8 de junho de 2026

A face oculta da Brasital

A historiografia de Salto frequentemente exalta a Brasital S/A sob a inocente aura paternalista de "Mãe de Salto", destacando as benfeitorias urbanas, como a construção de vilas operárias, creches e armazéns de emergência. No entanto, uma análise aprofundada revela que essas concessões coexistiam com extenuantes jornadas de trabalho - muitas vezes de doze horas ininterruptas no turno da noite, envolvendo crianças a partir dos dez ou onze anos de idade. Esse cenário gerou um ambiente de forte tensão e resistência, liderado por imigrantes e, de forma contundente, pelas operárias.

Interior da malharia da Brasital em 1920.


As primeiras revoltas e o tiroteio histórico

Nas primeiras décadas do século XX, grande parte da população saltense era composta por imigrantes espanhóis e, principalmente, italianos - muitos trazendo consigo ideários anarquistas e socialistas. Como não havia legislação trabalhista que medisse as relações patronais, as greves tornaram-se o único recurso de reivindicação.

Ainda sob a gestão da pioneira Ítalo-Americana, os conflitos atingiam níveis extremos de violência. Em um dos motins, o gerente do cotonifício chegou a ser amarrado por um operário exaltado, que fugiu para a Argentina logo após o ato para escapar da prisão. O caso de maior repercussão, no entanto, ocorreu na segunda década do século XX e envolveu o presidente do Partido Socialista local.

Durante uma agitação operária, a polícia foi acionada e o delegado de Salto passou a interpelar diretamente o líder socialista. Nesse momento, um grevista que estava ao seu lado desacatou a autoridade policial, recebendo voz de prisão imediata. O operário resistiu com violência; em resposta, o escrivão ameaçou sacar seu revólver, sendo acompanhado pelo próprio delegado. O confronto resultou em um tiroteio no qual o delegado foi gravemente baleado, enquanto o atirador fugiu sem deixar pistas.

O episódio rendeu a Salto a reputação de "cidade turbulenta" e provocou uma dura retaliação do Estado: um tenente da Força Pública foi enviado de trem com um pelotão armado, desembarcando ao som de cornetas para intimidar a população. A Força Pública instaurou um rígido toque de recolher às 18 horas, caçou suspeitos e deportou os indivíduos considerados "perniciosos" para a cidade de Itararé, impondo o pânico no município.

 

A força das tecelãs e a ameaça de massacre

Se a mão de obra feminina era amplamente explorada, ela também foi a espinha dorsal do movimento paredista. As tecelãs protagonizaram paralisações históricas. Em uma dessas greves, iniciada na tecelagem e aderida pelas demais seções, o delegado de polícia e o diretor técnico da fábrica tentaram entrar no salão para pacificar os ânimos. A tentativa falhou: o diretor foi violentamente repelido e agredido a guarda-chuvas por uma tecelã, sendo também atacado por outro operário, o que forçou o recuo imediato das autoridades.

A combatividade feminina gerou outro momento de extrema tensão em uma nova greve das tecelãs. Temendo o avanço do movimento, a Delegacia Regional de Sorocaba enviou um pelotão armado que se posicionou nos portões da fábrica. O superintendente da Brasital, Giuseppe Bianchi, ciente de que a invasão de tropas armadas em um recinto fechado repleto de operárias resultaria em um massacre, intercedeu. Ele pediu licença à polícia, entrou sozinho no setor e negociou exaustivamente, exigência por exigência, conseguindo restabelecer o trabalho e evitar a tragédia.

 

O fim das negociações e a repressão de 1935

Apesar dos acordos pontuais para evitar o derramamento de sangue, a postura da empresa endureceu ao longo dos anos. Em novembro de 1935, motivados por baixos salários, os trabalhadores desligaram os motores e iniciaram uma greve que durou entre 15 e 20 dias.

Diferente das concessões anteriores, a repressão desta vez foi cirúrgica. Ao tentarem retornar aos seus postos após o fim do movimento, as lideranças e dezenas de grevistas descobriram que suas chapas de identificação haviam sido retiradas dos relógios de ponto pela administração. Eles foram sumariamente demitidos e barrados na entrada da fábrica, sem qualquer chance de negociação.

A história industrial de Salto demonstra que as vilas operárias e os benefícios assistencialistas não anularam a exploração severa, mas também evidencia a coragem de uma classe trabalhadora - encabeçada de forma feroz pelas mulheres - que não hesitou em confrontar diretamente as forças policiais e o capital multinacional.

 

A fundação do primeiro sindicato em Salto

A efervescência das greves e o embate contínuo contra as rígidas engrenagens do sistema fabril inevitavelmente forjaram uma nova consciência de classe nos trabalhadores de Salto. A percepção de que a revolta isolada e explosiva era insuficiente ganhou força após um grande movimento grevista ocorrido em 1932, momento em que a massa operária despertou para a necessidade de criar uma frente unida e oficializada contra o poderio patronal.

Foi exatamente nesse cenário de extrema tensão que, no dia 11 de novembro de 1932, nasceu a primeira organização de classe da cidade: o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Têxtil. A fundação dessa entidade pioneira desafiou o conservadorismo de uma época em que qualquer mobilização operária era estritamente vigiada e, não raro, violentamente reprimida.

A espinha dorsal dessa conquista contou de forma inegável com a força feminina. Itália Manfredini, que ingressara como operária na Brasital em 1921, destacou-se como a maior líder feminina saltense de todo o século XX. Pioneira nas lutas sindicais, ela ajudou a erguer as bases da nova instituição e ocupou cargos vitais em sua diretoria, servindo como a destemida porta-voz dos operários nos piores momentos de crise e racionamento. Ao lado de Itália e de outras bravas trabalhadoras - como as irmãs Messas e Maria Fusto -, perfilaram-se idealistas combativos e operários engajados, a exemplo de Arthur Migliori e Antonio Boarini.

Itália Manfredini (1907-1990)

Nascida em 1907, Itália Manfredini desafiou as limitações de sua época e se consolidou como uma das maiores líderes femininas do século XX. Desde a juventude em Salto, onde foi uma das primeiras alunas do atual Tancredo do Amaral, ela demonstrou um faro natural para a liderança. Durante quase três décadas na tecelagem Brasital, Itália não foi apenas contramestre, mas a voz corajosa dos operários em períodos de crise e racionamento. Sua força política ajudou a fundar o primeiro sindicato da cidade em 1932, o Círculo Operário e o jornal O Trabalhador, conciliando esse forte perfil ativista com uma atuação sintonizada junto a entidades religiosas locais.

Em 1949, ela mudou de rumo e ingressou no Centro de Saúde de Salto, onde trabalhou até se aposentar na década de 1970. Mas o talento de Itália não parava nos bastidores da saúde e da política: ela também brilhava nos palcos, comandando e estrelando grupos teatrais icônicos das décadas de 50 e 60 ao lado de grandes nomes da arte saltense. Essa trajetória multifacetada e vibrante foi interrompida em abril de 1990, após um acidente de trânsito em Itu, deixando um legado que uniu, em seu último adeus, as esferas sindical, religiosa e artística da região.


A criação do sindicato representou um marco histórico irreparável para Salto, substituindo os motins desesperados por uma trincheira institucional de resistência. Esse núcleo inicial não apenas pavimentou o caminho para a negociação de garantias trabalhistas e sociais, mas também serviu como a principal escola para futuras gerações de líderes que dariam continuidade à luta. O caminho desbravado em 1932 permitiu que, nas décadas seguintes, o sindicato têxtil fosse comandado por defensores ferrenhos da classe, como Agostinho Rodrigues (presidente de 1945 a 1947), Generoso Bimonti (1950 a 1953), Zelino Moschini (1953 a 1955) e Flávio Costa.

 


Referências:

  • BOMBANA, João M. "História da Brasital S.A.": o ex-funcionário da empresa relatou esses eventos em uma série de artigos publicados no jornal O Trabalhador (1976-1977). O texto de Bombana é a fonte primária que documenta: a forte presença de anarquistas e socialistas nas primeiras décadas; o episódio em que o gerente foi amarrado; o tiroteio que baleou o delegado e o posterior toque de recolher imposto pela Força Pública; os levantes incisivos das tecelãs; a agressão a guarda-chuvas contra a chefia; e as demissões em massa após a greve de 1935.
  • Depoimento de Benedito de Quadros (Tico) (História Oral, Arquivo do Museu da Cidade): relato primário do ex-operário e ativista que descreve as origens do sindicato logo após a greve de 1932, citando nominalmente os fundadores iniciais, incluindo as mulheres (irmãs Messas, Maria Fusto) e colegas como Antonio Boarini.
  • Depoimento de Odmar do Amaral Gurgel (Gaó) (História Oral - Arquivo do Museu da Cidade, 1991): o maestro e ex-operário confirma o contexto da greve de novembro de 1935 e relata a retaliação silenciosa da empresa, descrevendo o momento em que os operários chegavam à portaria e encontravam os relógios vazios, sem suas chapas de ponto.
  • Depoimentos de Benedito e Genoveva de Quadros (História Oral - Arquivo do Museu da Cidade, 1995): atestam a dura realidade do chão de fábrica, revelando o ingresso de crianças a partir dos 10 e 11 anos e as jornadas exaustivas de 12 horas noturnas ininterruptas na tecelagem.
  • LENZI, Valter. Coluna "Quem foi Quem": perfis detalhados que consagram Itália Manfredini como a principal líder feminina do século XX e narram sua atuação na diretoria do sindicato de 1932, além de trazer as biografias de Zelino Moschini e Agostinho Rodrigues como líderes e defensores dos trabalhadores.
  • LIBERALESSO, Ettore. História das Ruas e Praças de Salto (1998): verbetes biográficos atestam a data exata da fundação do sindicato têxtil (11.11.1932) liderado por Itália Manfredini, bem como a participação direta de Arthur Migliori, Generoso Bimonti, Zelino Moschini e Flávio Costa no comando da entidade ao longo dos anos.
  • ZANONI, Elton Frias. Leituras da Cidade (2012) e História de Salto/SP (Blog): obras que desconstroem o mito da "Mãe de Salto", contextualizando a infraestrutura oferecida pela Brasital (como as vilas operárias e creches) como um contraponto à rígida disciplina fabril exigida.

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