodrigues de Salles Junior, e lhes intimou a se dispersarem.
Responderam-lhe os operários dizendo que não patricavam nenhuma desordem, nem cometiam nenhum delito, posto que somente tratavam de assuntos de próprio interesse, em atitude corretíssima.
Irritou-se o policial, sacou seu revólver e disparou várias vezes contra os operários, ferindo gravemente a Joaquín Moreno, e levemente a Antonio de Oliveira Bueno.
Então Juan Moreno, vendo o crime cometido contra seu irmão e a falta de razão para proceder de modo tão arbitrário, disparou um tiro contra o delegado, ferindo-o gravemente."

22 de janeiro de 2012

Brasital

Por volta do ano de 1870, enquanto o café reinava no oeste paulista, na região ituana as culturas que predominavam eram a cana-de-açúcar e o algodão. Nessa época, o então povoado do Salto de Ytu tinha como seu grande atrativo a cachoeira. Assim sendo, para cá se dirigiam inúmeros visitantes. Em 1873, chegou a ferrovia, dando o impulso decisivo para que a cidade fabril surgisse.

Nas proximidades da cachoeira, na margem direita do rio Tietê, surgiram as duas tecelagens pioneiras, instaladas pelos industriais José Galvão (1875) e Barros Júnior (1882), que se aproveitavam do potencial do rio e empregavam turbinas hidráulicas para a geração de força motriz. Além de atrair trabalhadores para cá, as fábricas direcionavam a própria urbanização através dos melhoramentos executados em seus arredores. Vivia-se um despertar.

Salto se transformou numa localidade voltada para o trabalho. Em geral, a mão-de-obra dessas primeiras fábricas era formada pelo trabalhador livre brasileiro, com numerosa presença de mulheres e crianças, como se pode ver nas fotos dos grupos de operários desse período. No final do século XIX, a composição desse quadro inicial se alterou com a chegada de imigrantes europeus, em sua maioria italianos. Este grupo, presente em grande número em Salto, constituía a maioria dos operários empregados, que em muitos casos eram egressos de fazendas de café do interior paulista. Foram os descendentes desses primeiros italianos que formaram o contingente de trabalhadores das décadas seguintes.

Através de sucessivas fusões que incorporaram as primeiras tecelagens e a Fábrica de Papel Paulista, a partir de 1904 a Sociedade Ítalo-Americana tornou-se única proprietária do conjunto fabril. Em 1919, com uma mudança de acionistas, passou a se chamar Brasital.

A Brasital S/A, formada com capital brasileiro e italiano, marcou território e época, dominando parte da vida da cidade até por volta dos anos 1950. Construiu vilas operárias, instalou armazém, açougue, creche e escola. Quase sempre em expansão, era o destino de muitos filhos de operários, já que a política de contratação privilegiava os familiares de funcionários. Isso se concretizava por volta dos 14 anos de idade, em especial para as mulheres.

Era marcante a presença feminina, representando, por volta de 1940, 75% da mão-de-obra empregada. A elas invariavelmente cabia uma dupla jornada, tendo que conciliar os afazeres domésticos, nos períodos de folga, com o trabalho na fábrica. Os 25% restantes eram homens que trabalhavam na tinturaria, oficinas mecânica, elétrica e de carpintaria, nos escritórios, nas cardas e nos depósitos de algodão e de fios.

As meninas ingressavam como auxiliares das maquinistas, tanto na fiação como na tecelagem. Os meninos ingressavam como ajudantes dos mecânicos, eletricistas e carpinteiros. Outros ingressavam no escritório da fábrica ou como escriturários nas seções da indústria – tais como tecelagem, fiação, tinturaria e oficinas.

A denominação Brasital persistiu até 1981, quando o Grupo Santista a adquiriu. A fábrica existiu até 1995, momento em que a então Alpargatas Santista encerrou suas atividades em Salto. Atualmente, os prédios da antiga tecelagem abrigam um centro universitário.

Fábrica e rio - A relação dos operários com o rio sempre foi muito estreita. Existiam lendas sobre uma canoa fantasma que era vista nas águas do Tietê através das janelas da fábrica, pelos funcionários do turno da noite. Outro exemplo é a cena comum, até a década de 1950, de operários que saíam do serviço às 16h30 e atravessavam a Ponte Pênsil para ir pescar. Quase sempre havia um parente ou amigo esperando com as varas e as iscas. Ao escurecer, retornavam para suas casas com os peixes, que constituíam a mistura do almoço ou jantar do dia seguinte.


Operários da Brasital com o prédio da fiação ao fundo, c. 1920.


Ouça nosso podcast

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966