16 de julho de 2026

O busto de Verdi e a II Guerra Mundial

O busto de Verdi no alto da fachada do Museu, em foto de 2009.

No coração de Salto, o edifício histórico que hoje abriga o Museu da Cidade e o Teatro Municipal carrega em sua fachada um símbolo de profunda relevância artística, política e de identidade local: o busto do consagrado maestro italiano Giuseppe Verdi. Erguido originalmente no topo da cimalha central da sede da antiga Società Italiana di Mutua Assistenza Giuseppe Verdi (fundada em 1903), o busto foi instalado para homenagear o gênio da ópera que, em âmbito nacional, também fora carinhosamente associado como um dos inspiradores de Carlos Gomes. O edifício da sociedade, localizado na confluência das ruas José Galvão e Floriano Peixoto, funcionava como o verdadeiro coração da colônia, abrigando a Escola Anita Garibaldi, a biblioteca do Círculo de Leitura Dante Alighieri e o Cine Verdi. Esse complexo de sociabilidade foi expandido na década de 1930 com a construção da imponente Casa D'Italia, inaugurada com grande solenidade em 15 de fevereiro de 1937.

No entanto, a atmosfera de efervescência cultural e coexistência pacífica foi bruscamente interrompida com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. O alinhamento do Brasil à causa dos Aliados e a posterior declaração de guerra contra as potências do Eixo — do qual a Itália fascista de Benito Mussolini era parte ativa — desencadearam uma violenta fratura na sociedade saltense. A expressiva colônia italiana, que em 1905 representava mais de 70% de toda a população da cidade, passou a ser hostilizada sistematicamente, com seus membros sendo pejorativamente tachados de "quintas-colunas" pelos moradores locais. Sob as diretrizes nacionalistas e repressivas do Estado Novo de Getúlio Vargas, o ensino e o uso público da língua italiana foram terminantemente proibidos, as atividades da Sociedade Giuseppe Verdi foram suspensas e a sede fechada, com suas chaves sendo entregues ao delegado de polícia. Tomadas pelo pânico de represálias físicas e confiscos de bens, diversas famílias de imigrantes queimaram às pressas, nos quintais de suas casas, seus próprios acervos de livros e jornais em italiano.

A tensão acumulada na cidade culminou em um episódio de violência coletiva que mirou os símbolos da presença italiana. Uma multidão inflamada, tomada por impulsos patrióticos, reuniu-se nas imediações do bairro de Vila Nova e desceu a Rua 9 de Julho portando escadas, cordas, chuços e pedras. O grupo dirigiu-se à Praça Paula Santos e confluíu pela Rua José Galvão, estacando defronte ao prédio da Escola Anita Garibaldi. Enquanto os líderes da turba bradavam palavras de ordem como "Abaixo o Eixo! Morra a Itália!", manifestantes lançavam pedras contra o busto de Giuseppe Verdi, que repousava no topo da cornija. Diante da dificuldade vertical de alcançar a estátua, um boiadeiro local, habituado ao manejo de gado, armou um laço de couro cru com argola metálica. Após sucessivas tentativas que ricocheteavam na parede de alvenaria, a laçada finalmente se prendeu às reentrâncias do busto. Sob puxões coordenados e violentos da multidão reunida no meio da rua, a estrutura de sustentação começou a oscilar. O pedestal de tijolos e reboco desmoronou, e a estátua despencou pesadamente sobre a calçada.

Curiosamente, a memória oral desse conturbado dia preservou contradições e episódios pitorescos. Devido ao desconhecimento e à pronúncia truncada de muitos populares na época, o nome de Giuseppe Verdi foi comicamente confundido com figuras inexistentes, como "José Peva" ou "José Pereira". Além disso, enquanto relatórios policiais, crônicas escritas e documentos históricos atestam que o busto foi de fato laçado e derrubado de sua platibanda, alguns depoimentos orais de testemunhas oculares colhidos décadas depois sustentaram a versão de que os agressores tentaram, mas não conseguiram derrubar o monumento. Apesar do furor da turba, o episódio registrou gestos notáveis de coragem civil e oposição à barbárie. O honrado cidadão José Rodrigues Scanho foi o único a enfrentar diretamente a multidão enfurecida naquele momento, exclamando: "O que é isto! O que o Maestro Verdi fez de mal a vocês?!". Outra manifestação de repúdio partiu de uma jovem estudante que saía de um colégio de freiras nas proximidades, a qual interveio verbalmente contra os manifestantes questionando o sentido daquele vandalismo gratuito.

As consequências do ataque também se fizeram sentir de forma imediata na economia e na dinâmica comercial do município. Justino Costa Pinto, um influente chefe político local e proprietário da padaria que posteriormente seria batizada como Padaria Primavera, destacou-se como um dos principais instigadores do tumulto, tentando depredar ativamente a fachada do prédio italiano. No entanto, como a quase totalidade de sua clientela de panificação era composta por imigrantes italianos e seus descendentes, a reação da colônia foi imediata e silenciosa. No dia seguinte ao ocorrido, a comunidade italiana promoveu um boicote absoluto ao estabelecimento de Justino. Sem conseguir vender um único pão, ele foi obrigado a desfazer-se do negócio às pressas, vendendo o estabelecimento para o imigrante Antonio Pittorri.

Com o término do conflito em 1945 e o retorno dos expedicionários saltenses que lutaram nos campos da Itália — a maioria deles, ironicamente, portando sobrenomes italianos —, o clima de xenofobia dissipou-se. Como um ato de reparação pelo deplorável vandalismo, o busto de Giuseppe Verdi foi devidamente reconstruído e reconduzido ao seu pedestal original no alto da cimalha. O prédio foi devolvido aos seus diretores anos depois, sendo desapropriado consensualmente nas décadas de 1980 e 1990 para abrigar o Museu da Cidade e o Teatro Giuseppe Verdi. Ali, no topo da fachada histórica, a imagem do maestro permanece altiva, testemunhando a resistência, a dor e a definitiva integração da identidade italiana na história de Salto.


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