29 de janeiro de 2026

Das lavadeiras do Tietê à torneira: luta e política pela água em Salto (1905 a 1980)

A história do desenvolvimento urbano de Salto confunde-se, em muitos momentos, com a própria história da gestão de seus recursos hídricos. Ao observarmos contexto mais que centenário do serviço de água e esgotos da cidade, iniciado em 1912, não estamos apenas tratando de uma obra de engenharia, mas revisitando um século de disputas políticas, avanços sanitários e a lenta transformação dos hábitos da nossa população.

Capa do livreto com a primeira legislação saltense sobre o tema, 1913.


O pioneirismo e os primeiros conflitos (1905–1913)

Antes de 1912, a vida doméstica em Salto dependia de poços de quintal e das águas dos rios Tietê e Jundiaí, onde as lavadeiras exerciam seu ofício. Os primeiros movimentos para mudar essa realidade surgiram em 1905, na Câmara Municipal, mas foi apenas em 1906, com a proposta do engenheiro Arthur G. Krug, que o projeto ganhou contornos técnicos. Krug desenhou uma Salto moderna, planejando desde o nivelamento das ruas até a localização dos reservatórios.

A concessão do serviço passou por reviravoltas, incluindo uma tentativa frustrada com a Cia. Paulista de Melhoramentos em 1910, até retornar às mãos de Krug em 1911. Uma decisão crucial foi tomada nessa época: a troca da captação do Rio Jundiaí pelo "Piraizinho", cuja água era considerada de qualidade superior.

Com a inauguração do sistema, veio a regulação. A Lei nº 1 de 12 de maio de 1913, documento histórico fundamental, impôs novas normas de conduta: obrigava a construção de latrinas, proibia o desperdício e vetava o fornecimento de água a vizinhos sob pena de corte. Contudo, o progresso trouxe atritos. Já em junho de 1913, moradores enviavam à Câmara um abaixo-assinado denunciando a "arbitrariedade" da empresa concessionária, que invadia quintais privados para instalar coletores sem autorização e cobrava taxas consideradas abusivas antes mesmo da conclusão das obras.

 

A estagnação e a fé nos canos (1930–1950)

Durante as décadas seguintes, a infraestrutura pouco acompanhou o crescimento da cidade. Projetos de 1935 para ampliação da rede de esgotos ficaram apenas no papel. Foi somente nos anos 1950 que a situação se tornou crítica. Salto havia saltado de 500 para 2.500 prédios, mas o volume de água captada permanecia o mesmo de 1912.

A gravidade do problema misturava a administração pública com a fé religiosa. Em um episódio emblemático de junho de 1953, caminhões carregando tubos para a nova adutora desfilaram pela cidade e pararam em frente à Igreja Matriz para serem solenemente benzidos pelo Monsenhor Couto, antes de serem soldados.

Apesar das bênçãos, a qualidade da água era questionável. Em 1959, o Dr. Adriano Randi, médico sanitarista, alertava em livro que a água de Salto era "imprópria para consumo", turva após as chuvas e tratada apenas com cloro. O desperdício era imenso, pois não havia hidrômetros e a cobrança era feita por estimativa.

 

A década perdida e o escândalo dos diques (anos 1960)

Os anos 1960 foram marcados por crises sucessivas. Em 1961, um projeto de estação de tratamento e filtragem teve que ser completamente abandonado devido a "erros técnicos insuperáveis", desperdiçando milhões de cruzeiros.

Porém, o momento mais dramático ocorreu em 1964. Em plena semana da Festa do Salto, as torneiras secaram completamente. A investigação revelou um "crime" contra a saúde pública: proprietários da Fazenda Floresta haviam construído diques clandestinos no córrego de abastecimento para criar piscinas de lazer particular. Foi necessária uma ordem judicial e a intervenção da polícia para destruir as barragens e liberar a água para a população sedenta.

A solução definitiva só começou a se desenhar no final da década. Em 1968, uma nova adutora entrou em funcionamento, e em 19 de novembro de 1969, o prefeito Jesuíno Ruy inaugurou finalmente a Estação de Tratamento de Água (ETA). Em seu discurso, Ruy não poupou críticas aos antecessores, atribuindo o atraso das obras à "politicagem" e ao "ódio do passado".

 

A guerra das taxas e a poluição (anos 1970–1980)

A inauguração da ETA não encerrou os problemas. A década de 1970 foi palco de uma "guerra" entre o Prefeito e a Câmara sobre a cobrança de taxas de água em terrenos baldios (sem construção), gerando revolta popular e disputas judiciais. Mesmo com a nova estação, a falta de água no verão continuou sendo uma constante, muitas vezes atribuída a raios que queimavam transformadores ou ao consumo excessivo.

No início dos anos 1980, a realidade ambiental bateu à porta. Uma análise da CETESB, solicitada pela Prefeitura, constatou que a água servida ainda não atendia aos padrões de potabilidade, exigindo uma lista de 12 reparos urgentes na estação. Mais grave ainda foi a descoberta da origem da poluição: o Ribeirão Piraí estava recebendo despejo de esgoto industrial de uma cerâmica e de um abatedouro de frangos da vizinha Itu, o que deixava a água com cor amarelada e resíduos gordurosos.


Partilhamos, a seguir, algumas fotografias alusivas ao tema. Datam do final da década de 1960:






































27 de janeiro de 2026

A enchente de 1983 em Salto: registro em vídeo

No início de fevereiro de 1983, o município de Salto, situado na confluência dos rios Tietê e Jundiaí, registrou um evento hidrológico de proporções históricas, superando, segundo medições comparativas realizadas nas dependências da usina da Eletropaulo, no Porto Góes e na indústria Brasital S.A., a grande enchente de 1929 em aproximadamente um metro. A catástrofe coincidiu com a transição administrativa local, uma vez que as autoridades municipais haviam tomado posse no dia 1º de fevereiro, um dia antes da chegada dos alertas provenientes da capital e de cidades a montante sobre o volume hídrico que atingiria a região. A resposta governamental envolveu a remoção preventiva de cerca de duzentas famílias residentes em áreas de várzea, notadamente no Jardim Três Marias.

O jornal Taperá, em sua edição de sábado, 5 de fevereiro de 1983, documentou a extensão territorial inédita do alagamento. Sob a manchete “A cidade invadida pelas águas de 2 rios”, o jornal registrou o transbordamento para áreas até então consideradas seguras fora da cota de inundação. Foram atingidos logradouros centrais e periféricos, incluindo trechos da Avenida Vicente Scivittaro, o Jardim das Nações, o Largo São João, e as ruas Marechal Deodoro, Coelho Neto, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. O impacto econômico foi imediato, com o registro de paralisação de atividades industriais e prejuízos significativos ao parque fabril instalado nas margens dos rios.

A cobertura da imprensa tornou-se registro histórico das dinâmicas sociais e operações de resgate civil durante o evento. Um dos episódios documentados detalha a operação de salvamento da família Arpis, composta por oito indivíduos, que se encontrava isolada em uma residência no interior do Estádio Luiz Milanez, situado na Ilha Grande (ilha fluvial em meio ao Rio Tietê, após os últimos trechos de cachoeira). A ação foi executada por Celso Andreotti e Euclides Rocco, que utilizaram um bote a motor de propriedade de João Rocco. Segundo os registros, a operação estendeu-se da meia-noite às quatro e meia da manhã, logrando êxito na retirada dos moradores num momento em que o nível da água já atingia a cintura dos ocupantes. O episódio resultou em danos materiais severos às infraestruturas da Associação Atlética Avenida, incluindo bar, vestiários e arquibancadas, sem, contudo, o registro de óbitos.

Paralelamente às ações de defesa civil voltadas à população, houve uma complexa operação logística na Ilha dos Amores, que então abrigava um minizoológico. A destruição da ponte de acesso à referida ilha pela força da correnteza inviabilizou o acesso terrestre, e uma tentativa inicial de transposição com escadas fornecidas pela empresa Brasital mostrou-se ineficaz. A solução demandou a intervenção estadual e privada, com o acionamento de um helicóptero da empresa Votec, sediada em Sorocaba. A operação conjunta entre a Polícia Florestal e a Polícia Militar permitiu a evacuação de diversos espécimes, incluindo um veado, dois macacos, um quati e uma onça. O relatório da ocorrência aponta, entretanto, o óbito de animais por afogamento e a fuga de dois macacos e uma capivara, reagentes ao ruído da aeronave e ao estresse da situação.

A análise dos registros da enchente de 1983 evidencia não apenas a vulnerabilidade geográfica da malha urbana de Salto frente aos regimes fluviais do Tietê e Jundiaí, mas também a capacidade de articulação entre o poder público recém-empossado, a iniciativa privada (representada por empresas como Brasital e Votec) e a sociedade civil organizada. As fontes documentais, preservadas mormente pelo jornal Taperá, constituem acervo fundamental para a compreensão do evento como um ponto de inflexão na memória coletiva local.

Veja, a seguir, o registro audiovisual disponibilizado por Maurício Barbosa em 2012, no grupo "Fotos Antigas de Salto/SP", no Facebook.





23 de janeiro de 2026

S.I.R. José do Patrocínio - 60 anos de fundação

 No dia 24 de janeiro de 2026, celebrou-se o 60º aniversário da Sociedade Instrutiva e Recreativa José do Patrocínio. Fundada em 1966, a instituição, localizada na Rua Expedicionários Saltenses, nº 152, consolidou-se como patrimônio material e imaterial da organização da população negra no município de Salto.

A fundação da agremiação insere-se em um contexto histórico marcado por uma segregação racial não oficial, que limitava o acesso da população negra aos clubes e espaços de lazer hegemônicos da cidade. Em resposta a essas limitações, o clube surgiu como um espaço de resistência cultural e sociabilidade, essencial para a união comunitária.

Evocando a tradição dos "bailes de terreiro", a entidade iniciou suas atividades sob a denominação "Colored's Club", adotando posteriormente o nome do célebre abolicionista José do Patrocínio. O local atuou também como importante polo cultural, destacando-se através de sua Escola de Samba, de renome regional.

A longevidade da instituição é fruto do esforço de diversas famílias e lideranças locais. Destaca-se a atuação diretiva de figuras como Antônio Teixeira, Benedito Antônio Silvestre, Jesuíno dos Santos, Rubens Paixão, e tantos outros nomes como Maria Ferreira Martins e Benedito Teixeira, cuja dedicação foi determinante para a representatividade da comunidade negra saltense.

O vídeo a seguir foi feito como homenagem à comunidade:




19 de janeiro de 2026

Primeiros cemitérios de Salto

Recriação por IA baseada em desenho feito por descrição, em 1998.
Também foram usadas fotos antigas do espaço e arredores de fins dos anos 1950.


Ao serem abertos os alicerces para a construção da nova Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, no ano de 1928, em substituição à capela edificada pelo fundador da cidade no final do século XVII, ossadas humanas foram encontradas naquele local: indício de que algumas pessoas ligadas ao culto católico tinham sido sepultadas junto às paredes de taipa da primitiva capela.

Outras referências sobre cemitérios em Salto datam de 1887, quando a Província de São Paulo foi assolada por uma epidemia de varíola. Naquela ocasião, o industrial pioneiro, Dr. Barros Júnior, considerado um benemérito local, construiu três hospitais de isolamento – também conhecidos por lazaretos – localizados em pontos distantes do então centro da cidade. Sabe-se que as vítimas fatais do contagioso “mal das bexigas” eram enterradas próximas a esses locais de isolamento, dada a pressa em sepultá-las.

Um desses lazaretos situava-se no Bairro da Estação, na margem esquerda do rio Jundiaí, para além dos trilhos da Companhia Ytuana de Estradas de Ferro. Outro ficava no atual Jardim Três Marias, nas proximidades da sede da Guarda Municipal, na margem direita do rio Tietê – que naquela época era uma região de mata densa e bastante afastada do núcleo urbano. O terceiro – existente até o início do século XX – estava no terreno hoje circundado pelas ruas 9 de Julho, Rio Branco, Benjamin Constant e Rodrigues Alves. Sendo o maior deles, nessa área também se encontrava a capela de Santa Cruz.

Até o final do século XIX a maioria das pessoas que faleciam em Salto eram enterradas em Itu. No ano de 1890, meses após Salto ser elevada a vila independente, teve início uma campanha junto à população para a construção de um cemitério no terreno doado por Antônio da Silva Teixeira. Esse terreno corresponde hoje à área ocupada pela Praça XV de Novembro e pela Escola Estadual Professor Cláudio Ribeiro da Silva. Tal cemitério (chamado de Velho ou da Vila Teixeira) existiu até 1958, embora os sepultamentos nele estivessem proibidos desde junho de 1952.

24 de abril de 2025

Padre Mário e o Conclave (1978)

A partir de um trecho de crônica do falecido Prof. Valderez, escrita em 2006, produzimos essa tirinha que faz memória de um processo que vivenciaremos nos próximos dias, com o Conclave que escolherá o substituto do Papa Francisco:


Trecho de inspiração para o desenho:

"Aquele [padre], bem-humorado, que ministrava uma palestra em minha escola, quando o conclave de cardeais se reunia para escolher o sucessor do recém-falecido papa Paulo VI. Mário Negro explicava aos jovens que o Espírito Santo é quem escolhe o papa, e que, em tese, não precisava ser um cardeal, poderia ser qualquer um, até ele. Quando, com deliciosa malícia no sorriso, acrescentou: - Esse risco, porém, não existe, porque Deus não comete besteiras."


Leia a íntegra da crônica em:
https://historiasalto.blogspot.com/2017/09/monsenhor-mario-negro-1922-2006.html

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966