No último sábado, 29 de março, a Academia Saltense de Letras (ASLe) promoveu uma homenagem ao escritor, historiador e jornalista Ettore Liberalesso, um de seus fundadores, com a instalação de uma placa informativa em seu túmulo no Cemitério da Saudade. O gesto simbólico — ainda que merecido pela trajetória de Ettore — trouxe à tona, no entanto, uma questão que não pode ser ignorada: o completo abandono do Circuito da Memória, criado em 2009 como extensão do Museu da Cidade.
À época, o projeto transformou o cemitério em um espaço de respeito à memória local, com placas em diversos túmulos de figuras fundamentais para a história de Salto, como Dr. Barros Júnior, Monsenhor Couto, Dr. Lammoglia e Prof. Dalla Vecchia. Com o tempo, no entanto, essas placas foram destruídas pelas intempéries, vandalizadas ou simplesmente desapareceram — sem que qualquer ação efetiva da Prefeitura, da concessionária que atualmente administra o cemitério ou das autoridades de segurança tenha sido realizada.
Importante lembrar que, para sua criação, o Circuito da Memória contou com financiamento da então Associação Cultural de Salto, entidade já extinta, que viabilizou parte significativa da implantação do projeto. A iniciativa foi fruto de um esforço conjunto entre sociedade civil e poder público — esforço este que, hoje, encontra-se descontinuado e sem previsão de retomada institucionalizada.
A ausência de políticas públicas para a memória coletiva é ainda mais preocupante diante da urgência de uma nova abordagem para o Circuito. Em uma possível expansão do projeto, é fundamental que se reconheça e integre ao roteiro figuras ligadas a setores historicamente marginalizados da sociedade local — como lideranças negras, indígenas, operárias, artistas populares, educadores de base e tantos outros protagonistas esquecidos pela história oficial. Sem essa ampliação de olhares, a memória continuará sendo seletiva — e, portanto, excludente.
Outro exemplo da importância simbólica e institucional do Circuito está registrado na Lei Municipal nº 3.001, de 6 de maio de 2010, que concedeu um jazigo perpétuo no Cemitério da Saudade ao cineasta Anselmo Duarte Bento, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, para acolher seus restos mortais. Na ocasião, foi instalada uma placa integrada ao conjunto do Circuito, reconhecendo sua relevância para a história cultural do país e para sua cidade natal.
Hoje, restam apenas os vestígios de um projeto que foi referência em valorização da história. E é nesse contexto que a homenagem à Ettore, embora justa, expõe contradições preocupantes.
Apesar das declarações de que se trata de uma ação pontual, a nova placa segue exatamente o mesmo padrão visual das anteriores do Circuito, procurando imitar a proposta museográfica original e levantando uma questão essencial: se outras instituições decidirem realizar iniciativas semelhantes, de forma independente e desorganizada, como ficará a identidade do espaço? Estaremos fadados a um mosaico caótico de homenagens, desconectadas entre si?
A falta de um cuidado institucionalizado com o conjunto da memória saltense fica ainda mais evidente quando se lembra que muitas das placas metálicas — verdadeiros itens de valor histórico, sentimental e patrimonial — foram furtadas das sepulturas sem que se veja qualquer medida de proteção ou reposição. O cemitério, que já enfrentava problemas sob gestão da própria Prefeitura, permanece vulnerável, mesmo com a atual concessão.
Vale lembrar que o Circuito da Memória foi idealizado pelo professor Elton Frias Zanoni, então coordenador e historiador do Museu da Cidade, autor dos textos de todos os painéis originais. O projeto foi fruto de uma constatação dupla: o abandono da sepultura de Dr. Barros Júnior — figura reconhecida como "O Pai dos Saltenses" — e o estado precário de conservação do cemitério. O trabalho envolveu mapeamento, contextualização histórica, produção de vídeo, visitas guiadas e um olhar técnico sobre o espaço como parte viva da identidade local.
Resgatar o Circuito da Memória não é apenas uma questão de reverência ao passado. É um compromisso com o presente e, sobretudo, com o futuro. Sem memória, não há identidade. E sem cuidado com a memória, o que se perde não são apenas placas — é a própria história de uma cidade inteira.