11 de setembro de 2009

O discurso de Anselmo Duarte

Abaixo, segue o discurso proferido pelo cineasta saltense Anselmo Duarte na inauguração da Sala Palma de Ouro/Centro de Educação e Cultura, em 31 de julho de 2009:

Anselmo Duarte no momento da leitura do discurso abaixo

Exmo. Sr. Geraldo Garcia, Prefeito da Estância Turística de Salto; Exmo. Sr. Wilson Roberto Caveden, Secretário da Educação; Exmo Sr. Valderez Antonio da Silva, Secretário da Cultura e Turismo; autoridades civis, militares e eclesiásticas; meus irmãos saltenses:

Era uma vez um menino de pés descalços, lá nos tempos idos da década de 20, no século que já se foi. Não estavam descalços por não possuir sandálias ou sapatos. Estavam descalços por livre arbítrio. Melhor falando, por amor. Aquele menino, saltense, amava correr pelas ruas da sua cidade natal, descalço, querendo acalorar, a cada passo e a cada salto, o mais profundo e genuíno conforto de identificação com as raízes da terra que lhe trouxe à vida. Ao caminhar e a saltar descalço, pelas ruas de terra batida, o Russo Louco, como era conhecido, feriu, muitas vezes, seus pés com as pedras dos caminhos. Mesmo ferido, com calos, o Russo Louco, preferiu continuar descalço, topando as pedras do caminho.

Por que tal desatino? A luz divina da sabedoria que o abençoou vida afora lhe fez divisar que as pedras dos caminhos no chão de terra batida da sua Salto não eram terríveis obstáculos aos seus folguedos nem às suas esperanças. Ele vislumbrou que aquelas pedras que topava eram nada mais que corriqueiros acidentes de percurso, absolutamente necessários para a compreensão mais profunda do curso natural da vida.

Foi assim que o Russo Louco, o menino Anselmo Duarte, lá nos idos da década de 20, quando Salto era um desconhecido lugarejo fabril habitado por um punhado de homens e mulheres de bem, cujos exemplos singelos no tratar das coisas humanas também lhe ensinaram outros não menos sábios caminhos pelas pedras no caminho da vida. Feliz e confortado, decidiu continuar descalço vida afora. Que venham as pedras...

Continuou descalço, mesmo no seu primeiro asfalto da cidade grande, São Paulo, aos 14 anos. Continuou descalço, sem reagir, ao lhe chamarem de caipira, na cidade grande. Permaneceu descalço quando brilharam os primeiros holofotes da fama nacional sobre a sua figura como o primeiro galã das nossas telas. De galã a roteirista, cenógrafo, músico, fotógrafo, editor, produtor e diretor, o Russo Louco mostrou que não era tão louco e mais saltense que russo. O reconhecimento nacional com dezenas de prêmios e honrarias cimentaram suas bases para um salto ainda maior: o reconhecimento internacional, que não tardou. Mas o agora não mais Russo Louco preferiu continuar descalço.

Permaneceu descalço e orgulhoso pelas suas simples origens quando o Ministro da Cultura da França lhe entregou a Palma de Ouro, o maior prêmio do mundo a um cineasta. Permaneceu descalço quando foi premiado como o primeiro cineasta sul-americano a ser nomeado para o Oscar de Hollywood. Permaneceu descalço quando venceu 10 outros festivais internacionais de cinema ao redor do mundo. Permaneceu descalço quando foi contestado por compatriotas.

Hoje, Salto já não tem terra batida em suas ruas. Hoje, o Russo Louco acompanhou o progresso da sua Salto e também está calçado, não obstante a saudade. A modernidade é o caminho natural pelas pedras do caminho. Contudo, ao usufruir hoje do conforto que o asfalto me proporciona, eu não me esqueço da outrora cálida terra batida da Rua 7 de Setembro, onde nasci, hoje Rua Monsenhor João Couto, a caminho do açougue do seu Atílio, em cada amanhecer da minha infância.

Quando me olho no espelho e vejo meus cabelos brancos, nem acredito. Porque aqui em Salto vou me sentir sempre assim: o garoto Russo Louco. Livre, enquanto descalço. Mas são 89 anos de vida e de exemplos vitoriosos, tudo, até hoje, inspirado no doce e simples agreste pisar no solo cru da terra batida e abençoada desta hoje grande Salto. No entanto a modernidade paga seu preço. O preço do esquecimento.

Graças a Deus o antes tarde que nunca se faz presente hoje, na inauguração desta fantástica edificação, dedicada ao futuro cultural saltense e comprometida com os valores históricos das suas raízes e a sua perpetuação. Em 89 anos, pela primeira vez, em minha vida, vem um homem público, com coragem e determinação, o prefeito Geraldo Garcia e seus companheiros de luta política, sem quaisquer interesses que não o de resgatar ao seu devido lugar histórico, a perpétua homenagem ao filho saltense que revelou ao mundo esta cidade como a sua maior inspiração para realizar sua obra artística.

Ao nominar esta sala de espetáculos com “Palma de Ouro”, Geraldo Garcia, lá em sua mais genuína inspiração, sedimenta um recado aos seus concidadãos: “Honrar as nossas raízes culturais substancia a matéria-prima necessária para o inevitável avanço da evolução progressista e a solidez continuada das realizações das nossas gerações futuras”.

Salto hoje se difere com nuances primeiro-mundistas de modernidade administrativa, por exemplos de sábia utilização dos recursos do povo, com responsável transparência, centelha de ignição para alavancar seus mais valiosos tesouros culturais para a proa exemplar na construção de uma comunidade moderna, socialmente responsável e justa na honradez das suas origens.

Rezo a Deus que esta Sala Palma de Ouro, ao ser utilizada como instrumento de excelência no enriquecimento educacional e cultural da nossa gente, materialize também a inclusão de cada um de vocês, saltenses, no exercício gratificante da sua cidadania.

Geraldo Garcia e seus companheiros de luta: sinto-me confortável em parabenizá-los, sob o meu mais exigente crítico parecer, somado ao meu continuado conviver pessoal com todos vocês que operam a ação política da gestão pública em seu melhor senso estético e prático, que respaldam seu transitório poder de concretização dos sonhos saltenses. Esta Sala Palma de Ouro e o Instituto Anselmo Duarte, que abriga, fisicamente, são provas incontestáveis desse abençoado descortino. Meus queridos saltenses, Geraldo, Wilson, Valderez e todos os que contribuíram para a conclusão desta obra: parabéns e muito obrigado!

Anselmo Duarte
31/07/2009

Um comentário:

Anônimo disse...

Anselmo Duarte comprova a máxima de que grandes homens não renegam seu passado nem suas origens; ao contrário, orgulham-se do belo caminho percorrido. Belo discurso,cheio de amor e carinho pela sua terra mater.

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966