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| Representação simplificada da realidade de Tavares em Cotia, produzida com IA. |
O berço em Cotia
A fundação de Salto remete ao século XVII, na antiga aldeia de Koty (atual cidade de Cotia, próxima à capital paulista), onde a família Tavares consolidou sua influência. O patriarca, Capitão Diogo da Costa Tavares, foi uma figura de prestígio militar, tendo atuado na restauração de Pernambuco contra os holandeses. Ao retornar a São Paulo, estabeleceu-se às margens do Rio Cotia, onde fundou uma capela primitiva e iniciou a exploração das terras locais.
Seu filho, Antônio Vieira Tavares, expandiu esse patrimônio, tornando-se um influente sertanista e fazendeiro. Em Cotia, Antônio operava um modelo econômico baseado no controle de indígenas da etnia Carijó, cuja força de trabalho era voltada ao cultivo de trigo para abastecer as bandeiras. Sua propriedade gozava de uma posição estratégica: a confluência do Rio Cotia com o Caminho do Peabiru, tornando-se um vital entreposto logístico. Para legitimar seu domínio, Tavares ergueu em 1662 a capela de Nossa Senhora do Monte Serrat, estabelecendo a estratégia de ocupação territorial que repetiria anos depois.
A Aldeia de Koty (Cotia) funcionou como um verdadeiro laboratório logístico e de poder para a família Tavares. Diferente das missões religiosas convencionais da época, o local se configurou como um núcleo de "índios de administração", mantidos sob a tutela secular e direta de Antônio Vieira Tavares.A exploração e o controle absoluto dessa mão de obra nativa geravam tensões constantes. Documentos da Câmara de São Paulo, datados de 18 de junho de 1633, já registravam conflitos intensos entre os lavradores das terras de "Cuty" e os padres da Companhia de Jesus, evidenciando a afirmação do poder laico de Tavares frente à autoridade eclesiástica.Geopoliticamente, o domínio territorial da fazenda era um grande trunfo. O local operava como um "pedágio" e entreposto de reabastecimento estratégico, pois ficava na confluência exata do Rio Cotia com o antigo Caminho do Peabiru — a milenar rota pré-cabralina que servia como a principal artéria de comunicação entre a Vila de São Paulo e o interior do continente. Após a partida de Tavares para o Sítio Cachoeira, o domínio político dessa importante região de Cotia foi repassado à família de Estevão Lopes de Camargo, no início do século XVIII.
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| Região de São Paulo no séc. XVII, com foco na transição de Cotia para o Sítio Cachoeira. |
O Sítio Cachoeira
Por volta de 1690, Antônio Vieira Tavares transferiu seu centro de poder para o interior, fundando o Sítio Cachoeira às margens do Rio Tietê, em território próximo à Vila de Itu. A mudança foi acompanhada por sua primeira esposa, Maria Leite, e um grande contingente de familiares e escravizados.
A fundação de uma nova capela no local uniu a fé à necessidade prática. Debilitado por uma enfermidade, Antônio tinha dificuldades em atravessar as águas do Tietê para assistir às missas em Itu. Assim, em 1696, obteve a Provisão de Ereção para um novo templo. Com pragmatismo, ele transferiu os paramentos e objetos sacros da antiga capela de Cotia para a nova sede. Em 16 de junho de 1698, o vigário de Itu abençoou a capela de Nossa Senhora do Monte Serrat, ato que marca a fundação oficial de Salto.
A consolidação do Sítio Cachoeira não derivou de uma ocupação espontânea, mas do rigoroso instrumento jurídico das cartas de sesmarias, que oficializavam a concessão de terras na América Portuguesa. A extensão desse latifúndio era monumental. Conforme descrito na escritura de doação de 1700, os limites originais começavam na barra do Rio Jundiaí, acima do salto, estendendo-se rio abaixo por meia légua de testada e uma légua de sertão, acrescidos de mais 550 braças de testada até alcançar os campos.Em valores convertidos, sabendo que a légua de sesmaria equivalia a 6.600 metros lineares, a área total transferida à Igreja Matriz correspondia a impressionantes 2.178.000 metros quadrados, o equivalente a 90 alqueires paulistas ou a quase 218 hectares.A dimensão formidável dessas terras permaneceu viva na tradição oral local. Em depoimento prestado em 1979, o antigo morador Zequinha Marques (1893-1981) relatou que as propriedades doadas pelo fundador englobavam desde a região do "Bananal" até as terras da "Boa Vista".
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| "Título de Ereção e Instituição da Capela": a autorização para a construção no Sítio Cachoeira. Esta é uma das páginas do documento redigido no ano de 1696. |
Estratégia jurídica e a Escritura de Doação
Prevendo o fim de sua vida, Antônio arquitetou a perpetuação de seu domínio através de uma escritura de doação lavrada em 1700. O casal transferiu a propriedade integral do Sítio Cachoeira — terras, sede e trabalhadores (escravizados africanos e indígenas) — à própria capela.
Entretanto, o sertanista impôs limites estratégicos à doação, estabelecendo cláusulas de exclusão que mantiveram bens de liquidez e uso prático, como dinheiro, ouro, prata, cavalos, armas e roupas, fora do patrimônio religioso. Além disso, a escritura determinava que a posse definitiva dos bens pela capela só ocorreria após a morte de ambos os doadores e exigia a perpetuidade do templo naquele exato local geográfico, de frente para a exuberante queda d'água do Tietê, impedindo qualquer futura transferência da sede.
A perpetuação do domínio territorial e religioso no Sítio Cachoeira foi formalizada em 11 de dezembro de 1700, na então "Villa de Nossa Senhora da Candellaria de Itú-Guassú", em um documento extremamente minucioso: a "Escriptura de doação a Capella de nossa Senhora do Monserrate". Lavrado pelo tabelião Antonio Machado do Passo na própria residência do fundador, o manuscrito é um testemunho valioso das dinâmicas jurídicas e sociais da sociedade colonial.O texto original descreve a transferência das terras, de "todo ogado", das "casas de moradas [...] que são de dous lanços com seus corredores, e quintal", e do controle sobre "todas as pessoas de gentios da terra, e escravos". O pragmatismo econômico do sertanista, contudo, é evidenciado pela salvaguarda rigorosa de seus bens de maior liquidez e importância tática, excluídos da doação e listados literalmente no manuscrito: "excepto dinheiro, ouro, prata emais fardas,como cavallos, espingardas, roupa branca".A exigência de perenidade do templo é categórica, ordenando que se "conservasse a dita Capella para sempre no mesmo logar a paragem em que está sita". Além disso, a transferência da propriedade estipulava que a doação só valeria "por morte e fallecimento de ambos" (marido e mulher), impondo ao futuro administrador da capela a contrapartida de "mandar dizer húa missa cada mez pela alma dos ditos doadores".Um último detalhe do manuscrito revela bastante sobre as estruturas de gênero e educação na América Portuguesa da época: a escritura aponta que, no momento de firmar o acordo diante das testemunhas, a doadora Maria Leite declarou "não se saber assignar", necessitando pedir ao próprio tabelião que o fizesse em seu nome.
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| Parte da "Escritura de Doação": documento de 1700. |
Genealogia e sucessão
Antônio Vieira Tavares era filho de Diogo da Costa Tavares e Maria Bicudo. Após a morte de sua primeira esposa, Maria Leite (1704), casou-se com Josefa de Almeida, com quem teve cinco filhos, incluindo Frei Antônio do Monte Carmello e Frei Manoel Antunes, que seguiram a vida religiosa.
O capitão faleceu em 4 de dezembro de 1712. Com sua morte, a doação do Sítio Cachoeira foi consumada, garantindo que o templo permanecesse como o núcleo de desenvolvimento da futura cidade.
Antônio Vieira Tavares carregava em seu sangue uma linhagem de exploradores e militares profundamente enraizada na história colonial. Seu avô paterno, o português Fernão Vieira Tavares, aportou no Brasil em 1618 e ascendeu ao cargo de capitão-mor da Capitania de São Vicente em 1622. Seu pai, o capitão Diogo da Costa Tavares, estabeleceu-se em Cotia e casou-se com Maria Bicudo, união da qual Antônio nasceu como o sexto filho. A família ostentava uma forte tradição sertanista, visto que Diogo atuou ao lado de seu lendário irmão, o bandeirante Antônio Raposo Tavares — tio do fundador de Salto —, em expedições militares contra os holandeses no Nordeste entre 1639 e 1642.No âmbito matrimonial, Antônio uniu-se primeiramente a Maria Leite, filha de Paschoal Leite Furtado e Mécia da Cunha. Ela o acompanhou na fundação do Sítio Cachoeira, porém faleceu em 3 de maio de 1704 sem deixar herdeiros. Cerca de um ano após o óbito da primeira esposa, o sertanista casou-se com Josefa de Almeida, filha de Manoel Antunes de Carvalho e Ana de Almeida. Foi desta segunda união que a descendência de Antônio se consolidou com o nascimento de seus cinco filhos: Manoel Antunes de Carvalho, Braz Carvalho Paes, Antônio, Francisco e Maria.A sucessão da administração da recém-fundada capela, ocorrida após o falecimento do patriarca em 4 de dezembro de 1712, revelou a organização hierárquica e o pragmatismo da família. Documentos primários atestam que o filho mais velho, o capitão Manoel Antunes de Carvalho, batizado em homenagem ao avô materno, tornou-se o legítimo administrador do patrimônio religioso. Contudo, devido à sua ausência, ele nomeou legalmente seu irmão, o Capitão Braz Carvalho Paes, para exercer a função de zelar e ornar a Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat e o Sítio Cachoeira. Braz ficou encarregado de cumprir a exigência inegociável da doação: mandar rezar uma missa mensal pela alma dos pais.Os demais herdeiros trilharam caminhos diversos. Francisco seguiu a vida acadêmica e alcançou o título de mestre em Filosofia, enquanto Maria, a única filha mulher, uniu-se em matrimônio a um sargento de milícias da vila de Itu. Dois dos filhos, Antônio e Manoel, dedicaram-se à vida religiosa: Antônio tornou-se o Frei Antônio do Monte Carmelo, e Manoel tornou-se irmão da Ordem do Carmo. Quanto à viúva Josefa de Almeida, a documentação revela que ela contraiu um segundo matrimônio com Bento de Toledo Piza, falecido em 1713, vindo ela a falecer antes do ano de 1745.
Legado e memória
A capela original de taipa, construída por Tavares, resistiu por 230 anos, sendo demolida em 1928 para a construção da atual Igreja Matriz. Os restos mortais de Antônio Vieira Tavares, originalmente sepultados em Itu, foram transferidos para Salto em 1981. Hoje, ele repousa na cripta do Monumento à Padroeira, no Morro das Lavras, consolidado como a figura central da história saltense, graças ao trabalho de resgate documental de historiadores como Luiz Castellari.
Revisão historiográfica
Conforme demonstra o historiador John Manuel Monteiro em sua obra Negros da Terra, a economia colonial paulista no século XVII era intrinsecamente dependente da captura e exploração sistemática da mão de obra indígena. Longe do mito heroico de expansão territorial, as expedições bandeirantes visavam primariamente garantir a força de trabalho essencial para sustentar a produção agrícola comercial do planalto. A família Tavares atuou no epicentro dessa dinâmica: o patriarca Diogo da Costa Tavares participou ativamente das campanhas militares de apresamento junto a seu lendário irmão, Antônio Raposo Tavares, responsável pelas massivas investidas contra as reduções Guarani na região do Guairá.
A riqueza e a influência acumuladas por Antônio Vieira Tavares em Cotia e, posteriormente, em Salto, baseavam-se por completo nessa força de trabalho cooptada. Para contornar as proibições da Coroa e da Igreja contra a escravização dos nativos, os paulistas forjaram o artifício jurídico da "administração particular". Sob a fachada legal de tutores de indígenas "livres", os colonos exerciam controle absoluto e vitalício sobre essa população. Monteiro revela que tal arranjo era escravidão disfarçada, permitindo que os paulistas arrolassem as "peças do gentio da terra" em testamentos, dotes e escrituras de forma corriqueira. Eram, portanto, tratados como propriedade.
Esse embasamento historiográfico ilumina diretamente a materialidade da fundação de Salto. Ao firmarem a escritura de doação do Sítio Cachoeira em 1700, Antônio Vieira Tavares e Maria Leite transferiram explicitamente "todas as pessoas de gentios da terra" para a posse perpétua da capela. Foram esses "negros da terra", submetidos ao rigoroso regime de administração particular, os verdadeiros construtores das grossas paredes de taipa da capela primitiva e os produtores do excedente econômico que permitiu à família Tavares legitimar e perpetuar seu domínio territorial às margens do Rio Tietê.
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| Ao fundo, parte da capela primitiva, construída dem 1698. Foto de 1903. |
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| Nos primeiros anos do século XX, a capela de 1698 ganhou uma torre. |
Bibliografia consultada
BARCELLOS, João. Cotia: da odisseia brasileira de São Paulo. [S.l.]: [s.n.], 1993.
CASTELLARI, Luiz. História de Salto. Salto: Gráfica Taperá, 1971.
FAUS, Joan. Montserrat no Brasil. São Paulo: Rumo Gráfica Editora, 1976.
MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
PASSOS, Maria José Spiteri Tavolaro. Imaginária retabular colonial em São Paulo: estudos iconográficos. 2015. Tese (Doutorado em Artes Visuais) - Instituto de Artes, Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2015.
SOUZA, Ricardo Bezerra de. A história do município de Cotia. [S.l.]: [s.n.], [s.d.].








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