16 de setembro de 2010

“Saltenses distintos” na década de 1950

O jornal O Trabalhador, em 1952, publicou uma “Revista Ilustrada” em comemoração ao 257º aniversário da fundação de Salto e o terceiro de fundação do periódico. Nessa revista – que trazia na capa o primeiro brasão de Salto (o atual é o terceiro), instituído em 1931 pelo prefeito interventor Major José Garrido – uma das matérias levantava diversos nomes de saltenses que “se salientaram em nossa cidade, filhos desta terra ou vindos de outras plagas, que concorreram para o engrandecimento e o renome de Salto”. Trata-se de um interessante ponto de partida para percebermos como se dava, há mais de meio século, a seleção daqueles que eram considerados os bons filhos da terra, merecedores de admiração e elogios. A seguir, transcrevemos partes dessa matéria (sempre em itálico), complementando-as com alguns comentários de nossa autoria inseridos entre colchetes:

"Citaremos em primeiro lugar o ilustre Dr. Francisco Fernando de Barros Júnior, que, embora capivariano de nascimento, mereceu o título honroso de ‘Pai dos Saltenses’. Formado em engenharia civil, era o Dr. Barros dotado de grande inteligência e sentimento altamente cristão
[esse último comentário tentava associar a figura de Barros Júnior e a memória de abnegado defensor das causas locais aos princípios do jornal O Trabalhador, órgão fundado pela Igreja Católica]. Filho de Francisco Fernando de Barros e Angela Guilhermina de Mesquita Barros, nasceu a 17 de março de 1856 (...) [saliente-se que em uma propriedade rural escravocrata, pertencente ao seu pai, muito embora Barros Júnior, ao longo de sua carreira política, tenha assumido uma postura republicana e abolicionista]. Assinalados serviços prestou a Salto por ocasião da epidemia de varíola que assolou impiedosamente toda a província. Como Intendente [cargo equivalente ao de Prefeito] idealizou e dotou de iluminação a cidade, por meio de lampiões a gás [um dos acendedores desses lampiões, durante certo tempo, foi Henrique Castellari, que será mencionado a seguir]. 

O segundo nome citado na relação é José Weissohn, “homem abnegado, foi o propulsor e vanguardeiro do progresso industrial desta cidade. Como gratidão pelos trabalhos em prol deste torrão bendito, a Edilidade Saltense fez erigir em sua homenagem um marco, que até hoje existe no jardim público [Em que pese existir uma rua com o seu nome, do tal “marco” apenas resta a notícia de que um dia existiu]. Outro industrial citado, com passagem por Salto anterior à de Weissohn, é “José Galvão de França Pacheco [Júnior], abastado industrial e precursor da indústria de tecidos no Brasil, notadamente em Salto, onde foi o primeiro a instalar uma indústria têxtil (...).

Menciona-se o “Dr. Henrique Viscardi, o ‘médico das flores’, como muito bem foi cognominado, era de nacionalidade italiana, mas residiu aqui por muitos anos [Foi trazido da Itália por José Weissohn para assumir a chefia do serviço sanitário das tecelagens aqui existentes. Na prática, Viscardi prestava toda a assistência médica necessária aos operários de Weissohn]. Dotado de coração caridoso ao extremo, Dr. Viscardi tratava dos pobres sem aceitar remuneração. Não media sacrifícios para socorrê-los, prontamente, altas horas da noite. Praticou muito bem seu dever de médico.

Dois prefeitos da primeira metade do século XX são mencionados. O primeiro deles é “Luiz Dias da Silva, a quem Salto deve também muitos benefícios, tais como a construção do Matadouro Municipal [que se localizava no terreno que hoje serve de garagem à Prefeitura], o majestoso Grupo Escolar [atual Escola Estadual Tancredo do Amaral, prédio inaugurado em 1913], o saudoso coreto da Praça Paula Souza [que se localizava no espaço onde se instalou o Clube dos Trabalhadores na década de 1970, prédio hoje em obras] e o antigo Isolamento, hoje transformado em Asilo de Velhos [atual área da Sociedade São Vicente de Paulo]”. O segundo é “o Sr. João Batista Ferrari, que exerceu o cargo de Prefeito no tempo da ditadura e foi o primeiro Prefeito eleito no advento da democracia.” Sobre seus trabalhos enquanto homem público, a revista destaca: “Centro de Saúde, Posto de Puericultura, Escola Profissional (...) jardim da Praça Antonio Vieira Tavares [que antes era um descampado], (...) calçamento da cidade.” E salienta-se como uma de suas maiores conquistas “a majestosa ponte de cimento armado sobre o rio Tietê”.

No cenário artístico, três nomes ligados à música são destacados: os maestros Henrique Castellari, José Maria Marques de Oliveira e Odmar do Amaral Gurgel. Sobre o primeiro deles, de nacionalidade italiana, se diz que “regeu por longos anos a Banda Musical Saltense com brilho e dedicação”. Sobre o segundo, popularmente conhecido por Zequinha Marques, natural de Salto: “conduziu (...) por muitos anos a orquestra Itaguassu e dirigiu durante cerca de 40 anos o coro da Igreja Matriz, sendo compositor de músicas sacras.” E por último, cita-se o também saltense que, artisticamente, era conhecido por Gaó: “tendo estudado nos Estados Unidos, atua no momento nas Emissoras Associadas de S. Paulo”. Ainda no plano artístico, Anselmo Duarte e J. Silvestre também são mencionados. Sobre Anselmo, se diz: “Salto orgulha-se em possuir um filho seu na cinematografia nacional. Anselmo Duarte, o maior astro do cinema brasileiro, que atualmente tem contrato com a Vera Cruz de São Paulo.” Sobre Silvestre – então trabalhando na Rádio Tupi de São Paulo, se diz: “figura de grande destaque nos meios artísticos (...), moço idealista e cheio de entusiasmo, [que] está ganhando fama dia a dia, sendo considerado um dos melhores radialistas do Brasil”. O setor esportivo também foi destacado, citando-se dois “autênticos valores” saltenses: “Paulo Monari (Pauly) e Amadeu Mosca, ambos campeões paulistas de futebol pelo extinto São Bento da Capital, em 1925.

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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966