Ainda hoje recebi um pedido de uma professora saltense para lhe indicar fontes de pesquisa para "lendas saltenses". Confesso que inicialmente achei o tema um pouco estranho, mas me fez recordar um livreto que tive a oportunidade de conhecer quando trabalhava no Museu da Cidade. Trata-se de Pesquisa de Salto, de Eduardo Castellari - publicado em 2001, no qual são reunidas uma série de historietas e memórias do autor, relacionadas à cidade de seu tempo e ao que ele julgava importante perpetuar, como relato. Creio que isso seja o mais próximo que temos de uma fonte de pesquisa para as "lendas" da cidade. Transcrevo-o na íntegra, de forma a servir de fonte de pesquisa aos estudantes saltenses e à comunidade interessada, como um todo. Destaco que não foi feita revisão. Assim sendo, alguns erros de digitação e formatação podem aparecer.
Eduardo
Castellari
PESQUISA DE
SALTO
Salto - 2001
AGRADECIMENTO
Agradeço A Todos Os Cidadãos Saltenses, que cooperaram com
historias, causos e demais informações que permitiram a publicação desta
pesquisa.
Eduardo
Castellari
MAESTRO
HENRIQUE CASTELLARI
Henrique Castellari nasceu em Parma (Itália) em 27 de Junho
de 1880. Filho de Tito Eduardo de Priamo Castellari, emigrou para o Brasil em
companhia de seus pais, tendo desembarcado no Porto Do Rio de Janeiro em 14 de
Abril de 1891, de bordo de vapor Aquitania. Sua família instalou-se, depois, em
Salto.
Desde menino, quando desempenhava as funções de acendedor
dos poucos lampeões a gás que existiam na então vila do Salto de Ytu, revelou
sua paixão pela música. Sua iniciação musical deveu-se ao Sr. José Francisco de
chagas que, anos mais tarde, viria se tornar seu sogro. Em seguida ingressou na
antiga Banda de Itu e, sob a regência e orientação do maestro João Narciso do
Amaral terminou a primeira fase de seus estudos musicais. A partir daí, e
apesar de todas as dificuldades e limitações da época, com grande entusiasmo dedicou-se
ao estudo da musica tendo efetuado cursos de composição e regência. Integrou
também a afamada orquestra do Dr. Viscardi, a orquestra N.S. Monte Serrat.
Muito cedo ingressou na Banda Musical saltense onde, graças
a seus conhecimentos musicais e entusiasmo galvou vários postos até assumir a
regência, que exerceu por cerca de 50 anos.
Sob sua batuta a Banda Musical Saltense conheceu uma fase
áurea conquistando inúmeras honrarias tendo sido uma das principais bandas
civis do país.
Quando das comemorações do Centenário da Independência, em
1922, por convite especial do Maestro Capitão Joaquim Antão Fernandes, Inspetor
Chefe da Famosa Banda de Música da Força Publica do Estado de São Paulo, a
Banda Musical Saltense realizou vários concertos na capital contando com um
invejável elenco de mais de 50 figuras, superado apenas pelas Bandas Marciais.
Sob a regência do Maestro Castellari, Felício Massela, Antonio Pereira de
Oliveira (totico), Mauro Fabri, João Padovani, os Vitale (Guerino, Domingos e
Reynaldo) e tantos outros abnegados e entusiastas.
Além da regência, o Maestro Castellari auxiliado pelo seu
filho Luiz, ministrou ensinamentos musicais a inúmeros jovens saltenses tendo,
vários deles, vindo a se destacar na música como, por exemplo, o Maestro
Norberto Florindo, o Américo Mencarelli, o Manoel Antiqueira, etc.
O maestro castellari foi ainda um inspirador compositor de
muitas peças musicais, a maioria delas ainda inéditas. É considerada sua obra
prima o poema musical sobre costumes regionais intitulada “Uma Festa de S. João
na Roça”. Essa peça teve sua primeira audição – conforme registros da imprensa
da época – no dia 25 de fevereiro no campo do “Ítalo Futebol Club”. Dela
participaram mais de 100 figurantes, inclusive muitos garotos que, pendurados
nos galhos das árvores com assobios imitavam o canto dos pássaros na cena da
alvorada. Entre os presentes se destacavam o Capitão Joaquim Antão Fernandes e
o maestro Savino Di Benedictis, do Conservatório Dramático e Musical de São
Paulo e autor do premiado poema sinfônico “Centenário”. Grande foi o sucesso
dessa apresentação que mereceu elogios da crítica musical dos Jornais da
Capital. Posteriormente, ocorreram várias outras apresentações da peça graças a
grande aceitação verificada junto ao público.
A par de suas atividades musicais, o Maestro Castellari foi
ainda um dos pioneiros da engenharia civil em Salto. Autodidata, e com muito
esforço, ele logrou obter seu Registro no Conselho Regional de Engenharia e
Arquitetura. Em 1932, a pedido do então prefeito municipal Major José Garrido,
ele procedeu ao primeiro levantamento topográfico-militar do município.
Posteriormente elaborou também a primeira planta de ruas da cidade.
O maestro Henrique Castellari faleceu em 19/12/1951, tendo
deixado um enorme lastro de realizações em prol da cidade que, desde menino,
ele adotou e tanto amou.
Casado com Dna. Luiza Izabel das Chagas Castellari, nhá lú,
como era conhecida, teve vários filhos tendo três deles se destacado também na
música: Luiz, José Maria (Zezé) e Henrique Jr. (Henriquinho) que foram ativos
participantes da vida musical da nossa terra.
O
BOI CHIBARRO
(Pesquisa
e redação de Eduardo Castellari)
 |
Boi chibarro. Acervo da Família Castellari, s/d. |
Há ocasiões em nossa vida em que, sem uma razão muito
lógica, certas lembranças voltam à baila e ficam martelando nossa memória. Foi
o que aconteceu comigo. De repente, sem saber bem porque, lá estava eu
lembrando, ou tentando lembrar de fatos ocorridos com o Boi Chibarro.
Por quê? Sei lá. O que sei é que de repente chibarro deixou
de ser um simples nome perdido na lembrança de minha infância. Lembrança muito
vaga, é verdade, mas que foi tomando vulto à medida em que crescia minha
curiosidade e meu interesse. E parti então para as conversas com os antigos
moradores da cidade. E o que era simples curiosidade passou a ganhar vulto e
interesse.
Localizei, então, uma crônica escrita por meu saudoso irmão
Zezé, publicado há anos no jornal “O Liberal” e entrevistei vários dos nossos
conterrâneos que foram contemporâneos dos fatos. Suas narrativas me
impressionaram bastante; À medida em que falavam seu entusiasmo crescia e eles
gesticulavam, entonavam a voz, dramatizavam mesmo as narrativas, numa prova de
que o Boi Chibarro realmente marcou as suas lembranças.
Este trabalho visa um único objetivo: perpetuar a lembrança
do Boi Chibarro e seus toureiros que passara, a fazer parte da historia de
Salto. Na transcrição dos depoimentos (sempre entre aspas) procurei manter a
singeleza das narrativas, suas espontaneidades e seu sabor local.
“Boi Chibarro era boi de Jose Pereira. Boi de carro, manso,
grandão, com dois ”baita” chifres. Ele era cinza, meio avermelhado. Por isso
seu dono chamou- o chibarro (que quer dizer cor de barro)”.
“Quem passava beirando a cerca da Fazenda Boa Vista sempre
via aquele boizão pastando sossegado. A gente podia passar perto que ele nem
ligava. Não tinha perigo. Muitas vezes ele pastava também perto do Ajudante,
nas terras do João Galvão. Lá onde hoje está a Vila Romão”.
“O dono do Chibarro era o José Pereira, oleiro nas terras
do João Galvão. E ele usava o Chibarro para puxar o carro com tijolos até a
cidade. Quem via não podia imaginar como ele virava fera nas touradas”.
“E era assim: quando chegava a Festa do Salto, Chibarro
virava boi de tourada. O mais famoso e feroz de todos aqueles que por aqui
passaram”.
“Nos dias de tourada, Chibarro era levado para a arena e os
toureiros, todos enfeitados, desfilavam pelas ruas da cidade acompanhados pela
Banda do Castellari, até o circo armado em frente à igreja de N. Sra. Monte
Serrat”.
“Eu me lembro muito bem das tardes de touradas. Logo depois
do almoço o povo ia tomando seus lugares (quando Chibarro ia ser toureado, os
ingressos esgotavam logo). E a Banda dos Castellari animando a festa com
dobrados, valsas, xotes... um mais bonito que o outro”.
“Um dia Luiz Toureador quis pegar o Chibarro à unha e
pegou-o de mau jeito. O Chibarro ergueu a cabeça e o Luiz ficou pendurado no
chifre. Ele foi contra a cerca e se o Luiz não fosse esperto e saísse correndo,
o boi prensava-o na cerca”.
“Antes de soltar o Chibarro na areia, eles pediam para todo
mundo se afastar da cerca que era para deixar espaço para os toureiros subirem
na hora do aperto. E quantos não saíram voando por cima da cerca fugindo das
chifradas do Chibarro! Criançada, então, pai nenhum deixava chegar perto. Era
um perigo. E aquele boizão ficava raspando o chão com a pata, fungando... e o
povo delirava”.
“Ele era muito perigoso, malicioso e terrível porque era
muito toureado. E até parece que quanto mais toureavam, mais ele ficava
perigoso porque ia aprendendo as manhas. Ele ameaçava investir na capa e, na
hora “agá”, quando o toureiro capeava pro lado, ele ia em cima do toureiro. Por
isso muita gente saiu ferida pelos seus chifres”.
Poucos foram os que tiveram a coragem de pegar o Chibarro a
unha. E os poucos toureiros que realizaram a façanha ficaram famosos e tiveram
seus nomes marcados na história das touradas locais:
“O primeiro que conseguiu pegar o Chibarro à unha foi o
famoso Luiz de Nhá lú, que depois foi chamado Luiz toureador. Seu nome
verdadeiro era Luiz Gonzaga. Ele ficou em pé, em cima de uma cadeira, e quando
Chibarro veio ele se lançou por cima e agarrou firme os cornos da fera. Isso eu
vi”.
“O segundo que pegou o Chibarro à unha foi o João Corajoso,
um Espanhol que andava por estas bandas naquela época. Depois veio o Menilique”.
“Lembro uma vez, o Luiz Toureador – que era um caboclo
forte como quê pendurado na cabeça do Chibarro, agarrado aos seus chifres. E
Chibarro, acostumado à canga, abaixando e levantando a cabeça com o toureiro
pendurado”.
“Uma vez eu vi o Luiz Toureador sair correndo e o Chibarro
atrás. Luiz tentou subir na cerca mas
não deu tempo. Chibarro pegou-o por baixo e jogou o toureador para fora da
arena, por cima da cerca. Luiz se machucou todo. Eu me lembro bem. Eu era moço
novo, podia ter uns 18 ou 20 anos. Eu nasci em 1902 e isso foi em 1920 ou 22.
Por aí”.
“Eu vi Chibarro ferir muito toureador. Uma vez eu vi o Luiz
Toureador errar uma pegada à unha. Aí então ele quis fugir e o Chibarro
pegou-ode jeito e deu-lhe uma violenta cabeçada e jogou-o bem longe. O Luiz
ficou muito machucado e durante um bom tempo andou de muleta pela cidade. Isso
foi no ano de 1918 mais ou menos. Eu me lembro que foi antes do Castellari ir
pra São Paulo com a Banda”.
“Consta que, uma vez, para poder tourear o Chibarro, amarraram
seu tornozelo com arame e apertaram com alicate. Um toureiro que tentou pegar o
Chibarro à unha saiu mal e o boi pegou-o pelos chifres. Esse toureiro ficou
marcado pelo resto da vida e nunca mais pôde tourear”.
“Eu vi uma vez o Luiz Toureador pegar o Chibarro à unha, de
costas, e sentado numa cadeira. Para pegar o boi foram precisos quatro homens
fortes segurar os chifres, dois de cada lado. O boi era muito forte. Isso foi
entre 1921 e 1922”.
“Uns toureiros de fora duvidaram das histórias do Chibarro
e vieram aqui para toureá-lo. Mas não conseguiram fazer o que pretendiam. O
Chibarro deixou muitas saudades. Por isso eu dei o nome de Chibarro para um
boizinho vermelho que eu tenho lá no sítio”.
“Eu vi tourearem o Chibarro. Luiz lutou muito com ele.
Primeiro pegou à unha e começou a torcer o pescoço do boi, devagar até o
Chibarro deitar no chão. Luiz venceu um gigante de 25 arrobas. Isso foi antes
de eu ir morar em São Paulo. Eu mudei prá lá em 1922. Foi mais ou menos em 1920
ou 1921”.
“Os melhores toureiros eram o Luiz e o Menilique. O povo
gritava: Pega à unha! O Luiz para fazer bonito prá sua amada, fez uma bonita
pegada: ajoelhou-se e pegou o Chibarro à unha. O Menilique era um pretinho
baixo mas muito ligeiro. Na época eu tinha 16 anos mais ou menos. Eu nasci em
1906”.
Acabado o espetáculo, José pegava o Chibarro e saía do
circo em passos lentos. Chibarro voltava a ser boi de carro. Voltava para a
tranqüilidade do seu pasto e para sua sai de carregar tijolos. Até o ano
seguinte quando ele voltaria a empolgar as platéias das touradas.
Até que um dia, algum malvado amarrou garrochas com bombas
nas suas costas. O Chibarro assustou-se muito e ficou com medo de bombas. Daí
para frente não deu mais para tourear o Chibarro. E ele foi passando para
outros donos.
E veio o seu triste fim...
Um dia chibarro foi levado ao Matadouro. Quando o povo
soube disso se juntou, protestando, em frente ao Matadouro.
“Eu era moço novo e assisti a tudo. Eu vi o Chibarro sair
da mangueira grande e subir aquele corredor que levava onde o gado era abatido.
E aí acabou o Boi Chibarro. O povo em frente ao matadouro
ficou muito triste. Uns xingavam, outros praguejavam...”
Durante muito anos ainda Chibarro ficou na lembrança de
todos. Muitos açougueiros mantinham uma foto do boi à vista dos fregueses. E,
com o Boi Chibarro, acabou uma era na vida da pacata Salto de outrora. Outros
bois vieram depois, outros toureiros surgiram. Mas nenhum deles superou o
lendário Boi Chibarro.
Fontes: crônica de J. M.
Castellari,
publicada no jornal “o liberal” e
depoimentos de antigos moradores
de
Salto”.
A
MAIS BELA “PEGADA A UNHA”
QUE
JÁ HOUVE AQUI NO SALTO
Essa história era narrada pelo sr. José Lobo, antigo músico
da Banda Musical Saltense, que assistiu ao grande espetáculo desta bonita
“pegada à unha”.
Era tão grande o seu entusiasmo que ele gesticulava
imitando os gestos do famoso Luiz Toureador.
Esse Luiz Toureador, que na verdade se chamava Luiz
Gonzaga, dizem que veio de Tatuí para uma tourada aqui no Salto. Gostou tanto
da cidade que acabou ficando para sempre. Ele tocou na Banda do Castellari e,
quando encerrou sua careira de toureador, foi trabalhar na Brasital. Quando
aqui chegou ele já era um toureador profissional famoso por reunir muita
técnica e coragem. Sua fama espalhou-se por todo o Estado de São Paulo. Tanto
que, nos intervalos das touradas aqui do Salto, ele viajava muito apresentando
seus espetáculos.
Luiz Toureador se destacava principalmente pela sua grande
especialidade: pegar o touro a unha além da elegância e coragem de suas
“capeadas”. Ele era também um exímio montador de bois.
Naquela época havia aqui no salto um touro também muito
famoso: o Boi Chibarro. O Chibarro, boi perigoso e matreiro, era especialista
em enganar os toureadores: quando parecia que ele ia investir ele negava, para
no instante seguinte investir furiosamente. Ao pobre toureador, pego de
surpresa, só restava correr e subir logo na cerca, para se livrar dos chifres
do Chibarro. E o povo, vendo o temor dos toureadores sentados na cerca gritava
“desce. Desce. Desce!”. Chibarro era o terror dos toureadores. Ele entrava na
arena bufando, fungando como uma locomotiva e corria em volta da cerca
procurando combate, sempre com a cabeça erguida e as orelhas atentas ao rumor
do povo.
E, num certo dia, o destino reuniu na mesma arena o grande
Luiz Toureador e o terrível Boi Chibarro. Era um duelo de gigantes! E lá estava
o Luiz Toureador sentado na cerca olhando para o Chibarro que, que muito bravo,
bufava desafiando a todos.
Então, sem que ninguém esperasse, o Luiz Toureador saltou e
correu para o centro da arena.
Lá ele se ajoelhou e ficou imóvel, de mãos postas, olhando
para o alto como se fosse um Santo num momento de oração!
O povo emudeceu de surpresa e de temor pela audácia do
homem.
Ao perceber aquele homem lá no centro da arena, o Chibarro
partiu como um raio para cima dele. O povo continuava mudo de espanto.
Quando o Chibarro chegou a apenas alguns centímetros, o
Luiz Toureador num movimento rápido como um corisco, agarrou-se à cabeça do Boi
que saiu pulando e cabeceando. E o Luiz Toureador alí, firme, sem esmorecer,
completando a mais audaz e mais bonita “pegada a unha” de que se tinha notícia
aqui no Salto. Então, o povo explodiu numa algazarra de gritos e aplausos. A
Banda do Castellari também saindo do espanto tocou uma música digna daquele
grande momento de glória.
Nunca ninguém ficou sabendo qual motivo que levou o Luiz
Toureador àquela encenação da grande pegada. Seria uma homenagem a algum
Religioso que estivesse assistindo? Seria o cumprimento de alguma promessa?
Seria uma demonstração de coragem por uma aposta? Quem sabe? O fato é que isto
continuará em segredo para sempre.
O Luiz Toureador foi o toureiro que mais toureou aqui no
Salto, como narrei em outro artigo dedicado ao Boi Chibarro, já publicado.
Tanto o Luiz Toureador como o Boi Chibarro foram
personagens que, à sua maneira, marcaram época na história de nossa terra e bem
que mereciam ter seus nomes perpetuados em algum recanto de Salto. Fica aqui a
sugestão.
E fica aqui também a nossa lembrança e nossa saudade
daqueles tempos em que as touradas era a grande diversão do povo. E nossa
saudade dos palhaços que promoviam as touradas, circulando pela cidade com sua
cantilena acompanhados pela criançada que repetia o refrão:
- “Pisaram na copa do meu chapéu.
Moça bonita não entra no céu.
Pisaram na copa do meu chapéu.
Moça feia não entra no céu.
Pisaram na copa do meu chapéu.
Mulher faladeira não entra no céu!”
AS
TOURADAS
“Pisaram na copa do meu chapéu.
Moça bonita não entra no céu.
Pisaram na copa do meu chapéu.
Moça feia não entra no céu.
Pisaram na copa do meu chapéu.
Mulher papuda também não entra no céu.”
E lá ia o palhaço pelas ruas da velha Salto, promovendo as
touradas que se aproximavam. E a molecada animada atrás, repetindo o refrão.
E a cada ano as emoções se renovando. O povo ansioso queria
saber quem seriam os heróis daquele ano. Quem seriam os toureiros – aqueles homens
corajosos que arriscavam suas vidas enfrentando toda sorte de touros violentos
e traiçoeiros.
Será que vem o Chiquito Parafuso? E o espanhol João
Corajoso, que tinha no sangue a paixão pelas touradas? E o Ramon, o Hídalgo, o
Manuel Torres, o Zezinho, o Braizinho, e o Rapadura? E os famosos Luiz
Toureador e o Menilique? Esses não podiam Faltar.
Cada um com sua especialidade. O Braizinho era capeador. O
Luiz Toureador fazia o público delirar quando pegava o touro à unha. O preto
Menilique, então, esse dava salto mortal com vara de frente e por cima do boi.
O Rapadura dava salto mortal sem vara do lado do boi. O Parafuso dava salto
mortal com vara de frente e por cima do boi! E, mais ousado, às vezes
enfrentavam o bóie, quando este abaixava a cabeça para investir, ele
rapidamente pisava na cabeça do boi e pasmem caminhava pelas costas dele até
pular no chão, por cima do rabo.
Mas havia sempre os acidentes. Uma vez o Menilique errou e
apoiou a vara muito próximo ao boi, que bateu com a cabeça nela e desequilibrou
o toureiro. Menilique, coitado, caiu com o rosto sobre os chifres do boi e
sofreu violenta dilaceração. Apareceu até o osso, branco, ressaltando sobre sua
pele escura.
Dizem os antigos que o preto Parafuso foi o melhor toureiro
que andou por estas terras. Elegante e perfeito em suas manobras ele lidava com
os bois como se brincasse com um manso cachorrinho.
E para a criançada o bom mesmo eram os intervalos das
touradas: palhaços com roupas largas e cheias de palha simulavam toda sorte de
acidentes com os bois. Eram chifradas, coices, cabeçadas, etc. que arrancavam
gostosas gargalhadas do público.
Até toureiros estrangeiros que estiveram por aqui. Foi a
companhia espanhola “Circo de touros de la Madrid”, com pessoal ricamente
vestidos à moda das touradas de Madrid.
De todos os toureiros que fizeram nome por aqui apenas o
Luiz Toureador morava no Salto. Seu verdadeiro nome era Luiz Gonzaga e tocava
sax harmonia na banda do Castellari. Depois que abandonou as touradas, ele foi
trabalhar na Brasital.
O GRANDE ESPETÁCULO DA NATUREZA
O nosso rio Tietê foi um rio de muita água, límpida e sem
poluição. Eu ainda menino, tive satisfação de vê-lo assim. Hoje, quando vejo o
nosso rio sujo, poluído e sem vida... quanta tristeza... quantas saudades...
Lembro-me muito bem de um grande espetáculo da natureza que
tive a oportunidade de presenciar nos idos de 1929.
Naquele tempo, a cidade era pequena e calma e o barulho da
cascata era ouvido em toda a parte.
No final daquele ano fortes e prolongadas chuvas caíram nas
cabeceiras do Tietê e o volume de suas águas aumentou enormemente e os
saltenses puderam então presenciar um grande espetáculo (que narrarei a seguir)
amenizando um pouco as dificuldades da grande crise financeira.
Aos domingos, por volta das 8 ou 9 horas o povo já começava
a chegar e a ponte pênsil ficava lotada. Para além da ponte e até a gruta,
próxima do teleférico, as pessoas procuravam os melhores lugares para apreciar
o grande espetáculo da cascata.
O rio, correndo com grande velocidade e enorme massa d’água
se contorcia entre as pedras, levando enormes ondas, espuma e garoa por todos os
lados.
Os pescadores não se cansavam de puxar suas redes cheias de
peixes, qual o “milagre dos peixes” quando S. Pedro lançou sua rede ao mar.
O arco-íris aparecia logo que o sol despontava dando mais
colorido ao espetáculo.
O sol, majestoso, clareava o palco do rio volumoso com o
cenário das monumentais pedras de granito emolduradas pelo verde da mata.
A revoada dos taperás começava! Voando baixo ou alto em círculos,
sempre cantando, eles circulavam por todos os lados num majestoso espetáculo de
ballet. Era impressionante” A gente sentia sua alegria em poder voar e cantar
no meio daquelas nuvens de garoa da cascata. Eram centenas, talvez até milhares
de taperás numa grande demonstração de acrobacia aérea. Outros então, preferiam
pousar e se agarrar às pedras e debaixo da ponte para receber os borrifos da
água. As pedras chegavam a ficar escuras tantos eram os taperás pousados.
E o grande espetáculo se completava com o ballet dos
peixes! Centenas deles, em grandes cardumes, tentavam subir o rio e saltavam sobre
as corredeiras. E ao saltar, a luz do sol, refletindo neles, enchia o rio de
centenas de faíscas prateadas e douradas – quer saltando sobre as ondas, quer
pulando sobre as pedras quando a água baixava. Eram grandes cardumes de
lambarís, piavas, piquiras, mandis, mandijubas, etc. E, soberano e majestoso, o
dourado se sobressaía dentre todos com seu grande tamanho, sua cor amarelada
que brilhava ao sol como se fosse de ouro.
E havia outros participantes do espetáculo: o Martim
pescador que ficava pousado sobre as pedras pronto para entrar em ação. Ao
vislumbrar algum peixe em posição favorável ele, numa fração de segundo
mergulhava e logo voltava com um peixe no bico.
Também os grandes lagartos (que habitavam as pedras da
cascata) eram destaque no espetáculo.
Eles ficavam se imóveis com a cabeça levantada. Vinha uma
onda e cobria a pedra, quando a onda baixava muitos peixes ficavam se debatendo
sobre a pedra procurando voltar para a água. E o lagarto aproveitava para
abocanhar sua refeição. Depois de saciada a fome eles então procuravam uma
pedra mais alta e seca e ao sol dormiam tranqüilamente sem se importar com o
que acontecia ao seu lado.
Esse espetáculo se repetia durante todo o dia, variando
apenas as nuances de cores, conforme o sol caminhava pelo céu.
E à tardinha, quando o sol começava a se aproximar do
horizonte, o rio começava a mudar de cor, acentuando o reflexo do verde das
matas laterais. As rãs e sapos começavam a coaxar com suas vozes diferentes e
características.
O sol apagava lentamente sua luz... e o luar e as estrelas
iam despontando no céu. Tudo escurecia. Era o grande final do espetáculo, que
se repetiria no dia seguinte. Beleza igual, será muito difícil a gente voltar a
ver.
Beleza igual, somente lá no céu. E, como diziam os antigos:
“No céu, no céu com minha mãe estarei”.
O
GIGANTE SALTENSE - SALTO ANTIGO: 1913
Vivia atrás da Igreja Velha De Salto um gigante.
Todos tinham muito medo dele. Alguns trocavam de calçada e
outros se benziam. Ele não mexia com ninguém. Dois anjinhos vieram chorando e
contaram que estavam olhando por baixo do pano de circo e um soldado deu uma
refada nas costas deles. O gigante embraveceu, olhou para o alto e o céu
escureceu. Ele saiu gritando: “Venham que eu quero dar de comer para as aves do
céu”. Desceu jogando tudo o que encontrava pela frente: carrinho de pipoca, de
algodão doce, etc.. No circo, a Banda do Castellari era ouvida de longe.
O gigante foi até a porta do circo e começou a briga; a
briga do homem conhecido como Miranda. Miranda era um moço bom, mas não levava
desaforo para casa. Eu sou contra qualquer violência. Devemos respeitar a
policia, a Guarda Municipal e os vigilantes noturnos. Eu conto este caso apenas
por motivos históricos.
O Miranda estava atrás da igreja velha e dois meninos
vieram chorando contar que estavam olhando por debaixo do pano do circo e veio
um soldado e deu uma refada nas costas deles. O Miranda, então foi até o
Cortiço do Caetaninho, onde morava, pegou o relho e foi até a porta do circo,
onde começou a luta. Ele chegou e já foi dando com o relho nos soldados que lá
estavam. Eram 4 ou 5 soldados da Milícia. Tinha soldado que não sabia o que
estava acontecendo. Para se defender, sacaram o refe. As pessoas que estavam na
porta do circo, foram se afastando e ficaram olhando de longe. A banda do
Castellari tocava uma valsa e dentro do circo toda a atenção era para uma
mulherona bonita que trabalhava no arame. Só se ouvia o estralo do relho e o
tinido dos refes.
Miranda passava o pé e fazia os soldados virarem de pernas
pro ar. Não contente, ele avançou dando socos derrubando os soldados no chão,
atordoados.
Os soldados se levantaram e resolveram matá-lo. Foram se
armar com revólveres e saíram a procura do Miranda pela cidade. Um deles o
encontrou ao lado da igreja. Deram dois tiros mas erraram e quase acertaram uma
mulher que estava na janela de sua casa.
No dia seguinte, o Miranda se apresentou ao Delegado de
Polícia e o caso foi dado por encerrado.
Os tiros que quase acertaram a mulher na janela fizeram
buracos na parede. O dono da casa não deixou mais consertar a parede para ficar
como lembrança do episódio. A casa não existe mais pois demolida.
ESTÓRIAS
DE LOBISOMENS
Existe uma crendice popular que diz que algumas pessoas, em
determinadas condições, se transformam em lobisomens. Essas condições, porém,
nunca ficaram muito explicadas. Dizem, por exemplo, que a mudança ocorre nas
luas novas enquanto que outros dizem que é na lua cheia. O fato é que a
crendice é muito forte, principalmente entre os moradores do interior.
Existe até uma tentativa de se dar uma explicação
científica para o fato: seria uma doença mental chamada Licantropia, de origem
genética.
Essa doença, durante suas crises, provoca alucinações, e a
pessoa atacada começa a ver crescer pêlos e rabo em seu corpo e unhas de
cachorro em seus dedos. Daí a ilusão de ter virado cachorro e ela passa então a
latir, uivar, andar “de quatro”, a comer carne crua e a rolar pelo chão como
fazem os cães. Esses sinais começam a desaparecer quando a crise começa a passar.
Há ainda alguns tipos que se julgam mudados em porcos.
Essa moléstia, então, provocou o surgimento da lenda do
lobisomem, e os casos eram agravados pelo exagero popular nas narrativas. Em
Salto ocorriam muitos casos de licantropia porque, naquela época era muito
grande o movimento de migrantes vindos, muitas vezes, de pequenas colônias onde
eram comuns os casos dessa doença.
Salto antigo, uma pacata cidade com cerca de 5 mil
habitantes em 1920, onde tudo ocorria monotonamente, sem muitas novidades, propiciava
condições para que muito se falasse em lobisomens.
O povo, em geral, vivia numa rotina pacata sem muitas
opções de lazer. Durante a semana, após o trabalho, o povo assistia à “reza”
que era a única atividade possível. Fora disso ficava-se em casa conversando e
contando “causos” e, é lógico, sempre apareciam as estórias de lobisomem. Aos
sábados e domingos, o povo tinha outras opções: de dia, circo ou touradas
(quando havia), futebol, caça ou pesca e à noite concertos de banda.
Mas era nas noites solitárias da semana que as coisas se
complicavam. Como é comum, nessas noites, costumava-se ouvir latidos e uivos
pelos quatros cantos da cidade, para além das “7 casas” da Vila Teixeira, do
Pavilhão, da Chácara do Castellari na vila nova.
E aí o povo começava a associá-los aos lobisomens. Para
agravar a situação, quem morava perto do cemitério ouvia ainda o tilintar
provocado pelo vento nas flores das coroas fúnebres (que naquela época eram
feitas de chapas de lata recortadas). Dizia-se, então, que os mortos lá
sepultados, estavam chamando a atenção porque queriam alguma coisa.
Tive a curiosidade de pesquisar o assunto ouvindo muitas
narrativas de casos havidos aqui no Salto. Alguns desses casos eu narro a
seguir, com a única intenção de registrar fatos folclóricos que fizeram parte
de nossa vida.
1- Uma senhora foi casada com um lobisomem e não sabia. Por
isso, o marido fazia questão de dormir em quarto separado. Naquela época as
mulheres costumavam usar chalés de lã compridos e com franjas nas pontas. Numa
noite de lua cheia essa senhora vinha voltando da reza e foi atacada por um
lobisomem o bicho agarrou o chalé com os dentes, mas a mulher reagiu, puxou o
chalé e saiu correndo assustada. Voltou para a casa e se trancou no seu quarto.
No dia seguinte ela foi contar o caso para o marido. Ele olhou para ela e
sorriu, quando então a mulher viu os fios da franja de seu chale presos entre
os dentes do marido. A mulher ficou tão apavorada que saiu correndo e nunca
mais voltou para casa.
2- Numa fazenda, uma família de imigrantes italianos
trabalhava duro de sol a sol. Num determinado dia decidiram ir trabalhar no
galpão até mais tarde para preparar a colheita do dia seguinte: apenas um dos
membros da família – um jovem – não quis ir. Era noite de lua cheia. No caminho
para o galpão apareceu um cachorrinho acompanhando-os. Ele foi enxotado, mas se
recusava a fugir. Então, um homem do grupo deu uma varada nas costas do
cachorrinho que saiu correndo e uivando a sumiu no mato. No dia seguinte, o
jovem, que não foi trabalhar, apareceu com um enorme vergão nas costas e disse:
“Olha o que vocês fizeram comigo ontem à noite”.
3- Dizia-se que para conhecer quem é lobisomem basta
oferecer um pouco de sal. Numa noite, uma mulher sentiu-se incomodada por ouvir
uivos de lobisomem na porta das casas. Abriu a janela e ofereceu sal e foi se
deitar. No dia seguinte, logo cedo, bateram à sua porta. Ela atendeu e um homem
disse: “Eu vim buscar aquilo que a senhora me ofereceu ontem à noite”. Ela
respondeu que não tinha para dar. O homem então ficou muito bravo e disse: “A
senhora nunca mais ofereça a alguém aquilo que a senhora não tem”.
4. As pessoas tinham muito medo de lobisomens. Para quem
trabalhavam à noite era um sofrimento quando voltavam para casa. Em geral
caminhavam pelo meio da rua, em passos largos, com medo de virar a esquina e
dar de cara com um lobisomem “de quatro” e uivando. Numa noite o fato
aconteceu. Um certo cidadão foi atacado por um lobisomem e voltou correndo para
a casa e de tão aflito que estava não conseguiu encontrar o buraco da
fechadura. Sua mulher que já o esperava veio salvar-lhe e abrir a porta.
5- Em casa onde tinha lobisomem (algumas casas tinham até
dois) a mãe costumava sempre manter a porta fechada com chave e nos portões do
corredor externo punha sempre um cadeado. É que, segundo se dizia, lobisomem
não sabe abrir fechadura. Quem passava pela rua ouvia latidos e uivos, achava
que era bebedeira dos moradores.
6- Um antigo morador contava que perto de sua casa havia um
homem que se transformava em lobisomem-porco. À noite ele saia correndo e
gritando pelas ruas assustando todo mundo. No dia seguinte ele aparecia cansado
e ofegante, roncando com voz grave e compassada.
7- Antigamente dizia-se que para saber se alguém era ou não
lobisomem bastava olhar com atenção o cotovelo. Se a pele do cotovelo for
grosseira e enrugada era lobisomem na certa, porque os lobisomens costumavam
andar “de quatro”, o que deixava marcas na pele.
Hoje em dia não existe mais lobisomens porque a doença de
sua origem, a licantropia, é curável em virtude do avanço da medicina.
Antigamente não havia essa cura: quem nascia doente ficava doente a vida
inteira.
A
GRANDE FIGUEIRA
Nos dias de hoje muito se fala em ecologia e preservação de
árvores. Por isso, num dia destes, veio-me à lembrança um verdadeiro crime
ecológico ocorrido aqui em Salto, há cerca de 70 anos.
Naquela é poça, vicejava aqui em Salto uma frondosa
figueira, já com seus 200 ou talvez 300 anos de existência, muito maior – mais
alta e mais copada – do que o também famoso “arvão” que existia atrás do Grupo
escola. De quase todos os cantos da cidade sua majestosa copa era vista,
balançando suavemente seus galhos ao sabor dos ventos. Como era linda!
Essa frondosa figueira localizava-se na confluência da rua
de Campinas (hoje 9 de julho) com a rua Atraz do Céu (Hoje Av. D. Pedro II), no
quarteirão onde está o prédio da Associação Comercial. Toda essa área era,
então, ocupada por um imenso cafezal, ou o que restava dele: tudo velho e
abandonado depois de queimado pela grande geada de 1918. Nessa época servia
apenas de campo para os habitantes que dele tiravam lenha para seus fogões.
A enorme sombra que a figueira projetava abrigava sempre
dois carroções de carne e um carro fúnebre (puxado por cavalos) como nos
contava seu proprietário, o saudoso sr. Pedro Pollo. (Sua família tinha vindo
de Capivari em 1913 e de lá trouxeram o carro fúnebre que passou a atender aos
féretros de Salto e de Itu). O pitoresco, como narrava o sr. Pollo, é quem à
noite, o carro fúnebre era muito disputado pelos pobres “sem teto” da época,
para nele dormirem à falta de melhor teto.
Ainda hoje, quando passo por essa esquina, olho para o alto
e fico relembrando aquela beleza toda balançando suavemente seus galhos. Quanta
saudade...
A região era muito deserta. Para se ter uma idéia, da
figueira até o cemitério velho, na Vila Teixeira, pela atual Av. D. Pedro II,
existia apenas a cãs do citado sr. Pollo e, próximo à rua descia em direção à
igreja mais umas 8 ou 9 casas. Descendo essa rua, ao lado da Igreja mais
algumas casas. O restante era tudo campos. Também para os lados da antiga
cadeia e Grupo Escolar, apenas 2 ou 3 velhas casas.
O crime ecológico a que me referi no início da crônica
ocorreu em 1925, quando do início da construção das casas da Vila da Brasital.
Sem nenhuma necessidade puseram abaixo a grande e bela figueira. Em poucas
horas, centenas de ano de vida vegetal foram destruídos. Já imaginaram a
quantidade de pássaros que perderam seus abrigos e fonte de alimentos?
Não houve nenhuma razão lógica para essa derrubada. A
arvore estava fora do alinhamento das ruas e poderia ter sido preservada.
Bastaria ter se deslocado o alinhamento das casas em apenas uns 15 metros.
Falta de espaço não poderia ter sido alegada porque havia muito terreno em
volta e a preços muito baixos.
Para se ter uma idéia dos custos de terrenos, cinco anos
antes – em 1920 – o Castellari adquiriu dos irmãos Estevão, uma área de terra
por “2 contos de réis” e em prestações, para nela formar a sua chácara. E essa
chácara, como muito lembrarão, se localizava na rua de Campinas, em direção a
Indaiatuba e bem acima do local da figueira (onde hoje está a Travessa Maestro
H. Castellari). Mais tarde, para aumentar a sua chácara ele adquiriu mais um
lote de terra pelo valor de “1 conto de réis” (Nesse lote existia uma casa de
pau a pique onde morava Nhá Emilia e seu filho, conhecido por Ditu Gudú).
Defronte a esse casebre existia uma porteira e daí para cima eram todas terras
dos irmãos Estevão, cortadas pelo caminho de Campinas, em sua maior parte
percorrida por boiadas e tropas de burro. Terra havia à vontade.
Longínquos e bons tempos aqueles.
Em andanças pelos arredores da cidade com o meu pai (que
era agrimensor) quanta coisa interessante eu testemunhei na natureza. A caçada
do “gavião peneira” – assim chamado porque quando vislumbrava sua caça ficava
pairando no ar, batendo suas asas como se estivesse peneirando algo, até o
momento propício do mergulho fulminante e a volta para o espaço com a caça nas
garras, fosse ela um coelho, um calango, um rato ou até mesmo uma pequena
cobra.
Lembro-me também que na chácara do Castellari era comum
enorme borboleta de cor negra com as asas na cor azul na parte de cima. Quando
ela movia as asas o resultado da combinação dessas cores era deslumbrante.
Nunca mais eu vi esse tipo de borboleta. Talvez tenha sido extinta pela ação
predatória do homem.
Outra recordação: pelos lados da “água do Bom Retiro”
existia uma variedade muito grande de frutas silvestres. O que mais me chamava
a atenção era um tipo de abacaxi silvestre pequeno e muito doce, conhecido por
ananás. Na época de sua maturação era muito procurado por pessoas da cidade.
Salto era então cidade de sítios e chácaras, algumas delas
conhecidas pitorescamente por nomes associados aos apelidos de seus
proprietários, como por exemplo, Sítio do Careca, Sítio do Cabelo Vermelho,
etc. O que marcou mesmo, e agora voltou-me à lembrança foi o episódio da grande
figueira.
Na época houve muita repercussão entre os antigos moradores
da cidade pois era opinião unânime que não havia nenhuma necessidade de seu
corte. Foi mais um dos inúmeros crimes ecológicos.
Tivesse sido preservada – com um lindo jardim em sua volta
– e com toda a certeza ela ainda hoje estaria em seu canto – agitando suavemente
sua frondosa copa, dando abrigo e alimento à passarada alegre e sua sombra
amiga para os homens – como mais um marco turístico de nossa querida Salto.
Nota: A crônica acima foi baseada em lembranças de minha
meninice e em depoimento de muito dos antigos moradores da cidade.
Salto,
7 de janeiro de 1993
Ilmos.
Srs. Diretores da
FUNDAÇÃO
SOS MATA ATLÂNTICA
R.
Manoel da Nóbrega, 456
04001-082
– São Paulo
Prezados
Senhores,
Para
conhecimento de V. Sas., estou anexando um recorte do jornal “O Taperá”, desta
cidade, edição de 24 de outubro [ultimo, no qual foi publicado um artigo de
minha autoria intitulado “A Grande Figueira”.
Trata-se
de uma modesta contribuição que pretendi dar ao excelente trabalho de defesa do
meio ambiente que vem sendo desenvolvido por muitos cidadãos e associações,
principalmente a SOS Mata Atlântica.
Aliás,
com grande satisfação posso dizer que este meu modesto trabalho alcançou o seu
objetivo, pois foi muito boa a sua repercussão junto à sociedade saltense,
inclusive junto aos jovens, marcando sua consciência para os problemas
ecológicos.
Sem
mais, aceitem meus sinceros cumprimentos.
Atenciosamente
Eduardo Castellari
Rua 9 de Julho, 229
13320-000 – Salto – SP
A GRUTA DOS MORCEGOS
Contada por um músico antigo na Banda Saltense, João
Martins.
Ele Dizia ao Maestro Castellari que, segundo se comentava,
essa gruta era tão profunda que ninguém sabia dizer quantos quilômetros ela
teria. Eu não conheço essa gruta, mas vou narrar o que os antigos moradores
diziam.
No tempo da escravidão, um fazendeiro levou um escravo para
essa Gruta, deu-lhe uma corneta, e mandou que ele entregasse pela gruta a
dentro tocando a corneta sem parar. E ficou na boca da gruta ouvindo o “tá, tá,
tá...” da corneta. O escravo foi se aprofundando até o centro da gruta, até que
não se ouvia mais o toque da corneta. Só depois de muito tempo o fazendeiro
começou a ouvir novamente o toque da corneta se aproximando da boca da Gruta.
Eu conversei com um antigo morador do Buru, que disse serem
3 grutas dos morcegos lá na antiga estrada de Capivari. Duas delas pequenas e
uma grande. As duas pequenas tinham mais ou menos 3 metros e meio de
profundidade. A outra, que dizia ser muito funda, tinha mais ou menos 18 ou 20
metros de profundidade. Na frente ela media mais ou menos 3 metros de altura, e
ia diminuindo até 1 metro no fundo.
REMINISCÊNCIAS
SALTENSES
A IGREJA VELHA
Nem tudo que é velho é fraco.
Há muitos anos atrás, quando foram derrubar a Igreja Velha,
aqui do Salto, todos pensavam que ela cairia com um simples empurrão, tamanha
era sua aparência de frágil. Foi tudo ao contrário. Ela estava muito mais forte
do que se supunha. Foi assim: ligaram um cabo de aço entre a parede da igreja e
o caminhão do Salim. Ligaram o motor; o caminhão foi acelerado ao máximo. Mas
todos se decepcionaram: o “tombo” da parede não aconteceu. As rodas do caminhão
do Salim giravam em falso e não saia do lugar. A parede ficou onde estava. Ela
só foi derrubada quando utilizaram a força de um trator.
Mas foi uma pena que essa igreja tenha sido demolida, tal
era sua beleza. Todos os trabalhos de decoração de seu interior foram feitos
por um arquiteto desconhecido, mas apresentava um grande número de obras de
arte, conforme é narrado no livro “A história de Salto” de Luiz Castellari
(pág. 28). Ela foi construída em dois níveis, sendo que no primeiro nível se
localizava a nave principal e no segundo o coro e as entradas para os púlpitos.
(ver foto do seu interior, tomada em 1928, a pág. 13 do mesmo livro)
No Museu de Arte Sacra, em São Paulo, estão expostas duas
imagens provenientes dessa igreja: uma de São Bento e outra de São Sebastião.
São excelentes demonstrações do alto valor artístico de nossa antiga igreja.
Essa igreja foi demolida porque sua estrutura apresentava rachaduras. Pena que
ela não tenha sido simplesmente restaurada como foi feito com a Igreja de Santa
Rita, de Itu.
Se isso tivesse acontecido, ainda hoje contaríamos – não só
com mais um templo católico – como também com uma das mais belas obras de arte
religiosa de nosso passado: a igreja de N. S. do Monte Serrat com seu lindo
interior todo dourado, lindas imagens e belíssimo altar.
ARRANHA CÉU EM SALTO
O comendador Armando Barcello foi o pioneiro na construção
de arranha-céu aqui no Salto.
A GRUTA DA CASCATA
Depois de terminada a revolução de 1932, numa manhã, o povo
de Salto acordou assustado com tiro de
canhão. Ninguém sabia o que estava ocorrendo. Mas não demorou muito e toda a
cidade ficou sabendo: a gruta da cascata havia sido dinamitada.
Houve muita reclamação da população. Todos achavam que não
havia motivo para tal destruição.
Essa gruta ficava perto da cascata. Descendo da ponte
Pênsil, sempre em linha reta existe uma escada. A gruta ficava entre essa
escada e o teleférico, onde hoje se localizava o banheiro público.
Ela ficava de frente para o leitor do rio e era uma
pedreira monumental que poderia ter uns 12 metros de largura por 5 de altura e
2 a 3 metros de profundidade. O que fazia a gruta parecer muito maior era
a enorme pedra que a cobria e se
projetava para a frente formando uma enorme marquize. Essa cobertura era tão
grande que abrigava as pessoas do sol e da chuva.
Aos domingos conjuntos musicais ali tocavam, em belíssimos
espetáculos. Era também um dos lugares prediletos para servir de cenário para
fotografias familiares ou de formatura do Grupo Escolar (Ver foto no Museu da
Cidade).
Até o time de futebol do Ítalo Futebol Clube posou para uma
foto histórica com essa gruta de fundo. Muitas famílias saltenses possuem cópia
dessa foto e seria muito interessante que alguém a cedesse ao nosso Museu.
Dessa gruta não sobrou nada: foi toda destruída pela
explosão da dinamite – não ficou pedra sobre pedra.
Na ocasião, o Castellari apresentou veemente protesto,
dizendo que se praticara um crime contra a natureza: “Desmancharam uma obra de
Deus.”
NEGÓCIOS IMOBILIÁRIOS
EM 1931, O Castellari resolveu fazer um loteamento na Vila
Teixeira, em área de sua propriedade.
Feito o levantamento da área, demarcados os lotes, iniciou-se a venda dos
terrenos. Mas o negócio não foi prá frente porque ele não conseguiu vender
nenhum lote. O motivo foi muito simples: a escritura dos lotes ficava em “500
mil réis” e era muito mais cara que os próprios lotes.
A ONÇA
Este caso foi contado pelo “Dinho” filho do Antonio Pollo e
eu transcrevo na íntegra: “- Na grande crise de 1929 apareceu onça aqui no
Salto. Essa crise deixou muitas pessoas em dificuldades financeiras e alguns na
miséria mesmo. As fábricas passaram a trabalhar apenas 3 dias por semana.
Mas, para a felicidade dos operários da Brasital, a fabrica
cedi – de graça – terra para quem quisesse plantar. Isso era feito nas terras
da Brasital que se localizavam na saída que ia para Itu. Meu pai e meu avô
também fizeram lá uma pequena lavoura para melhorar a subsistência da família.
Um dia, quando iam subindo o caminho para a lavoura, uma
enorme onça, na tocaia, percebeu que eles se aproximavam. Ela saiu correndo e
pulou por cima do caminho na frente deles e sumiu no mato. Imaginem o susto que
os dois passaram”.
O ALARME DAS XÍCARAS
Numa noite do ano de 1929, muitas pessoas acordaram com um
barulho estranho em suas casas: nas cristaleiras, as xícaras tremiam e batiam
umas nas outras sem que se soubesse a razão disso. Depois, portas e janelas
também começaram a tremer. De muitas casas caía o reboque da parede e quadros
caíam das paredes.
Todo mundo saiu apavorado para as ruas. Preces e promessas
eram feitas. Ninguém sabia direito o que se estava acontecendo. O corre-corre
foi grande. A população tomada de pânico não sabia o que fazer nem para onde
ir. Só depois que a situação voltou ao normal foi que se esclareceu o ocorrido:
a terra havia tremido por alguns momentos. Felizmente não houve vítimas e nem
os estragos foram muito grandes. Depois a cidade voltou à normalidade. Ficou
apenas uma assustadora lembrança.
O pitoresco deste acontecimento: naquela noite, alguns
saltenses estavam no Clube Ideal jogando baralho. Nenhum deles notou qualquer
anormalidade. Apenas no dia seguinte vieram tomar conhecimento do ocorrido.
PARA TIRAR O MEDO
Contava um antigo saltense:
“No passado eu morava lá no retiro e, quando chegava o
sábado a turma de lá costumava ir até o Buru para jogar baralho, onde ficavam
até tarde da noite. Eu acompanhava os
amigos mas, como eu não jogava, eu sempre queria voltar antes deles, mas não
tinha coragem. Uma noite eu decidi: Hoje eu vou tirar esse medo. E resolvi
voltar sozinho. Então, saí de lá mais cedo. Na estrada estava escuro, mas tudo
normal. A uma certa altura eu quase pisei num curiango. Ele, assustado, voou
por entre minhas pernas e deu aquele grito forte como é seu costume. Levei um
tremendo susto e também gritei e saí correndo assustado, com o coração batendo.
Que susto, Meu Deus”.
A BONDADE
Dna. Amélia das Chagas, ou “Tia Amélia” como era chamada, era
uma fervorosa devota de N. Sra. Do Monte Serrat e uma daquelas antigas senhoras
dotadas de alto espírito de bondade e de amor pelo seus semelhantes. Apesar de
seus parcos recursos financeiros, ela costumava hospedar, em sua casa, certos
mendigos que sempre batiam à sua porta à procura de pouso e comida por alguns
dias. Sua extrema bondade chegou ao ponto dela adotar e cuidar permanentemente
de uma idosa senhora, de nome Ana, que havia sido escrava e que, talvez em
função de sua idade e das agruras sofridas durante a escravidão, sofria de
algumas perturbações mentais. A ex-escrava Ana ali permaneceu até a sua morte,
alguns anos depois. O féretro de Ana saiu da casa de Dna. Amélia.
A VISITA DE D. PEDRO II
Por 3 vezes o Imperador D. Pedro II visitou nossa cidade. A
3ª. Delas ocorreu em 31 de outubro de 1886, em companhia de sua esposa, a
Imperatriz D. Thereza Cristina. Conforme descrição detalhada feita por Luiz
Castellari em seu livro “A Historia de Salto”, a recepção ao monarca foi
calorosa e festiva. Todo o trajeto a ser percorrido pelos Imperadores foi
enfeitado com florões verdes e flores amarelas de Ipê, além de bandeirinhas e
flâmulas auri-verdes. A tarde, o trem Imperial chegou à cidade sob o espoucar
dos foguetes e acordes do Hino Nacional executado pela Banda Musical Saltense.
Terminada a recepção protocolar, os Imperadores embarcaram na carruagem que os
aguardava. O entusiasmo do povo era tanto que desatrelaram os cavalos e
carruagem foi puxada pelas pessoas até a fabrica a ser inaugurada.
A Banda Musical Saltense acompanhava o cortejo com seus
músicos devidamente uniformizados com calças brancas, paletós pretos, uma rosa
branca na lapela e instrumentos com topes de fitas auri-verdes (conforme
narrativa do sr. João Francisco das Chagas, músico da Banda).
OS IMIGRANTES
O bom humor e o espírito alegre sempre foi ma
característica de um conhecido e saudoso imigrante italiano, que durante muitos
anos manteve seu armazém aqui em Salto. Dele era esta historieta que sempre
contava com lagrimas de saudades nos olhos (apesar de seu fundo humorístico);
“Quando moços, ele e seu irmão decidiram imigrar para o
Brasil a fim de “fazer a América” como se dizia na época, ou seja, trabalhar a
fazer fortuna aqui no Brasil.
Sua mãe não se conformava com a idéia da aventura e chorava
muito de tristeza da eminente separação dos filhos. Eles bem que procuravam
confortá-la acenando com os sonhos de fortuna e breve regresso. Mas nada
adiantava. Mesmo depois de se fixarem aqui no Salto, recebiam cartas de suas
irmãs dando conta da continuidade da tristeza e das lágrimas de sua mãe.
Suas irmãs foram então aconselhadas a procurar uma famosa
vidente (que lá existiam muitas) para tentar consolá-la com alguma boa
previsão.
A vidente, consultando sua bola de cristal disse:
“- Não se preocupe com o futuro de seus filhos. Até os 40
anos eles terão que lutar muito mas ainda serão pobres.”
A saudosa mãe antevendo uma boa previsão disse ansiosa:
“então quer dizer que depois eles vão voltar ricos?”.
Ao que a vidente respondeu: ”-Não. Depois dos quarenta eles
se acostumarão a ser pobres”.
E a pobre mãe voltou a chorar desconsolada...
O SUSTO COM A LUA
Um antigo saltense, cujo nome vamos manter no anonimato,
contou-me o seguinte caso:
“Certa vez, já tarde da noite, montando minha besta eu voltava
para casa, por uma estradinha ladeada por muitas capoeiras.
A certa altura a besta começa a mexer muito com as orelhas:
sinal de perigo à frente. O que me fez suspeitar da presença d algumas fera.
Logo depois a mula empacou. Eu, que já havia percorrido mais da metade do
caminho, mesmo assustado resolvi seguir em frente.
Apeei e comecei a puxar a mula pelas rédeas. De repente,
olho para a frente e vejo um homem parado ao lado de uma árvore. O susto foi
grande. Naquele lugar e numa hora daquelas só podia ser um malfeitor pronto
para me atacar. Assustado perguntei o que ele queria, mas ele nada respondeu.
Aí começou o pior. O homem se escondia para logo em seguida aparecer, mostrando
só a metade do corpo ou só a cabeça, como que preparando o bote.
Mesmo tremendo tomei coragem. Saquei meu revólver e,
resoluto, resolvi enfrentá-lo. Avancei e, quando cheguei bem perto qual não foi
a minha surpresa ao constatar que o “tal malfeitor” não passava da sombra do
luar provocada por um galho da árvore que o vento balançava e, conforme seu
movimento dava a impressão de um homem se movendo.
Desenxavido, guardei a arma, montei a mula e segui meu
caminho.
Porém eu garanto, susto igual eu nunca passei”.
A ONÇA DO BURÚ
Um outro antigo sitiante contou-me:
“Até o ano de 1910, quando eu vim morar aqui no Salto,
havia muita onça lá pros lados do Burú. Próximo da antiga capela, ao lado da
“venda do turco” havia um mangueirão de bois. Logo após alguma chuva, era comum
a gente encontrar marcas das patas de onça no chão de barro.”
O ROLO DE CASCAVEL
Henrique Castellari contava o que foi um doa maiores sustos
de sua vida: na época ele trabalhava na carpintaria da fábrica de papel, onde
era comum aparecer muitas cobras-verdes, que ninguém matava porque não eram
venenosas e ainda serviam para caçar ratos.
Certo dia, quase no fim da jornada de trabalho, de sua
banca de marceneiro caiu uma ferramenta no chão. Ele abaixou-se para apanhá-la
e, que susto: embaixo da banca havia uma enorme cascavel toda enrolada
(formando um grande rolo). Veja o perigo: se, durante o dia alguma coisa
tivesse assustado a cascavel ela fatalmente teria atacado a sua perna. “Foi
Deus que me guardou” dizia ele.
O PRIMEIRO OCULISTA
Aquele imigrante italiano que contava a história da
vidente, narrava também esta:
“Eu fui o primeiro a vender óculos aqui em Salto. Quando eu
vim da Itália, eu era ainda moço e viajava para São Paulo onde comprava uma
cesta cheia de óculos. Então eu separava os tipos “para longe” e “para perto” e
saía a vendê-los pela cidade. Quando alguém se interessava pelos óculos “para
longe” ia experimentando até encontrar um que servisse. Aí eu dizia – é deste
que você precisa. Se a necessidade era “para perto”, eu dava uma revista para o
freguês e ele ia experimentando os ósculos até encontrar um que lhe permitisse
ler ou ver bem as figuras da revista.
Eu sempre vendia os óculos certos sem necessidade de
oculistas”.
A CASCATA
Antigamente, quando a cascata estava cheia. Ela era bem
mais bonita do que a de hoje. A queda d’água ia até em baixo da ponte Pensil.
Para comprovar basta ver o quadro a óleo da cascata, do pintor Flávio Pretti,
que está na Prefeitura.
FUTEBOL
Salto teve muitos futebolistas de destaque que ninguém mais
esquece. Dentre eles, o Amadeu Mosca e o Paulim Monari.
A LUZ ELÉTRICA
O saltense que acendeu a primeira lâmpada elétrica foi o
sr. Manoel Quadros, conhecido como Nequinho da Luz. Nos primeiros segundo d dia
7 de setembro de 1907, o Nequinho subiu numa escada e acendeu a primeira
lâmpada elétrica de Salto, no Largo Paula Souza, hoje praça 16 de junho. A
Banda Musical Saltense executou o Hino Nacional. Seguido por todas as
autoridades presentes, o Nequinho foi acendendo todos os postes da rua da
Matriz até a Igreja. Só depois disso os habitantes de Salto puderam acender as
lâmpadas de suas casas. Estava inaugurada a luz elétrica em Salto.
A MULHER BARBADA
Entre os anos de 1922 e 1924, Salto recebeu a visita da
mulher barbada. Ela se apresentava no antigo Salão do Cine Verdi, com um
vestido bem decotado para não deixar duvidas quanto ao seu sexo.
O pitoresco era que todos os que a viam eram levados a
testar a veracidade de sua barba puxando-a.
PROPAGANDISTA
Antigamente existia em salto um tipo muito curioso: o
divulgador ou propagandistas de eventos. Ele, devidamente fantasiado conforme o
evento, saía às ruas para promover espetáculos de circo, touradas, cinema,
festas e etc. e era acompanhado pela criançada que, alegremente e com grande
algazarra, ia respondendo aos seus refrãos. Um desses refrãos, de que ainda me
lembro era assim:
- Pisei na copa do meu chapéu.
- Moça bonita não entra no céu.
- Pisei na copa do meu chapéu.
- Moça feia não entra no céu.
- Pisei na copa do meu chapéu.
- Mulher faladeira não entra no céu.
A DANÇA DOS TANGARÁS
O castellari contava que, em 1931, ele fez o trabalho de
medição do “mato do Liberatore”, hoje a Fazenda da Brasital. Era uma mata
virgem onde havia muitos animais como onça, porco do mato, capivara, paca,
veado, quati, tatu e etc., além de grande variedade de aves.
O que mais chamou a sua atenção foi a “dança dos tangarás”.
Tangará é uma espécie de passaro do tamanho de um sanhaço. Eles dançavam de
três em três: a fêmeas ficava no meio e um mancho de cada lado. Sua dança é
interessante: o passaro que estava à direita da fêmea pulava por cima dela para
o lado esquerdo e o outro macho fazia a mesma coisa pulando da esquerda para a
direita e ambos sempre cantando. Repetiam esses pelos várias vezes até que a
fêmea começava a cantar e a bater as asas. Logo em seguida os três levantam vôo
e iam embora.
O CÓRREGO DO AJUDANTE
Interessante a origem do nome “Córrego do Ajudante”. Como
sabemos, esse córrego fica num pequeno vale e, no ponto em que está a estrada
do Burú, ele é ladeado por terreno íngreme nas duas margens.
No passado, quando chovia muito, os carroceiros que vinham
do Burú tinham dificuldade em subir a ladeira depois de cruzar o córrego. Por
isso, eles esperavam que chegasse mais algum colega e então pediam ajuda; tiravam,
todos os burros da carroça que vinham atrás e atrelavam na carroça da frente e
assim, podiam vencer a subida em direção à cidade até encontrar terra firme.
Depois, tiravam os burros dessa carroça e atrelava-nos naquela que ficara entes
de cruzar o córrego. Na volta para o burú usavam o mesmo expediente. Daí veio o
nome “córrego do ajudante”.
O COMETA QUE NINGUÉM VIU
INTEIRO
Foi muito comentado o aparecimento do Cometa Halley no ano
de 1910. Ele foi visto aqui em Salto, mas apenas uma parte da sua calda (o que
frustou muita gente). Minha mãe tinha, naquela época, 29 anos de idade e ela
contava que apareceu um grande clarão no céu e ninguém sabia bem o que era
aquilo. Só depois ficaram sabendo que se tratava da cauda de um cometa. Quando
escurecia, via-se o céu estrelado através da cauda.
Aqui em Salto, havia um farmacêutico italiano que contava
que, na Itália, o cometa havia sido visto por inteiro. Naquela época ele era
ainda moço e viu por inteiro “a estrela e a cauda”.
O CENTENÁRIO DA
INDEPENDÊNCIA
Salto também participou das primeiras comemorações do 1°
Centenário da Independência do Brasil, em 1922, através da Banda Musical
Saltense.
O Maestro Castellari foi à São Paulo com a Banda, que teve
brilhante atuação ficando classificada entre as melhores Bandas do Estado de
São Paulo.
Ela foi muito aplaudida e elogiada pela imprensa Paulista.
Os jornais da época que registraram o fato fazem parte do arquivo do nosso
Museu.
A Banda recebeu muitos elogios também do Major Antão que
era o maestro-regente da famosa Banda da Força Pública do Estado de São Paulo.
MENINOS DE RUA
A maior tristeza que eu senti na vida foi assistir, há
muitos anos atrás, um menino pedindo esmolas na rua. Isso ocorreu na esquina da
rua 9 de julho com a rua Paissandu (hoje Rua Rui Barbosa). Naquela época a rua
9 nem tinha calçamento. Eu era um menino ainda e cursava o grupo escolar.
Eu estava assistindo alguns garotos que jogavam fubeca.
Aproximou-se um menino maltrapilho e desesperado pedindo algum dinheiro. Os
garotos não tinham nada para poder atender o pedido. O menino dirigiu-se a mim
pedindo a esmola e contou que morava num quartinho no meio do mato, perto da
Estação, e que seu irmãozinho menos
estava chorando de fome e de vontade de comer feijão. Como sua mãe não tinha
dinheiro, mandou que ele saísse às ruas para pedir esmolas e conseguisse algum
dinheiro para matar a fome do irmão.
Como eu tinha algum trocado no bolso e, condoído pela
história, dei uma moeda para o menino. Ele logo entrou no armazém e comprou o
feijão tão desejado. E saiu correndo e pulando de alegria indo lá para os lados
da Têxtil. O menino pareceu-me um anjo voando no meio da cerração até
desaparecer da vista.
OS PALHAÇOS DO CIRCO
Ainda hoje ecoam na minha lembrança os cantos dos palhaços
de circo. São considerados pessoas alegres e brincalhões, mas muitas vezes eles
carregam dentro de si muitas mágoas e tristezas.
Basta lembrar de uma trova que eles cantavam:
“Nasci tão pobrezinho, sem amor e sem carinho,
sem um bercinho para dormir
Nasci, talvez, chorando,
Mas quero morrer cantando,
Que o palhaço vai subir lá nas nuvens do céu”.
Mas têm também seu lado alegre:
“O raio de sol suspende a lua”
E a molecada respondia:
“Olha o palhaço que está na rua”
“Hoje tem goiuabada?”
“Tem sim senhor”.
“Hoje tem marmelada?”
“Tem sim senhor”.
“E o palhaço o que é?”
“É ladrão de mulher”.
SALTO
ESTÁ EM CIMA DE UMA MINA DE OURO
1°) O livro “A História de um Rio, o Tietê”,
diz que no ano de 1720, os Bandeirantes da cidade de São Paulo, vinham catar
ouro no Salto de Ytu, na embocadura do rio Jundiaí com o Tietê, uns 500 metros
acima.
2°) Vem a ser na Cachoeira das Lavras.
3°) A Cachoeira tem esse nome, porque era lá
que os Bandeirantes vinham com as bateias cheias de terra, e era lavada, para
separar o ouro da areia.
4°) Castellari dizia que não compensava
catar ouro lá, porque era de pequena quantidade.
5°) Os antigos moradores que trabalhavam na
Usina das Lavras contavam que sempre vinha gente de São Paulo para procurar
ouro lá. Vinham com carros velhos e não demorava muito tempo eles voltavam com
carros novos.
6°) Quando a cachoeira estava com pouca
água, eu atravessei para o outro lado da cachoeira: eu vi no barranco, do outro
lado, um buraco de mais ou menos 2,50 metros de profundidade por 1 metro de
altura.
7°) Eles procuravam os buracos para ver se
foram os Bandeirantes que cavaram muitos buracos que tinha lá. Eles foram feitos
antes de construir a Usina. Eles fizeram esses buracos para ver a profundidade
do Terreno e se tinha umidade.
8°) Eu peço para o Turismo de Salto fazer
uma pesquisa: cavarem buracos ao lado da cachoeira e nos barrancos por ali,
para ver se achavam um veio grande de ouro, mais para fins turísticos.
O
GRANDE SUSTO
“O Caçador ia atrás do macuco e a onça ia atrás do
caçador”.
Esta historia foi assim contada pelo Octavio Andreassa:
“Eu fui caçar no sertão de piedade e, chegando lá fui
conversar na Cerraria da Fazenda. Eu fui alertado para ter muito cuidado com
uma onça grande que andava por lá e que já havia matado diversas criações da
fazenda. Eu ouvi tudo o que eles disseram.
Depois eu subi a serra por uma picada, piando como o
macuco, mas eles não respondiam. No alto da serra havia uma vertente que
cruzava a picada. Olhei bem por ali mas não vi nenhum rastro de animal. Andei
mais uns 20 metros e decidi voltar. Quando cheguei de novo na vertente levei um
grande susto. A onça acabava de atravessar a vertente deixando as marcas de
suas quatro patas enormes. Eu engatilhei a espingarda, e desci a picada muito
assustado, pensando que ela podia me atacar.
Resolvi não caçar mais e vim embora.