O registro da memória oral de trabalhadores locais constitui fonte primária para a compreensão do desenvolvimento industrial e urbano do município. O relato concedido em 18 de julho de 2006 por Benedicto dos Santos (1934-2022), conhecido como Seu Ico, fornece dados sobre a cadeia produtiva da cantaria em Salto. A documentação mapeia a geografia das oficinas de beneficiamento de rochas, as técnicas de extração mineral e a inserção comercial do granito saltense no mercado nacional e internacional.
A inserção de Benedicto dos Santos no ofício ocorreu aos 13 anos de idade, sob a instrução de Luiz Gentil, na pedreira do Dr. Bicudo (região da Fazenda Pedra Branca). O itinerário laboral incluiu passagens pela Fazenda Santa Cruz e por pedreiras nos municípios de Itatiba e Mauá. O aprimoramento técnico e a especialização em obras de precisão ocorreram durante o período em que integrou a equipe de Pedro Baldi. Este é referenciado no depoimento como mestre canteiro responsável pela execução das estruturas de pedra de edifícios religiosos locais, como a Igreja Matriz e a Igreja de São Benedito, além de ter operado na construção da Catedral da Sé, em São Paulo, e em monumentos em Piracicaba. Em 1963, Benedicto dos Santos estabeleceu sua própria oficina.
O depoimento registra a distribuição espacial das cantarias no perímetro urbano de Salto em meados do século XX. Houve operações na Avenida 9 de Julho (sede da oficina de Pedro Baldi e, posteriormente, da Marmoraria Ico - embora em pontos distintos), na Rua José de Almeida Teixeira (Sérgio Baldi), na Rua Prudente de Moraes (Família Rosambone), na Rua Rio Branco (Valdir Ramos), na Rua Rodrigues Alves (Pellis) e na Rua Marechal Deodoro (Antônio Valério).
A produção de pedra atendia a múltiplas demandas industriais e arquitetônicas. Os blocos de granito de Salto, frequentemente comercializados sob a denominação "Vermelho Itu", registraram alta demanda devido à resistência intempérica do material. A rocha foi empregada em larga escala na estruturação de túmulos em cemitérios de São Paulo (Consolação e Araçá) e do Rio de Janeiro (Caju). O setor extraía paralelepípedos, a partir da Pedra Branca, para a pavimentação de vias na região do ABC paulista e no interior do Estado.
O trabalho do canteiro exigia a aplicação de saberes técnicos pré-industriais estruturados na observação empírica. A etapa preliminar demandava rudimentos de metalurgia, visto que o trabalhador necessitava forjar e afiar as próprias ferramentas de corte (brocas e ponteiros). A detonação dos matacões para a separação dos blocos implicava a fabricação artesanal de pólvora e o cálculo preciso das cargas, a fim de evitar a fragmentação excessiva do material.
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| Pedreira no Bairro da Estação, 1947. |
A técnica de corte manual operava mediante a leitura geológica da pedra, fundamentada na identificação do seu "verso", classificado em três eixos: a "corrida" (linha de clivagem, geralmente paralela ao solo na geologia local, que determina o corte plano), o "segundo" (linha transversal balizada pela incidência solar) e o "trincante" (linha de maior resistência e desvio). O aparelhamento exigia geometria estrita, como verificado na produção das "molaças". Estas peças eram cilindros e cones maciços de granito esculpidos manualmente para integrar as máquinas de moagem de caulim e celulose em fábricas de papel, com registros de exportação para a indústria do Canadá.
A mecanização dos processos de corte (como a adoção do fio diamantado e de processos pneumáticos) e a imposição de normativas ambientais restritivas à extração mineral em matacões determinaram a retração sistêmica do trabalho braçal e artístico nas pedreiras locais. O registro da trajetória de Benedicto dos Santos documenta os processos laborais e as dinâmicas de um setor primário intrínseco à história de Salto.
Ouça o depoimento de Benedicto dos Santos, gravado em 2006:


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