Ao revisitar a história administrativa de Salto, torna-se evidente que o quadriênio 1989–1992 não foi um período de neutralidade ou de meras manutenções de rotina; foi, sobretudo, um intervalo marcado por um movimento de coragem política poucas vezes visto em tão curto espaço de tempo. Independentemente do êxito de certas diretrizes ou do fracasso de intervenções que ainda hoje suscitam críticas e controvérsias, é inegável que houve uma disposição deliberada para romper com o imobilismo e projetar a cidade para além de seus muros fabris. Essa postura audaciosa, que buscou redesenhar a identidade local e enfrentar demandas estruturais históricas, deixou marcas indeléveis na paisagem urbana — algumas celebradas como conquistas definitivas, outras questionadas como passivos permanentes — que ainda hoje desafiam a nossa compreensão sobre o desenvolvimento do município.
A história política de Salto guarda um capítulo peculiar na virada da década de 1990. A gestão de Eugênio Coltro (1989–1992) - que pareceu sempre um pouco esquecida - é o exemplo clássico de um mandato único que, embora curto, foi capaz de alterar drasticamente a fisionomia e a autoimagem da cidade. Sob sua administração, Salto tentou uma transição ambiciosa: deixar de ser uma cidade marcadamente operária, com uma cachoeira e um monumento à Padroeira que já atraíam visitantes, para se converter em um polo turístico e cultural da região. Essa estratégia teve como um de seus principais articuladores o então jovem Geraldo Garcia, na época à frente da pasta que coordenava essas diretrizes - figura que, décadas depois, viria a ocupar a prefeitura por quatro mandatos, estando o último deles em curso.
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| Eugênio e Geraldo: dupla de gerações diferentes unida em diversas ações daquele mandato. |
Essa parceria foi responsável pela idealização e entrega de marcos como o Parque de Lavras, o Parque do Lago e o Parque Rocha Moutonnée, além da fundação do Museu da Cidade. No entanto, o que na época foi celebrado como uma vanguarda no lazer e turismo regional, hoje impõe um desafio amargo ao poder público. Muitos desses espaços tornaram-se verdadeiros "elefantes brancos": estruturas de manutenção caríssima e logística complexa que sobrecarregam o orçamento municipal, exigindo investimentos constantes, estratégias a título paliativo e que nem sempre se traduzem em um retorno social ou turístico condizente com o custo de mantê-los funcionando.
A mão pesada do planejamento daquela época também deixou marcas profundas e controversas no coração da cidade. A intervenção no centro para a criação do Convívio Dom Pedro II permanece, até hoje, como uma das ações mais questionadas da história local. A implementação do calçadão, que buscou modernizar o centro comercial, foi feita ao custo do corte de inúmeras árvores e da interrupção parcial do trânsito de veículos. O que se pretendia ser um espaço de convivência moderna acabou gerando um debate eterno sobre o impacto ambiental e a perda da dinâmica funcional da principal via da cidade.
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| A derrubada das árvores da Avenida D. Pedro II. |
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| Protesto em frente ao Fórum, localizado na mesma avenida em obras. |
Ao fim de seu mandato, Coltro entregou uma cidade com uma infraestrutura cultural e de lazer robusta, mas também deixou como herança o peso administrativo de sustentar essas mesmas estruturas. Sua trajetória, interrompida por um infarto apenas seis meses após deixar o cargo, é o retrato de uma gestão de extremos: ousada o suficiente para forçar a entrada de Salto no mapa do turismo estadual, mas responsável por escolhas urbanísticas cujos custos - tanto financeiros quanto ambientais - a cidade ainda tenta equilibrar.
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| O calçadão em obras no início da década de 1990. |
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| Vista do alto de um dos quarteirões do Calçadão já concluído. |
Resumo biográfico de Coltro (1934-1993)
Trajetória Civil e Formação Técnica
Eugênio Coltro nasceu em Salto, em 16 de agosto de 1934, filho de João Coltro e Saturna Artone Coltro. Sua formação básica ocorreu no ensino público, frequentando o Grupo Escolar Tancredo do Amaral entre 1942 e 1945, seguindo para a Escola Anita Garibaldi.
Sua vida profissional foi precocemente vinculada ao setor industrial, espinha dorsal da economia saltense na época. Em janeiro de 1949, ingressou na Brasital, onde permaneceu por quase três décadas. Na fábrica, sua carreira foi marcada por uma ascensão administrativa contínua: iniciou como ajudante de escritório e galgou postos nos setores de pagamento e pessoal, vindo a ocupar a chefia do escritório central em 1976. Essa experiência no setor têxtil foi determinante para sua compreensão da dinâmica social da classe operária local.
Carreira no Fisco e Atuação Comunitária
Paralelamente à atividade na indústria, Coltro buscou a estabilidade do serviço público estadual. Após anos de preparação para concursos — um esforço iniciado ainda em 1961 —, logrou êxito ao ser admitido em 1976 como Agente Fiscal de Rendas do Estado. Atuou nas regiões de Itapetininga e Itu, sendo posteriormente promovido a Inspetor Fiscal de Rendas, função na qual se aposentou em 1988, ano em que venceria a eleição para o Executivo.
Fora da esfera estatal, sua inserção na sociedade civil era vasta. No esporte, ocupou cargos diretivos no Clube de Regatas, no E.C. Quinze de Novembro e presidiu o Guarani S.A.C. entre 1969 e 1974. No campo social e religioso, foi figura central na Sociedade São Vicente de Paulo e na Conferência de Santa Teresinha do Menino Jesus, onde atuou por décadas como confrade e presidente, inclusive durante sua vida política ativa.
Vida Pública e Legado Político
Sua entrada na política partidária ocorreu em 1963, quando elegeu-se vereador pelo MTR (Movimento Trabalhista Renovador), legenda que abrigava a então Frente Operária. Durante a legislatura de 1964 a 1969, ocupou a vice-presidência da Câmara Municipal.
Após duas tentativas ao cargo de prefeito (em 1976 e 1982), foi eleito em 1988 para o mandato de 1989 a 1992. Sua gestão foi pautada por um pragmatismo técnico que resultou em números expressivos de infraestrutura: mais de 160 mil metros quadrados de pavimentação e a entrega de cerca de 1.500 unidades habitacionais entre o Jardim Santa Cruz e o Nova Era. No entanto, o foco na modernização urbana trouxe as polêmicas intervenções no centro da cidade, como o calçadão do Convívio Dom Pedro II, marcado pela supressão de vegetação e alteração do fluxo viário.
Casado e pai de três filhos, Eugênio Coltro faleceu em 6 de julho de 1993, vítima de um infarto fulminante, apenas seis meses após concluir seu mandato. Suas cinzas foram sepultadas no Cemitério Municipal de Salto em setembro daquele mesmo ano, encerrando um ciclo de vida pública intrinsecamente ligado à transformação da paisagem urbana e administrativa da cidade.






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