31 de março de 2025

Abandono do Circuito da Memória no Cemitério da Saudade

No último sábado, 29 de março, a Academia Saltense de Letras (ASLe) promoveu uma homenagem ao escritor, historiador e jornalista Ettore Liberalesso, um de seus fundadores, com a instalação de uma placa informativa em seu túmulo no Cemitério da Saudade. O gesto simbólico — ainda que merecido pela trajetória de Ettore — trouxe à tona, no entanto, uma questão que não pode ser ignorada: o completo abandono do Circuito da Memória, criado em 2009 como extensão do Museu da Cidade.

À época, o projeto transformou o cemitério em um espaço de respeito à memória local, com placas em diversos túmulos de figuras fundamentais para a história de Salto, como Dr. Barros Júnior, Monsenhor Couto, Dr. Lammoglia e Prof. Dalla Vecchia. Com o tempo, no entanto, essas placas foram destruídas pelas intempéries, vandalizadas ou simplesmente desapareceram — sem que qualquer ação efetiva da Prefeitura, da concessionária que atualmente administra o cemitério ou das autoridades de segurança tenha sido realizada.


Importante lembrar que, para sua criação, o Circuito da Memória contou com financiamento da então Associação Cultural de Salto, entidade já extinta, que viabilizou parte significativa da implantação do projeto. A iniciativa foi fruto de um esforço conjunto entre sociedade civil e poder público — esforço este que, hoje, encontra-se descontinuado e sem previsão de retomada institucionalizada.

A ausência de políticas públicas para a memória coletiva é ainda mais preocupante diante da urgência de uma nova abordagem para o Circuito. Em uma possível expansão do projeto, é fundamental que se reconheça e integre ao roteiro figuras ligadas a setores historicamente marginalizados da sociedade local — como lideranças negras, indígenas, operárias, artistas populares, educadores de base e tantos outros protagonistas esquecidos pela história oficial. Sem essa ampliação de olhares, a memória continuará sendo seletiva — e, portanto, excludente.

Outro exemplo da importância simbólica e institucional do Circuito está registrado na Lei Municipal nº 3.001, de 6 de maio de 2010, que concedeu um jazigo perpétuo no Cemitério da Saudade ao cineasta Anselmo Duarte Bento, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, para acolher seus restos mortais. Na ocasião, foi instalada uma placa integrada ao conjunto do Circuito, reconhecendo sua relevância para a história cultural do país e para sua cidade natal.

Hoje, restam apenas os vestígios de um projeto que foi referência em valorização da história. E é nesse contexto que a homenagem à Ettore, embora justa, expõe contradições preocupantes.

Apesar das declarações de que se trata de uma ação pontual, a nova placa segue exatamente o mesmo padrão visual das anteriores do Circuito, procurando imitar a proposta museográfica original e levantando uma questão essencial: se outras instituições decidirem realizar iniciativas semelhantes, de forma independente e desorganizada, como ficará a identidade do espaço? Estaremos fadados a um mosaico caótico de homenagens, desconectadas entre si?

A falta de um cuidado institucionalizado com o conjunto da memória saltense fica ainda mais evidente quando se lembra que muitas das placas metálicas — verdadeiros itens de valor histórico, sentimental e patrimonial — foram furtadas das sepulturas sem que se veja qualquer medida de proteção ou reposição. O cemitério, que já enfrentava problemas sob gestão da própria Prefeitura, permanece vulnerável, mesmo com a atual concessão.

Vale lembrar que o Circuito da Memória foi idealizado pelo professor Elton Frias Zanoni, então coordenador e historiador do Museu da Cidade, autor dos textos de todos os painéis originais. O projeto foi fruto de uma constatação dupla: o abandono da sepultura de Dr. Barros Júnior — figura reconhecida como "O Pai dos Saltenses" — e o estado precário de conservação do cemitério. O trabalho envolveu mapeamento, contextualização histórica, produção de vídeo, visitas guiadas e um olhar técnico sobre o espaço como parte viva da identidade local.

Resgatar o Circuito da Memória não é apenas uma questão de reverência ao passado. É um compromisso com o presente e, sobretudo, com o futuro. Sem memória, não há identidade. E sem cuidado com a memória, o que se perde não são apenas placas — é a própria história de uma cidade inteira.











3 de março de 2025

Anselmo Duarte, o primeiro diretor brasileiro indicado ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira

A conquista do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por Ainda Estou Aqui marca um novo capítulo na história do cinema brasileiro, relembrando a glória alcançada por O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, único filme nacional a conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Quem acompanhou a cerimônia do Oscar ontem, pode ter ficado a imaginar como foi a noite em que Anselmo recebeu a Palma de Ouro, em 1962. As fotos que compartilhamos aqui buscam resgatar um pouco dessa memória, celebrando tanto o presente quanto o legado deixado pelo diretor saltense.

Há mais de seis décadas, Anselmo Duarte elevou o Brasil aos holofotes do cinema mundial, mostrando que nosso talento e nossas histórias têm força para cruzar fronteiras. Hoje, celebramos esse novo triunfo com o mesmo orgulho, reconhecendo a continuidade de um legado construído com paixão, autenticidade e a força do nosso povo.












Em 1963, o cinema brasileiro alcançou um marco histórico ao conquistar sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira com O Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte. A produção, baseada na peça homônima de Dias Gomes, revelou ao mundo um Brasil profundo, entrelaçando fé, injustiça e os conflitos sociais que atravessam a alma nacional. A vitória no prestigiado Festival de Cannes, onde se tornou o único filme brasileiro a conquistar a Palma de Ouro até hoje, já prenunciava a importância dessa obra para a cinematografia nacional.

A narrativa acompanha a jornada de Zé do Burro, um homem simples do sertão, que, após fazer uma promessa para salvar seu fiel companheiro, enfrenta a incompreensão das autoridades religiosas e a hostilidade de uma sociedade presa a seus próprios dogmas. A força do enredo, somada à interpretação visceral de seus atores e à crítica sutil à hipocrisia institucionalizada, conferiu ao filme um status atemporal.

A 35ª edição do Oscar, realizada em 1963, trouxe uma disputa intensa na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. O Pagador de Promessas competiu com produções que também exploravam com profundidade as realidades culturais e políticas de seus países. Entre os concorrentes, estava o francês Sundays and Cybele (Les Dimanches de Ville d’Avray), dirigido por Serge Bourguignon, que acabou conquistando a estatueta. O filme francês abordava, com delicadeza e melancolia, a amizade entre um veterano de guerra traumatizado e uma jovem abandonada, explorando a incompreensão e os julgamentos sociais.

Outro forte concorrente foi o alemão The Bread of Those Early Years (Das Brot der frühen Jahre), dirigido por Herbert Vesely, que mergulhava nas angústias existenciais do pós-guerra. A Suécia trouxe The Silence (Tystnaden), dirigido por Ingmar Bergman, uma obra densa que explorava a solidão, a incomunicabilidade e os dilemas morais humanos com a profundidade característica do cineasta. Completando a lista, a Grécia apresentou Electra, dirigido por Mihalis Kakogiannis, uma adaptação poderosa da tragédia clássica de Eurípides, marcada pela estética teatral e pela intensidade emocional.

A indicação ao Oscar não apenas reconheceu a qualidade cinematográfica de O Pagador de Promessas, mas também abriu caminho para que o mundo conhecesse a riqueza e a complexidade da cinematografia brasileira. Mesmo sem levar a estatueta, o impacto da obra de Anselmo Duarte permanece como um símbolo da resistência cultural e da capacidade do cinema nacional de dialogar com questões universais a partir de uma perspectiva profundamente brasileira. A indicação histórica continua sendo um orgulho para o Brasil, reforçando a importância de contar nossas próprias histórias com autenticidade e coragem.

Antes de 1963, o Brasil teve apenas uma indicação ao Oscar em outra categoria: em 1945, Ary Barroso foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original pela música "Rio de Janeiro", composta para o filme estadunidense Brazil (1944). Além disso, embora não tenha representado oficialmente o Brasil, é relevante mencionar que, em 1960, Orfeu Negro (Orfeu do Carnaval), uma coprodução franco-ítalo-brasileira dirigida por Marcel Camus, venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro representando a França. O filme foi rodado no Brasil, com elenco brasileiro e falado em português. Esses marcos antecederam a primeira indicação oficial do Brasil ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira com O Pagador de Promessas em 1963.

3 de setembro de 2023

Hino à Senhora das Neves

O CULTO A NOSSA SENHORA DAS NEVES - Uma família de imigrantes, contam os antigos moradores do bairro rural do Buru, em Salto, trouxe da Itália uma pequena imagem de Nossa Senhora das Neves, propagando o culto sob essa invocação. Foi então que os habitantes dos arredores passaram a se reunir para rezar o terço, desde a época do padre Bartholomeu Taddei. Já naqueles tempos, no mês de agosto, promoviam-se novenas que eram encerradas com a procissão da imagem venerada.

ZEQUINHA MARQUES - O maestro José Maria Marques de Oliveira - popularmente conhecido como Zequinha Marques - nasceu em Salto em 1893, onde faleceu em 1981. Estudou nas escolas isoladas de Salto. Alfaiate, viveu muito mais para a música. Já em 1904 aprendeu a tocar bandolim. Dez anos depois era professor de música. Em 1916, tocava baixo na “Banda Brasileira”, mas em  1918 formou a sua própria banda, que durou três anos. Casou-se em 1921 com Emma Donatto. Foi um dos fundadores da S.I.R. Ideal e da Lira Saltense, tocando também na Orquestra Itaguaçu. Dirigiu por mais de 40 anos o Coro Oficial da Matriz e a famosa orquestra que abrilhantava as festas mais importantes da paróquia. Zequinha exerceu outros cargos, como o de juiz de casamentos. Como compositor, escreveu quatro missas, muitos tríduos, novenas, ladainhas, marchas, hinos sacros, cerca de quarenta músicas, como dobrados, marchas, maxixes. Seu acervo artístico foi doado ao Museu Cidade de Salto.

Zequinha Marques (1893-1981)




Acervo do Museu da Cidade de Salto

Início da procissão no ano de 2005.


Festa do Salto: breve história em imagens

A Festa do Salto tem origem remota e confunde-se com a própria fundação de Salto. Ocorreu pela primeira vez no mesmo ano de instalação e bênção da capela de Nossa Senhora do Monte Serrat, o longínquo 1698. A iniciativa do fundador, Capitão Antonio Vieira Tavares, contou com a presença de moradores da vizinha Itu e habitantes do Sítio Cachoeira, de sua propriedade, e que hoje corresponde ao território de Salto. Mais que tricentenária, portanto, a prática ininterrupta da Festa permanece viva ainda nos dias de hoje.

A data da Padroeira é o 8 de setembro. Em virtude disso uma série de atividades religiosas ocorre nos dias de Festa. Contudo, ao menos desde meados do século XIX, ela conta também com uma parte popular, ou profana, caracterizada por quermesses e feira com barracas de comestíveis, roupas e outras dedicadas a promover sorteios e jogos.

Desde o final do século XIX até meados do século XX, nos primeiros dias de setembro de cada ano, comerciantes vindos de outras localidades traziam a Salto produtos dos mais diversos, dos quais o comércio local era carente: sapatos, tecidos, louças e outras tantas bugigangas. Alguns saltenses montavam tais barracas e alugavam aos comerciantes forasteiros interessados. Um dos últimos a se dedicar a tal prática foi Alberico de Oliveira. Uma de suas barracas pode ser vista em foto de 1950.

A face lúdica da Festa, em sua parte profana, até o final do século XIX se traduzia em brincadeiras como cabo-de-guerra, cabra-cega, mastro cocagne e boizinho baiano. Tais práticas adentraram ao século XX e foram remodeladas. Nas últimas décadas o que se verifica é a predomínio de brinquedos eletromecânicos destinados, em grande parte, ao público infantil. Embora revestida de modernidade, a essência da Festa do Salto permanece pouco modificada após tantos anos.


Imagens: Museu da Cidade de Salto e Jornal Taperá.
Música do vídeo: "Sertão Paulista", pelo Quarteto Tristão Júnior.

9 de julho de 2022

O escorregador do Rio Jundiaí

Nas últimas chuvas mais volumosas deste ano - e a consequente cheia dos rios - ampliou-se preocupação com destruição de mais um elemento do patrimônio histórico de Salto - "o escorregador do Rio Jundiaí". Por sorte, a perda desse bem cultural não ocorreu. Aproveito, então, e trago imagens dos anos 1940 e um texto de 2007 (mesmo ano da foto em cores, abaixo) que permitem avaliar um pouco dos significados deste referencial da memória saltense.

O extinto Clube de Regatas Estudantes Saltenses (CRES) - responsável pela instalação do escorregador e trampolim - surgiu em 1936. Utilizava-se de terrenos próximos e das águas do Rio Jundiaí, particularmente de seu trecho final, próximo ao encontro com o Rio Tietê, entre o Bairro da Barra e a Estação Ferroviária.

Em Salto, o uso regular dos rios para prática esportiva encerrou-se nos anos 1950, pois já naquela época a poluição - notadamente do Jundiaí - impedia seu uso recreativo.






Em 2007, colhi algumas informações a partir do "Regimento" do CRES. Sua leitura nos permite imaginar algumas das práticas desse clube e de uma época:


REGIMENTO DO REGATAS

Dias atrás, li algumas páginas do regimento interno do Clube de Regatas Saltense, impressas em 1939 pela Spröesser & Cia., em Salto, num formato [16 x 12 cm] que me lembrou as antigas cadernetas de padaria, que ainda sobrevivem em alguns lugares. Pequenas publicações deste tipo, com ligeiras variações, existem para outras entidades e clubes saltenses fundados na primeira metade do século XX, hoje quase todos extintos.

O Clube de Regatas Saltense utilizava-se, para suas práticas esportivas, do último trecho do rio Jundiaí, descrito como área esportiva, situada “entre a ponte do Rio Jundiaí e a ponte da E.F.S. [Estrada de Ferro Sorocabana], e de cada lado confinando com uma linha reta imaginária, traçada da margem esquerda do Rio Tietê à ponta da margem direita do Rio Jundiaí”. Essa área esportiva, eventualmente, poderia “ser ampliada (...) de acordo com o parecer do diretor esportivo [que na data de impressão do regimento era Raphael Mugnai]”.

As disposições iniciais são sobre os esportes praticados: remo e natação. Acerca do remo, os artigos tratam do uso do barracão [hoje apenas um terreno murado na rua Marechal Deodoro, à venda], em especial estabelecendo os seus horários de funcionamento “para retirada das embarcações”. Os tripulantes eram apenas os sócios inscritos e autorizados pelo diretor esportivo, e se tornavam “responsáveis pelas avarias ocorridas nos remos ou barcos” que utilizassem. Alguns termos próprios do esporte surgem nos artigos 4º e 5º: patrão [nos barcos de regata, aquele que dirige o leme e comanda o ritmo das remadas] e guarnição [o conjunto dos remadores dum barco]. O lazer com os barcos obedecia a um limite estreito: “Fora das representações, nenhuma guarnição (...) [poderia] utilizar-se dos barcos por mais de meia hora, sem prévio consentimento do diretor esportivo”.

A natação não era permitida “aos menores de 16 anos que, embora sócios contribuintes,” não estivessem “devidamente autorizados pelos seus pais ou responsáveis”. Entre os nadadores maiores de 16 anos, permitia-se “dar caldo [mergulho forçado que, geralmente por brincadeira, se dá em quem está nadando]”. Trata disso o artigo 13º, proibindo tal prática entre os menores de 16, fossem “sócios ou aspirantes”. Vetava-se também “atirar pedras, barro, etc.”.

Há, por fim, três outros aspectos interessantes. Dois deles ainda resistem fisicamente como referenciais da memória do uso de nossos rios enquanto lugar de lazer: o escorregador [chamado no documento de water-shoot] e o trampolim. Sobre o primeiro, destinado “a brinquedos individuais ou coletivos” devia-se “ter especial cuidado, a fim de evitarem desastres ou ocorrências desagradáveis”. Embora estivesse ao alcance de qualquer transeunte, como ainda hoje permanece, era “expressamente proibido subir à plataforma do water-shoot sem uniforme ou sem o traje permitido aos remadores”, conforme o artigo 39º mencionava. Já sobre o uso do trampolim, o sócio deveria observar o “perigo de se lançar sobre os nadadores ou remadores [que estivessem], no momento, próximos do trampolim”. Também não era permitido “permanecer [no trampolim] só ou em grupos (...), impedindo, desse modo” os que desejassem dele saltar.

O terceiro aspecto peculiar era o cocho – plataforma de madeira que boiava graças a tambores vazios a ela amarrados, destinada “ao aprendizado da natação”. Sair dessa espécie de cercado semi-imerso na água era proibido aos “aprendizes que não (...) [tivessem] autorização do diretor”. Proibia-se ainda a permanência no cocho de sócios que soubessem nadar, quando nele estivessem aprendizes. Peculiar é o artigo 35º, que proíbe “brincadeiras inconvenientes no cocho, quando os aprendizes, homens ou mulheres, nele” estivessem. Nesse rol de preocupações, tampouco se permitia “fazer do cocho trampolim, subir nos tambores, permanecer nas grades e no pranchão e praticar quaisquer atos que (...) [pudessem] danificá-lo”.

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966