30 de março de 2026

Alfaiates saltenses nos anos 1930

Nos anos 1930, a cidade de Salto mantinha uma população quase estática de pouco mais de 12 mil habitantes. O crescimento natural da época era freado pelo êxodo: os reflexos da crise de 1929 empurravam famílias inteiras para o ABC Paulista e para o bairro do Belenzinho, na capital, em busca de oportunidades. No entanto, quem ficava na cidade testemunhava o apogeu de uma profissão que o tempo e a industrialização tornariam rara: a alfaiataria.

Naquela época, o "sob medida" era a regra, e as oficinas de costura - compostas pelo mestre, oficiais e aprendizes - eram verdadeiros pontos de encontro e formação profissional.

O corredor da elegância: Rua José Galvão


A Rua José Galvão era o grande polo do setor. Próximo ao antigo "Largo" (Mazzamutto), atendia o "Bepi", cujo sobrenome o tempo apagou. No número 171, brilhava a oficina de Pedro Montagnan, um dos nomes mais requisitados da cidade.

Perto dali, a história também registrou passagens breves e marcantes, como a de Alfredo Buratti, que partiu precocemente aos 22 anos, vítima de uma epidemia de tifo. Outros nomes, como o de "Rierim" Salvadori e Santo Lelli, também deixaram sua marca na região antes de mudarem seus endereços de trabalho.

O alfaiatate Santo Lelli: Giuseppe Sante Lelli (1868-1940), natural de Cesena, Forlì, Itália. Chegou ao Brasil, via porto de Santos, em 1897 - junto com sua esposa Adele e seus filhos Marsiglio e Arsilia. É tataravô do autor deste blog. Sabe-se que foi quem ensionou o ofício a Júlio de Aguiar Frias (1896-1976), um de seus genros.

Pelas Ruas do Centro


Na Rua Monsenhor Couto (à época denominada 7 de Setembro), a tradição era mantida pelos Irmãos Malvezzi (Américo e Hermogenes). Após uma breve tentativa de vida em São Paulo, retornaram a Salto em 1931 para fundar uma das oficinas mais produtivas da época. Na mesma rua, a "Alfaiataria do Campinas", de Antônio Luiz de Camargo, encerrava suas atividades logo no início da década, em 1930.

Já na Rua Dr. Barros, o movimento era intenso. Benigno "Bibi" Nastari orgulhava-se de vestir a elite local, sempre acompanhado por uma equipe de oficiais e aprendizes. Outro gigante do setor era Pedro Garavello; sua oficina (no atual nº 617) foi, talvez, a maior empregadora da cidade, chegando a ter cinco alfaiates trabalhando simultaneamente - muitos dos quais se tornariam mestres autônomos no futuro.

Ainda na Dr. Barros, nomes como Cármino Hyppólito, Acácio Rodrigues de Moraes e o misterioso Genésio ajudavam a compor o cenário comercial da via.

Tradição em cada Esquina


A Rua Rui Barbosa (então chamada de Rua Paysandú) abrigava cinco oficinas distintas, destacando-se a de Vitorio Lui, que também fornecia materiais de costura para os colegas. Por lá também passaram o jundiaiense Carlos Gavirolli, Miguel Prestinioni, Elétro Carra e Júlio de Aguiar Frias.

Outra figura emblemática era Zalfieri Zanni, o popular "Fuga". Ele começou a carreira ainda jovem na sala de casa, na Avenida Dom Pedro II, e percorreu diversos endereços no centro, deixando um legado de inúmeros aprendizes formados sob sua tutela.

Nomes como "Zequinha" Marques, e as históricas oficinas de Brás Felizola (o "Mineiro Rico") e Brás Ferraro ficavam na Rua Nove de Julho.

Zequinha Marques (1893-1981)

O Fim de uma Era


A comparação com o passado é nostálgica. Se nos anos 1930 havia uma alfaiataria para cada 800 habitantes, hoje - com uma população saltando para quase 110 mil - restam pouquíssimos profissionais do ramo na região.


Confraternização anual dos alfaiates de Salto, 1977.


Homenagens


No desfile do aniversário de Salto de 2008, o Colégio Prudente de Moraes homenageou os alfaiates da história de Salto. Alguns remanescentes desfilaram em carro alegórico. Naquela manhã tivemos a oportunidade de reverenciarmos o nobre trabalho de todas as gerações de alfaiates que atuaram por longos anos em nossa cidade.




Para acompanhar o percurso pela Avenida Dom Pedro II, foi composta uma música alusiva ao tema. Ouça (voz de Jacob Olímpio da Rocha e letra de Juliano Oliveira):

La Traviata dos Alfaiates de Salto


A cidade de Salto, notável por seus
Alfaiates com suas roupas elegantes
Cada um com seu corte e o traquejo de seus
Alfinetes vestiam a cidade toda nossa gente

Bepi, Montagnan, Buratti, Salvadori, Lelli, Malvezzi
Prestinhoni, Nastari, Hippólyto, Canova, Cruchello e Carlito
Garavello, Frias, Dutra, Zanni, Mazetto
Outros mais e também Zequinha Marques

Pra contarmos a história, cantamos com orgulho
Tão marcante em nossa memória
Relembramos nossa tradição, personagens
Importantes do nosso passado

Bepi, Montagnan, Buratti, Salvadori, Lelli, Malvezzi
Prestinhoni, Nastari, Hippólyto, Canova, Cruchello e Carlito
Garavello, Frias, Dutra, Zanni, Mazetto
Outros mais e também Zequinha Marques

Garavello, Frias, Dutra, Zanni, Mazetto
Outros mais e também Zequinha Marques
São nossos alfaiates
São nossos alfaiates




A seguir, listamos aos alfaiates de Salto nos anos 1930 que foram localizados em artigo escrito por Ettore Liberalesso nos anos 1990 para o Jornal Taperá (alguns nomes não estão completos):

Alfaiates e proprietários:

  • Bepi (sobrenome não recordado - "Alfaiataria do Bepi")
  • Pedro Montagnan
  • Alfredo Buratti
  • Maximiano (conhecido como "Rierim" Salvadori)
  • Santo Lelli
  • Irmãos Malvezzi (Américo e Hermogenes Malvezzi)
  • Antônio Luiz de Camargo (apelidado de "Alfaiataria do Campinas")
  • Pedro Garavello
  • Benigno Nastari (o "Bibi Nastari")
  • Cármino Hyppólito (e seus irmãos Antônio e José)
  • José Zanoni
  • Acácio Rodrigues de Moraes ("Alfaiataria do Acácio")
  • Genésio
  • Vitorio Lui
  • Carlos Gavirolli
  • Miguel Prestinioni
  • Elétro Carra
  • Júlio de Aguiar Frias
  • Zalfieri Zanni (o "Fuga")
  • "Zequinha" Marques (José Maria Marques de Oliveira)
  • Brás Ferraro (Alfaiataria Trento e Trieste)
  • Crucello
  • Canovas

Oficiais e aprendizes:
  • Valter Mazzeto, Osvaldo Salvadori, Álvaro Scalet, Mário Effori, Carlos Lammoglia, Eduardo Castellari, Augusto Salvadori, Carmino e José Hyppólito, Luiz Pais Leme, Emanoelli, Olavo Roveri, Orlando Orlandini, Sérgio Stoppa, Valentim Moschini, Paulo Ghizzo, Alcindo Castilho, Onofre de Ângelo, Olívio Zacarias, entre outros.


Alguns viraram nome de rua...


Alfaiates que emprestam seus nomes às vias de Salto:

  • Acácio Rodrigues de Moraes foi o proprietário da tradicional "Alfaiataria do Acácio", estabelecimento que funcionou originalmente na Rua Dr. Barros. Sua contribuição à memória da cidade é preservada pela Rua Acácio Rodrigues de Moraes, localizada no Jardim Saltense. A via tem seu início na Avenida Brasília e estende-se até o encontro com a Rua Zalfieri Zanni.
  • José Maria Marques de Oliveira, popularmente conhecido como "Zequinha" Marques, embora tenha alcançado grande destaque como maestro, era alfaiate de profissão. Ele é homenageado com a Avenida José Maria Marques de Oliveira, uma das vias mais extensas e importantes do município. A avenida começa no trevo próximo ao Hospital Municipal (Avenida Getúlio Vargas) e atravessa diversos bairros, como a Vila Norma, Jardim São Judas Tadeu, Piccolo Paese e o condomínio Haras São Luiz.
  • Valentim José Moschini adotou o ofício de alfaiate após ser aprendiz de outro nome conhecido da área, Pedro Montagnan. Seu nome denomina a Rua Valentim José Moschini, também situada no Jardim Saltense. O trajeto desta rua inicia-se na Rua Teófilo Leite e termina na Rua Vesúvio, consolidando a presença histórica da categoria profissional naquela região do bairro.
  • Zalfieri Zanni, conhecido pelo apelido "Fuga", ingressou na alfaiataria por necessidade de adaptação, tornando-se mestre das tesouras após um acidente que o impossibilitou de continuar exercendo a profissão de pedreiro. Ele dá nome à Rua Zalfieri Zanni, localizada no Jardim Saltense. A via conecta a Rua Teophilo Leite à Rua André Telha, cruzando-se, inclusive, com a rua dedicada ao colega de profissão Acácio Rodrigues de Moraes.

27 de março de 2026

Monsenhor João da Silva Couto

A trajetória de João da Silva Couto em Salto, iniciada em 31 de janeiro de 1926 e encerrada com sua morte em 30 de abril de 1970, representa um dos períodos de maior transformação infraestrutural e institucional da paróquia de Nossa Senhora do Monte Serrat. Nascido na Fazenda da Graça, em Itu, no ano de 1887, Couto formou-se em Teologia e Filosofia no Seminário Provincial de São Paulo antes de assumir postos em Bragança Paulista e Cabreúva. Sua chegada a Salto coincidiu com uma fase de expansão urbana, na qual o sacerdote atuou como um articulador entre o poder público, as famílias tradicionais e a classe operária emergente.

Monsenhor Couto em foto posada dos anos 1960.

O registro histórico de sua gestão é marcado por uma intensa atividade construtiva e organizacional. Em 1928, ele iniciou a edificação da nova Igreja Matriz, projeto que demandou oito anos de execução e foi inaugurado em 1º de maio de 1936. Durante esse intervalo, as atividades litúrgicas foram transferidas para o Salão Paroquial, construído previamente. Um evento crítico desse período foi o incêndio de 18 de janeiro de 1935, que destruiu a imagem da padroeira datada de 1727.

Matriz em construção, entre 1928 e 1936.

Em 1934, durante os trabalhos de edificação da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, membros da comissão e colaboradores posam no canteiro de obras. Sentado ao centro da imagem, observa-se o Padre João da Silva Couto, figura central na articulação para o novo templo após o incêndio da estrutura anterior.

Composição da fotografia: A fileira superior (em pé) inclui Ângelo Nardin, Emídio Morato, Juca Salomão e Pedro Stefani. Na fileira inferior (sentados), figuram José Stoppa, Ângelo Willas, Jacomazzi, João Scarrano, Padre João, Maximiliano Salvadori e Ângelo Pavanelli. Algumas identidades permanecem incertas. (Fonte: Acervo José Pavanelli)


Monsenhor Couto ao centro, em 1936, junto ao Coro e Orquestra da Matriz.

A atuação de Monsenhor Couto também se estendeu à ocupação territorial da cidade e à assistência social. Em 1936, estabeleceu as Irmãs "Filhas de São José" no Externato Sagrado Família, em imóvel doado por Aurelina Teixeira Campos. No âmbito civil e trabalhista, fundou o Círculo Operário de Salto em 1946 e o jornal O Trabalhador em 1949 - estruturas que visavam organizar a base social católica frente às transformações industriais da época. A expansão para os bairros periféricos foi consolidada com a construção de capelas como a de Nossa Senhora das Neves, no Buru, e a de Santo Antônio, no Guaraú, além do lançamento da pedra fundamental da Igreja de São Benedito, na Vila Nova, em 1948.

Registro do batismo de Laerte Millanez Junior na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat. A imagem documenta a cotidiana atuação sacramental de Monsenhor João da Silva Couto, que esteve à frente da paróquia por mais de quatro décadas, consolidando profundos laços com as trajetórias familiares da comunidade saltense. Foto de 1955.


Em 7 de setembro de 1960, a comunidade católica de Salto reuniu-se nas escadarias da Igreja Matriz para a Primeira Festa de São Francisco de Assis. O evento, que coincidiu com as celebrações de Nossa Senhora do Monte Serrat, serviu como marco documental para os integrantes do Círculo Católico de Salto.

Na composição da imagem, destacam-se as figuras de autoridade eclesiástica ao centro: o Monsenhor João da Silva Couto e o Padre Luís. Entre os membros da associação presentes, identificam-se, na extremidade direita da primeira fila em pé, os irmãos Carlinhos e Celso Andrietta, seguidos por Norberto Bérgamo na quarta posição. O registro preserva ainda a fisionomia de cidadãos atuantes na vida social e religiosa do município, como Chico Veneta, a família Andrietta e membros da família Bérgamo.


Monsenhor Couto, em 1966, abençoando a inauguração do Conservatório Henrique Castellari.

Ao completar 50 anos de sacerdócio em 1966, João da Silva Couto recebeu o título de "Cidadão Saltense" pela Câmara Municipal, período em que já ostentava o título de Monsenhor. Após o seu falecimento, a administração municipal e a comunidade local formalizaram sua memória por meio de monumentos públicos, como a herma de granito e bronze inaugurada em 1971 e o mausoléu oficial construído em 1973. O centenário de seu nascimento, em 1987, marcou o último grande ciclo de homenagens oficiais no Cemitério Municipal.

O busto na Praça da Matriz (Antonio Vieira Tavares).
Foto da década de 1970. Contribuição de Luiza Gentile de Aguiar.

Nome de rua ainda em vida

A toponímia urbana de Salto também registrou a influência de João da Silva Couto ainda em vida, por meio da alteração em 25 de junho de 1959, durante a gestão do prefeito Hélio Steffen. A via que passou a portar o nome do sacerdote possuía um histórico de nomenclaturas que remontava ao século XIX, quando era conhecida como Rua da Igreja, termo mantido até que uma comissão da Câmara de Itu trocasse a designação anterior por Rua Sete de Setembro. Geograficamente estratégica, a rua estabelece a conexão entre o Largo São João Batista e a intersecção com as praças da Bandeira — onde se localiza a Igreja Matriz — e Antônio Vieira Tavares. Essa homenagem oficial, ocorrida onze anos antes de seu falecimento, substituiu um nome de forte apelo cívico nacional pelo do clérigo, consolidando sua presença na malha central do município.

Trecho da Rua 7 de Setembro (c.1940) - posteriormente rebatizada como Rua Monsenhor Couto.


Sepultura de Monsenhor Couto, com painel histórico do Circuito da Memória - projeto idealizado pelo autor deste blog em 2009.


26 de março de 2026

Barragem e Usina de Porto Góes

A construção da barragem e usina hidrelétrica de Porto Góes teve início em 1924, pela indústria Brasital S/A, que visava abastecer seu complexo fabril instalado nas proximidades. A concessão estadual para a construção de uma usina próxima à cachoeira fora obtida pelo grupo industrial antecessor, a Società Italo-Americana, nos primeiros anos da década de 1910.

Mas a Brasital
não concluiu a obra. Em 1927 a concessão foi cedida para a Companhia Ituana de Força e Luz – que no mesmo ano teve seu controle acionário transferido para a The São Paulo Tramway Light & Power Co. Ltd. – conhecida simplesmente por Light. Nas obras, concluídas pela Light em 1928, cerca de 1500 homens trabalharam.


Todo o aparato necessário para que a usina de Porto Góes entrasse em funcionamento alterou significativamente a paisagem do entorno da cachoeira que dá nome à cidade. O volume d’água que hoje se observa foi bastante reduzido em virtude da abertura do canal de descarga, que também resultou numa ilha artificial na margem esquerda, na qual a vegetação natural se preservou desde então.


Ao lado dos prédios remanescentes da antiga Brasital, formou-se um conjunto que é símbolo da arquitetura industrial paulista das primeiras décadas do século XX. Tecnicamente, a usina de Porto Góes apresenta duas unidades geradoras dotadas de turbinas tipo Francis, de eixo vertical, com capacidade instalada de geração de 11 MW, vazão turbinável de 56 m³/s e desnível nominal de 25 metros. Atualmente, está sob o controle da Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A., a EMAE.




9 de março de 2026

Paróquia de São Benedito: um resumo das origens

A gênese da Paróquia de São Benedito remete à década de 1920, período marcado pelo crescimento demográfico da região norte de Salto. Diante da expansão urbana, a comunidade católica local, até então assistida exclusivamente pela Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, demandava um novo espaço para o exercício do culto. Esse anseio começou a materializar-se em fevereiro de 1924 (com registros oscilando entre os dias 21 e 24), quando o casal Manoel José Ferreira de Carvalho, conhecido como "Manduca", e Julieta Duarte de Carvalho, formalizou a doação de uma área de terras à Irmandade de São Benedito, então representada pelo vigário Padre Arthur Leite de Souza.

Casal "Manduca": benfeitores da comunidade. 

O terreno doado apresentava dimensões de 53m × 28m e 78,60m × 82m, limitando-se com um antigo valo e vias públicas ainda sem denominação oficial. Um aspecto historiográfico relevante reside na nomenclatura do local à época: a escritura lavrada no Cartório do 2º Ofício de Itu situava a área na "Villa Operária". Embora tal denominação não tenha se consolidado na cartografia oficial do município, o documento mencionava a existência de um largo fronteiriço a 65 edificações, configurando o que hoje reconhecemos como o bairro Vila Nova.

A despeito da posse precoce do imóvel, o projeto de construção permaneceu em latência por mais de duas décadas. O marco inicial da edificação ocorreu apenas em 19 de dezembro de 1948, com o lançamento da pedra fundamental presidido por Dom Antônio Maria Alves de Siqueira, Bispo Auxiliar de São Paulo. Nos anos subsequentes, o local foi simbolicamente demarcado por uma cruz de madeira preta, até que, em dezembro de 1953, o Monsenhor João da Silva Couto estruturou a Comissão Central de Obras, composta por figuras proeminentes da sociedade saltense, como João Scarano, Victor Bombana e Ettore Liberalesso, contando ainda com o apoio de subcomissões de arrecadação lideradas por José Oliveira Gil e Waldemar Rubinato.

Procissão dedicada a São Benedito, ainda no interior da Matriz de N. S. do Monte Serrat, 1954.

As obras iniciaram-se efetivamente em janeiro de 1954, sob a administração de André Telha. O erguimento do templo foi viabilizado por uma série de mobilizações populares, destacando-se a "Campanha dos Tijolos" (1955) e a "Campanha dos Beneditos" (1956) — esta última mobilizando mais de trezentos colaboradores homônimos ao santo. Em 10 de novembro de 1956, registrou-se o içamento da primeira telha por Júlia B. Pedroso da Silva. A primeira celebração litúrgica no templo, ainda em fase de acabamento, ocorreu em 20 de junho de 1957, durante a solenidade de Corpus Christi, com o auxílio sonoro de alto-falantes operados pelo Padre Vito Kavolis para atender aos fiéis situados no exterior da edificação.

A transição da imagem de São Benedito da Matriz antiga para o novo templo ocorreu em 17 de setembro de 1958, após a inauguração do altar-mor no início daquele ano. A autonomia administrativa da comunidade foi consolidada em 22 de janeiro de 1966, quando se definiu a Rua Rodrigues Alves como linha divisória paroquial. A instalação oficial da Paróquia de São Benedito deu-se em 27 de fevereiro de 1966, data em que o Cônego Gastão Oliboni assumiu como o primeiro pároco. Sob sua gestão, a paróquia expandiu sua atuação com a construção da Capela do Divino Espírito Santo no Parque Bela Vista, inaugurada em 1968. A sucessão pastoral seguiu com o Cônego Ivo Wells (1969-1976), Cônego Vicente Formigão e Cônego Paulo Haenraetz (1977).


Fundos da Igreja em construção em setembro de 1956.

A história recente da Matriz de São Benedito é marcada pelo fortalecimento de sua identidade simbólica e litúrgica. Em 4 de junho de 2000, o Bispo Diocesano Dom Amaury Castanho presidiu a Missa de Dedicação da Igreja, momento em que o altar e a Capela do Santíssimo foram bento e as paredes internas receberam pinturas de temática bíblico-litúrgica. A sacralidade do espaço foi elevada em 29 de abril de 2001 com a recepção de uma relíquia ex-indumentis (fragmentos da pele) do padroeiro, autenticada pelo Vaticano e doada pelo Frei Wilson Zanetti. Por fim, a conclusão do projeto sonoro e arquitetônico deu-se em outubro de 2002, com a bênção e o primeiro repique dos sinos, adquiridos por meio de contribuições da comunidade, encerrando um ciclo de quase oito décadas de construção material e espiritual.

Fachada no dia da primeira missa em 1957.

Curiosidades e tópicos complementares à memória da Paróquia:

  • Um "erro" histórico na escritura - No documento de doação de 1924, o local da igreja foi registrado como "Villa Operária". O curioso é que esse bairro nunca existiu oficialmente com esse nome na nossa região, o que desafia historiadores até hoje!
  • As medidas do solo sagrado - O terreno doado pelo casal "Manduca" e Julieta media exatamente 53m x 28m e 78,60m x 82m. Naquela época, ele fazia divisa com um antigo valo e duas ruas que ainda nem tinham nome.
  • Voz para todos - Na primeira missa celebrada no templo ainda em obras (1957), o Padre Vito Kavolis precisou usar alto-falantes externos para que a multidão do lado de fora pudesse acompanhar a cerimônia no Largo São Benedito.
  • União dos "Beneditos" - Em 1956, houve a "Campanha dos Beneditos", que reuniu doações de mais de 300 colaboradores da cidade que compartilhavam o mesmo nome do santo padroeiro.
  • Uma cruz solitária - Entre o lançamento da pedra fundamental (1948) e o início real das obras (1954), o local ficou marcado por cinco anos apenas por uma simples cruz preta de madeira fincada no terreno.
  • Nomes que fizeram história - Além dos padres, muitos leigos foram fundamentais. Nomes como Victor Bombana, Ettore Liberalesso e Waldemar Rubinato lideraram comissões que bateram de porta em porta para tornar o sonho da igreja uma realidade.
  • A Relíquia do Padroeiro - A Matriz possui um tesouro raro: fragmentos da pele de São Benedito. A relíquia, autenticada pelo Vaticano, foi doada em 2001 pelo Frei Wilson Zanetti e pode ser vista em um nicho sob a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
  • Dedicação e Arte Litúrgica - Em junho de 2000, a Igreja passou pelo rito solene de Dedicação. Foi nessa época que o interior recebeu as pinturas com sinais bíblicos-litúrgicos que vemos hoje e a entronização de uma relíquia de São João da Cruz.
  • O Primeiro Toque dos Sinos - Um marco na paisagem sonora da Vila Nova! Os atuais sinos foram uma conquista da comunidade via doações e repicaram oficialmente pela primeira vez no dia 5 de outubro de 2002.
  • Um gesto simbólico - A história registra que a primeira telha da igreja, em 1956, foi içada por Júlia B. Pedroso da Silva, uma moradora local que vivia exatamente onde hoje se encontra a Casa Paroquial.
  • A motivação original - A necessidade de criar a paróquia surgiu porque, na década de 20, a Região Norte de Salto crescia rapidamente e os fiéis tinham apenas a Matriz do Monte Serrat como opção, o que tornava o acesso difícil para muitos.

Assista ao documentário de 1998 sobre a Paróquia:


A seguir, algumas fotos coletadas no grupo "Fotos Antigas de Salto/SP", no Facebook:


Coral da São Benedito na década de 1970.

Quermesse nos anos 1960.

Altar nos anos 1970.

Grupo de Primeira Comunhão em 1992.

Coral em 1973.

Missa com "esportistas" em 1962.

Encenação de Natal: reis magos, 1977.

Ouça nosso podcast

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966