9 de abril de 2026

Parque Infantil: a inauguração de 1953 e a memória afetiva dos saltenses

A análise histórica da inauguração do Parque Infantil na cidade de Salto, ocorrida em 1º de maio de 1953, revela uma profunda intersecção entre o urbanismo voltado à infância, a retórica política do período pós-varguista e a consolidação de uma identidade operária regional. Documentado pelo periódico O Trabalhador, o evento foi apresentado como uma "autêntica apoteose", termo que transcende o simples ato administrativo para posicionar a obra como um marco da modernidade e do progresso social. A escolha do Dia do Trabalhador para a entrega do equipamento público não foi meramente simbólica, mas uma estratégia de legitimação política que buscava oferecer à classe trabalhadora local - que compunha, segundo o discurso do prefeito na época, cerca de 90% da população saltense - um espaço de lazer e educação que espelhasse o crescimento econômico do país. A presença de figuras centrais da cultura nacional, notadamente o ator e cineasta saltense Anselmo Duarte e a atriz Ilka Soares, conferiu ao evento um status de espetáculo cinematográfico, elevando o orgulho regional e conectando a infraestrutura local ao imaginário de glamour e desenvolvimento da década de 1950.

Do ponto de vista da arquitetura e da pedagogia social, o projeto do parque refletia os preceitos higienistas e desenvolvimentistas que viam o lazer como uma ferramenta de formação do cidadão produtivo. A divisão do espaço em três planos distintos - compreendendo um galpão para aulas, uma área aquática revestida de azulejos e campos destinados à prática desportiva — evidencia uma preocupação com o desenvolvimento integral da criança, unindo a instrução formal à saúde física e à recreação controlada. Esta estrutura visava, em última análise, a "desenvoltura física" e o afastamento da "gurizada" do ócio das ruas, canalizando sua energia para atividades que fomentassem a disciplina e a convivência cívica. O discurso religioso, proferido pelo Monsenhor Couto, e a execução de hinos patrióticos e operários pela Banda Musical Saltense e pela União Musical Gomes-Verdi, selaram uma aliança institucional entre a Igreja, o Estado e o operariado, criando uma narrativa de coesão social em torno da proteção à infância. Assim, o Parque Infantil de Salto não se configurou apenas como um melhoramento público, mas como um monumento à cidadania industrial, onde o direito ao lazer era apresentado como um triunfo da gestão municipal em harmonia com as aspirações da classe trabalhadora.


Aqui está a transcrição literal da notícia principal do jornal O Trabalhador, datado de 3 de maio de 1953:


 

Melhoramento Público

Autentica apoteose a inauguração do Parque Infantil

Anselmo Duarte e Ilka Soares, os inauguradores — Maior Parque Infantil do Estado — Autoridades presentes — Benção pelo Pároco Monsenhor Couto

Com a presença dos grandes astros do cinema nacional, Anselmo Duarte e Ilka Soares, o primeiro, saltense de nascimento, deu-se a 1.o do corrente, dia de homenagem aos trabalhadores de todo o mundo, o ato de inauguração, benção e franquia ao publico do maior parque infantil do Estado de S. Paulo, construido em menos de oito meses na gestão do atual Prefeito.

Estiveram presentes o Deputado Estadual Dr. Antonio de Paula Leite Neto, o Tenente-Coronel Glicerio V. Proença, Comandante do 2.o R. O. 105 de Itu, o Vice-Prefeito de Capivari, o sr. José Dias da Silva. Prefeito e Vereadores locais, grande numero de populares e de crianças.

Anselmo Duarte desatou a fita simbólica do portão de entrada e, em seguida, no Galpão destinado as aulas, proferiu brilhante discurso, o qual publicaremos integralmente em nossa próxima edição; usaram da palavra em seguida o Deputado Paula Leite Neto, a menina Odete de Alencar, em nome da criança saltense, o sr. José Dias da Silva, filho do ex-prefeito Luizinho Dias.

Este, num assomo de entusiasmo, expressou-se em certo trecho de seu discurso: "nesta época de sensacionalismo, mas de respeitosa obediencia ao passado, no que tange ás palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, "vinde a mim as criancinhas"; quando o pranteado Francisco Alves, cantou ás criancinhas, que "Jesus foi criancinha tambem"; vossa excelência, senhor Prefeito, que tambem fostes criança, ides agora de encontro ás justas aspirações da "gurizada" saltense, quando houveste por bem proporcionar à infancia despreocupada e risonho, uma recreação amena e agradavel, e, ao mesmo tempo de grande utilidade na desenvoltura física".

Usou tambem da palavra o sr. Joseano Costa Pinto, Presidente da Camara Municipal local; e finalizando o sr. Prefeito Municipal, visivelmente emocionado, disse da sua satisfação em poder neste dia, entregar a população infantil de Salto essa obra, especialmente realizada para as crianças pobres, pois como é sabido, 90% da população saltense pertence á classe operária.

Pelo Revmo. Monsenhor João da Silva Couto foi então procedida a benção de todas as dependencias do galpão e do parque extendendo essa benção a todos os utensilios do mesmo.

No pateo do parque, pela atriz Ilka Soares, foi hasteado o pavilhão brasileiro, sob os acordes do Hino Nacional executado pela Banda Musical Saltense e cantado por um grupo de crianças.

Fizeram-se ouvir ainda a União Musical "Gomes-Verdi" executando o Hino dos Trabalhadores e o Jazz-Orquestra da Saudade Itaguassu, que continuou, depois, deleitando os presentes com a execução de diversos numeros de musica.

Para finalizar o ato, foi cantado por um grande coro de crianças, a peça "Nossa Canção", alusiva ao Parque Infantil, de autoria do Maestro Silvestre Pereira de Oliveira, com acompanhamento pela Banda Musical Saltense.

A criançada, entretanto, nem bem aberto ao público o parque, tomou conta dos brinquedos e da piscina. A alegria dela era geral e contagiante. Atingia a todos.

O parque conta com três planos: no primeiro, está situado o Galpão para aulas e em volta do mesmo os jogos e divertimentos; no segundo, a piscina, toda revestida de azulejos e o campo de bola ao cesto, volei, etc.; e, no terceiro, um grande tapete verde de grama para a prática de futebol e outros jogos. Ocupa dois terços da quadra em que se localiza o Posto de Puericultura.

Emblemática foto que estampou a primeira página de O Trabalhador: vê-se, à direita, lado a lado: Anselmo Duarte, Ilka Soares e o então prefeito Vicente Schivittaro.


A memória afetiva de diversas gerações


Com base nos relatos colhidos pelo jornal Taperá em sua edição especial de 323 anos (publicada em 2021), o Parque Infantil surge como um dos pilares da memória coletiva de Salto. Localizado na antiga Rua Prudente de Moraes, no terreno que hoje abriga o Centro de Educação e Cultura (CEC) Anselmo Duarte , o espaço é recordado pelos entrevistados como um cenário de "bons tempos" e felicidade. Para muitos saltenses, circular pelo local hoje é reviver uma infância marcada por uma liberdade que já não se encontra nos moldes atuais.

Como fonte histórica, os depoimentos revelam que o parque era muito mais do que um conjunto de brinquedos; era um centro de assistência e convivência. Diversos moradores relatam que o local oferecia uma "deliciosa merenda" , onde era comum as crianças tomarem o café da manhã com leite com chocolate, aveia e sopa de legumes com pãozinho. Esse cuidado institucional, aliado à vasta área que incluía jardins e muito espaço aberto , transformava o cotidiano infantil em uma experiência de acolhimento e nutrição, tanto física quanto social.

O uso do espaço era diversificado e atendia a diferentes faixas etárias. Enquanto os menores se divertiam "até cansar" nos balanços, gangorras e gaiolas , a juventude ocupava as quadras poliesportivas e o campo de futebol para a realização de renhidos torneios de futebol de salão, vôlei e basquete. Essas atividades esportivas eram momentos de grande agitação e integração, servindo como base para a formação de amizades que durariam por toda a vida.

Por fim, o Parque Infantil é descrito como um símbolo de uma juventude sadia e de uma cidade que se orgulhava de suas raízes operárias. A transição do antigo parque para o moderno CEC é vista com uma nostalgia respeitosa, onde se reconhece a necessidade das mudanças urbanas, mas se preserva o afeto pelas histórias ali vividas. Os relatos de brincadeiras até o anoitecer e a convivência entre vizinhos nas calçadas próximas reforçam a imagem do parque como o coração pulsante de uma Salto mais serena e comunitária.


Poucas imagens


Ao longo dos últimos anos, tivemos (no grupo "Fotos Antigas de Salto/SP", no Facebook) apenas algumas fotografias de eventos e situações das mais variadas que tiveram como palco o Parque Infantil - definitivamente desativado nos primeiros anos do século XXI, com a instalação do Centro de Educação e Cultura e a Sala Palma de Ouro, cuja inauguração ocorreu em 2009.

No Natal do começo dos anos 1970, gestão de Jesuíno Ruy: distribuição de presentes.

Anos 1970: campeonatos de futebol ocorriam no campo e quadra do Parque Infantil.


Ainda nos anos 1970: interior da piscina sem água; provavelmente evento de Festa Junina.

Crianças recebedo diploma: havia turmas de Educação Infantil ("Jardim da Infância") que funcionavam no espaço.

Evento nos anos 1970


O CEI Tico e Teco, particular, funcionava nas proximidades e usada o espaço para aulas de Educação Física. Na foto, uma turma do ano de 1987, de crianças de 5 anos de idade.

Escoteiros saltenses usaram o espaço entre os anos 1990 e começo dos anos 2000.



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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966