27 de março de 2026

Monsenhor João da Silva Couto

A trajetória de João da Silva Couto em Salto, iniciada em 31 de janeiro de 1926 e encerrada com sua morte em 30 de abril de 1970, representa um dos períodos de maior transformação infraestrutural e institucional da paróquia de Nossa Senhora do Monte Serrat. Nascido na Fazenda da Graça, em Itu, no ano de 1887, Couto formou-se em Teologia e Filosofia no Seminário Provincial de São Paulo antes de assumir postos em Bragança Paulista e Cabreúva. Sua chegada a Salto coincidiu com uma fase de expansão urbana, na qual o sacerdote atuou como um articulador entre o poder público, as famílias tradicionais e a classe operária emergente.

Monsenhor Couto em foto posada dos anos 1960.

O registro histórico de sua gestão é marcado por uma intensa atividade construtiva e organizacional. Em 1928, ele iniciou a edificação da nova Igreja Matriz, projeto que demandou oito anos de execução e foi inaugurado em 1º de maio de 1936. Durante esse intervalo, as atividades litúrgicas foram transferidas para o Salão Paroquial, construído previamente. Um evento crítico desse período foi o incêndio de 18 de janeiro de 1935, que destruiu a imagem da padroeira datada de 1727.

Matriz em construção, entre 1928 e 1936.

Em 1934, durante os trabalhos de edificação da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, membros da comissão e colaboradores posam no canteiro de obras. Sentado ao centro da imagem, observa-se o Padre João da Silva Couto, figura central na articulação para o novo templo após o incêndio da estrutura anterior.

Composição da fotografia: A fileira superior (em pé) inclui Ângelo Nardin, Emídio Morato, Juca Salomão e Pedro Stefani. Na fileira inferior (sentados), figuram José Stoppa, Ângelo Willas, Jacomazzi, João Scarrano, Padre João, Maximiliano Salvadori e Ângelo Pavanelli. Algumas identidades permanecem incertas. (Fonte: Acervo José Pavanelli)


Monsenhor Couto ao centro, em 1936, junto ao Coro e Orquestra da Matriz.

A atuação de Monsenhor Couto também se estendeu à ocupação territorial da cidade e à assistência social. Em 1936, estabeleceu as Irmãs "Filhas de São José" no Externato Sagrado Família, em imóvel doado por Aurelina Teixeira Campos. No âmbito civil e trabalhista, fundou o Círculo Operário de Salto em 1946 e o jornal O Trabalhador em 1949 - estruturas que visavam organizar a base social católica frente às transformações industriais da época. A expansão para os bairros periféricos foi consolidada com a construção de capelas como a de Nossa Senhora das Neves, no Buru, e a de Santo Antônio, no Guaraú, além do lançamento da pedra fundamental da Igreja de São Benedito, na Vila Nova, em 1948.

Registro do batismo de Laerte Millanez Junior na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat. A imagem documenta a cotidiana atuação sacramental de Monsenhor João da Silva Couto, que esteve à frente da paróquia por mais de quatro décadas, consolidando profundos laços com as trajetórias familiares da comunidade saltense. Foto de 1955.


Em 7 de setembro de 1960, a comunidade católica de Salto reuniu-se nas escadarias da Igreja Matriz para a Primeira Festa de São Francisco de Assis. O evento, que coincidiu com as celebrações de Nossa Senhora do Monte Serrat, serviu como marco documental para os integrantes do Círculo Católico de Salto.

Na composição da imagem, destacam-se as figuras de autoridade eclesiástica ao centro: o Monsenhor João da Silva Couto e o Padre Luís. Entre os membros da associação presentes, identificam-se, na extremidade direita da primeira fila em pé, os irmãos Carlinhos e Celso Andrietta, seguidos por Norberto Bérgamo na quarta posição. O registro preserva ainda a fisionomia de cidadãos atuantes na vida social e religiosa do município, como Chico Veneta, a família Andrietta e membros da família Bérgamo.


Monsenhor Couto, em 1966, abençoando a inauguração do Conservatório Henrique Castellari.

Ao completar 50 anos de sacerdócio em 1966, João da Silva Couto recebeu o título de "Cidadão Saltense" pela Câmara Municipal, período em que já ostentava o título de Monsenhor. Após o seu falecimento, a administração municipal e a comunidade local formalizaram sua memória por meio de monumentos públicos, como a herma de granito e bronze inaugurada em 1971 e o mausoléu oficial construído em 1973. O centenário de seu nascimento, em 1987, marcou o último grande ciclo de homenagens oficiais no Cemitério Municipal.

O busto na Praça da Matriz (Antonio Vieira Tavares).
Foto da década de 1970. Contribuição de Luiza Gentile de Aguiar.

Nome de rua ainda em vida

A toponímia urbana de Salto também registrou a influência de João da Silva Couto ainda em vida, por meio da alteração em 25 de junho de 1959, durante a gestão do prefeito Hélio Steffen. A via que passou a portar o nome do sacerdote possuía um histórico de nomenclaturas que remontava ao século XIX, quando era conhecida como Rua da Igreja, termo mantido até que uma comissão da Câmara de Itu trocasse a designação anterior por Rua Sete de Setembro. Geograficamente estratégica, a rua estabelece a conexão entre o Largo São João Batista e a intersecção com as praças da Bandeira — onde se localiza a Igreja Matriz — e Antônio Vieira Tavares. Essa homenagem oficial, ocorrida onze anos antes de seu falecimento, substituiu um nome de forte apelo cívico nacional pelo do clérigo, consolidando sua presença na malha central do município.

Trecho da Rua 7 de Setembro (c.1940) - posteriormente rebatizada como Rua Monsenhor Couto.


Sepultura de Monsenhor Couto, com painel histórico do Circuito da Memória - projeto idealizado pelo autor deste blog em 2009.


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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966