23 de julho de 2026

O pioneiro Luiz Castellari (1901-1948)

Luiz Castellari nasceu em Salto no dia 17 de abril de 1901, filho de Henrique Castellari e Luiza Isabel Chagas. Como o município ainda não contava com um grupo escolar formal, realizou seus primeiros estudos em uma das escolas isoladas da época. Em 21 de janeiro de 1922, casou-se com Santina S. Marcella, com quem teve quatro filhos: Norma, Hércules, Ludovico e João Francisco. Aprendeu o ofício da carpintaria com o pai e, mais tarde, tornou-se oficial marceneiro na fábrica de móveis Leone Ltda. Também atuou como comerciante, mantendo um estabelecimento na esquina da Rua 7 de Setembro com a Rua Dr. Barros Júnior, logo atrás da Igreja Matriz.

Durante a adolescência, estudou música com o pai, então regente da Banda Musical Saltense, corporação na qual Castellari tocou clarinete por muitos anos. Atuou como copista da banda e dedicou-se a ensinar música a diversos jovens. Integrou a Orquestra Itaguaçu desde a sua fundação, em 23 de abril de 1927, e participou de vários outros conjuntos musicais da cidade, além da Orquestra e do Coral da Igreja Matriz.

Fora do meio musical, cultivava o gosto por colecionar moedas, chegando a integrar a Sociedade Numismática Brasileira. Castellari teve também forte atuação comunitária: já envolvido com a conferência-mãe de Nossa Senhora do Monte Serrat, tornou-se sócio-fundador e primeiro presidente da Conferência de São Benedito (a segunda da cidade), em 28 de maio de 1933. Além disso, foi um dos sócios-fundadores da Sociedade Instrutiva e Recreativa (S.I.R.) Ideal, criada em 23 de abril de 1927.

Movido pelo desejo de preservar a memória local, dedicou longos anos a pesquisas para compilar a história de Salto em um único volume. Para isso, debruçou-se sobre as atas da Câmara Municipal desde a sua instalação e obteve cópias de leis estaduais que documentavam a evolução do local — da condição de povoado à freguesia, passando por paróquia, município e, finalmente, cidade.

Consultou o acervo do Museu de Itu e antigas coleções de jornais, mas sua fonte mais rica foi o Livro-Tombo da paróquia. Reescrito em 1918, o documento trazia preciosos detalhes sobre a construção da capela por Antônio Vieira Tavares. Na obra, Castellari também se esmerou em redigir a biografia do Dr. Fernando Francisco de Barros Júnior, concluindo seu monumental trabalho de pesquisa em abril de 1942. Foi dele, inclusive, a iniciativa de batizar a Praça da Matriz com o nome do fundador do município, o Capitão Antônio Vieira Tavares - homenagem oficializada em 9 de setembro de 1934, durante a gestão do prefeito Francisco Arruda Teixeira.

Luiz Castellari faleceu em 1º de agosto de 1948, sem realizar o sonho de ver publicado o livro que lhe custara tanto esforço. Sua obra só viria a público mais de duas décadas depois, graças a uma iniciativa do prefeito Jesuíno Ruy. Em 1970, numa segunda tentativa, o prefeito enviou à Câmara Municipal um projeto de lei solicitando autorização para o município custear a edição. Sem manifestação do Legislativo, o projeto foi aprovado por decurso de prazo, e a Lei nº 625 acabou sancionada em 17 de junho daquele ano.

Impresso na Gráfica Taperá, em Salto, o livro foi finalmente lançado um ano depois, no dia 16 de junho de 1971, em uma solenidade realizada na Biblioteca Pública Municipal.





Abaixo, reproduzimos documento da Câmara Municipal (Projeto 19/70) que traz a autorização para publicação de Luiz Castellari ser custeada pelo poder público:




Agradecemos ao vereador Chell Oliveira, também historiador, pelo envio do documento.


22 de julho de 2026

Rocha Moutonnée em Salto

Localizado a 100 km da capital paulista, o município de Salto está inserido no eixo formado pelas cidades de Sorocaba, Campinas, Piracicaba e Jundiaí. Suas terras constituem uma região que há várias décadas desperta o interesse de geólogos, geógrafos, paleontólogos e outros estudiosos, atraídos pelos aspectos naturais derivados de sua localização. Esse fato se explica por estarem as terras do município situadas justamente no ponto de contato entre duas regiões geomorfológicas do estado de São Paulo: o Planalto Atlântico, que se inicia na Serra do Mar, e a Depressão Periférica, que, a partir da linha onde Salto se situa, se estende no rumo oeste até atingir a chamada Cuesta de Botucatu, onde tem início o Planalto Ocidental.

Vista por outro ângulo, essa transição mostra a cidade de Salto colocada exatamente na denominada fall line (linha de queda), na margem leste da Depressão Periférica — uma área relativamente plana, com cerca de 600 m de altitude, que se prolonga até subir aos 900 m da Serra de Botucatu. A depressão originou-se através da erosão e do transporte de rochas pela ação do rio Tietê e de outros afluentes que correm para noroeste. O contato entre as regiões pode ser observado nos arredores da cidade de Salto e nos municípios vizinhos de Cabreúva e Itu. Ali, as elevações da Serrinha do Itaguá assinalam o fim do Planalto Atlântico. Nos limites finais do terreno montanhoso corre o rio Tietê, precipitando-se para a linha de queda.

A paisagem de toda a região é caracterizada por um mar de rochas que afloram à superfície. São os matacões, blocos de granito conhecidos geologicamente como "granito de Salto". Essas massas de material fundido se alojaram nas profundezas da crosta da Terra há milhões de anos. Posteriormente, a ação das geleiras, durante as idades glaciais, se incumbiria de causar o processo de erosão, esculpindo as rochas e depositando outros materiais.

Ainda marcado pelas formações rochosas, o terreno finalmente perde a altitude e denota a transição entre regiões. Descortina-se a cidade de Salto e, com ela, a borda oriental da planície sedimentar, o início de um relevo de ondulação mais suave. O Tietê atinge a linha de queda e se prepara para vencer um último trecho encachoeirado. Formado há cerca de 65 milhões de anos, o rio foi responsável por um processo de erosão mais recente que modelou a superfície atual do terreno da região, formando inclusive a queda d'água que surge junto à cidade. Nesse ponto, pode-se observar de modo privilegiado o processo de erosão fluvial, o lento trabalho das águas que correm sobre o leito rochoso, esculpindo pacientemente o granito, graças ao movimento turbilionar de seixos e areia transportados.

É dentro desse peculiar e interessante contexto que surge, a poucos metros da margem esquerda do rio Tietê, um monumento geológico extremamente raro e de notável importância para a ciência: a Rocha Moutonnée de Salto. As rochas denominadas moutonnée são saliências rochosas arredondadas de tamanho variável, cujo formato lembra o de um carneiro deitado. Do nome desse animal em francês, mouton, derivou a palavra moutonnée (acarneirado, com forma de carneiro). Essa forma vista de perfil pode também ser comparada à de uma colher invertida. No caso do exemplar encontrado em Salto, essa visualização se torna difícil devido à dilapidação que a rocha sofreu por exploração comercial. Pela foto se compreende que a parte remanescente da rocha corresponde a apenas 1/5 de seu volume original.

Superfíces de maior interesse geológico.

Descoberta em 1946 pelo geólogo Marger Gutmans, do Instituto Agronômico de Campinas, e descrita ao Segundo Congresso Pan-Americano de Minas e Geologia em 1948, a rocha se revelou um achado de extraordinário valor científico. Mas, para compreender sua real importância, é preciso voltar no tempo — não apenas algumas décadas, mas milhões, centenas de milhões de anos.

Há muito tempo, os cientistas vinham observando com interesse o fato de as margens continentais da África e da América do Sul apresentarem grande semelhança e um encaixe quase perfeito. Esse fato, somado à descoberta de rochas e fósseis semelhantes na Índia, no sul da África e na América do Sul, fez com que surgisse a hipótese — hoje consagrada — de que essas regiões, juntamente com a Austrália e a Antártida, formavam no passado, durante a era Paleozoica, uma gigantesca massa de terras. Era um supercontinente ao qual se deu o nome de Gondwana, em referência ao reino dos Gonds (um povo do centro da Índia, local onde foram encontrados os primeiros fósseis e rochas que comprovaram a teoria).

Há mais de 180 milhões de anos atrás, no período Jurássico, o supercontinente começou a fragmentar-se pelo movimento das grandes placas tectônicas em que se divide a crosta da Terra. Essa movimentação deu início ao processo de separação e migração dos continentes que formavam Gondwana. Ao fim do processo, explicado pela chamada Teoria da Deriva Continental, os continentes atingiram a posição que hoje se verifica. A movimentação das placas se relaciona com as mudanças ocorridas na distribuição dos mares e nas condições climáticas do planeta.

As mais fiéis testemunhas desse passado longínquo são as rochas. Rochas como os blocos graníticos encontrados na região de Salto. Esse granito, e de modo especial a Rocha Moutonnée, testemunha um dos fenômenos mais impressionantes verificados na evolução do planeta: a glaciação (as idades glaciais da Terra). Ainda não estão completamente explicados os motivos causadores dos períodos de intenso resfriamento da Terra. Apontam-se causas de ordem terrestre: a formação de montanhas, a movimentação dos continentes, a atividade vulcânica, alterações na circulação dos oceanos e na composição da atmosfera. Existem ainda outras possíveis causas para a glaciação, de ordem extraterrestre: alterações periódicas no comportamento da órbita da Terra ou na radiação solar recebida pelo planeta.

O que se sabe é que nesses períodos formavam-se geleiras, imensos lençóis de gelo com 1 milhão de quilômetros quadrados ou mais de área e milhares de metros de espessura. Essas impressionantes massas, indicadas no mapa em cor azul, cobriam vastas áreas e se deslocavam sobre regiões mais afastadas dos polos terrestres. De acordo com as evidências geológicas, o atual território do Brasil conheceu pelo menos cinco idades glaciais, todas elas durante a existência do supercontinente de Gondwana. A primeira delas, há 1 bilhão de anos, no período Pré-Cambriano. Seguiram-se outras por volta dos 600, 450 e 350 milhões de anos atrás. A última glaciação ocorreu há cerca de 270 milhões de anos, no período Neopaleozoico, e é de grande interesse porque atingiu a região Sudeste do Brasil.

O lençol de gelo, no caso, deslocou-se a partir da África, de sudeste para noroeste, atingindo a atual bacia do Paraná e a região de Salto. Foi justamente nesse remoto período que uma geleira se deslocou sobre a Rocha Moutonnée, deixando sobre sua superfície os sinais que permitiriam à ciência comprovar, milhões de anos depois, a ocorrência da glaciação no sul do Brasil. Em outras palavras, a rocha é como um livro aberto, e cada porção de sua superfície relata em silêncio uma história fascinante. As geleiras transportavam, dentro e embaixo do gelo, grandes quantidades de fragmentos de rochas e minerais, e funcionavam como lixas ou raspadeiras, raspando a superfície por onde passavam, no chamado processo de abrasão glacial, e empurrando uma pilha de detritos à sua frente. O lado liso e polido da moutonnée se volta para a direção de onde veio a geleira. O lado mais abrupto indica a direção para onde ela seguiu.

Algumas referências técnicas na Rocha.

Quando o gelo recuava ou derretia, estrias e sulcos ficavam expostos na superfície da rocha. O conjunto de estrias e sulcos pode ser claramente observado na rocha de Salto, na sua face preservada. Esses riscos, alguns mais finos, outros mais profundos, correm paralelamente e evidenciam que a geleira veio de sudeste e avançou no rumo noroeste. A superfície erodida pelo gelo apresenta também outras marcas, chamadas de fraturas de fricção, com forma de meia-lua. A face convexa volta-se para o sentido do movimento da geleira.

Com o derretimento do gelo, os diversos fragmentos transportados eram liberados e, ao se assentarem, formavam sedimentos ou depósitos glaciais. Uma vez consolidados, esses materiais formavam rochas sedimentares que recebem o nome de tilito, apresentando uma composição bastante diversificada, que inclui até seixos de grande porte. Além de seu flanco alisado, estriado e polido, a rocha moutonnée possui outra face, irregular e abrupta, que apresenta fraturas e degraus. Esse lado é resultado do arrancamento produzido pela geleira, ou seja, de sua ação de levantar e remover fragmentos de onde passa. É também o lado que se volta para o rumo tomado pelo gelo.

As rochas moutonnées são de ocorrência muito rara. Além do exemplar encontrado em Salto, só é conhecido mais um no mundo, com características semelhantes, próximo à cidade de Sydney, na Austrália. Infelizmente, por desconhecimento de seu valor, a exploração do granito quase destruiu inteiramente a rocha. A parte remanescente, contudo, foi suficiente para justificar o empenho do governo municipal, dos cidadãos e dos cientistas para obter, junto ao CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), o tombamento da pedra em 23 de abril de 1990, na condição de monumento geológico estadual. Meses depois, já se verificavam as primeiras mobilizações em nome da comunidade científica internacional junto à UNESCO, com vistas ao tombamento da rocha como Patrimônio da Humanidade.

A 16 de fevereiro de 1991, a Rocha Moutonnée teve inaugurado um verdadeiro santuário para sua preservação: o primeiro Parque Ecológico e Geohistórico do continente. Instalado num ponto naturalmente privilegiado, a 2 km do centro da cidade de Salto, o parque ocupa uma área total de 43.338 m² e resultou da participação conjunta de profissionais de diversas áreas: paisagismo, arquitetura, história, museologia e paleontologia. Reunindo recursos da Prefeitura Municipal, da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia e da iniciativa privada — através da Indústria de Papel e Celulose de Salto —, o projeto visou a instalação de uma infraestrutura planejada que se volta à manutenção cuidadosa do parque e ao atendimento e segurança dos visitantes.

No aspecto didático, o parque foi concebido para funcionar como uma escola ao ar livre. Painéis explicativos espalham-se por toda a área e em um pavilhão destinado a atividades didáticas, onde se expõe de modo detalhado o significado da rocha. Os recursos educativos e informativos atendem desde alunos do ensino fundamental até a pós-graduação em geologia, contando com material gráfico e guias para acompanhamento de visitas organizadas por escolas e universidades. A concepção abrangente do projeto do parque permite que ele se volte para outros temas de igual importância e interesse, alertando para a necessidade de se desenvolver uma educação ambiental dirigida à defesa do meio ambiente. Uma pequena amostra desse meio ambiente, de equilíbrio frágil e ameaçado, está nas matas ciliares: as formações vegetais que se localizam à beira dos rios, córregos e lagos. Na região do parque, essa porção de verde é formada por representantes de várias famílias vegetais, variando desde pequenos arbustos até árvores de grande porte.

É de extrema importância a função das matas ciliares dentro do contexto em que se integram, porque atuam como reguladores de rios e córregos, estabilizando o solo das margens, evitando sua erosão e o assoreamento do leito. São responsáveis pela manutenção da qualidade da água, pelo sustento dos organismos aquáticos e de toda a fauna silvestre ribeirinha. Lamentavelmente, as matas ciliares de grande parte dos rios brasileiros acham-se comprometidas por diversos fatores resultantes da ação do homem. Além de preservar um trecho de mata original, o parque apresenta uma arborização planejada com 3.000 mudas de plantas, de 20 espécies diferentes.

Entre todas as coisas que o turista, o estudante e o visitante do parque vão observar, o que se discute bem na sua frente é o rio Tietê. Esse rio, que nasce em Salesópolis, na serra, e que, contrariando todas as leis da natureza, percorre o interior de São Paulo; o rio teimoso, que contraria o que é normal. Esse rio tem uma importância histórica fantástica para o Estado de São Paulo e vai se descortinar na frente das pessoas. Um rio que transcende os limites do Estado e é importantíssimo em termos de Brasil. Um rio doente, que precisa urgentemente de ajuda e de amparo. E a proposta do parque é fazer com que cada pessoa reflita sobre a sua responsabilidade diante desse rio. Não adianta olhar somente a tranqueira, a poluição, a espuma que está à sua volta e lamentar, mas que o visitante se sinta coparticipante desse processo e procure descobrir o que fazer diante disso.

Outrora caudaloso e farto em peixes, o Tietê se viu reduzido à condição de escoadouro e depósito dos refugos da sociedade moderna, como aliás vem ocorrendo com inúmeros outros rios. A natureza não tem condições de processar a decomposição de certos materiais elaborados pelo homem, como os produtos plásticos de uso doméstico e industrial e os detergentes sintéticos. Esse lixo, somado ao esgoto lançado pelas áreas urbanas, altera o nível de oxigenação da água, comprometendo a vida de microorganismos e causando a morte dos peixes. Esses tristes sinais de degradação lançam uma advertência severa e reclamam uma nova postura de responsabilidade coletiva na defesa de bens ameaçados, como os rios e as matas — parcelas de uma casa maior, onde se insere o próprio homem.

Esse parque vai mostrar um pouquinho da história da cidade de Salto. No plano do parque vai se ver também a Matriz de Nossa Senhora, a igreja; vai se ver a primeira indústria da cidade, uma indústria de tecidos (a Brasital). E num conjunto, num plano único, está a história de dezenas, talvez centenas de cidades do interior de São Paulo, que nascem através de uma capela, da religião, e que, por terem um rio ao seu lado, trazem a possibilidade de um industrial montar ali o seu empreendimento. A história de Salto é a história de dezenas de outras localidades. É uma aula de como se formou o interior do Estado de São Paulo.

Também a perspectiva histórica oferecida pelo parque tem seu referencial mais antigo no Porto de Góes, um modesto remanso formado logo abaixo do trecho encachoeirado do rio. O local era habitado por índios Guaianases, que foram se afastando com o avanço de bandeirantes e colonizadores. Segundo os historiadores, trata-se, na verdade, do Pirapitingui mencionado em antigos documentos: o primeiro porto do Tietê (que então se chamava rio Anhembi). Aqui embarcaram as primeiras bandeiras que adentravam os confins do sertão em busca de índios e minas de ouro, atingindo o Mato Grosso e as terras da coroa espanhola no longínquo Paraguai. A partir do início do século XVII, o porto foi abandonado em favor das melhores condições do porto de Araritaguaba (atual Porto Feliz).

A história saltense prossegue com a visão da torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, célula inicial de todo o município. Onde hoje está a matriz, o capitão Antônio Vieira Tavares (sobrinho do famoso bandeirante Raposo Tavares) tomou posse em 1690 do Sítio Cachoeira, adquirido aos sucessores dos donatários da Capitania de São Vicente, e construiu em 1698 uma capela dedicada à Virgem. Ao redor da capela surgia a pequena povoação que permaneceria adormecida por quase 200 anos, até a chegada da ferrovia e das indústrias, por volta de 1870.

A própria razão do nome da cidade pode ser vista no parque. A queda d'água era conhecida pelos índios como Ytu-Guaçu (em português, salto grande). Um espetáculo ainda maior nos tempos em que o Tietê era mais caudaloso e a cachoeira recebia a visita de inúmeros viajantes que passavam pela então província de São Paulo. Figuras célebres, como o escritor e ministro do império José Bonifácio de Andrada e Silva (o Moço, sobrinho do Patriarca da Independência), o pioneiro da fotografia Hercule Florence, o Conde d'Eu e o casal imperial D. Pedro II e Dona Teresa Cristina.

Abaixo da igreja e ao longo do rio, surgem os edifícios da Brasital, sucessora das primeiras fábricas têxteis Júpiter e Fortuna, instaladas em 1873 e 1880. Movidas por turbinas hidráulicas e incluídas entre as pioneiras da industrialização paulista, elas foram grandes responsáveis pelo despertar da pequena vila. Ao lado da Brasital, vê-se a velha Ponte Pênsil. Construída em 1913 para devolver aos pescadores o caminho para o Porto das Canoas — que havia sido obstruído com a construção das fábricas. Restaurada em seu aspecto original, a ponte é um importante componente turístico da cidade.

Finalmente, à direita, está o conjunto de edifícios constituído pela casa de força da Usina Porto de Góes, construída pela extinta empresa Light, de 1924 a 1927. E, a partir da chaminé, a primeira fábrica de papel do Estado de São Paulo, inaugurada em 1889. Hoje, com o nome de Indústria de Papel e Celulose de Salto, produz o papel-moeda utilizado no Brasil.

Pelos caminhos tranquilos do parque, sucedem-se recantos e detalhes nascidos de uma conjugação harmoniosa entre a obra da natureza e a do homem. Um espaço cuja maior proposta é o respeito à vida. Mais que lazer e entretenimento, o Parque Rocha Moutonnée oferece, a cada passo, a oportunidade de aprender que é preciso conciliar o avanço da civilização com o patrimônio natural. Um patrimônio que antecedeu o homem no tempo e que ele não pode criar, mas de cuja preservação depende seu próprio bem-estar e sua sobrevivência.

As lições silenciosas da natureza apontam um ensinamento maior: o de que a Terra e todos os seus seres se entrelaçam numa jornada que os faz dependentes entre si, vindo de um único passado e seguindo para um único futuro.

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Esta é a transcrição da narração do primeiro documentário sobre o tema, disponível no YouTube como registro memorialístico - Moutonnée - A Rocha da Era Glacial – produzido em 1991:

 




Para saber mais:

PÉREZ-AGUILAR, A.; PETRI, S.; HYPÓLITO, R. et al. Superfícies estriadas no embasamento granítico e vestígio de pavimento de clastos neopaleozóicos na região de Salto, SP. Rem: Revista Escola de Minas, Ouro Preto, v. 62, n. 1, mar. 2009. DOI: 10.1590/S0370-44672009000100004.

Este artigo é um excelente exemplo de "investigação detetivesca" na ciência. Ele ajuda a ilustrar como os geólogos "leem" as marcas do passado: as estrias rasgadas no embasamento de granito funcionam como setas que mostram a direção exata em que as antigas massas de gelo se moviam. É perfeito para demonstrar aos alunos como a rocha rígida do interior paulista foi esculpida fisicamente por uma força ainda mais poderosa.


ROCHA-CAMPOS, A. C. Rocha moutonnée de Salto, SP: típico registro de abrasão glacial do neopaleozóico. In: SCHOBBENHAUS, C. et al. (Ed.). Sítios geológicos e paleontológicos do Brasil. Brasília: DNPM, 2002. Disponível em: Repositório USP. Acesso em: 24 jul. 2026.

Sendo um documento de referência sobre o patrimônio geológico brasileiro, este texto funciona como o "guia de campo" definitivo sobre o monumento de Salto. Ele traduz visualmente o conceito de moutonnée (a rocha raspada em formato de "lombo de carneiro"). É a leitura de base ideal para professores planejando aulas de campo ou para moradores que desejam visitar o parque presencialmente, ensinando o olhar para saber exatamente o que observar nas rochas.


CARNEIRO, C. D. R. Glaciação antiga no Brasil: parques geológicos do Varvito e da Rocha Moutonnée nos municípios de Itu e Salto, SP. Terrae Didatica, Campinas, v. 12, n. 3, p. 209–219, 2016. DOI: 10.20396/td.v12i3.8647898. Disponível em: Periódicos Unicamp. Acesso em: 24 jul. 2026.

Publicado em uma revista cientifica voltada especificamente ao ensino, este é o material mais acessível e prático da lista. O autor utiliza uma linguagem claríssima para conectar de forma lógica os processos de Salto (a rocha estriada pela geleira em movimento) com os de Itu (o fundo do lago onde "icebergs" deixavam cair seixos no varvito). Ele sugere abordagens pedagógicas reais, traduzindo a complexidade da glaciação Gondwânica em conceitos visuais que estudantes do Ensino Básico e curiosos conseguem compreender facilmente.

16 de julho de 2026

O busto de Verdi e a II Guerra Mundial

O busto de Verdi no alto da fachada do Museu, em foto de 2009.

No coração de Salto, o edifício histórico que hoje abriga o Museu da Cidade e o Teatro Municipal carrega em sua fachada um símbolo de profunda relevância artística, política e de identidade local: o busto do consagrado maestro italiano Giuseppe Verdi. Erguido originalmente no topo da cimalha central da sede da antiga Società Italiana di Mutua Assistenza Giuseppe Verdi (fundada em 1903), o busto foi instalado para homenagear o gênio da ópera que, em âmbito nacional, também fora carinhosamente associado como um dos inspiradores de Carlos Gomes. O edifício da sociedade, localizado na confluência das ruas José Galvão e Floriano Peixoto, funcionava como o verdadeiro coração da colônia, abrigando a Escola Anita Garibaldi, a biblioteca do Círculo de Leitura Dante Alighieri e o Cine Verdi. Esse complexo de sociabilidade foi expandido na década de 1930 com a construção da imponente Casa D'Italia, inaugurada com grande solenidade em 15 de fevereiro de 1937.

No entanto, a atmosfera de efervescência cultural e coexistência pacífica foi bruscamente interrompida com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. O alinhamento do Brasil à causa dos Aliados e a posterior declaração de guerra contra as potências do Eixo — do qual a Itália fascista de Benito Mussolini era parte ativa — desencadearam uma violenta fratura na sociedade saltense. A expressiva colônia italiana, que em 1905 representava mais de 70% de toda a população da cidade, passou a ser hostilizada sistematicamente, com seus membros sendo pejorativamente tachados de "quintas-colunas" pelos moradores locais. Sob as diretrizes nacionalistas e repressivas do Estado Novo de Getúlio Vargas, o ensino e o uso público da língua italiana foram terminantemente proibidos, as atividades da Sociedade Giuseppe Verdi foram suspensas e a sede fechada, com suas chaves sendo entregues ao delegado de polícia. Tomadas pelo pânico de represálias físicas e confiscos de bens, diversas famílias de imigrantes queimaram às pressas, nos quintais de suas casas, seus próprios acervos de livros e jornais em italiano.

A tensão acumulada na cidade culminou em um episódio de violência coletiva que mirou os símbolos da presença italiana. Uma multidão inflamada, tomada por impulsos patrióticos, reuniu-se nas imediações do bairro de Vila Nova e desceu a Rua 9 de Julho portando escadas, cordas, chuços e pedras. O grupo dirigiu-se à Praça Paula Souza e seguiu pela Rua José Galvão, estacando defronte ao prédio da Escola Anita Garibaldi. Enquanto os líderes da turba bradavam palavras de ordem como "Abaixo o Eixo! Morra a Itália!", manifestantes lançavam pedras contra o busto de Giuseppe Verdi, que repousava no topo da cornija. Diante da dificuldade vertical de alcançar a estátua, um boiadeiro local, habituado ao manejo de gado, armou um laço de couro cru com argola metálica. Após sucessivas tentativas que ricocheteavam na parede de alvenaria, a laçada finalmente se prendeu às reentrâncias do busto. Sob puxões coordenados e violentos da multidão reunida no meio da rua, a estrutura de sustentação começou a oscilar. O pedestal de tijolos e reboco desmoronou, e a estátua despencou pesadamente sobre a calçada.

Curiosamente, a memória oral desse conturbado dia preservou contradições e episódios pitorescos. Devido ao desconhecimento e à pronúncia truncada de muitos populares na época, o nome de Giuseppe Verdi foi comicamente confundido com figuras inexistentes, como "José Peva" ou "José Pereira". Além disso, enquanto relatórios policiais, crônicas escritas e documentos históricos atestam que o busto foi de fato laçado e derrubado de sua platibanda, alguns depoimentos orais de testemunhas oculares colhidos décadas depois sustentaram a versão de que os agressores tentaram, mas não conseguiram derrubar o monumento. Apesar do furor da turba, o episódio registrou gestos notáveis de coragem civil e oposição à barbárie. O honrado cidadão José Rodrigues Scanho foi o único a enfrentar diretamente a multidão enfurecida naquele momento, exclamando: "O que é isto! O que o Maestro Verdi fez de mal a vocês?!". Outra manifestação de repúdio partiu de uma jovem estudante que saía de um colégio de freiras nas proximidades, a qual interveio verbalmente contra os manifestantes questionando o sentido daquele vandalismo gratuito.

As consequências do ataque também se fizeram sentir de forma imediata na economia e na dinâmica comercial do município. Justino Costa Pinto, um influente chefe político local e proprietário da padaria que posteriormente seria batizada como Padaria Primavera, destacou-se como um dos principais instigadores do tumulto, tentando depredar ativamente a fachada do prédio italiano. No entanto, como a quase totalidade de sua clientela de panificação era composta por imigrantes italianos e seus descendentes, a reação da colônia foi imediata e silenciosa. No dia seguinte ao ocorrido, a comunidade italiana promoveu um boicote absoluto ao estabelecimento de Justino. Sem conseguir vender um único pão, ele foi obrigado a desfazer-se do negócio às pressas, vendendo o estabelecimento para o imigrante Antonio Pittorri.

Com o término do conflito em 1945 e o retorno dos expedicionários saltenses que lutaram nos campos da Itália — a maioria deles, ironicamente, portando sobrenomes italianos —, o clima de xenofobia dissipou-se. Como um ato de reparação pelo deplorável vandalismo, o busto de Giuseppe Verdi foi devidamente reconstruído e reconduzido ao seu pedestal original no alto da cimalha. O prédio foi devolvido aos seus diretores anos depois, sendo desapropriado consensualmente nas décadas de 1980 e 1990 para abrigar o Museu da Cidade e o Teatro Giuseppe Verdi. Ali, no topo da fachada histórica, a imagem do maestro permanece altiva, testemunhando a resistência, a dor e a definitiva integração da identidade italiana na história de Salto.


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