7 de outubro de 2010

A rua que Salto perdeu

Quem hoje vê o portão principal do centro universitário que ocupa os prédios da antiga Brasital, ao lado de uma das torres, não se dá conta que ele é o marco da apropriação de um espaço público por particulares. Isso ocorreu há mais de um século, à época que a tecelagem instalada naquele espaço levava o nome de Societá per l’Esportazione e per l’Industria Italo-Americana, ou simplesmente, Sociedade Ítalo Americana. Era ela a sucessora das duas tecelagens pioneiras instaladas no último quarto do século XIX, adquiridas pelo ítalo-judeu José Weissohn e por ele repassadas a essa multinacional que já contava com diversos investimentos na América do Sul. Estamos falando da mítica Rua do Porto e do seu trecho que deixou de ser público e foi incorporado ao patrimônio da Ítalo Americana.

José Weissohn
A rua em questão – para situar nosso leitor – é a atual José Weissohn, que se inicia na Praça Antônio Vieira Tavares (Largo da Matriz) e termina na Rua 9 de Julho (antes denominada Rua de Campinas). O nome Rua do Porto, que vigorou na primeira década do século XX, foi dado pois a via pública se alongava até as margens do rio Tietê, terminando num trecho conhecido por Porto das Canoas, nas imediações da Ilha Grande, então chamada Ilha do Padre. Tratava-se de um caminho bastante utilizado pelos moradores de Salto – uma localidade que começava a crescer especialmente pela chegada de um grande contingente de italianos, atraídos pelo trabalho nas tecelagens locais, que abandonavam as fazendas das regiões de Itu e Campinas, após enfrentarem um primeiro momento de exploração por parte dos cafeicultores paulistas.

Rua do Porto no século XIX
A importância do referido trecho da Rua do Porto que ia do Largo da Matriz até as margens do rio se dava por dois motivos principais: era um acesso a um local com fartura de peixes e também local de retirada de areia, necessária para as construções de uma cidade que via sua população e o número de novas edificações crescerem num ritmo acelerado. A colocação de um muro pelos industriais, impedindo o acesso, agravou um desentendimento que não era novo. Por cerca de três décadas, desde a época da instalação das fábricas pioneiras, uma série de conflitos foram travados entre as fábricas que se instalaram na margem direita do rio Tietê e os pescadores de Salto. Há registros, inclusive, de tiroteios entre esses pescadores e os prepostos dos industriais, que encaravam as incursões dos pescadores como invasão de propriedade privada, mesmo oficialmente não sendo.

A paz ocorreu a partir de um acordo firmado entre a Câmara Municipal de Salto e a Societá Italo-Americana. Pelo acordo, de 1910, a Câmara cedeu à indústria o referido trecho da rua, que passou a fazer parte de seu patrimônio. E a indústria, em troca, se comprometeu a instalar uma ponte metálica que daria aos pescadores acesso ao Porto das Canoas – eis a Ponte Pênsil. Além disso, se comprometeu também a construir um mirante em local privilegiado, de onde se pudesse contemplar a cachoeira – o que de certa forma foi dificultado desde a instalação, junto à queda d’água, da fábrica Fortuna, de José Galvão.

Finalizada em 1913, a ponte em aço e madeira, com 75 metros de extensão, proibiu definitivamente o acesso ao Porto das Canoas por meio da Rua do Porto. Desse modo, pescadores, visitantes e demais moradores que desejassem ter acesso ao trecho do rio abaixo da cachoeira deveriam obrigatoriamente contornar os prédios das fábricas e passar pela Ponte Pênsil, balançando sobre a margem direita do rio Tietê. Durante muitos anos a manutenção da ponte coube à Brasital – que desde 1919 tornou-se a proprietária da Ítalo Americana. Hoje a ponte figura como atrativo turístico de Salto, prestes a completar seu centenário. Até bem pouco tempo atrás era possível ver uma placa, logo na entrada da ponte, que proibia a pesca a 200 metros, tanto abaixo como acima, da cachoeira – e avisava sobre uma multa aos infratores (vide imagem).

Placa que existia na Ponte Pênsil
Os terrenos da Sociedade Ítalo Americana se estendiam até a propriedade da família Arruda Castanho, que hoje vem a ser o Jardim Três Marias. Na época, boa parte dessa área era de mata virgem. E a divisão entre os terrenos era feita por meio de um valo profundo, por onde corria a enxurrada. Esse valo, encoberto e desapropriado aos Arruda Castanho pelo poder público municipal, corresponde à atual Rua 24 de Outubro – via pública que já se chamou Antônio Melchert, em referência ao industrial que instalou a Fábrica de Papel do Salto, em 1889. Apenas perdeu esse nome em 1985. Popularmente, a via ficou conhecida como Rua dos Pescadores, ou ainda, Rua São Pedro – em virtude de ser um novo acesso ao Porto das Canoas. Essa nomenclatura se aplicava apenas ao trecho compreendido entre a Rua Joaquim Nabuco e a margem direita do rio Tietê. Assim, a abertura desse novo caminho, somado à Ponte Pênsil, foi a maneira encontrada pela Câmara à época de resolver a questão e fazer cair no esquecimento, ou legalizar, a apropriação empreendida pelos industriais aqui instalados. A ponte instalada há poucos anos, denominada Ponte dos Pescadores, justifica seu batismo por esses fatos.

Um comentário:

Anônimo disse...

Como de costume, seus textos são fantásticos! Parabéns.

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966