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| Duas fotografias de uma cena que sintetiza o "grande golpe" aplicado na pacada cidade. |
Para celebrar o cinquentenário desse episódio hilário e folclórico da nossa crônica urbana, vamos mergulhar nos bastidores inéditos de como Salto virou cenário do cinema da "Boca do Lixo" e como as nossas maiores autoridades foram, literalmente, levadas no bico por um diretor malandro.
O enredo: Dante Alighieri na "Boca do Lixo"
O filme em questão era “Pesadelo Sexual de um Virgem”, dirigido por Roberto Mauro. O roteiro era uma paródia escrachada do clássico A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Na história, um estudante de escola é castigado e obrigado a ler e decorar o livro inteiro em três dias. De tanto ler, o jovem começa a delirar e ter pesadelos bizarros (e eróticos) com figuras históricas como Cleópatra, Messalina, Eva e Ula.
A produção era bancada pela NTM Films, de Nelson Teixeira Mendes - ninguém menos que o bilionário dono da Supergasbras. Com dinheiro no bolso, a equipe desceu para o interior e passou 30 dias gravando em Salto.
Eles usaram a cidade inteira como set:
- O casarão: a base principal foi a imponente casa de Sérgio Fabbri (onde hoje funciona a Corpo São). Durante um mês, gravaram na sala e nos quartos cenas de pura comédia com feras da TV e da música, como o ator Tony Tornado (que interpretava um pai de santo), o cantor Nilton César, e a atriz Vick Militello (a Daquinha da novela Estúpido Cupido). Ali dentro, garante quem estava nos bastidores, não se gravou nenhuma cena picante!
- Locações urbanas: teve filmagem na Prefeitura (que ficava ao lado dos Correios), nas salas de aula do colégio Paula Santos e do colégio Leonor, nas piscinas da Saltense e várias cenas gravadas com as câmeras rodando dentro dos ônibus da Nardelli pela cidade.
- Onde ficava o "proibido"? Para não chocar as famílias nas ruas, as cenas de erotismo light ficaram restritas à nossa natureza: nas pedras abaixo do Restaurante do Salto (hoje Memorial do Rio Tietê), bem pertinho da queda d'água, e na Usina de Lavras.
O altar do ludíbrio: o prefeito e o Monsenhor no mesmo filme
O ápice da malandragem do diretor Roberto Mauro foi convencer as maiores autoridades de Salto a participarem do filme. Para dar um desfecho "moral" à história, o protagonista se casava no final. O diretor bateu na porta da Prefeitura e da Paróquia de Nossa Senhora do Monte Serrat e convidou os líderes locais para fazerem uma "pontinha", interpretando a si mesmos.
E não é que eles aceitaram? No altar, gravado com toda a pompa, estavam:
- O então prefeito Josias Costa Pinto e sua esposa (como padrinhos da noiva);
- O assessor político Noronha (como padrinho do noivo);
- E o nosso saudoso Monsenhor Mário Negro, o pároco da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, celebrando o casamento.
Eles achavam que estavam apoiando o "cinema nacional" e uma paródia cultural inofensiva. Mal sabiam o tamanho da encrenca.
A explosão e a briga política
Quando o filme estreou e o título espalhou, o "Palácio Legislativo" de Salto quase desmoronou. O Presidente da Câmara da época, Corinto Silva, junto com os vereadores, ficou furioso. Sentindo que a cidade tinha sido motivo de chacota e que a Igreja Católica tinha sido profanada, eles ameaçaram acionar a Censura Federal em Brasília para proibir o filme em todo o território nacional!
Para apagar o incêndio, o diretor Roberto Mauro deu uma entrevista impagável ao Notícias Populares. No melhor estilo provocador, defendeu o prefeito e o padre, dizendo que eles representavam "o lado moral" da história. E sobrou deboche até para a oposição:
"O prefeito Josias e o chefe [Noronha] foram escolhidos porque são dois caras extremamente 'boa pinta' e eu precisava de imagens com estética. Eles fizeram o papel com grandeza. Sinceramente, acho que não poderia colocar, por exemplo, o presidente da Câmara, porque ele não é nem um pouco fotogênico."
Para tentar abafar o caso na cidade, os jornais locais (Taperá e O Trabalhador) fizeram uma verdadeira operação "passa pano": noticiaram as gravações e a presença do prefeito, mas omitiram completamente o termo "pornochanchada". Para o público local, era apenas uma "sátira baseada em Dante".
Os maus lençóis com o Bispo e os caos no Cine São José
A história oral da nossa cidade guarda os desdobramentos dessa confusão. O Monsenhor Mário Negro, coitado, passou por maus lençóis. Fiéis mais conservadores foram reclamar diretamente com Dom Amaury Castanho, na Diocese de Jundiaí, exigindo explicações de como o pároco de Salto tinha ido parar num filme erótico da Boca do Lixo.
Enquanto os políticos brigavam e a igreja se explicava, o povo saltense se divertia. No comércio local, o fotógrafo Lauro Okumura fez um bom negócio: vendeu 40 rolos de filme fotográfico para a produção e os produtores, paulistanos e apressados, pagaram o preço de 80! Conta-nos isso um jovem cameraman saltense à época, o qual acompanhou em detalhes toda a produção em terras saltenses.
E a cidade inteira virou artista. Jovens da época fizeram figuração, como o conhecido "Joãozinho Expedito" (filho do Expedito da pizzaria). Mas o frisson mesmo no Cine São José acontecia quando aparecia na tela um morador super tradicional da cidade que foi escalado para interpretar um "eunuco". Toda vez que ele aparecia, o cinema vinha abaixo de tantas gargalhadas.
O destino da fita: alguém tem uma cópia?
Por muitos anos, os saltenses mais curiosos podiam reviver essas imagens alugando a fita de vídeo na famosa locadora do Pitorre. Com o tempo, o filme sumiu de circulação e caiu no esquecimento, tornando-se uma lenda urbana quase mística da nossa cidade.
O trágico acidente de carro que vitimou a jovem Elisa nas curvas do Monte Belo naquela mesma época acabou, na boca do povo, sendo associado erroneamente à produção. Mas a verdade histórica (vinda da própria perícia da Polícia Civil da época) mostra que o acidente não teve nenhuma ligação com a equipe de cinema.
Cinquenta anos depois, essa história permanece como o "maior golpe" divertido que Salto já tomou. Uma época de ouro, de bastidores picantes e de muita política no interior.
E você que nos lê? Lembra da movimentação das gravações em 1976? Chegou a ver o filme no Cine São José ou a fita na locadora do Pitorre? Quem aí conheceu o Prefeito Josias ou tomou hóstia com o Monsenhor Mário? Deixe suas memórias nos comentários!
PS: Esse texto foi construído com relatos de vários saltenses que viveram os fatos à época. Caso alguma correção seja necessária, faça-a nos comentários.


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