A história do desenvolvimento urbano de Salto confunde-se, em muitos momentos, com a própria história da gestão de seus recursos hídricos. Ao observarmos contexto mais que centenário do serviço de água e esgotos da cidade, iniciado em 1912, não estamos apenas tratando de uma obra de engenharia, mas revisitando um século de disputas políticas, avanços sanitários e a lenta transformação dos hábitos da nossa população.
| Capa do livreto com a primeira legislação saltense sobre o tema, 1913. |
O pioneirismo e os primeiros conflitos (1905–1913)
Antes de 1912, a vida doméstica em Salto dependia de poços
de quintal e das águas dos rios Tietê e Jundiaí, onde as lavadeiras exerciam
seu ofício. Os primeiros movimentos para mudar essa realidade surgiram em 1905,
na Câmara Municipal, mas foi apenas em 1906, com a proposta do engenheiro
Arthur G. Krug, que o projeto ganhou contornos técnicos. Krug desenhou uma
Salto moderna, planejando desde o nivelamento das ruas até a localização dos
reservatórios.
A concessão do serviço passou por reviravoltas, incluindo
uma tentativa frustrada com a Cia. Paulista de Melhoramentos em 1910, até
retornar às mãos de Krug em 1911. Uma decisão crucial foi tomada nessa época: a
troca da captação do Rio Jundiaí pelo "Piraizinho", cuja água era
considerada de qualidade superior.
Com a inauguração do sistema, veio a regulação. A Lei nº 1
de 12 de maio de 1913, documento histórico fundamental, impôs novas normas de
conduta: obrigava a construção de latrinas, proibia o desperdício e vetava o
fornecimento de água a vizinhos sob pena de corte. Contudo, o progresso trouxe
atritos. Já em junho de 1913, moradores enviavam à Câmara um abaixo-assinado
denunciando a "arbitrariedade" da empresa concessionária, que invadia
quintais privados para instalar coletores sem autorização e cobrava taxas
consideradas abusivas antes mesmo da conclusão das obras.
A estagnação e a fé nos canos (1930–1950)
Durante as décadas seguintes, a infraestrutura pouco
acompanhou o crescimento da cidade. Projetos de 1935 para ampliação da rede de
esgotos ficaram apenas no papel. Foi somente nos anos 1950 que a situação se
tornou crítica. Salto havia saltado de 500 para 2.500 prédios, mas o volume de
água captada permanecia o mesmo de 1912.
A gravidade do problema misturava a administração pública
com a fé religiosa. Em um episódio emblemático de junho de 1953, caminhões
carregando tubos para a nova adutora desfilaram pela cidade e pararam em frente
à Igreja Matriz para serem solenemente benzidos pelo Monsenhor Couto, antes de
serem soldados.
Apesar das bênçãos, a qualidade da água era questionável. Em
1959, o Dr. Adriano Randi, médico sanitarista, alertava em livro que a água de
Salto era "imprópria para consumo", turva após as chuvas e tratada
apenas com cloro. O desperdício era imenso, pois não havia hidrômetros e a
cobrança era feita por estimativa.
A década perdida e o escândalo dos diques (anos 1960)
Os anos 1960 foram marcados por crises sucessivas. Em 1961,
um projeto de estação de tratamento e filtragem teve que ser completamente
abandonado devido a "erros técnicos insuperáveis", desperdiçando
milhões de cruzeiros.
Porém, o momento mais dramático ocorreu em 1964. Em plena
semana da Festa do Salto, as torneiras secaram completamente. A investigação
revelou um "crime" contra a saúde pública: proprietários da Fazenda
Floresta haviam construído diques clandestinos no córrego de abastecimento para
criar piscinas de lazer particular. Foi necessária uma ordem judicial e a
intervenção da polícia para destruir as barragens e liberar a água para a
população sedenta.
A solução definitiva só começou a se desenhar no final da
década. Em 1968, uma nova adutora entrou em funcionamento, e em 19 de novembro
de 1969, o prefeito Jesuíno Ruy inaugurou finalmente a Estação de Tratamento de
Água (ETA). Em seu discurso, Ruy não poupou críticas aos antecessores,
atribuindo o atraso das obras à "politicagem" e ao "ódio do
passado".
A guerra das taxas e a poluição (anos 1970–1980)
A inauguração da ETA não encerrou os problemas. A década de
1970 foi palco de uma "guerra" entre o Prefeito e a Câmara sobre a
cobrança de taxas de água em terrenos baldios (sem construção), gerando revolta
popular e disputas judiciais. Mesmo com a nova estação, a falta de água no
verão continuou sendo uma constante, muitas vezes atribuída a raios que
queimavam transformadores ou ao consumo excessivo.
No início dos anos 1980, a realidade ambiental bateu à
porta. Uma análise da CETESB, solicitada pela Prefeitura, constatou que a água
servida ainda não atendia aos padrões de potabilidade, exigindo uma lista de 12
reparos urgentes na estação. Mais grave ainda foi a descoberta da origem da
poluição: o Ribeirão Piraí estava recebendo despejo de esgoto industrial de uma
cerâmica e de um abatedouro de frangos da vizinha Itu, o que deixava a água com
cor amarelada e resíduos gordurosos.




































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