27 de janeiro de 2026

A enchente de 1983 em Salto: registro em vídeo

No início de fevereiro de 1983, o município de Salto, situado na confluência dos rios Tietê e Jundiaí, registrou um evento hidrológico de proporções históricas, superando, segundo medições comparativas realizadas nas dependências da usina da Eletropaulo, no Porto Góes e na indústria Brasital S.A., a grande enchente de 1929 em aproximadamente um metro. A catástrofe coincidiu com a transição administrativa local, uma vez que as autoridades municipais haviam tomado posse no dia 1º de fevereiro, um dia antes da chegada dos alertas provenientes da capital e de cidades a montante sobre o volume hídrico que atingiria a região. A resposta governamental envolveu a remoção preventiva de cerca de duzentas famílias residentes em áreas de várzea, notadamente no Jardim Três Marias.

O jornal Taperá, em sua edição de sábado, 5 de fevereiro de 1983, documentou a extensão territorial inédita do alagamento. Sob a manchete “A cidade invadida pelas águas de 2 rios”, o jornal registrou o transbordamento para áreas até então consideradas seguras fora da cota de inundação. Foram atingidos logradouros centrais e periféricos, incluindo trechos da Avenida Vicente Scivittaro, o Jardim das Nações, o Largo São João, e as ruas Marechal Deodoro, Coelho Neto, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. O impacto econômico foi imediato, com o registro de paralisação de atividades industriais e prejuízos significativos ao parque fabril instalado nas margens dos rios.

A cobertura da imprensa tornou-se registro histórico das dinâmicas sociais e operações de resgate civil durante o evento. Um dos episódios documentados detalha a operação de salvamento da família Arpis, composta por oito indivíduos, que se encontrava isolada em uma residência no interior do Estádio Luiz Milanez, situado na Ilha Grande (ilha fluvial em meio ao Rio Tietê, após os últimos trechos de cachoeira). A ação foi executada por Celso Andreotti e Euclides Rocco, que utilizaram um bote a motor de propriedade de João Rocco. Segundo os registros, a operação estendeu-se da meia-noite às quatro e meia da manhã, logrando êxito na retirada dos moradores num momento em que o nível da água já atingia a cintura dos ocupantes. O episódio resultou em danos materiais severos às infraestruturas da Associação Atlética Avenida, incluindo bar, vestiários e arquibancadas, sem, contudo, o registro de óbitos.

Paralelamente às ações de defesa civil voltadas à população, houve uma complexa operação logística na Ilha dos Amores, que então abrigava um minizoológico. A destruição da ponte de acesso à referida ilha pela força da correnteza inviabilizou o acesso terrestre, e uma tentativa inicial de transposição com escadas fornecidas pela empresa Brasital mostrou-se ineficaz. A solução demandou a intervenção estadual e privada, com o acionamento de um helicóptero da empresa Votec, sediada em Sorocaba. A operação conjunta entre a Polícia Florestal e a Polícia Militar permitiu a evacuação de diversos espécimes, incluindo um veado, dois macacos, um quati e uma onça. O relatório da ocorrência aponta, entretanto, o óbito de animais por afogamento e a fuga de dois macacos e uma capivara, reagentes ao ruído da aeronave e ao estresse da situação.

A análise dos registros da enchente de 1983 evidencia não apenas a vulnerabilidade geográfica da malha urbana de Salto frente aos regimes fluviais do Tietê e Jundiaí, mas também a capacidade de articulação entre o poder público recém-empossado, a iniciativa privada (representada por empresas como Brasital e Votec) e a sociedade civil organizada. As fontes documentais, preservadas mormente pelo jornal Taperá, constituem acervo fundamental para a compreensão do evento como um ponto de inflexão na memória coletiva local.

Veja, a seguir, o registro audiovisual disponibilizado por Maurício Barbosa em 2012, no grupo "Fotos Antigas de Salto/SP", no Facebook.





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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966