18 de abril de 2008

Memórias de um professor em Salto

Em seu livro Memórias de um mestre escola (1974), Felício Marmo, professor e inspetor escolar no início do século XX, dedica cerca de 20 páginas a sua passagem por Salto. Vindo de Cosmópolis, aqui chegou em 20 de janeiro de 1908, e permaneceu até 13 de fevereiro de 1912. Numa época, portanto, em que sequer o Primeiro Grupo Escolar de Salto, hoje Escola Estadual Tancredo do Amaral, havia iniciado suas atividades, fato que ocorreria no ano seguinte.

A cidade que Marmo encontra “contava com três fábricas de tecidos, sendo a mais importante a Società per l’Esportazione e per l’Industria Ítalo-Americana S. A.”, antecessora da Brasital. A respeito da educação, é dito que Salto possuía “duas escolas noturnas estaduais, regidas pelos professores senhores Mario Macedo e Kiel, além de uma escola mista, mantida pela fábrica de tecidos Ítalo-Americana, sob a regência do professor Donalizio”.

A presença italiana, fosse pelos imigrantes ou pelo capital da indústria que mantinha essa última escola– e que a levava a ministrar “noções da língua italiana” – motivou Marmo a se empenhar, na escola que ficaria sob sua responsabilidade, no sentido de “manter um ótimo padrão de ensino, máxime no que tangia aos conhecimentos de História Pátria, Geografia e Educação Moral e Cívica”. E esse padrão, alerta, era atestado pelos “inspetores escolares senhores Antonio Morato de Carvalho e Boanova”, que por várias vezes “puderam apreciar (...) o andamento progressivo das aulas”.

Interessantes são suas considerações sobre determinadas instituições e personalidades da cidade naqueles anos em que aqui esteve. Sobre a música, Marmo menciona que Salto contava com duas bandas”, a Musical Saltense, “criada e dirigida pelo maestro Henrique Castellari”, e a Giuseppe Verdi. O mestre escola associa ainda o gosto pela música à massiva presença italiana por aqui: “O italiano, amante das artes, qualquer que seja sua condição social, não deixa de render culto a deusa Euterpe”, deusa da música e da poesia lírica. Sobre o local e o que se ouvia, escreve: “Ao redor do pequeno coreto [do antigo Largo Paula Sousa] ou em suas imediações, era belo ver-se aquela multidão atenta à batuta de Castellari a reger o Guarani, de Carlos Gomes; a Ainda, de Verdi; a Cavalaria Rusticana, de Mascagni; a Boêmia, de Puccini; o Barbeiro de Sevilha, de Rossini”.

Num longo parágrafo, Marmo arrola uma lista das pessoas de que ainda recorda, passados 62 anos entre o momento que escreve suas memórias e o que vivem em Salto: “devo lembrar os [nomes] daqueles que ainda perduram na minha já supra-octogenária memória: o engenheiro agricultor e renomado político e patriota Dr. José Francisco de Barros Junior; Luís Dias da Silva, um dos grandes Prefeitos da cidade; Dr. Gastão de Meirelles França, Coletor de Rendas Federais; Dr. Henrique Viscardi, clínico e cirurgião da fábrica Ítalo-Americana e que atendia também a clientela particular, (...); João Capistrano Rodrigues de Alckmin: guarda-livros e gerente da fábrica de tecidos dos Pereira Mendes & Cia.; José Weisshon e Henrique Picchetti, diretores da fábrica de tecidos Ítalo-Americana; Bruno e Bruto Belli; irmãos Almeida Campos, conceituados comerciantes; irmãos Nabor e João Galvão de França Pacheco, farmacêuticos; as famílias Begossi Saturno, grandes hoteleiros e proprietários; Henrique Angelini; Maffei, competente mestre de tecelagem; Trevisiolli, Nastari, Armando Silvério de Almeida; Brenha, Henrique Castellari; Regulo Salesiani; Pasquinelli; Leoni, Badra; Teixeira; Fragoso; irmãos Lopes; Amaral Gurgel; Kiel; Lamoglia; Bombana; Figueiredo; Fernandes da Silva; Milhioni, Donallisio; Moura Campos; Rando; Gonella; Roncaratti; Alegro; Malimpensa; Simões; Pereira de Castro; Aguirre (...).

Nesse tempo de pouco mais de quatro anos que esteve em Salto, Marmo foi hóspede no Hotel Saturno, onde, diz, “tratavam-me como se fora da própria família”. E “por um quarto novo, no sobradinho, banho, café da manhã com farto acompanhamento, almoço e jantar, [pagava-se] apenas cento e trinta mil réis”.

Há, nas Memórias, menção aos principais hóspedes: “os mestres da Malharia, Fiação, Tecelagem, Cascame, Química, Tinturaria; - senhores: Visetti, Ottuzzi; Apendido Secondo, da Contabilidade. Todos, moços de irrepreensível conduta e profissionais de reconhecida competência, diplomados nas escolas técnicas de Milão e Turim. À mesa, só falavam no idioma italiano ou conforme os casos e as oportunidades, em puro dialeto milanês ou piemontês, (...)”.

Felício Marmo em seu quarto no Hotel Saturno, c. 1910.


13 de abril de 2008

Historiografia de Salto

Em 16 de junho de 1966, o jornal paulistano A Gazeta Esportiva, em sua edição do interior, trazia um “Roteiro Turístico de Salto”, em virtude de a cidade completar naquela data 268 anos de fundação. Vejamos abaixo como se contava a história de Salto há 42 anos, numa narrativa marcada pelo bordão “cidade-trabalho” e pela preocupação em nos desligar de Itu, naqueles tempos. Exalta-se, ainda, a cidade que vivia um “surto de progresso”:

HISTÓRICO DE SALTO

A “cidade-trabalho” foi fundada pelo capitão Antônio Vieira Tavares no dia 16 de junho de 1698 no sítio denominado “Cachoeira” que se distendia do ângulo formado pela confluência do rio Jundiaí no rio Tietê, em cuja margem direita pela primeira vez houve repique de sinos. Padre Felipe de Campos da cidade vizinha de Itu, juntamente com o fundador da cidade, e demais convidados, e sob olhares de escravos e índios Tupi de Paranaitu, solenemente benzeu a capela erigida sob a invocação da augusta padroeira de Salto, Nossa Senhora do Monte Serrat, cuja festa em seu louvor é grandemente comemorada e conhecida em todo o Brasil.

Foi a redor da pequena capela que surgiu um povoado que inicialmente tomou o nome de “Salto de Ytu” e que na língua tupi-guarani significa “salto d’água”, nome aliás derivado da famosa cascata da cidade de Salto. É oportuno que se diga que a denominação de “Salto de Ytu”, ainda conhecida por muitos até hoje, foi objeto de discussões desde o ano de 1906. No entanto, também é bom que se diga que tal denominação hoje é completamente fora de uso pois que desde 29 de dezembro de 1917 pela lei n.º 1593 do então governador de São Paulo sr. Altino Arantes, o nome “Salto de Itu” foi desmembrado para somente SALTO. Hoje com a criação da comarca da cidade, será errôneo, até inconcebível que se ligue esta cidade a de Itu. Salto deve ser conhecida definitivamente somente como Salto, cidade-trabalho. No entanto, os laços de amizade, de cordialidade e de fé cristã que ligam Salto à cidade de Itu são inquebrantáveis.

Voltando ao histórico da cidade de Salto diremos que em 27 de março de 1889, pela lei n.º 68, foi dada autonomia municipal desmembrando-se do município de Itu. Salto sempre foi cidade estritamente industrial, e Tancredo do Amaral, em sua obra de 1896, “O Estado de São Paulo”, dizia que depois da Capital do Estado, o município de Salto era o mais industrial visto aqui encontrarem-se instalados 3 importantes indústrias de tecido e 1 de papel. (...) A famosa ponte pênsil e o mirante ao lado do Rio Tietê (maravilhas turísticas da cidade) foram construídos em 1912 bem como o Jardim Municipal, o Matadouro e o tradicional “Grupo Escolar Tancredo do Amaral”. Em 1932 foi iniciado o calçamento da cidade com paralelepípedos (material esse grandemente exportado para outras cidades) e em pouco tempo quase toda a cidade estava completamente calçada. Dado o surto de progresso por que passa a cidade de Salto (motivo primordial da criação da Comarca), conseguiu-se nestes últimos anos muito do Governo Estadual, e particularmente, do nosso grande deputado estadual Dr. Archimedes Lammoglia. Ginásio Estadual e Industrial; Científico e Normal; Verbas para construção de nova adutora e filtragem de água; e muitas outras reivindicações que demonstram bem a capacidade de progresso da cidade de Salto.

Possuindo pouco mais de 25 mil habitantes a cidade-trabalho está ligada a São Paulo por estrada asfaltada de apenas 99 quilômetros; à Sorocabana [sic] com 42 e Campinas com 38 quilômetros apenas. Seu parque industrial vastíssimo conta com fácil mão-de-obra.

9 de abril de 2008

Código de Posturas e o Regulamento do Cemitério

Examino o livreto de 62 páginas, impresso em 1897 pela paulistana Typografia Abercio Ramos Moreira, que contém o Código de Posturas e o Regulamento do Cemitério, criados pela Câmara Municipal da Villa do Salto. Pincei aqui e ali alguns fragmentos que acredito dizerem algo sobre o ideal urbano dos legisladores daqueles tempos, bem como das práticas sociais vigentes. No título Das ruas e Praças Públicas, há um artigo que obriga a todo proprietário de terreno da Villa “a fazer de mão comum os fechos de seu quintal com os vizinhos, de muro, taipa, tijolos, cerca barreada ou pau-a-pique, desde que qualquer dos proprietários assim o exigir”. Trocando em miúdos: muro nos quintais apenas quando um dos vizinhos quiser, e ainda assim os gastos deverão ser divididos.


Em Do asseio e livre trânsito das ruas e praças, lê-se que é proibido na Villa “urinar, e lançar nas paredes e muros imundices, borrões, tintas, riscos, palavras obscenas; arremessar pedras ou qualquer projétil aos telhados, vidraças ou paredes dos edifícios, quer públicos ou particulares”, sendo os infratores “multados em 5$000, ficando obrigados a efetuar a limpeza”. Tratando-se Da comodidade, segurança e sossego público, proibia-se “dar tiros com armas de fogo”, exceto “os tiros dados em cães danados ou outros animais perigosos, bem como as salvas em vésperas e dias de Santo Antônio, S. João e S. Pedro”. Contudo, nesses mesmos dias santos era “proibido soltar busca-pés na rua do Porto, com especialidade na proximidade da fábrica de tecidos ou próximo de qualquer outra fábrica de tecidos”.


Acerca de construções, permitia-se “a conservação de materiais para obras [nas ruas], de modo a não estorvarem o trânsito público, nem o escoamento das águas”. Na área em construção, o proprietário era “obrigado a fazer uma tapagem, abrangendo a frente inteira das obras, de maneira que impeça o trânsito por baixo dos andaimes”. E qualquer instalação, como “as armações que se fizerem nas ruas e praças por causa de festejos, serão desfeitas 24 horas depois de avisados pelo fiscal e terminados os mesmos festejos”.


Cães vagando pelas ruas e praças da vila eram permitidos, desde que atendessem às seguintes condições: ter “o dono [pago] o imposto anual de 5$000 de cada um [dos animais] que possuir”, e conservar “no pescoço um colar com o respectivo carimbo [de matrícula]”. Assim estabelecido: “os cães que forem encontrados sem o sinal e número de inscrição serão mortos pelo fiscal, por meio de bolas envenenadas ou pela asfixia”. E não apenas os animais eram presenças incômodas. Sobre a higiene e salubridade pública, um dos artigos dizia que “[a]os indivíduos atacados de varíola [dez anos antes Salto havia sofrido um surto de grandes proporções] ou qualquer outra moléstia epidêmica, não será permitido entrarem nesta Vila”...

13 de março de 2008

Salto: freguesia

O jornal Imprensa Ytuana, de 25.05.1887, em sua “Seção Livre”, páginas 2 e 3, descrevia um minucioso panorama social da “povoação do Salto” daqueles tempos. A abordagem detalhada se justificava diante da suposta falta de atenção das autoridades provinciais para com a localidade recém elevada a freguesia e, diante disso, seu autor solicitava a execução das medidas legais esperadas. Para isso, seu discurso ia no sentido de escancarar, por meio dos números, uma situação que dispensava atenção imediata: faltavam “os elementos de ordem” para controlar a população já volumosa. O texto, assinado sob o pseudônimo O Saltense, segue abaixo transcrito. Nele, observamos os diversos grupos sociais presentes na localidade em pleno despertar:

“Há dois anos mais ou menos que a assembléia provincial votou e o governo sancionou, a lei que elevou à freguesia a povoação do Salto.

Até esta data, porém, apresar de todos os tramites legais porque passou a lei, aquela localidade acha-se como então: não só ainda não tem as autoridades policiais, conforme determina a lei em relação às freguesias, como também ainda não foi nomeado o respectivo vigário, constando mesmo que o exm. bispo diocesano não fará a nomeação por não ter sido consultado sobre a conveniência da criação da freguesia.

Somos daqueles que entendem que a nomeação de vigário, conquanto necessária, poderá ainda ser dispensada por algum tempo, o mesmo não podemos dizer em relação às autoridades policiais; não é possível, em um centro operário, como está constituída aquela freguesia, dispensar os elementos de ordem.

O Salto cresce de dia para dia a olhos vistos; ele é, pois, digno de melhor sorte e de mais alguma consideração dos públicos poderes.

Temos hoje três importantes fábricas de tecidos, sendo: uma do sr. José Galvão de França Pacheco, com 120 teares e um pessoal de 110 operários; outra do Dr. Francisco Fernando de Barros Júnior, com 120 trabalhadores e 74 teares em serviço, tendendo este número a elevar-se ainda, e finalmente a que estão construindo os srs. Pereira Mendes & Comp., a frente de cuja gerência está o dr. Octaviano Pereira. Ainda não está funcionando esta fábrica, alimenta porém, desde já, 50 trabalhadores, devendo-se presumir que este número seja duplicado dentro de dois meses, tempo em que começará a funcionar.

Temos ainda a fábrica de papel, em construção, de propriedade do sr. dr. A. C. de Aguiar Melcher & Irmão, com o número de 50 operários. A estes trabalhadores se deve ainda adicionar o não pequeno número de operários empregados nas construções urbanas, que não são poucas.

Como se vê, só o pessoal empregado nas fábricas forma um não pequeno núcleo de população, que por si só justificaria a conveniência e necessidade das autoridades aludidas.

Além do pessoal que reside efetivamente no Salto, temos ainda o das turmas da conservação da linha férrea, e à noite, um respeitável batalhão de escravos das fazendas próximas, que vêm ao povoado fazer seus negócios e digamos, muitas vezes ilícitos.

Existem diversos negócios bem sortidos e de várias espécies, três escolas, sendo duas públicas e uma particular, que funcionam regularmente e com boa freqüência de meninos.

Já alguns italianos compraram a fazenda da Pedra Branca e ali tratam de estabelecer um núcleo colonial.

Pelo que vimos e dizer se poderá avaliar o quão justo tem sido o procedimento do governo para com esta localidade; hoje porém, que à frente da administração da província se acha o honrado paulista Visconde do Parnaíba, que, como nós, conhece o Salto e suas necessidades, é de supor que nos seja feito [sic] justiça, cumprindo-se a lei que elevou à freguesia aquela povoação.”

28 de fevereiro de 2008

O jardineiro espanhol

Folhando a correspondência recebida pela Prefeitura de Salto, na segunda metade da década de 1940, período em que era prefeito João Baptista Ferrari, me deparei com uma carta sui generis. Tal documentação está sob guarda do Museu da Cidade de Salto. Em geral, as cartas que li eram todas redigidas em folhas da mesma dimensão, a metade delas sendo datilografadas e com pedidos similares. Havia ainda a prática de inserção de um ou dois selos em cada uma. Boa parte delas era escrita por comerciantes saltenses da época, solicitando autorização municipal para que seus estabelecimentos funcionassem para além do horário comercial, por exemplo. Há também vários casos de professoras de escolas de Salto solicitando atestados que comprovassem o tempo de serviço por elas prestado, ou ainda, requerendo revisão salarial.

Lembro-me de uma em particular, redigida por Aristides Boni, que possuía um bar nas imediações da atual Concha Acústica. Pretendia ele que seu bar fosse autorizado a funcionar das cinco da manhã à meia-noite. Mencionava ainda não possuir funcionários, e que, portanto, não havia como ocorrer qualquer ilegalidade trabalhista com a concessão de um horário mais largo para que o seu estabelecimento se mantivesse aberto.

Entretanto, a carta que me despertou mais atenção não é do mesmo período e tampouco trata de situação semelhante. É uma carta manuscrita, datada de 1931. Nesta época, major José Garrido era o intendente em Salto – cargo equivalente ao de prefeito naqueles anos imediatamente após a entrada de Getúlio Vargas na presidência. É a ele, em específico, que a carta se dirige.

Superados os obstáculos iniciais de leitura e a constatação de que era a única daquele tipo e período presente no maço, constatei: tratava-se de um pedido de trabalho [un labor] de um cidadão de origem espanhola radicado há 32 anos em São Paulo, capital. Apresentava-se como um dos melhores jardineiros da cidade em que vivia e pedia uma oportunidade no jardim de Salto [um posto no gardin de seo mando]. Para isso, listava quais eram os trabalhos que era capaz de fazer, os quais transcrevo do original, com a mesma grafia incomum: faso gardies nobos, reformas, grutas, cascatas, repuchos para peses, bancos, pontes, basos e cualquier trabago a pedra ou semento almado emitando la propia naturalesa.

O jardineiro espanhol menciona ser chefe de família, alega ter em seu poder atestados que dão conta de sua honra e capacidade [mionradez i capasidade]. Termina com seu endereço, para onde devia o destinatário da carta dirigir-se caso desejasse: rua Bento Bicudo, número 2. Bairro da Lapa. E assina: seo criado, serbidor, Lorenso Fabre Jimenes.



Texto publicado na Revista de Salto - fev./2008

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