A história urbana de Salto sofreu um golpe estético irreparável em 2010. O que antes era a síntese do modernismo regional - a icônica Concha Acústica - foi soterrado por uma intervenção pretensiosa denominada "Pavilhão das Artes". Sob o pretexto de "modernização", a reforma ignorou o valor histórico do projeto original de João Walter Toscano para instalar uma estrutura metálica de gosto duvidoso e custos astronômicos.
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| Planta do projeto original da reforma da Praça, desde o Jardim Tropical até a área da Concha. |
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| Perfil do projeto original e contextualização, em livro sobre Toscano. |
A descaracterização foi total: a leveza da forma e a integração com a paisagem do Tietê deram lugar a um esqueleto de metal que mais parece um anexo industrial inconcluso do que um centro cultural. O mais irônico de tudo é que, aos autores da mudança, era necessário tirar de cena uma "concha" que de "acústica", nada tinha. Contudo, a cada evento que se realiza, hoje, no espaço - faz-se necessário agregar uma pequena cobertura improvisada para garantir o mínimo de salubridade aos que lá se apresentam. Destruiu-se uma obra de um dos maiores arquitetos paulistas para entregar um elefante branco que, ironicamente, tentou "renovar" o que já era atemporal. O resultado é um monumento ao desperdício de verba pública e um insulto à memória arquitetônica da cidade.
A Evolução Cronológica do Espaço
Para entender o que foi perdido, é preciso percorrer a longa trajetória deste logradouro, o mais renomeado da história de Salto.
O terreno que hoje compõe a praça era, originalmente, ocupado por edificações privadas esparças:
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| Casa de José Bonifácio, o moço, no final do XIX. |
O Casarão de Dona Aurelina: construído no final do século XIX, funcionou inicialmente como hotel. A partir de 1936, tornou-se a Escola Paroquial (Externato Sagrada Família), mantida por religiosas italianas com apoio da tecelagem Brasital.
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| O casarão nos primeiros tempos de Escola Paroquial, 1938. |
Antes da unificação, parte da área era o Largo do Rocio, um espaço rústico entre rochas e tecelagens. Em 1931, a área foi urbanizada como Jardim Público, tornando-se o coração social da cidade, onde os saltenses se reuniam para ouvir música via rádio e acompanhar jogos de futebol por transmissões sonoras.
Com a transferência do "Coleginho" para a Avenida Dom Pedro II em 1958, o casarão foi demolido, liberando espaço para uma transformação radical. O prefeito da época contratou o então jovem arquiteto e paisagista João Walter Toscano (egresso da FAU-USP e futuro expoente da arquitetura paulista).
O Conceito: Toscano projetou o Jardim Tropical e a Concha Acústica. O projeto utilizava a topografia para criar um anfiteatro natural com escadarias amplas, integrando a hoje denominada Praça Archimedes Lammoglia ao cenário do Rio Tietê.
A Execução: após atrasos e trocas de empreiteiras, a Concha Acústica foi inaugurada em 7 de abril de 1963, tornando-se o principal palco de eventos culturais e políticos da região por mais de 40 anos.
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| João Walter Toscano (1933-2011), arquiteto ituano formado pela FAU-USP, consolidou-se como um expoente da arquitetura paulista pelo uso inovador do aço em projetos de infraestrutura. Entre suas obras mais relevantes na capital paulista, destacam-se a Estação Sumaré do Metrô, suspensa sobre o Vale do Pacaembu, e a Estação Ciência, na Lapa, além da icônica Concha Acústica, que exemplifica sua habilidade em unir rigor técnico e leveza formal ao longo de sua trajetória. |
Após passar por nomes como Praça da Bandeira, Paula Souza, 31 de Março e 16 de Junho, o espaço recebeu, em 27 de setembro de 1996, sua denominação atual: Praça Dr. José Francisco Archimedes Lammoglia, homenageando o médico e político saltense que foi Secretário Estadual da Saúde e deputado por sete mandatos.
A era de ouro do traço de Toscano encerrou-se com a entrega do Pavilhão das Artes em junho de 2010. A estrutura de concreto da antiga concha foi substituída pela cobertura metálica atual, alterando permanentemente a identidade visual de um importante ícone paisagístico de Salto.
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| A Concha na fase de construção, no começo da década de 1960. |
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| 1963 |
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| 1963 |
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| 1963 |
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| 1975 |
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| 1984 |
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| 1999 |
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| 2003 |
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| 2004 |
Resumo das Denominações Históricas| Época | Denominação Principal |
| Séc. XIX | Largo do Rocio |
| 1931 | Jardim Público / Praça Paula Souza |
| 1958 | Jardim Tropical |
| Anos 60/70 | Praça 31 de Março / Getúlio Vargas |
| Anos 80 | Praça 16 de Junho |
| 1996 - Atual | Praça Dr. Archimedes Lammoglia |
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