29 de abril de 2018
Vídeo: Parque Natural Ilha da Usina
Roteiro: Elton Frias Zanoni
Edição: Lucas Frias Zanoni
Produção: Agência Sagan - Salto/SP
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2 de setembro de 2017
Monsenhor Mário Negro (1922-2006)
Texto de Valderez Antonio Bergamo Silva, publicado originalmente no jornal Taperá, em 2006.
MONSENHOR
Era o meu
modelo de padre. Porreta e da pá-virada.
Certa vez, precisei
telefonar-lhe para combinar detalhes sobre uma cerimônia da Semana Santa em
praça pública. O carnaval tinha passado fazia poucas semanas e eu, na época
dirigente de cultura da cidade, havia mandado decorar a rua dos desfiles com
grandes painéis que evocavam os orixás do candomblé, em homenagem aos cem anos
da abolição da escravidão e às raízes africanas do povo brasileiro. Lembrei,
depois, que o padre talvez não tivesse gostado muito e, diplomaticamente,
expliquei por que era uma referência cultural legítima, uma homenagem a uma das
vertentes da formação brasileira, coisa e tal. Disse que ele tinha “um coração compreensivo” e que certamente tinha entendido a razão dos
enormes desenhos de Iemanjá, Iansã, Ogum, Oxalá, pairando no centro da cidade.
Ele pegou o gancho da minha fala e me devolveu a espetada pelo telefone:
- Claro, o coração do padre é tão
compreensivo que vira terreiro de
macumba.
Esse homem
direto, franco, freqüentemente rude, foi Mário Negro, o padre da minha
infância, o monsenhor de minha cidade natal, o amigo querido que fui a
sepultar, dias atrás.
Quando chegou
à cidade, no final dos anos 1960, criou o hábito que, em seu funeral, todos os
de minha geração cuidavam de lembrar. Nas manhãs de domingo tomava de um
tambor, um bumbo, e saía pelas ruas da cidade arrebanhando a garotada para a
chamada Missa das Crianças. Depois de percorrer ruas a fio, o cortejo – que
lembrava o flautista de Hamelin, da lenda medieval do homem que hipnotizava
meninos com o toque da flauta – chegava à frente da Igreja Matriz. Fazia,
então, as crianças seguirem em fila, pisando criteriosamente uma fita pregada
no chão, até se acomodarem nos bancos para assistirem à missa. Ficou também, na
memória da cidade, como o homem que, num descuido, despencou do campanário da
igreja, estatelando-se no duro chão de pedra do adro. E sobreviveu. Homem de
peripécias curiosas, houve o episódio em que viu-se enganado por uma trupe de
cinema, que o convenceu a fazer uma ponta como ator, celebrando um casamento
numa dada cena do filme que se rodava na cidade. Só depois da estréia, a
pequena cidade – e o padre, inocente – viram tratar-se de um filme pornográfico
dos que surgiam na época.
Haverá, certamente,
quem prefira lembrá-lo como o homem turrão e genioso, que bronqueou com beatas,
implicou com isto e aquilo, brigou com o prefeito, desafiou até o bispo. Eu o
vejo como fruto perfeito da Igreja, naquilo que ela efetivamente é: feita de homens; não de anjos. A
Igreja militante e peregrina, santa justamente porque só se torna possível à
custa de aprendizados, marchas, erros, acertos, martírios e sofrido exercício
da fé. O sacerdote octogenário que minha cidade perdeu foi o homem sabedor dos
limites do homem. Aquele, bem-humorado, que ministrava uma palestra em minha
escola, quando o conclave de cardeais se reunia para escolher o sucessor do
recém-falecido papa Paulo VI. Mário Negro explicava aos jovens que o Espírito
Santo é quem escolhe o papa, e que, em tese, não precisava ser um cardeal, poderia
ser qualquer um, até ele. Quando, com deliciosa malícia no sorriso, acrescentou: -
Esse risco, porém, não existe, porque Deus não comete besteiras.
Mário, que me
lembrou Pedro, o pescador, como eu quis dizer na oração fúnebre junto a sua
sepultura. O Pedro também teimoso, carregado de dúvidas e erros, de humanidade
profunda, a quem Cristo perguntou por três vezes: Pedro, tu me amas ? E,
ao ouvir a resposta positiva do apóstolo, então, por três vezes pediu: - Apascenta as minhas ovelhas.
As ovelhas o
padre de minha infância apascentou daquele modo, arrebanhando-as meninas pelas
ruas da cidade. Ou comovendo-se até às lágrimas, numa voz soluçante de homem,
quando se inflamava na pregação da Descida da Cruz. Cuidou do seu rebanho
quando bradava, numa empolgação inigualável, acolhendo nas escadarias da
igreja, por mais de trinta anos, a procissão e o andor da Senhora do Monte
Serrat, padroeira da terra onde foi missionário infatigável. E ainda na
infalível disposição em atender os moribundos, em encomendar as almas segundo
seu credo, em consolar as famílias chorosas, em ter oficiado missa mesmo na
manhã do seu último dia de vida. Combateu o bom combate, a que alude o apóstolo
Paulo, guardou a sua fé, justificou os seus dias, atendeu, em meio aos seus
limites de homem, ao pedido que o Nazareno fez ao pescador.
Num de seus
últimos gracejos para mim, poucos meses atrás, apareceu numa chácara onde eu me
encontrava, conversando com uma amiga que tínhamos em comum. Perguntei por onde
havia chegado, que não ouvira barulho de automóvel, apenas o vira emergir de trás
dos arbustos do jardim. Ele, sem perder a anedota, me esclareceu: -
Cheguei voando. Os padres, depois que fazem oitenta anos, começam a virar
anjos.
Para mim, que
soube amá-lo, sua imagem, sim, vai-se voando, na minha resignada tristeza,
levada na batida do bumbo que ouvia criança, nas cantigas marianas, nos acordes
da banda, nas pancadas do sino. Vai-se a figura polêmica. Vai-se o pastor
incansável. O amigo dos meus dias de homem. O padre dos meus tempos de menino.
Monsenhor Mário Negro (1922-2006), que foi o pároco responsável pela Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, em Salto/SP, durante quase trinta anos.
16 de junho de 2017
Quem foi Tavares? As (in)certezas de um marco inicial
Considera-se como a data da
fundação de Salto o dia da bênção da capela dedicada a Nossa Senhora do Monte
Serrat, ocorrida em 16 de junho de 1698. E o fundador, o capitão Antonio Vieira
Tavares - então proprietário do sítio Cachoeira, cujas terras correspondem hoje
a parte da cidade de Salto. Antes de falecer, Tavares fez a doação do sítio
Cachoeira à capela por ele construída. E na escritura de doação, datada de
1700, fez constar que era vontade dele e de sua mulher, Maria Leite, que a
capela permanecesse para sempre naquele local, onde hoje está a Igreja Matriz,
sob a mesma invocação que a capela pioneira. À época, quem observasse o
horizonte a partir daquele ponto teria vista privilegiada para a cachoeira –
algo que se tornou impossível com a instalação das primeiras tecelagens, a
partir de 1875.
O
trabalho de recuperação da memória do fundador de Salto coube a Luiz Castellari [1], autodidata, autor de História de Salto,
que empreendeu competente pesquisa, decifrando manuscritos do final do século
XVII e início do século XVIII. Antes disso, pouco se sabia sobre a ocupação
pioneira das terras à direita do Ytu
Guaçu – o salto d’água no rio Tietê.
Nascido
em meados do século XVII, Tavares vivia no sítio Cachoeira desde
aproximadamente 1690, com sua mulher, alguns familiares e escravos. A
propriedade fora obtida por duas escrituras de datas de cartas de sesmarias –
uma forma existente, no Brasil colonial, para se tornar proprietário de terras.
Para assistir missa aos domingos, na vila de Itu, Tavares e seus familiares
tinham que atravessar o rio Tietê – e não há registro da existência de uma
ponte ligando as duas margens nessa época. Além disso, nosso fundador alegava
sofrer de grande moléstia – o que dificultava ainda mais o seu deslocamento.
Com
base nesses argumentos, somados à sua devoção religiosa, solicitou formalmente
às autoridades católicas que o autorizassem a construir em seu sítio uma capela
dedicada à Senhora do Monte Serrat. Para tanto, pediu autorização também para
usar os bens móveis de uma capela fundada por seu pai, Diogo da Costa Tavares [2], localizada em Cotia, hoje cidade da Grande São Paulo. A licença para construir
a capela no sítio Cachoeira foi concedida em fins de 1696 e, em 16 de junho de
1698, o padre Felipe de Campos, a benzeu.
Passados
dois anos e meio da bênção da capela, Tavares e sua mulher, Maria Leite,
firmaram uma escritura de doação do sítio Cachoeira à capela de Nossa Senhora
do Monte Serrat recém fundada, mas impunham algumas condições. Além da já
mencionada localização da capela, que não poderia ser alterada, especificaram
que a doação só seria consumada por falecimento de ambos, marido e mulher.
Doariam ainda as peças de gentio da terra
– como eram chamados os escravos índios – e demais escravos de origem africana.
A casa na qual residiam também estaria entre os bens doados, excetuando-se
apenas dinheiro, ouro, prata, cavalos, armas e roupa branca. E é sobre a
localização dessa casa que paira um grande mistério. Em que ponto do sítio
Cachoeira ela estaria localizada? Possivelmente próxima de onde se construiu a
capela, embora não exista hoje nenhum vestígio material nem documento escrito
que nos dê qualquer indicação. Vale lembrar que a capela construída por Tavares
resistiu até 1928, quando foi demolida para que se construísse em seu local a
atual Igreja Matriz, concluída em 1936.
Quando
chegou ao sítio Cachoeira, Tavares era casado com Maria Leite, sua primeira
esposa, filha de Paschoal Leite Furtado e Mécia da Cunha. Com ela, falecida em
3 de maio de 1704, não teve filhos. Cerca de um ano depois do falecimento da
primeira esposa, o fundador de Salto casou-se com Josefa de Almeida, filha de
Manoel Antunes de Carvalho e Ana de Almeida, do Rio de Janeiro. Desse
casamento, nasceram: Antonio, que ficaria conhecido por frei Antonio do Monte
Carmelo; Braz de Carvalho Paes; Manoel, que se tornou irmão leigo da Ordem do
Carmo; Francisco, que foi mestre em Filosofia; e Maria, que se casou com um
sargento de milícias de Itu.
Antonio
Vieira Tavares faleceu em 4 de dezembro de 1712, sendo sepultado na capela mor
da Igreja dos Franciscanos, em Itu. Em seu testamento, nomeou seu filho Braz
Carvalho Paes como administrador da capela que ele havia construído em suas terras,
assim como declarou deixar todos os seus bens, inclusive o próprio sítio
Cachoeira, à referida capela. Seus restos mortais foram transferidos para Salto
em 21 de junho de 1981 e desde então se encontram no interior da capela
existente no Monumento à Padroeira, inaugurado no ano anterior, no bairro hoje
denominado Jardim Itaguaçu.
Embora
seja costume referir-se a Salto como “terra de Tavares”, em alguns círculos
saltenses, é notório que não foram ele e sua gente os primeiros a ocupar a área
onde hoje se localiza a cidade de Salto, que abrigava, ao início da colonização
portuguesa na América, aldeamentos dos índios guaianás (ou guaianazes), do
grupo Tupi-Guarani. Consta que a aldeia aqui localizada chamava-se Paraná-Ytu. Foram esses índios que deram
à cachoeira o nome de Ytu Guaçu, que
significa Salto Grande em língua nativa. Assim, fica claro que esta cachoeira
acabou dando nome a duas cidades: a Salto (em português) e à vizinha Itu (em
tupi-guarani).
Há
registros que mencionam o ataque que, em 1532, os indígenas empreenderam contra
Martim Afonso de Souza – primeiro donatário da Capitania de São Vicente. Dentre
os líderes guerreiros, menciona-se o Cacique
de Ytu. Sendo essa ocorrência de época em que a vila de Itu ainda não
existia, acredita-se que seja uma referência ao chefe dos índios que viviam
pelas terras da atual Salto. O Museu da Cidade, inclusive, exibe urnas
funerárias, pontas de flechas e outros fragmentos de cerâmica recolhidos nos
arredores, que testemunham essa presença. Esses indígenas, assim como outros
das margens do Tietê, foram repelidos ou aprisionados nas investidas das
primeiras bandeiras paulistas, que os levaram para abastecer de mão-de-obra as
roças nas vilas do planalto.
A certidão de nascimento de Salto: o pedido de Tavares para construir a
capela, no ano de 1696.
Transcrição
preservando-se a grafia original:
Título de erecção e instituição da Capella de Nossa Senhora do Monserrate
sita no termo desta villa no Sitio chamado Salto, e Cachueyra.
Translado da Provisão de ereção
Muito Reverendo
Senhor Doutor Visitador Geral Diz Antonio Vieyra Tavares morador em avilla de
Ytú, que ele supp.te tem o sitio de sua habitação na paragem chamada Cachueyra,
oqual fica distante da Villa húa Legoa, etem húa passagem de Rio, comque sua familia
não pode acudir a Villa para ouvir Missa aos Domingos, edias Santos, e elle
supp.te sofrer com grande molestia epor estas razoens, Com tão bem por sua
devoção quer erigir no dito Sitio húa Igrejia com seu Adro com a invocação de
nossa Senhora do Monserrate, para cuja fabrica aplicada os bens moveis da
Capella da Acutia que por ordem de Vm.ce selhe entregarão por ser elle supp.te
sucessor Legitimo do Fundador que (...) lhe faça mercê Conceder licença para
erigir adita Igreja na sobredita paragem com seu Adro; assim mas de comissão do
Reverendo Vigario para benzer como estiver feita.
________________
[1] Nascido em Salto em 1901, Luiz Castellari era filho do maestro Henrique Castellari, que dá nome ao Conservatório Musical de Salto. Luiz faleceu precocemente, aos 47 anos. Foi um de seus filhos quem doou ao Museu da Cidade de Salto, nos anos 1990, os originais de seu livro História de Salto e da pesquisa original, com todas as notas tomadas por seu pai, em diversos arquivos públicos e eclesiásticos. Tais textos, embora publicados apenas em 1971, por iniciativa do então prefeito de Salto, Jesuíno Ruy, foram concluídos em 1942. Luiz muito se esforçou por publicar sua pesquisa à época, sem, contudo, obter sucesso.
[2] Sobre o pai do fundador de Salto, um português, sabe-se que foi casado duas vezes, sendo a segunda com Catarina de Lemos, e que morou muito tempo em Cotia, onde faleceu em 1659. Participou, junto com o lendário irmão Antonio Raposo Tavares, de expedições visando expulsar os holandeses de Pernambuco e da Bahia, entre 1639 e 1642. É de se imaginar, portanto, que tenha se dedicado ao aprisionamento de índios para o trabalho escravo nos engenhos, como o irmão. Já Fernão Vieira Tavares, avô paterno do fundador de Salto, era português e chegou ao Brasil em 1618, tornando-se capitão-mor da capitania de São Vicente em 1622.
4 de março de 2017
No tempo (não tão distante) do VHS e do UHF
Hoje parece bobagem. Mas houve um tempo – e isso coincide com minha infância – que gravar o que era transmitido na TV em VHS era algo fantástico, pois você estava a documentar algo importantíssimo, que poderia ser revisto tantas vezes se desejasse depois. Gravar naquela precária fita magnética, mais perecível do que se imaginava à época, com um aperto no rec do controle remoto, parecia ser um serviço de grande relevância perante as pessoas mais próximas. Isso num tempo que, em Salto, assistíamos aos principais canais abertos retransmitidos em UHF por uma torre mantida pela Prefeitura – coisa que ainda hoje se mantém. Toda casa tinha sua antena “vermelhinha” para captar o sinal. Dez ou vinte anos antes era necessário ter uma torre na própria casa, com antena “espinha de peixe” apontada para São Paulo, de modo a captar diretamente o sinal VHF da capital. Em outras cidades a coisa era ainda mais precária. Por esses anos, falava-se canal 5 para a Globo, 13 para a Bandeirantes, 4 para o SBT, 9 para a extinta Manchete. Era uma linguagem conhecida por todos. Depois vieram as antenas parabólicas com sinal mais limpo e cobrindo praticamente todo o território nacional. Antes disso as interferências no sinal faziam parte do show, era um sofrimento!
Com o primeiro aparelho de vídeo cassete que tivemos em casa – da marca Mitsubishi, “quatro cabeças”, top da época – gravei horas a fio de desenhos do SBT, no formato EP – o que reduzia um pouco a qualidade, mas permitia registrar mais de seis horas por fita. Esses aparelhos eram relativamente caros e vez por outra se ouvia notícia sobre certa casa que fora roubada, da qual o ladrão tinha levado apenas o vídeo cassete. Fita boa era da marca TDK, mas por vezes comprávamos da JVC, normalmente com melhor preço. Quando a gravação não ficava boa ou não desejávamos guardar para posteridade, gravávamos por cima, na mesma fita. Fazendo isso muitas vezes, perdia-se qualidade nas últimas gravações. Era o senso comum em torno dessa prática. Se o desejo fosse não mais gravar sobre aquela fita, bastava quebrar um pequeno lacre plástico que havia nelas, um quadradinho. Era a segurança de que não se perderia uma gravação por acidente.
Depois de certo tempo comecei a gravar jogos de futebol. O primeiro que gravei e tenho até hoje foi o que deu a classificação ao Brasil para a Copa do Mundo de 1994. Foi um Brasil x Uruguai disputado no Maracanã, com a volta de Romário à seleção. Eram tempos mais modestos e dignos desse esporte. No ano seguinte gravei a Copa toda, até a final vencida pelo Brasil nos pênaltis. Gravei também as finais do Corinthians no Campeonato Paulista de 1995 e na Copa do Brasil do mesmo ano, o Paulista de 1997, o Brasileiro de 1998, 1999... Em caso de perda do título não mantinha a gravação: gravava outra coisa por cima! Nessa prática, acumulei umas 25 ou 30 fitas. Ganhei algumas outras de parentes, com gravações um pouco mais antigas. Boa parte disso converti para DVD. Alguns fragmentos postei no YouTube, na tentativa de perpetuá-los. São registros modestos, que não contam a história da TV nem do futebol, mas são meus próprios registros dos momentos que escolhi como memoráveis, por minha ótica daqueles anos. Bom revê-los!
(16/09/2015)
(16/09/2015)
7 de agosto de 2016
Indústria Nacional do Salto
Entre 1898 e 1904, as indústrias pioneiras que se instalaram em Salto às margens do Rio Tietê, logo após a cachoeira, pertenciam a José Weissohn & Cia. (por isso as iniciais J. W. & Cia.). Eram o resultado da fusão das duas tecelagens mais antigas: a Júpiter, fundada em 1875 por José Galvão; e Fortuna, inaugurada em 1880 por Barros Júnior.
Nessa época, Júpiter e Fortuna eram também conhecidas por Indústria Nacional do Salto. É dessa época a belíssima imagem aqui postada: um conjunto de pinturas que tentava retratar a grandiosidade dos prédios do complexo industrial saltense, um dos pioneiros do Estado de São Paulo e do Brasil. Em 1904, o complexo, juntamente com a Fábrica de Papel Paulista, de Antonio Melchert, seria adquirido por capitais italianos, tornando-se a Fábrica de Tecidos e de Papel Ítalo-Americana, transformada em Brasital S/A em 1919.
A imagem acima, postada no grupo Fotos Antigas de Salto pelo saltense Marcos Buratti, ao que tudo indica é a embalagem do "Brim Fluminense", um dos produtos fabricados pela tecelagem naqueles tempos. Nota-se ao centro um desenho da então Rua do Porto, posteriormente transformada em caminho particular, dando origem a uma disputa que culminaria com a instalação da Ponte Pênsil em 1913. Precioso documento que merece análise pormenorizada, a qual farei brevemente.
Conheça os industriais pioneiros em Salto:
José Galvão de França Pacheco Júnior - Ituano, nasceu em 19 de Janeiro de 1834 e faleceu em Salto em 29 de março de 1889. Foi o primeiro a construir e inaugurar uma fábrica de tecidos em Salto. Todo o maquinário foi adquirido da Platt Brothers Co., da Inglaterra.
Octaviano Pereira Mendes - Ituano, engenheiro civil formado nos Estados Unidos. Em 1887, através de uma associação com seus familiares, inaugurou a terceira fábrica de tecidos de Salto. Mendes ocupou também vários cargos públicos, especialmente na cidade de Itu, onde desenvolveu toda a sua trajetória política pelo Partido Republicano Paulista. Foi um dos membros organizadores da Companhia Ituana de Força e Luz, com capitais exclusivamente ituanos, e adquiriu uma cachoeira existente do rio Tietê no lugar denominado Lavras. Em 1906, concluídos todos os trabalhos da represa e usina, as cidades de Itu e Salto passaram a ser iluminadas por energia elétrica.
Francisco Fernando de Barros Júnior - Nasceu em Capivari em 17 de março de 1856 e faleceu em Salto em 2 de novembro de 1918. Em 1879, retornou ao Brasil depois de concluir o curso de engenharia civil nos Estados Unidos. Barros Júnior, além de industrial, foi também vereador em Itu e Deputado Estadual pelo Partido Republicano Paulista. Em Salto, ocupou diversos cargos públicos, como o de vereador e presidência de intendência – equivalente a prefeito, na época.
Antonio Melchert - Engenheiro paulista que, com seus filhos, construiu e inaugurou a Fábrica de Papel Paulista, em 1889. Foi a primeira do gênero a ser instalada na Província de São Paulo.
![]() |
Diagrama elaborado com base nas pesquisas de Anicleide Zequini e Ettore Liberalesso. |
"Acham-se adiantadas as obras da fábrica que vai estabelecer no Salto de Ytu o Sr. José Galvão de França Pacheco Júnior... tem ela 50 teares, vai fabricar algodão grosso e é movida por água. A casa é de pedra lavrada e digna de ser observada pela perfeição do trabalho. Parte do maquinismo já está apresentada e espera-se muito breve inauguração."
Desta forma foi que jornal Correio Paulista, da capital, anunciou, em 1875, a construção da primeira fábrica de tecidos de Salto. Localizada junto à cachoeira do rio Tietê, utilizava-se da turbina hidráulica para um maior aproveitamento da força das águas para movimentar os teares.
As soluções tanto construtivas como tecnológicas adotadas por José Galvão serviram, depois, como modelo para outras fábricas. Em 1882 Francisco Fernando de Barros Júnior também instalava, junto ao rio Tietê, pouco abaixo da de José Galvão, uma segunda fábrica de tecidos em Salto.
Na margem esquerda do rio Tietê, em 1889, a Melchert & Cia. inaugurava uma fábrica de papel, a primeira da Província de São Paulo. Dois anos antes, em 1887, Octaviano Pereira Mendes construía, próximo à Estação Ferroviária, a terceira fábrica de tecidos de Salto. Foi a única neste período a ser movimentada totalmente a vapor.
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