Figura que desde 1930 dá nome a uma rua de Salto, o médico italiano Enrico (Henrique) Viscardi nasceu em 1858, na cidade de Milão. Sua biografia pode ser dividida em três momentos principais: vivência na terra natal, passagem pela África e permanência no Brasil, especificamente em Salto.
Uma importante fonte de informação a respeito de sua trajetória se encontra numa publicação especial do jornal Fanfulla, editada em 1906 e intitulada Il Brasile e gli Italiani. Trata-se de uma compilação especial que aborda a participação de italianos no desenvolvimento do Brasil, com mais de 1200 páginas, em grande formato. Na página 1036 encontramos os dizeres sobre o doutor Viscardi e uma fotografia dele.

Essa
fonte menciona que Viscardi formou-se médico pela Universidade de Pavia, na
região da Lombardia, em 1883. No ano seguinte, em virtude de um surto de cólera
que se alastrou por toda a península itálica, principalmente Nápoles, ao sul, o
jovem estudante se inscreveu na equipe de Felice Cavallotti, político e poeta
italiano, e foi em socorro aos doentes daquela região. Em 1886, consta que já
dirigia um lazareto destinado aos
acometidos pelo mal da cólera. Esses seus primeiros trabalhos lhe renderam duas
medalhas destinadas a beneméritos da saúde pública italiana. Por essa mesma
época, na biografia de Costantino Lazzari [1857-1927], um socialista lombardo, encontramos
menções ao envolvimento de Viscardi como um dos membros “mais ativos e
dispostos” da Liga Socialista Milanesa.
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| O mal da cólera atingiu muitas capitais europeias no século XIX (imagem ilustrativa). |
No
contexto da política expansionista europeia do final do século XIX, a África
representava um grande território além-mar a ser conquistado. O rei italiano
Umberto I, já tendo feito um ensaio de colonização na Eritréia, lançou-se numa
guerra contra a Abissínia (atual Etiópia), pleiteando o controle de novas
áreas. Essa pretensão italiana culminou na Batalha de Adwa, em 1896, na qual os
etíopes surpreenderam o mundo ao derrotarem a potência européia e permanecerem
independentes sob o reinado de Menelik II. Nesse conflito, Viscardi havia se
engajado como capitão-médico. Ao final da mencionada batalha, foi ele quem
chefiou a equipe de médicos que cuidou dos 300 prisioneiros que tiveram ou um
pé ou uma mão amputados pelos etíopes, antes de serem libertados.
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| Representação da Batalha de Adwa |
Ao retornar à Itália, Viscardi foi condecorado com medalha alusiva aos serviços prestados no campo de batalha e passou os últimos anos do século XIX como médico no Ospedale Maggiore di Milano. Casado na Itália, sabemos que Viscardi deixou lá dois filhos. Há informação que em 1906, Bruno, o mais velho, era Oficial da Marinha; e Mario estudava agronomia em Brescia. Na biografia de Lazzari, os filhos e esposa de Viscardi também são mencionados num trecho de documento do final do XIX que atesta, ainda, a estreita relação entre o socialista e o médico.
Viscardi chegou a Salto em 1902 com uma função pré-determinada: chamado por José Weissohn – industrial italiano estabelecido com suas fábricas às margens do rio Tietê – para assumir a “chefia do serviço sanitário” daquelas tecelagens. Na prática, Viscardi prestava toda a assistência médica necessária aos operários de Weissohn. Várias são as fotos do acervo do Museu da Cidade de Salto na qual estão presentes Viscardi, Weissohn e demais diretores das tecelagens existentes no início do século XX.
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| José Weissohn |
O médico envolveu-se, ainda, no tratamento da ciática e do reumatismo, dando continuidade aos trabalhos pioneiros no combate a esses males a partir dos métodos introduzidos pelo casal Segabinazzi, italianos, também radicados em Salto. Logo que chegou, o médico viveu no Hotel Saturno. Tempos depois se mudou para um casarão de pedra, existente até hoje na Rua Monsenhor Couto. Bem quisto por toda a população saltense daqueles tempos, era chamado de “médico dos pobres” ou “médico das flores”.
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| O casarão em foto de 2007, quando sediava a Biblioteca Municipal |
No referido casarão, Viscardi viveu com uma antiga empregada sua, com a qual teve dois filhos – falecidos com menos de dois anos e antes dele próprio: Antônio Virgílio e Antônia, que estão enterrados em túmulos de mármore branco, cercados por grades de ferro, ao lado do túmulo do pai. Em 1913, quando da morte de Viscardi, uma multidão acompanhou seu enterro, que se deu no então cemitério novo, na Vila Nova, hoje denominado Cemitério da Saudade. Em seu túmulo, que ainda hoje recebe flores, lê-se um epitáfio em língua italiana, que traduzimos: “Nesta sepultura que é a expressão da dor e da admiração de todos, está mudo e frio o coração do Dr. Henrique Viscardi, médico insigne, que era todo caridade e que cessou de palpitar no dia 13 de dezembro de 1913”.
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| Túmulo de Viscardi no Cemitério da Saudade. |
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