16 de janeiro de 2009

José Dias da Silva

Um nome que se esquece de mencionar entre os que deixaram escritos sobre o passado local é o de José Dias da Silva. Nos primeiros números do periódico saltense O Liberal, por exemplo, ele colaborava com a coluna “Salto, cidade poesia”. Sobre o espaço que hoje leva o nome de Complexo Cachoeira, José Dias, num de seus textos semanais, faz uma digressão e veicula uma opinião que, de certa forma, conduziu os trabalhos da atual administração da cidade: “Salto tem um jardim público que jamais deverá ficar abandonado, pois é a sua sala de visita; deve orgulhar-se de tê-lo aí, à margem do portentoso Tietê, em frente a sua formosa cascata. Melhor lugar não poderia encontrar aquele que teve a feliz idéia de aplicar uma verba da municipalidade para a sua construção. É o verso mais bonito da Cidade-Poesia, tal o panorama que ele nos apresenta” (O Liberal, n. 28, 19/03/1950). Foi a leitura desse excerto que me despertou para os textos seguintes desse saltense.

A maioria de suas colunas tem caráter memorialístico. Algumas abordam a atmosfera saltense do início do século XX, descrevendo cenas típicas também em outras localidades: “Cenas interessantes se passavam na cidade. De manhã cedo, [via-se] os cabreiros conduzindo dúzia ou mais de cabras, ligadas por amarrilhos de uma em uma e assim todas, com sinetas dependuradas em seus pescoços, chamando a freguesia para a compra de leite tirado na hora”. Lembra-se, ainda, da “leva de porcos que passava pela rua principal da cidade, em direção ao matadouro municipal” (23/04/1950).

Ao tratar de lendas e superstições locais, José Dias menciona que “na pedra alta [hoje Memorial do Rio Tietê], certa vez apareceu um fantasma que, à noite, acenava com um lenço branco aos caminhantes que por ali passavam” e, também, que “cavaleiros que à noitinha regressavam a seus sítios, alongavam o caminho contornando atalhos, só para não passarem perto do cemitério, pois aí arrepiavam-se-lhes os ossos e eriçavam-se-lhes os cabelos, e diziam: até o cavalo se estacava e não queria prosseguir a viagem” (30/04/1950).

José Dias lista ainda alguns tipos populares do passado ou que ainda viviam em 1950: “Salto, como todas as cidades, mormente os pequenos municípios onde se torna mais fácil a popularidade, teve e ainda tem os seus tipos clássicos populares: os seus Xuxos, os seus Taragins, os seus Joãos-perna-de-pau, os seus Saladinos, os seus Zé Batatão, etc.”. Em seguida, descreve cada um deles, como “Taragim, um mulato, cujo estado normal era o de embriaguês, [que] fazia esparramos com os garotos que o molestavam”, e João – o perna de pau – que “puxando com sacrifício a sua perna direita que fora amputada e substituída por um aparelho de madeira, fazia carretos, empurrando uma carrocinha de mão que fora produto de uma subscrição popular. Morreu afogado no rio Jundiaí”.

Dentro dessa temática, há menção a um caso ocorrido com Benedito, o come-fogo: “Era um pardo que morava em Itu e estava sempre em Salto. Exercia a profissão de pintor e gostava bastante da cachaça. Certa ocasião, estando a pintar uma porta a óleo, sentado nos degraus de uma escada, pesou-lhe a cabeça pelo excesso de álcool e o que lhe aconteceu? Quando procurado para a janta, foi encontrado dormindo, com a cabeça presa na porta. O óleo já estava quase seco e foi preciso tosar-lhe os cabelos encarapinhados para tirá-lo daquela situação difícil. É de se imaginar quantas horas teria ele ficado ali sem se aperceber do acontecido” (30/04/1950). Entre os tipos que destaca, apenas uma mulher é citada. José Dias assim escreveu: “Maior popularidade teve uma preta gorda, de idade já avançada, conhecida por Ana, a louca – que não fazia mal a ninguém. A sua mania era invadir as residências alheias e ir ao fundo dos quintais à cata de frutos caídos ao chão que os saboreava mesmo apodrecidos. Saía depois, conforme entrava: sem pedir licença e sem proferir qualquer palavra. É falecida e ao que soubemos o seu enterro foi um dos que maior acompanhamento teve na cidade. Foi uma consagração do povo que muito a estimava” (30/04/1950).

8 de janeiro de 2009

Outras notas sobre o passado local

Chegou-me às mãos, nos últimos dias de 2008, uma xerocópia de um livreto publicado em 2001 pela Ottoni Editora, de Itu. Trata-se de Pesquisa de Salto, de autoria de Eduardo Castellari. Segundo contato que fiz com a editora, tal livro foi distribuído pelo próprio autor, não existindo nenhum exemplar à venda. Na nota de agradecimento, Castellari cumprimenta a todos os cidadãos saltenses que cooperaram com “histórias e causos”. Assim sendo, imagina-se que o autor, nas páginas seguintes, concatenará escritos com uma pretensa seriedade e outros não tão comprometidos: os mais interessantes, todavia. Tal publicação não era de meu conhecimento até então.

O primeiro dos tópicos trata do “maestro Henrique Castellari”, pai do autor. Embora a veia musical seja a escolhida para dar relevo ao nome, Eduardo menciona a vinda do imigrante italiano para Salto, ainda criança, e fala também de seu primeiro ofício: acendedor dos poucos lampiões a gás que existiam na então vila do Salto. E destaca, ainda, o esforço de Henrique, tido por engenheiro civil autodidata. No início do capítulo seguinte, “O boi Chibarro”, Eduardo justifica a abordagem de temas aparentemente irrelevantes: “há ocasiões em nossas vidas em que, sem uma razão muito lógica, certas lembranças voltam à baila e ficam martelando em nossa memória. Foi o que aconteceu comigo. De repente, sem saber bem porque, lá estava eu lembrando, ou tentando lembrar, de fatos ocorridos com o Boi Chibarro”. Alguns parágrafos adiante, ele menciona seu objetivo ao empreender breve pesquisa sobre uma lembrança dos tempos de sua infância: “perpetuar a lembrança do Boi Chibarro e seus toureiros que passaram a fazer parte da história de Salto”. Contudo, creio que o maior valor desse breve trabalho resida não na eleição do tema, mas na forma escolhida para abordá-lo. Afirma o autor: “na transcrição dos depoimentos (...) procurei manter a singeleza das narrativas, suas espontaneidades e seu sabor local”.

Em “Estórias de lobisomens”, a cidade de Salto em 1920 é vista como um cenário onde “a crendice é muito forte”. Com cerca de 5 mil habitantes, era um local onde “tudo ocorria monotonamente, sem muitas novidades”. A rotina era pacata e sem muitas opções de lazer. Afora a reza, durante a semana, depois do trabalho, “ficava-se em casa conversando e contando ‘causos’ e, é lógico, sempre apareciam as estórias de lobisomens”. Estavam determinadas, portanto, as “condições para que muito se falasse” sobre o assunto. No tópico, algumas informações e causos sobre esse tema são colhidos por Castellari junto a antigos moradores, como este: Numa fazenda, uma família de imigrantes italianos trabalhava duro de sol a sol. Num determinado dia decidiram ir trabalhar no galpão até mais tarde para preparar a colheita do dia seguinte. Apenas um dos membros da família – um jovem – não quis ir. Era noite de lua cheia. No caminho para o galpão apareceu um cachorrinho acompanhando-os. Ele foi enxotado, mas se recusava a fugir. Então, um homem do grupo deu uma varada nas costas do cachorrinho, que saiu correndo e uivando e sumiu no mato. No dia seguinte, o jovem que não foi trabalhar apareceu com um enorme vergão de varada nas costas e disse: “Olha o que vocês fizeram comigo ontem à noite”.

Castellari, ao falar de uma frondosa figueira que “localizava-se na confluência da Rua de Campinas (hoje 9 de Julho) com a Rua Atrás do Céu (hoje Avenida Dom Pedro II), no quarteirão onde hoje está o prédio da Associação Comercial”, recorda que “toda essa área era (...) ocupada por um imenso cafezal, ou o que restava dele: tudo velho e abandonado depois de queimado pela grande geada de 1918”, e servia a alguns habitantes que de lá tiravam lenha para seus fogões. Para retratar o quando deserta era a região naquela época, que em 1925 veria o início da construção das casas da Vila Brasital, o autor é minucioso: “para se ter uma idéia, da figueira até o cemitério velho [hoje Praça XV de Novembro], na Vila Teixeira, pela atual Avenida Dom Pedro II, existia apenas a casa do sr. Pollo e, próximo à rua que descia em direção à igreja, mais umas oito ou nove casas (...). Também para os lados da antiga cadeira [hoje Fórum] e Grupo Escolar [hoje E. E. Tancredo do Amaral], apenas duas ou três casas velhas.”

17 de dezembro de 2008

A origem da Brasital S/A e seu desenvolvimento

O texto que segue é a transcrição de um fragmento da série de textos (sob o título "A origem da Brasital S/A e seu desenvolvimento") escritos por João M. Bombana no periódico saltense O Trabalhador, entre 06.11.1976 e 15.01.1977. Foram mantidas as iniciais maiúsculas originais e os grifos do autor.

No então Salto de Ytu, existiam duas fábricas: uma de fiação de algodão, inaugurada em 1876, precisamente há um século, de propriedade do sr. José Galvão de França Pacheco Júnior, e uma tecelagem, de propriedade do dr. Francisco Fernando de Barros Júnior, esta última inaugurada em 1882. Cada uma dessas duas fábricas possuía a sua Usina Elétrica, denominadas Júpiter e Fortuna, respectivamente. Para isso, aproveitavam as águas da Cachoeira do rio Tietê, que tinha uma vazão em potencial fabulosa. As duas fábricas acima referidas foram adquiridas pelo dr. José Weissohn, que juntou-as numa só. Da gestão do dr. José Weissohn sabe-se que foi muito profícua e ele muito generoso e humano. Basta dizer que ao passar a propriedade para a Empresa sucessora, deixou convencionado que a carne bovina, que era vendida aos seus operários no açougue por ele montado, não poderia ser vendida por mais de $500 (quinhentos réis) o quilo. Além disso, deixou também estipulado que a sua cozinheira, d. Lúcia, enquanto vivesse, deveria receber seus vencimentos, além do direito de residir na casa onde morava, a qual estava localizada ao lado do chalet da Diretoria.
A empresa sucessora, ou seja a Società Italo-Americana, cujo emblema apresentava S.I.A., estava localizada na Itália, em Milão, também possuía fábricas na Argentina e no Chile, com a denominação de Vedetta. Como primeiro Presidente da SIA fora nomeado o sr. Ermano Mosterts. Conselheiro delegado o sr. Carlos Castiglioni e Conselheiros o dr. José Weissohn e outros. O primeiro procurador foi o sr. Cav. Giuseppe Revel e Gerente o sr. David Picchetti, que mais tarde foi substituído pelo sr. Celli e este pelo sr. Ciriani, vindos da Itália, devidamente contratados e como Diretor Técnico veio o sr. Seminatti. Tanto o sr. Celli como o sr. Picchetti eram apaixonados pela equitação, tanto é que possuíam belíssimos cavalos para montaria. A Mestrança era composta de elementos vindos da Itália, também contratados. Assim vieram os srs. Beltramo (pai, filho e filha), Goffi, Gronda, Biffi, MOndone, Paglia, Boggio, Conterno, Aliata, Stussi, Vasco, Visetti, Gardini, Chilento, Girelli, Bianchi, Eng. Preti, Cassani, Primazzi, Rafaele Bianco e outros.
Em 1890 foi instalada em São Roque, pelo industrial Eng. Enrico Dall’Acqua, uma Tecelagem, a qual mais tarde também foi adquirida pela Società Italo-Americana, cujos Diretores Técnicos também vieram da Itália, a saber: srs. Vistarini, Suigo e Ale e os Mestres, srs. Cereda e Colombo. Assim, o patrimônio da S.I.A. era constituído do Cotonifício em Salto e da Tecelagem em São Roque. A fábrica de São Roque possuía a Usina Elétrica, que era gerada [sic] nos tanques denominados Vedetta e Enrico Dell’Acqua, que eram suficientes para movimentar os teares e demais máquinas auxiliares. Na Tecelagem de São Roque existem os famosos teares Grossemnhainer, para a fabricação de Colchas Isabel, as quais eram tecidas com tramas próprias produzidas nos sel facigs (miulas – em Salto, exclusivamente para esse artigo). Possuía também os teares Jacquada, de onde saíam os famosos atoalhados e guardanapos. Para estes, como para as colchas, não havia produção que chegasse para o atendimento da freguesia que era selecionada. Existiam teares onde eram fabricadas as faixasCapo Sala para o Mestre de Tecelagem, Maestrinas para as Inspetoras, Espularinas para as Boninadeiras e Ortidoi para as Urdideiras e outros mais. para crianças recém-nascidas. Interessante, que nessa fábrica foram introduzidos os princípios italianos daquela época, até há pouco tempo ainda ouviam-se termos daquele país, como Capo Sala para o Mestre de Tecelagem, Maestrinas para as Inspetoras, Espularinas para as Boninadeiras e Ortidoi para as Urdideiras e outros mais.
O vapor era produzido por caldeiras a lenha, a qual era retirada das matas adquiridas para essa finalidade e transportada por carroças puxadas por muares selecionados, pois os locais onde retiravam a lenha eram montanhosos e de difícil acesso. A matéria-prima (fios de algodão) para o abastecimento da Tecelagem, era remetida pela fábrica de Salto, através da Estrada de Ferro Ituana, hoje Fepasa. Pela Società Italo-Americana foi adquirida a Fábrica de Papel, que foi inaugurada em 19.9.1889, pelo Engenheiro Antonio Melchert. A razão social Merlchert & Cia. E a fábrica é a mais antiga do Brasil, conforme consta dos anais. Quando ela foi inaugurada, estiveram presentes, dentre outros, os srs. Otaviano Pereira Mendes, Padre Miguel Corrêa Pacheco, Francisco Glicério, Bento Quirino dos Santos, Bernardino de Campos, Marquês de Três Rios, Barão de Tatuhy, Barão de Araraquara, dr. Ignácio de Mesquita, Coronel Rodovalho, Coronel Anhaia, Carlos Paes de Barros, Ramos de Azevedo, Alfredo Maia, José Vicente de Azevedo, José Pereira de Queiroz, Correa Dias, dr. Charles Bally, Alfredo Faria, representando a Gazeta e o Diário de Campinas, João Batista Jordão, Fontes Júnior, Tancredo do Amara e o representante da Liga Ituana, dr. José Maria Lisboa.
A fábrica, que ainda está situada na margem esquerda do rio Tietê, contava com energia própria e para isso utilizava a água que era conduzida pelo canal, cujo nível do ponto inicial até o terminal era de 55 pés, produzindo 800 HP; os canos para a turbina tinham 15 m de diâmetro e 76,5 m de extensão. No início da gestão da Italo-Americana, na Fábrica de Papel, esta foi convencionada com diversos empregadores, sendo o último o sr. Nicolino Matarazzo. Terminado o prazo convencionado e como não entregaram a Fábrica, foi preciso embargar seu funcionamento e em seguida dinamitar o canal d’água que abastecia a turbina geradora de energia elétrica. Só assim deixou de funcionar e foi entregue a S.I.A.
Com mais essa aquisição, tornou-se a Società Italo-Americana proprietária de 3 fábricas, Cotonifício Salto, Fábrica de Papel de Salto e Fábrica de Tecidos de S. Roque. Por razões de medrança, a empresa passou para a razão social de Società per L’Importazione e Exportazione Italo-Americana, deixando de ser SIA, mas continuando com as fábricas na Argentina e no Chile. Na ocasião da Guerra Européia, diversos mestres que eram italianos, deixaram a empresa e partiram para a Guerra, na qualidade de reservistas do Exército Italiano e não mais voltaram.
Com a transformação da Guerra Européia em Mundial (a primeira), havia pouca possibilidade de virem técnicos estrangeiros para o Brasil, nessa ocasião foi constituída a Brasital S/A, resultante da fusão das Empresas Società per L’Importazione e Exportazione Italo-Americana e Belli & Cia., sendo esta consorciada daquela.
Com o advento da Brasital S/A, isto em 01/11/1919, funcionou como advogado o Dr. Adolpho Nardy Filho, contratado para elaborar os Estatutos Sociais da mesma.
Uma vez tudo legalizado, começaram as reformas, ampliações e expansões das três Fábricas.
A nova Razão Social, constituída de Capital Nacional, passou também a aproveitar a Prata da Casa, contratando pessoal aqui no Brasil.
Para Procurador Geral da Brasital S/A foi nomeado o Sr. Cav. Caldirola e em virtude do mesmo não ter tomado posse do cargo foi nomeado para esse cargo o Sr. Bruto Belli.
A primeira Diretoria da Brasital S/A foi eleita em 1/11/1919, sendo composta dos seguintes senhores: Presidente Cav. Rag. Guido Sacchi, Vice-Pres. Conde Com. Alessandro Seciliano; Membros do Conselho, Cav. Reg. Guido Sacchi, Com. Arrido Stoffel, Bruto Belli; Diretor Geral: Bruno Belli. Membros efetivos do Conselho Fiscal: Dr. Cav. Antonio Rossi, Cav. Humberto Lambrosso e Dr. Arthur Krug. Suplentes do Conselho Fiscal: Ricardo Arrigoni, Giovanni Ballarini e Lyder Sandal.
O Capital Social era formado entre acionistas brasileiros e italianos. O resultado do primeiro exercício apresentado pela Brasital S/A, referente ao período de 1/11/1919 a 31/10/1920, foi o seguinte:
[...]
Com a sede em São Paulo, Filiais em Santos, Rio de Janeiro, Osasco, Salto e São Roque, a Brasital S/A desenvolvia-se em todos os seus setores.
A Fábrica de Papel foi reformada completamente, tanto os prédios como as máquinas, principalmente a contínua nº 1 (a mais antiga do Brasil) e quando concluída a reforma, posta em serviço, produzia cerca de 100.000 quilos de papéis por mês.

A capela como marco da fundação

A capela primitiva

O capitão Antônio Vieira Tavares, ao se instalar por volta de 1690 em seu Sítio Cachoeira, hoje território do município de Salto, quis construir “uma igreja com seu adro com a invocação de Nossa Senhora do Monte Serrat”, como consta na “Provisão de Ereção” do templo, documento de 1696. Dois anos mais tarde, em 16 de junho de 1698, o vigário da Vila de Itu, Felipe de Campos, visitou a capela já construída e, “achando-a mui decente e com todos os paramentos necessários para (...) se celebrar o sacrifício da missa”, a benzeu. Considera-se hoje essa data como sendo a de fundação da cidade de Salto.

No ano de 1700, Tavares e sua mulher, Maria Leite, firmaram em escritura pública a intenção de doar o Sítio Cachoeira com tudo o que nele havia, incluindo escravos negros e índios, para a “Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat”, acrescentando que era sua vontade que “se conservasse a dita capela para sempre no mesmo lugar”. A doação se consumou, tendo morrido Tavares por último, em 1712. A capela foi preservada até 1928, quando foi demolida para dar lugar ao prédio atual. Resistiu, portanto, por 230 anos.

Vista da capela primitiva e de seu pátio frontal. À esquerda, casa dos operários da fábrica Fortuna, c.1900.


A igreja atual

No início do século XX, a capela primitiva tornou-se pequena para Salto. A primeira pedra do novo templo foi assentada em fevereiro de 1928, sendo pároco o padre João da Silva Couto. Prontos os alicerces ao redor da velha capela, suas grossas paredes de taipa foram demolidas. Em várias ocasiões os operários das fábricas, especialmente da Brasital, consentiram que fosse descontado dos salários o equivalente a um dia de trabalho, em prol da construção. A nova igreja foi benzida e inaugurada em 1º de maio de 1936, fazendo-se o revestimento externo posteriormente. Foram responsáveis técnicos pela obra o engenheiro Paschoal Purcchio e o construtor João Scarano.


Atual prédio da Igreja Matriz durante sua construção, entre 1928 e 1936.


A primeira imagem (1698 – 1797)

Entronizada pelo capitão Antônio Vieira Tavares, quando da bênção da capela primitiva, pode ainda hoje ser vista no interior da Igreja Matriz, no altar lateral esquerdo.


A imagem incendiada (1797 – 1935)

Em fins do século XVIII, o padre ituano João Leite Ferraz, senhor muito rico e devoto de Nossa Senhora do Monte Serrat, encarregou-se de restaurar a capela original. Achava ele que a imagem que ali se encontrava era “pequena e sem estética” e desejava substituí-la por outra, “majestosa e digna de admiração”.

Em 1797, o ituano Francisco de Paula Leite de Barros, desejando se casar com Maria Joaquina de Campos, pediu a intervenção do padre, pois este era tutor da moça e amigo de sua família. Em troca desse favor, o padre achou que o pretendente deveria pagar-lhe uma penitência, e mandou-o ir à beira do tanque do Sítio Grande, no bairro do Piraí, e de lá trazer um tronco de cedro “de muito boas águas”, o que o jovem fez com grande esforço. Não contente, o padre o mandou buscar na Vila de Parnaíba (atual Santana de Parnaíba) um santeiro de fama na época, o mulato de nome Guilherme. Assim, o jovem Paula Leite trouxe o artista que esculpiu a segunda imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat.

Mais de um século depois, na noite de 18 de janeiro de 1935, um curto-circuito na instalação da igreja em obras, na parte que funcionava como matriz provisória, provocou o incêndio que destruiu a imagem de 1797. O que restou foi a cabeça carbonizada, que se encontra hoje no Museu da Cidade de Salto. A Igreja da Candelária, em Itu, possui duas imagens feitas do mesmo tronco de cedro, uma Senhora do Rosário e um São Miguel Arcanjo.


A imagem atual (desde 1935)

Para substituir a imagem incendiada, a mesma família Paula Leite, de Itu, se reuniu e abriu um “livro de ouro”, angariando fundos para que fosse esculpida uma outra imagem, também em cedro. O trabalho ficou por conta do escultor S. Scopoli, e a nova imagem foi apresentada aos fiéis em setembro de 1935. É essa imagem que se encontra hoje no altar-mor da Igreja Matriz.


A imagem primitiva de fins do séc. XVII (1); a incendiada, de 1797 (2); e a atual (3), de 1935.

11 de dezembro de 2008

Comerciantes do final do século XIX

Em 21 de julho de 1890 o presidente do primeiro Conselho de Intendência, Francisco Fernando de Barros Júnior [1856-1918], abria um livro de escrituração e rubricava suas páginas “para nele serem lavrados todos os termos de nivelamento, alinhamento e alvarás de licença da Vila do Salto”. Nesse documento de 50 páginas encontram-se anotações que cobrem o período de maio de 1890 – antes mesmo do procedimento acima mencionado – até agosto de 1898.

A primeira anotação foi sobre um nivelamento, o da casa de Paulino Galvão de Almeida, situada na esquina das ruas do Porto e do Riachuelo (atuais José Weissohn e 23 de Maio). Esse procedimento foi acompanhado pelo arruador, Domingos José da Cruz; pelo fiscal da Intendência, Evaristo de Góes Pacheco; e pelo secretário – responsável pela anotação no livro – Belmiro José de Araújo.

Quanto aos comércios, a primeira licença foi concedida, ainda em 1890, a D. Maria Lima, “para abrir sua casa de negócio de secos e molhados, aguardente e gêneros da terra”. A segunda foi concedida a Francisco Xavier da Costa, “para continuar com sua farmácia”. Orlando Antonio recebeu alvará “para abrir a sua padaria”; Januario de Monte Santo, “para continuar com seu negócio de secos, molhados, gêneros da terra e aguardente”; Manoel José Ferreira de Carvalho, “para continuar com seu negócio de secos e molhados, aguardente, ferragens, armarinho e calçados”. Como se nota por essas primeiras licenças, concedidas entre 1890 e 1891, a maioria delas se destinava a negócios de secos e molhados. São os casos também dos estabelecimentos de Ernesto Nobre Moro, Joaquim Antonio da Silva, Fernando Dias, Emilio Della Nina, entre outros.

As anotações de 1898, já no final do livro, foram feitas pela pena do secretário da Câmara Municipal, Silvestre Leal Nunes. Vejamos, na tabela abaixo, alguns nomes que receberam as licenças daquele ano, bem como a localização e o tipo de negócio:


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