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27 de junho de 2015

Tietê: um rio repleto de histórias

De onde vem o nome desse rio?


O rio Tietê nem sempre foi chamado assim. Até o início do século XVIII ele era conhecido por rio Anhembi, nome de origem indígena que está ligado à existência em grande quantidade, às margens do rio, de uma ave chamada anhuma , que causava espanto ao europeu por seu aspecto incomum: possuía unicórnio frontal, pés desproporcionalmente grandes e emitia um grito que, segundo o padre Anchieta, lembrava um burro zurrando.

A ave denominada anhuma. Foto de Pepe Mélega (2006).

O nome Tietê aparece em registro escrito em meados do século XVIII, e teria vindo da língua tupi: ty (água, rio) e eté (muito bom, verdadeiro), logo: rio muito bom, rio verdadeiro. Há uma outra interpretação que também liga o nome à fauna abundante às margens. Sendo assim, palavra derivaria de tié ou tei-tei, que na língua tupi designa um determinado canário de cor amarela.

Certo cronista, por volta de 1730, informava existir a dupla denominação para o mesmo rio, com a seguinte peculiaridade: da nascente até o Salto de Itu, o rio se chamava Tietê. Do Salto até sua foz, no rio Paraná, levava o nome de rio Anhembi.

História


Desde os primeiros tempos da colonização, o rio Tietê se apresentou como caminho natural de penetração ao interior do continente. Navegá-lo era, muitas vezes, tarefa difícil, já que se enfrentava corredeiras, saltos, densa vegetação às margens, índios hostis e doenças capazes de dizimar todo um grupo de navegantes.

Mesmo assim, o Tietê serviu como estrada e, quando não era possível navegá-lo, servia como indicador de rumo para expedições com os mais diversos objetivos: captura de índios, busca de metais e pedras preciosas, transporte de tropas, mercadorias, missões religiosas, trânsito de autoridades. Ele foi, ao longo de séculos, um dos mais notáveis caminhos do interior do Brasil.

O mais antigo documento cartográfico no qual o rio Tietê aparece é o mapa espanhol  elaborado por D. Luiz de Céspedes Xeria, Governador do Paraguai, em 1628. Embora seja uma reprodução grosseira do traçado do rio, está repleto de denominações ainda hoje persistentes, a maioria de origem indígena. No mapa, não há a menor preocupação com escalas e proporções. Contudo, é ele que nos atesta a ocorrência de navegação pelos rios Tietê, Sorocaba e Paraná ainda no século XVII.

Carta de D. Luis de Céspedes Xeria, mapa de 1628, cópia de 1917.

As bandeiras  eram expedições dos séculos XVI e, principalmente, XVII, dedicadas ao apresamento de índios ou à busca de metais e pedras, e não tinham o rio Tietê como sua principal via de locomoção. Para os bandeirantes, o rio constituía muitas vezes um obstáculo a transpor, sendo utilizado apenas quando a marcha por terra se tornava impossível. Apesar disso, o rio era uma referência de direção. O mapa mostra que importantes bandeiras seguiram pelo Vale do Tietê e, depois, derivaram para outros rumos, conforme seu interesse.

Ciclo de caça ao índio, de Henrique Bernardelli (1923).
Óleo sobre tela. Acervo do Museu Paulista da USP.

Monções


As monções foram um fenômeno do século XVIII e, ao contrário das bandeiras, utilizavam o Tietê e outros rios como caminho obrigatório. Só seguiam por terra em trechos mínimos, quando era impossível navegar. 

As monções tiveram início com a descoberta de ouro na região de Cuiabá, no Mato Grosso. Com isso, houve a necessidade de comunicação regular com o interior do continente. As monções eram, portanto, expedições de transporte de pessoas, mercadorias diversas (mantimentos, ferramentas, tecidos, armas e munição) e ouro extraído das minas. 

Essas expedições saíam  do porto de Araritaguaba (atual Porto Feliz) e desciam o Tietê inteiro, até o rio Paraná. Depois, seguiam por vários outros rios até chegar a Cuiabá, numa incrível aventura de cinco meses, em média, e cheia de perigos. As monções desapareceram quando se passou a dar preferência ao caminho terrestre, passando por Goiás.

A Partida da Monção, de José Ferraz de Almeida Júnior, 1897.
Óleo sobre tela. Acervo do Museu Paulista da USP.

O rio e suas lendas


As monções deixaram o registro de criaturas fantásticas e aparições que viviam na imaginação dos viajantes do Tietê. Um desses seres era o monstro Pirataraca, uma serpente enorme que emergia das águas, com suas corcovas à vista dos remeiros apavorados. Acreditava-se também que, num trecho do rio chamado Banharão, um peixe gigantesco provocava ondas capazes de virar uma canoa.

Havia ainda a lenda da Nau Catarineta do Tietê, uma canoa fantasma, que surgia em meio à névoa do rio, com misteriosos remadores, talvez espíritos de monçoeiros mortos, e sumia a seguir, sem que ninguém a conseguisse alcançar.


O naufrágio de Anchieta - Por volta do ano de 1570, o padre José de Anchieta – convertido recentemente em santo – foi em direção ao interior da então capitania de São Vicente através do rio Tietê. Em determinado trecho encachoeirado, a canoa na qual o padre estava virou-se, sumindo diante da força das águas. Instantes após o incidente, os tripulantes todos emergiram, exceto Anchieta, que permaneceu submerso por longo tempo. Diante disso, um índio de nome Araguaçu, que acompanhava a expedição, decidiu mergulhar à procura do padre, acabando por retirá-lo das águas. Diz a lenda que Anchieta foi encontrado no fundo do rio, sentado numa pedra, calmamente lendo seu breviário. O local em que esta situação ocorreu foi batizado de Avaremanduava, que significa “lugar onde o padre naufragou”, e localiza-se logo abaixo da cidade de Porto Feliz.

A lenda do naufrágio em quadrinhos.
Desenhos de Rodrigo Bixigão (2008).


Povoações pioneiras às margens do rio Tietê


Mogi das Cruzes - Denominada M’Bogy pelos índios, que significa “rio das cobras”, era como os primitivos habitantes das imediações se referiam ao Tietê. Há menção a um português de nome Brás Cubas que, por volta de 1560, obteve uma sesmaria que vinha até as terras da atual Mogi, aí estabelecendo uma fazenda. É de 1601 o primeiro caminho que liga a localidade à São Paulo. Mogi foi elevada à vila em 1611, por iniciativa de Gaspar Vaz.

São Paulo - A fundação de São Paulo insere-se no processo de ocupação e exploração das terras americanas pelos portugueses, a partir do século XVI. A região de ocupação inicial pelos padres jesuítas, em 1554, localizava-se entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, este sendo afluente do rio Tietê. Até o século XVIII, São Paulo era o centro de onde partiam as bandeiras para os sertões.

Barueri - A origem da cidade foi um aldeamento fundado em 1560 pelo padre José de Anchieta, na margem direita do rio Tietê, pouco acima da confluência com o rio Barueri Mirim. Instalou-se aí a capela de N. S. da Escada. Por muito anos, a aldeira resistiu aos freqüentes ataques de bandeirantes que desciam o rio Tietê em direção ao interior, aprisionando índios para mão-de-obra escrava.

Santana de Parnaíba - Nascida às margens do rio Tietê, há registros de que o primeiro a se instalar na região foi o português Manuel Fernandes Ramos, participante de uma expedição realizada em 1561 para explorar o sertão, rio Tietê abaixo, em busca de ouro. A capela de Sant’Anna, erguida por seus herdeiros e sua mulher Suzana Dias, data de 1580.

Pirapora do Bom Jesus - Conta a tradição popular que, por volta de 1725, uma imagem do Bom Jesus foi encontrada por um sitiante encostada numa pedra dentro do rio Tietê. Tida por milagreira, a imagem ganhou uma capela, cuja bênção data de 1730. Pirapora, na língua indígena, significa “sinal de peixe”.

Cabreúva - No início do século XVIII, um senhor de engenho ituano, à procura de local adequado para se instalar, subiu a margem direita do rio Tietê. Após explorar a região, escolheu um vale encravado entre três grandes serras que, mais tarde, seriam denominadas Japi, Guaxatuba e Taguá. Tal senhor fixou-se no local em que hoje está a cidade de Cabreúva, dedicando-se ao cultivo da cana-de-açúcar voltado para a produção de aguardente.

Itu - A construção de uma capela a N. S. da Candelária, em 1610, é o marco da fundação da cidade. Muitas das expedições que saíam do porto de Araritaguaba (Porto Feliz), às margens do rio Tietê, com destino às minas de ouro de Cuiabá, eram organizadas em Itu. Nas terras ituanas, consideradas de boa qualidade para o cultivo da cana-de-açúcar, surgiram grandes fazendas exploradas com mão-de-obra escrava. O cultivo da cana serviu de base para desenvolvimento da produção de café, em meados do século XIX. Por ter abrigado a Convenção de Itu, em 1873, ostenta o título de “berço da república”.

Salto - Em 1698, em terras de seu sítio Cachoeira, na margem direita do rio Tietê, Antônio Vieira Tavares instala uma capela dedicada a N. S. do Monte Serrat. Para os séculos seguintes, cogita-se que algumas expedições pelo rio Tietê tenham partido do porto Góes, logo abaixo da cachoeira, como alternativa ao porto de Araritaguaba. A localidade permaneceria praticamente inerte até 1875, data da instalação da primeira tecelagem nas proximidades da cachoeira que dá nome à cidade, em virtude do potencial energético. Uma segunda tecelagem se instala em 1882, alicerçando o perfil industrial que a cidade assumiria ao longo do século XX.

Porto Feliz - Situada na margem esquerda do rio Tietê, no local em que os indígenas chamavam de Araritaguaba, o mais remoto registro da localidade data de 1693. O porto natural de Araritaguaba, contudo, tornou-se importante durante o século XVIII, época em que as monções tinham ali seu principal local de partida rumo a Cuiabá.

Tietê - Durante as monções do século XVIII, Pirapora do Curuçá, antiga denominação de Tietê, era um importante porto de reabastecimento e descanso das embarcações que saíam de Araritaguaba. Uma das principais atrações de Tietê é a Festa do Divino, que ocorre desde 1830. O ponto culminante desse evento, que acontece tradicionalmente no último sábado do ano, é o encontro das canoas, que de dá no leito do rio Tietê.

Galeria da cachoeira


Inúmeros artistas retrataram o “Salto de Ytu” em suas obras. A cachoeira que dá nome a nossa estimada Salto e a vizinha cidade de Itu continua a inspirar muita gente, em que pese a degradação da qual o rio e as cidades ribeirinhas são vítimas. Reproduzimos aqui algumas que merecem destaque, enquanto registro histórico. Além das pinturas, inserimos uma fotografia de um pioneiro na arte, o francês Marc Ferrez:










Salto: uma cidade operária às margens do rio Tietê


A partir de 1875 a presença de fábricas às margens  do rio Tietê transformou Salto numa localidade voltada para o trabalho. De início, a mão de obra era formada pelo trabalhador livre brasileiro, com numerosa presença de mulheres e crianças, como se pode ver nas fotos dos grupos de operários desse período.

No final do século XIX a composição desse quadro inicial se alterou com a chegada de imigrantes europeus, em sua maioria italianos. Este grupo, presente em grande número nas primeiras décadas do século XX em Salto, constituía a maioria dos operários empregados , que em muitos casos eram saídos de fazendas de café do interior paulista.

Os descendentes desses primeiros italianos formaram o contingente de trabalhadores das décadas seguintes, pois a política de contratação dava preferência aos filhos de operários ativos na empresa. Durante décadas, o destino de muitos jovens saltenses estava traçado desde o berço: aos 12 ou 14 anos ingressavam na Brasital S/A  – indústria de fiação e tecelagem, proprietária de todo o complexo fabril instalado às margens do rio Tietê, em Salto, entre 1919 e 1981.

As mulheres representavam, por volta de 1940, 75% da mão de obra empregada. A elas cabia uma dupla jornada, tendo de conciliar os afazeres domésticos, nos períodos de folga, com o trabalho na fábrica. Os 25% restantes eram homens que trabalhavam na tinturaria, oficinas mecânica, elétrica e de carpintaria, nos escritórios, nas cardas e nos depósitos de algodão e de fios.

Quanto aos menores de 18 anos, as meninas ingressavam como auxiliares das maquinistas, tanto na fiação como na tecelagem. Os meninos ingressavam como ajudantes dos mecânicos, eletricistas e carpinteiros. Outros trabalhavam no escritório da fábrica ou como escriturários nas seções da indústria – tais como tecelagem, fiação, tinturaria e oficinas.

Operários da Brasital com o prédio da fiação ao fundo, c.1920

A relação dos operários com o rio sempre foi muito estreita. Existiam lendas em torno das aparições de uma canoa fantasma, que podia ser vista nas águas do Tietê através das janelas da fábrica, pelos funcionários do turno da noite. Dizia a lenda que se tratava de antigos navegantes do rio, procurando um tesouro perdido. Outras lendas também diziam que embaixo da cachoeira, numa gruta oculta, estaria escondido um tesouro.

Uma cena comum, até a década de 1950, era a de operários que saíam do serviço às 16h30 e atravessavam a Ponte Pênsil para ir pescar. Quase sempre havia um parente ou amigo esperando com as varas e as iscas. Ao escurecer, retornavam para suas casas com os peixes, que constituíam a mistura do almoço ou jantar do dia seguinte.

7 de outubro de 2009

Centenário de Lubra e Pretti

Neste ano de 2009 deu-se o centenário de nascimento de dois pintores saltenses que obtiveram certo destaque para além das fronteiras locais. Trata-se de José “Lubra” Roncoleta (1909-1973) e Flávio Pretti (1909-1996). Ambos, apesar de terem saído de Salto precocemente, tematizaram nossa cidade em várias de suas produções. Os dois, por exemplo, pintaram a cachoeira no rio Tietê - obras que estão em posse do Museu da Cidade de Salto. Lubra ainda deixou-nos uma belíssima pintura do Dr. Barros Júnior, o famoso “Pai dos Saltenses”. Dentre os trabalhos de Pretti encontramos, inclusive, esboços de tipos populares de Salto das primeiras décadas do século passado.

Lubra era o pseudônimo artístico adotado por José Roncoleta, formado a partir das primeiras sílabas dos nomes de seus pais, Luiz e Brasília Roncoleta, um dos casais responsáveis pela fama adquirida por Salto no começo do século XX no tange ao tratamento da dor ciática e doenças reumáticas. Nascido em 1909, Lubra fez parte das primeiras classes formadas no então Grupo Escolar de Salto, atual E. E. Tancredo do Amaral. Foi aluno do professor José de Paula Santos desde 1916, com notável rendimento. Teve aulas de violino com o maestro Zequinha Marques. Contudo, optou por aperfeiçoar-se em pintura com o professor Demétrio Blackman, residente em Itu, onde lecionou no colégio Cesário Mota, por um ano. Na capital do estado montou uma escola de desenho e pintura, tendo 17 anos na ocasião. Ao se casar com Lídia Novelli, mudou-se para Santos, onde também montou uma escola de artes. Com os apoios oferecidos pelo jornal santista A Tribuna, realizou diversas exposições nessa cidade do litoral. Entusiasta da Associação Santista de Belas Artes, da qual era sócio-fundador, esteve à frente da presidência dessa por muitos anos. Em 1969, ao adoecer, retornou a São Paulo, abrindo um atelier. Voltou para Salto, sua terra natal, pouco tempo depois, vindo a falecer em janeiro de 1973 num hospital da capital.


“Dr. Barros Jr.”, de Lubra.

O saltense Flávio Pretti desde cedo trabalhou na Brasital S/A, como era típico entre os jovens de Salto, cidade que deixou aos 20 anos, quando foi para São Paulo trabalhar como desenhista das Indústrias Matarazzo. Quatro anos mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro, empregando-se na Companhia América Fabril, onde desenvolveu padronagens para tecido. Foi na então capital da República que completou seus estudos, no seio da Sociedade Brasileira de Belas Artes. Trabalhou também no periódico carioca Diário de Notícias, produzindo caricaturas. Em 1940 retornou a São Paulo, onde instalou seu atelier denominado Publicidades Flávis, na Avenida Celso Garcia. Em meio aos temas de sua obra, Pretti possui algumas criações sobre sua cidade natal. Os azulejos de Homens que construíram esta cidade (1968), existentes no Complexo Turístico da Cachoeira, constituem um exemplo. Neles estão representadas as figuras do indígena, do negro, do bandeirante, do padre, do trabalhador rural e do operário fabril – num discurso que pretende integrar e nivelar a importância de grupos sociais e momentos históricos distintos na constituição de sua cidade natal. Pretti esteve em Salto pela última vez em 1994, falecendo dois anos depois.


“Salto”, de Flávio Pretti.

24 de junho de 2009

Memória em postais - I


Cachoeira no rio Tietê, c.1890
Marc Ferrez/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles

A fotografia do francês Marc Ferrez é um dos mais antigos registros da cachoeira que dá nome à cidade, chamada pelos índios de Ytu Guaçu, Salto Grande em língua nativa. À esquerda, em primeiro plano, parte da tecelagem pioneira instalada na margem direita do rio e, ao fundo, os telhados de algumas casas da atual Rua José Weissohn. Na edificação mais visível, ao centro, funcionava um hotel e, à direita desta, vê-se parte da casa que foi de José Bonifácio, o “Moço”, e que recebeu Dom Pedro II em 1875.



Vila Operária Brasital, c.1940
Esquina da Rua Rio Branco com a 9 de Julho.
Acervo Museu da Cidade de Salto

As 244 casas da Vila Operária Brasital, construídas entre 1920 e 1925, serviam de morada a uma parte dos trabalhadores daquela tecelagem. Naqueles anos a área na qual foi instalada a vila correspondia ao limite do espaço urbano de Salto. Nem todos os operários tinham o direito de morar numa dessas casas. A seleção era feita pela fábrica. Na maior parte dos casos eram famílias italianas ou descendentes as selecionadas para lá residir. Isso transformou o local no reduto da cultura italiana em Salto. No centro de cada um dos quatro quarteirões formados existiam os quintalões – espécies de áreas de uso coletivo com acesso pelos fundos de cada casa. Em 1967 a Brasital iniciou, gradativamente, a venda desses imóveis.



Estação de Salto, 1920
Acervo Museu da Cidade de Salto

A Estação de Salto foi inaugurada em 1873 como uma das estações pioneiras da então linha-tronco da Cia. Ytuana, que vinha de Jundiaí em direção a Itu. Em 1914 passou a servir ao ramal de Campinas. Foi desativada por volta de 1988. As pessoas faziam a viagem de Salto até Jundiaí nos trens da Ytuana. De lá iam à capital ou ao porto de Santos nos vagões da São Paulo Railway Company. Na foto, vê-se a retirada de fardos de algodão que à época eram transportados até as tecelagens em carroças puxadas por burros.

8 de maio de 2009

Galeria da cachoeira


“SALTO DE ITU (PIQUENIQUE DA FAMÍLIA DO DR. ELIAS ANTONIO PACHECO E CHAVES)”, 1886
José Ferraz de Almeida Júnior
Óleo sobre tela
135 x 199 cm
Coleção Museu Paulista da Universidade de São Paulo

José Ferraz de Almeida Júnior (Itu/SP, 1850 - Piracicaba/SP, 1899). Pintor. Ingressa na Academia Imperial de Belas Artes - Aiba, em 1869, onde tem aulas de desenho com Jules Le Chevrel (ca.1810 - 1872) e de pintura com Victor Meirelles (1832 - 1903). Conclui estudos em 1874, mas não concorre ao prêmio de viagem e retorna a Itu. Abre ateliê em 1875 e atua como retratista e professor de desenho. Em visita ao interior de São Paulo, o imperador dom Pedro II (1825 - 1891) impressiona-se com seu trabalho e concede-lhe uma bolsa de estudos para a Europa. Vive em Paris entre 1876 e 1882 e estuda na École National Supérieure des Beaux-Arts [Escola Nacional Superior de Belas Artes], sendo aluno de Alexandre Cabanel (1823 - 1889). Durante sua estada na capital francesa, participa de quatro edições do Salon Officiel des Artistes Français. Regressa ao Brasil em 1882 e expõe na Aiba as obras produzidas em Paris. Em 1883, instala ateliê em São Paulo. Em 1886, Victor Meirelles o convida para ocupar sua vaga na Aiba como professor de pintura histórica, mas o artista prefere permanecer em São Paulo. Uma parcela da crítica de arte brasileira o vê como o "pintor do nacional", pois, em suas telas figuram os costumes, as cores e a luminosidade regional, contrários à tradição eurocêntrica vigente na pintura acadêmica. Ao montar seu ateliê em São Paulo, em 1883, traz para a cidade paulista amadurecimento artístico e contribui para a formação de novos artistas, entre eles Pedro Alexandrino (1856 - 1942).


Almeida Júnior (1850-1899)


“SALTO DE ITU”, 1849
Hercule Florence
Aquarela sobre papel
21,5 x 36 cm
Coleção Cyrillo Hercules Florence

Antoine Hercule Romuald Florence (Nice/França, 1804 – Campinas/SP, 1879). Desenhista, pintor, fotógrafo, tipógrafo, litógrafo, professor, inventor. Chega ao Brasil em 1824. Trabalha no comércio e numa empresa tipográfica, antes de ingressar na Expedição Langsdorff como desenhista, entre 1825 e 1829, ocasião na qual concebe um método para a transcrição do canto dos pássaros denominado zoophonia. Reside na Vila de São Carlos (atual Campinas), onde inventa um processo fotográfico em 1833, batizado de photographie [fotografia]. É responsável por diversas outras invenções, entre elas a polygraphie [poligrafia], um sistema de impressão simultânea de todas as cores primárias. Em 1842, lança O Paulista - o primeiro jornal do interior da província de São Paulo - e, em 1858, imprime em sua litografia o Aurora Campineira, o primeiro jornal de Campinas. Seu talento múltiplo atrai a atenção do imperador dom Pedro II (1825 - 1891), que o visita em Campinas, em 1876. É autor de vários livros, entre os quais se destaca Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, publicado em 1875.


Hercule Florence (1804-1879)

26 de janeiro de 2009

Os rios da minha terra

Poema de Mario Dotta

Alma dos seres brutos, sinfonia
De rudes sons alçando o infinito,
Na cadência de grave melodia,
Em acordes de água e de granito.

Cedo aprendi a ouvir teus lamentos,
Os queixumes de estranha litania,
Essa reza feral dos elementos,
Esse grito pungente de agonia.

E me acompanhas, onde quer que esteja,
Em recolhimento, só, instrospectivo,
Reboando na pedra que poreja
Teu lamento incessante, aflitivo.

Antes, tuas águas claras, majestosas,
Polindo a rocha dura, submersa,
Rendilhada de espumas cor de rosa,
Arco-íris de bruma, luz dispersa.

Quando as cheias vinham, bem depressa,
Corria a ver o salto, rude e forte,
Em meus olhos guardei a imagem dessa
Incoercível força - vida e morte!

Tu agora rastejas, já sem viço,
Não rebrilhas ao sol, nem inspiras verso,
Tens o dorso de lama movediço
E em teu ventre, a escória do universo!

Alma dos seres brutos, eu pressinto
Esse lento pulsar de tua agonia,
No teu grito de angústia quase extinto,
Débil sopro de antiga melodia...

Quando, antes, à alva luzidia,
Em teu seio tormentoso refletindo
O céu azul na água que corria,
Como se a vida ali estivesse rindo.

Fitando o rio de águas fugidias,
Deixei fugir com ele a mocidade.
Correu o rio veloz, passei meus dias,
Só não deixei passar minha saudade.

Veio o progresso, a máquina, o detrito,
Titãs cruéis em fúria, conturbados,
Passou o tempo, não ouvi o grito
Desses dois rios morrendo envenenados!

Mudou tudo. Mudei, e lembro quando
Mil cardumes prateando a flor das águas
Refulgente nas ondas, se arrojando,
Nos alcantis, nas rochas e nas fragas.

Não vi o taperá fugir saudoso,
Nem da andorinha o pipilar ausente,
Só o silêncio de um rio moroso,
Morrendo envenenado lentamente!

Nem mais, além do salto, sobre a pedra,
Na haste em que fina e trêmula se apruma,
Esplender a flor vermelha que aí medra,
Vergastada de borrifos e de bruma.

Como era belo o salto, o coretinho,
Onde acorria o povo a ver o rio,
A piracema farta, o burburinho,
A teleférica suspensa a um fio.

Evoco à noite, o rio escachoando,
Ladainhas soturnas a rezar
Pela alma dos mortos e os levando
Em cortejo sinistro para o mar!

Velho rio, em cujo leito outrora,
Cavalgaram heróis, como Bartolomeu,
O que resta de tua pujança, agora?
Envelheceste tu ou envelheci eu?

2 de janeiro de 2008

Saint-Hilaire visita Salto (1819)

Abaixo, transcrevo um relato que, para a Salto da primeira metade do século XIX, é dos mais importantes. Os relatos constituem um gênero freqüentemente utilizado como fonte em trabalhos de História. Esse tipo de literatura fez sucesso durante muito tempo, numa época em que viagens para lugares distantes não eram tão simples como hoje. Aliada às barreiras de locomoção estava uma peculiar curiosidade em relação aos lugares, culturas e povos que viviam para além da Europa. Existia um forte apelo editorial em torno dos livros de viagem. No século XIX, tal literatura era tida em alta conta – até mesmo por questões educativas – e a América do Sul era praticamente um outro mundo: desconhecido e pitoresco. Nesse sentido, a atração pela natureza tropical é uma constante – e o Salto de Itu aparece com certa freqüência no discurso dos viajantes europeus que passavam pela então Província de São Paulo.

Um dos primeiros foi o francês Augustin de Saint-Hilaire, que esteve diante do Salto em 1819. Vejamos como o viajante descreve nossa cachoeira em seu livro Viagem à Província de São Paulo:

Não querendo deixar Itu sem ver a cachoeira à qual a cidade deve seu nome, dirigi-me até lá acompanhado do meu tropeiro, José Mariano. Num trecho de cerca de uma légua até a beira do Tietê, que corta a estrada de Itu a Campinas, percorri uma região outrora coberta de matas virgens mas na qual só se vêem capoeiras, atualmente. Vi vários engenhos de açúcar pelo caminho.

Chegando ao Tietê, encontra-se uma ponte estreita, muito mal conservada e sem parapeito. A ponte é dividida em duas partes desiguais por uma ilha. A mais próxima da margem direita mede cerca de 48 passos de comprimento, a ilha mede 47 e a outra parte 120.

Nesse ponto o rio se desdobra, formando várias ilhas, as quais, como o próprio rio, são orladas de pedras negras que parecem empilhadas ordenadamente, compondo uma espécie de muro de arrimo. Moitas de árvores e de arbustos de pitoresco efeito cobrem as ilhas, e tufos de orquídeas, crescendo entre as pedras, desabrocham em soberbos buquês de grandes flores purpurinas. Nas duas extremidades da ponte há uma venda e um pequeno rancho, e um pouco mais abaixo, à direita do rio, vê-se a capela de Nossa Senhora da Ponte [outra denominação por vezes atribuída à capela de N. S. do Monte Serrat], tendo ao lado a casa do capelão. Todo esse conjunto compõe uma paisagem muito bonita.

Passando sob a ponte, e apertada entre as pedras, a água do rio corre fazendo barulho. Um pouco abaixo há um monte de pedras e mais adiante fica a cachoeira. Depois de serpear celeremente por entre as pedras amontoadas, o rio lança-se de repente por um estreito canal, cercado de ambos os lados por uma muralha de pedras a pique, e dali se precipita de uma altura de 25 ou 30 pés com uma impetuosidade inconcebível e um estrondo suficientemente forte para ser ouvido na cidade de Itu. Batendo, na sua queda, cruzam e se misturam, formando uma confusa massa de espuma de um tom branco-ferruginoso e espalhando no ar miríades de gotículas que se juntam para compor uma densa cortina de névoa. Na base da cachoeira as águas tornam a encontrar pedras e ainda continuam a espumar durante um certo trecho.

A fim de ter tempo de examinar à vontade esse belo espetáculo eu tinha pedido ao capelão de Nossa S. de Ponte [sic] para guardar os meus burros em sua propriedade, com o que ele concordou amavelmente. Esse padre contou-me que, quando viera para ali havia quarenta anos, a rocha de onde o rio se despeja se projetava para frente e era escavada como se fosse uma calha; a água ao cair descrevia um arco, e as andorinhas costumavam passar em revoada sob ele, para cá e para lá. Pouco a pouco, porém, a saliência na rocha foi sendo desgastada pela passagem da água, até desaparecer por completamente. Vi ainda um grande número de andorinhas ao redor da cachoeira. Antes da queda d’água, só se encontram no Tietê peixes de espécies pequenas, mas abaixo dela pescam-se peixes de tamanho considerável, como dourados, etc.



Augustin de Saint-Hilaire (1779-1853)

Ouça nosso podcast

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966