Mostrando postagens com marcador antonio melchert. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador antonio melchert. Mostrar todas as postagens

9 de junho de 2026

A Fábrica de Papel de Salto

A edição de 19 de setembro de 1889 do periódico Imprensa Ytuana serve como uma janela histórica para compreender a introdução da atividade industrial no interior de São Paulo no final do século XIX. Ao noticiar a inauguração da Fábrica de Papel de Salto, ocorrida três dias antes, em 16 de setembro, o jornal não apenas registrou um fato econômico, mas revelou as dinâmicas de sociabilidade, a linguagem jornalística da época e a profunda conexão entre a imprensa e as elites políticas e financeiras do período imperial tardio.

Edição de 19/09/1889


O papel como mensagem: a materialidade da notícia


A própria existência daquela edição trazia uma novidade prática: o jornal anunciava aos leitores que, "de hoje em diante", passaria a ser impresso em papel de fabricação nacional. Para a redação, o uso do insumo produzido pela firma Melchert & C. era um motivo de "justo orgulho", transformando a folha impressa na prova viva da viabilidade técnica do empreendimento que noticiava.

A linguagem adotada pelo jornal dividia-se entre a descrição técnica e o tom laudatório, tratando o projeto como um "arrojado commettimento". O texto atribuía o sucesso da empreitada à iniciativa privada e à "vontade energica" dos envolvidos, personificada na figura do jovem engenheiro Dr. Antonio Melchert, sócio-gerente e responsável pelo projeto arquitetônico e pela montagem da fábrica.


A logística e a rede de apoio da elite


A cobertura detalhada da inauguração enfatizava a grandiosidade do evento a partir da lista de convidados e da complexa operação de transporte montada. O jornal relatou que cerca de cem pessoas partiram de São Paulo em um trem logo no início da manhã. Para recebê-las, a firma proprietária garantiu um trem especial a partir de Jundiaí, facilitando a chegada de comitivas de Campinas, Santos e da Corte, no Rio de Janeiro.

O desembarque na estação ferroviária de Salto, às 10 horas, foi descrito como um espetáculo público, com a presença da banda de música saltense e a queima de foguetes. A relevância política do evento ficou evidente na listagem minuciosa dos presentes publicada pelo periódico. Entre os nomes citados, figuravam grandes proprietários de terras e influentes articuladores da política paulista — muitos dos quais se tornariam peças-chave na República proclamada dois meses depois —, como Francisco Glicério, Bernardino de Campos, Bento Quirino dos Santos, o Marquês de Três Rios, o Barão de Tatuí e o Barão de Araraquara.

A forte presença da imprensa de outras cidades — como representantes da Gazeta de Noticias do Rio, do Diario da Manhã de Santos e dos jornais de Campinas — também foi celebrada pelo Imprensa Ytuana como um sinal de que o país voltava os olhos para a região.


O circuito técnico sob o olhar dos visitantes


O jornal guiou seus leitores pelas instalações da fábrica da mesma forma que os proprietários guiaram os convidados após o desembarque. Situado na margem esquerda do rio Tietê, a cerca de um quilômetro da estação de trem, o complexo impressionava pela infraestrutura projetada para captar a força hidráulica do rio.

O relato detalhou a engenharia por trás do funcionamento da fábrica:
  • O canal de derivação: aberto diretamente em rocha viva, possuía 350 metros de comprimento, três metros e meio de largura e profundidade que variava de dois a mais de três metros.
  • O sistema hidráulico: a água acumulada era conduzida do final do canal para as turbinas por meio de canos de ferro batido, aproveitando uma diferença de nível de 55 pés. O sistema acionava três turbinas, gerando uma força estimada em 800 cavalos.
  • As etapas de produção: o texto descrevia a divisão interna dos pavilhões, passando pelo armazém de trapos, a caldeira rotativa a vapor para o cozimento da matéria-prima, os tanques batedores de lavagem e embranquecimento, até culminar no salão principal, onde operava a imponente máquina de papel do sistema Fourdrinier.
A máquina de papel Fourdrinier funciona como uma grande esteira rolante automatizada que transforma uma mistura líquida de água e fibras de madeira (celulose) em uma folha contínua e seca de papel. O processo começa com o despejo dessa mistura sobre uma tela perfurada em movimento rápido, onde a maior parte da água é filtrada por gravidade e sucção, fazendo com que as fibras se entrelacem e formem uma manta úmida. Em seguida, essa folha passa por rolos pressores que espremem a umidade restante e por cilindros aquecidos a vapor que evaporam os últimos traços de água, entregando, ao final, um papel liso, resistente e pronto para o uso.


Um dos pontos mais destacados pelo redator era o caráter inovador da matéria-prima. Como a linha de processamento de madeiras brancas (serraria) ainda estava em construção, a fábrica operava inicialmente reaproveitando sapé, trapos e resíduos descartados pelas indústrias têxteis locais. Para o jornal, isso representava um benefício direto para a economia do país, pois dava valor comercial a materiais que antes "não tinhão utilidade".

A fábrica no ano de sua inauguração, à margem esquerda do rio Tietê.


Rituais de celebração e alianças de prestígio


A cobertura encerra-se com a descrição dos banquetes e discursos que selaram a inauguração. Às 11 horas da manhã, foi oferecido um almoço e, às 13 horas, um "abundante lunch". Foi nesse momento de confraternização que a elite presente trocou homenagens e discursos de legitimação mútua.

Os proprietários Manoel Lopes de Oliveira, Dr. Antonio Melchert e Carlos Melchert foram saudados pelos visitantes, enquanto figuras políticas tradicionais, como o Marquês de Três Rios e o coronel Rodovalho, usaram da palavra para erguer brindes à imprensa da capital e das províncias vizinhas.

Ao relatar o término da festa, às 15 horas, e a partida dos convidados "penhoradissimos pela gentileza" dos anfitriões, o Imprensa Ytuana fixou na memória documental da região não apenas o nascimento de uma fábrica de papel, mas o retrato fiel de como a elite oitocentista celebrava seus próprios projetos de expansão econômica.

Publicidade no mesmo jornal que noticiava a inauguração.


3 de junho de 2008

A inauguração da Fábrica de Papel

O jornal Imprensa Ytuana, em sua edição de 19 de setembro de 1889, noticiava em sua primeira página a inauguração da “1ª fábrica de papel, na vila do Salto de Ytu, pelos srs. Melchert & Cia.”. Pelo trem que partiu da capital da Província de São Paulo, às 6h20 da manhã, vieram mais de cem convidados. Outros – de Jundiaí, Campinas, Santos e Rio de Janeiro – também compareceram na inauguração.



Dentre os presentes, sabe-se que aqui estiveram sujeitos de grande influência à época, muitos dos quais iriam adquirir maior relevância nos anos seguintes. São mencionados pelo jornalista os nomes de Francisco Glicério, dr. Vieira Bueno, Bento Quirino dos Santos, Bernardino de Campos, dr. Ignacio de Mesquita, os coronéis Rodovalho e Anhaia, Carlos Paes de Barros, Ramos de Azevedo, Garcia Redondo, Alfredo Maia, Paulo Egydio, José Vicente de Azevedo, José Pereira de Queiroz, José Felix Monteiro, Victorino Carmillo e Urbano Machado. As folhas da capital paulista também enviaram seus representantes, além da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. O Diário da Manhã, de Santos, e os periódicos campineiros Gazeta e Diário de Campinas igualmente marcaram presença.

Os que vieram de Itu – casos de José Innocêncio, Paulino Pacheco, Carlos Pereira, João Baptista Pacheco Jordão, Octaviano Pereira, José Corrêa, Fontes Junior, o vigário Miguel Corrêa Pacheco, Francisco Pereira e o tenente-coronel José Feliciano Mendes – chegaram às dez horas “na estação do Salto, onde os esperavam os proprietários e parentes do sr. Adolpho Melchert”. Em seguida, “a banda saltense (...) tocou e foram queimados muitos foguetes”.

Meia hora mais tarde, “chegaram todos os convidados à fábrica, que está situada a um quilômetro mais ou menos da estação, e a essa hora começaram a funcionar as máquinas, erguendo nessa ocasião o sr. Rodovalho um viva ao distinto engenheiro paulista dr. Antonio Melchert, que foi quem projetou e construiu todo o edifício e presidiu ao assentamento dos mecanismos”. Em seguida, os convidados tiveram a oportunidade de conhecer todas as etapas “do fabrico do papel”.

“Às 11 horas serviu-se um lauto almoço, e à uma hora um abundante lunch, durante o qual foram calorosamente saudados os srs. Manoel Lopes de Oliveira, dr. Antonio Melchert e Carlos Melchert, que são os proprietários da fábrica, sendo também brindado o sr. Adolpho Melchert, pai dos dois últimos”. Tancredo do Amaral, representando o Correio do Salto na ocasião, foi um dos nomes que o articulista de Imprensa Ytuana cita por terem “utilizado da palavra” após os brindes, além do “chefe da Liga Italiana”; às 3 horas da tarde, todos os convidados já haviam se retirado.

Ouça nosso podcast

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966