2 de abril de 2026

O erro arquitetônico: do traço de Toscano ao Pavilhão Sem Sentido

A história urbana de Salto sofreu um golpe estético irreparável em 2010. O que antes era a síntese do modernismo regional - a icônica Concha Acústica - foi soterrado por uma intervenção pretensiosa denominada "Pavilhão das Artes". Sob o pretexto de "modernização", a reforma ignorou o valor histórico do projeto original de João Walter Toscano para instalar uma estrutura metálica de gosto duvidoso e custos astronômicos.

Planta do projeto original da reforma da Praça, desde o Jardim Tropical até a área da Concha.

Perfil do projeto original e contextualização, em livro sobre Toscano.

A descaracterização foi total: a leveza da forma e a integração com a paisagem do Tietê deram lugar a um esqueleto de metal que mais parece um anexo industrial inconcluso do que um centro cultural. O mais irônico de tudo é que, aos autores da mudança, era necessário tirar de cena uma "concha" que de "acústica", nada tinha. Contudo, a cada evento que se realiza, hoje, no espaço - faz-se necessário agregar uma pequena cobertura improvisada para garantir o mínimo de salubridade aos que lá se apresentam. Destruiu-se uma obra de um dos maiores arquitetos paulistas para entregar um elefante branco que, ironicamente, tentou "renovar" o que já era atemporal. O resultado é um monumento ao desperdício de verba pública e um insulto à memória arquitetônica da cidade.



A Evolução Cronológica do Espaço

Para entender o que foi perdido, é preciso percorrer a longa trajetória deste logradouro, o mais renomeado da história de Salto.

O terreno que hoje compõe a praça era, originalmente, ocupado por edificações privadas esparças:

  • A Casa de José Bonifácio, o Moço: localizada na cabeceira da ponte Salto-Itu, hospedou o Imperador D. Pedro II em 1875. Foi demolida em 1913.

Casa de José Bonifácio, o moço, no final do XIX.

  • O Casarão de Dona Aurelina: construído no final do século XIX, funcionou inicialmente como hotel. A partir de 1936, tornou-se a Escola Paroquial (Externato Sagrada Família), mantida por religiosas italianas com apoio da tecelagem Brasital.

O casarão nos primeiros tempos de Escola Paroquial, 1938.

Antes da unificação, parte da área era o Largo do Rocio, um espaço rústico entre rochas e tecelagens. Em 1931, a área foi urbanizada como Jardim Público, tornando-se o coração social da cidade, onde os saltenses se reuniam para ouvir música via rádio e acompanhar jogos de futebol por transmissões sonoras.

Com a transferência do "Coleginho" para a Avenida Dom Pedro II em 1958, o casarão foi demolido, liberando espaço para uma transformação radical. O prefeito da época contratou o então jovem arquiteto e paisagista João Walter Toscano (egresso da FAU-USP e futuro expoente da arquitetura paulista).

  • O Conceito: Toscano projetou o Jardim Tropical e a Concha Acústica. O projeto utilizava a topografia para criar um anfiteatro natural com escadarias amplas, integrando a hoje denominada Praça Archimedes Lammoglia ao cenário do Rio Tietê.

  • A Execução: após atrasos e trocas de empreiteiras, a Concha Acústica foi inaugurada em 7 de abril de 1963, tornando-se o principal palco de eventos culturais e políticos da região por mais de 40 anos.

João Walter Toscano (1933-2011), arquiteto ituano formado pela FAU-USP, consolidou-se como um expoente da arquitetura paulista pelo uso inovador do aço em projetos de infraestrutura. Entre suas obras mais relevantes na capital paulista, destacam-se a Estação Sumaré do Metrô, suspensa sobre o Vale do Pacaembu, e a Estação Ciência, na Lapa, além da icônica Concha Acústica, que exemplifica sua habilidade em unir rigor técnico e leveza formal ao longo de sua trajetória.


Após passar por nomes como Praça da Bandeira, Paula Souza, 31 de Março e 16 de Junho, o espaço recebeu, em 27 de setembro de 1996, sua denominação atual: Praça Dr. José Francisco Archimedes Lammoglia, homenageando o médico e político saltense que foi Secretário Estadual da Saúde e deputado por sete mandatos.

A era de ouro do traço de Toscano encerrou-se com a entrega do Pavilhão das Artes em junho de 2010. A estrutura de concreto da antiga concha foi substituída pela cobertura metálica atual, alterando permanentemente a identidade visual de um importante ícone paisagístico de Salto.

A Concha na fase de construção, no começo da década de 1960.

1963


1963

1963

1975

1984

1999

2003

2004

Resumo das Denominações Históricas

ÉpocaDenominação Principal
Séc. XIXLargo do Rocio
1931Jardim Público / Praça Paula Souza
1958Jardim Tropical
Anos 60/70Praça 31 de Março / Getúlio Vargas
Anos 80Praça 16 de Junho
1996 - AtualPraça Dr. Archimedes Lammoglia

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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966