7 de abril de 2026

O levante de outubro de 1887

Na noite de um domingo, 16 de outubro de 1887, o silêncio habitual da cidade de Itu foi rompido pelo pânico. O delegado local recebera um aviso urgente: um grande grupo de negros escravizados, "completamente armados", marchava de fazendas vizinhas (provavelmente de Monte-Mor e Capivari) em direção à cidade.

Uma pequena força policial foi enviada ao lugar chamado "Cangica", no caminho do Salto, para interceptá-los. O que encontraram não foi uma fuga silenciosa, mas uma coluna de resistência. Ao avistarem os soldados, os negros abriram fogo. O confronto foi violento; as praças da polícia, vencidas em número e poder de fogo, foram rechaçadas. Um soldado retornou à cidade banhado em sangue, espalhando o terror de que a população seria atacada.

Enquanto a cidade entrava em "sinal de rebate" e cidadãos armados passavam a noite em vigília, o grupo de fugitivos — que incluía homens a cavalo, mulheres e crianças com cargueiros — atravessava audaciosamente a Rua das Flores em marcha apressada rumo a São Paulo. Ao amanhecer, o cenário no local do conflito revelava a intensidade da luta: bonés e rifles abandonados sobre poças de sangue.

Nos dias seguintes, a tensão permaneceu. Descobriu-se que as fazendas dos senhores Antonio e Bento Dias haviam sido "inteiramente abandonadas". O medo da elite local aumentou com relatos de que pequenos grupos de negros permaneciam escondidos nas matas próximas ao rio Pirapetinguy, confrontando moradores para obter cavalos e declarando que aguardavam reforços para "acabar com os soldados da cidade". A ordem só começou a ser restabelecida com a chegada de uma força de cavalaria enviada de São Paulo e a intervenção direta do Visconde de Parnahyba.

Eis as fontes desse relato no Impresa Ytuana do ano de 1887:

Muitas edições do periódico estão disponíveis no site de Obras Raras da USP.



LUCTA - FERIMENTOS
Às 9 horas e tanto da noite de domingo, foi a nossa cidade despertada de sua habitual monotonia, por boatos e noticias incovenientes, pelo terror que incutiam; dizia-se que a força local fora trucidada no caminho do Salto, lugar Cangica, por grande quantidade de negros completamente armados e que se dispunham vir de encontro a nossa população. Boatos é certo, comtudo não deixaram de levar certa preoccupação e sobresalto, despertando a população de modo a indagar e se informar do que acabava de se passar. Momentos depois chegava á cidade uma das praças completamente banhada em sangue a procura do delegado e lhe relatou o resultado da deligencia por elle determinada, que fora motivada por telegramma do inspector da povoação do Salto prevenindo que para esta cidade se dirigia grande quantidade de negros completamente armados e que podião pertubar a ordem publica. Chegados que forão ao lugar Cangica, presentirão grande vozeria e tropel, e como os negros apenas os avistassem dispararão as armas e aggredirão fortemente os soldados, que vencidos pelo numero, forão rechassados, e derão lugar a elles passar. Pela cidade passarão rapidamente, pela rua das Flores, em direcção a S.Paulo, sendo alguns á cavallo, mulheres crianças com cargueiros etc, em marcha apressada. O delegado não tendo mais força para ir ao auxilio das praças que lhe pareciam ter sido victimadas, reuniu grande numero de paizanos e pedio que fossem pela estrada a procura dos soldados. Emquanto esperavam pelo resultado d'essa diligencia, foi dado o signal de rebate pela insistência de boatos mais ou menos pouco tranquilisadores, que continuavão a se espalhar. Reunido regular numero de cidadãos, inclusive pessoas gradas mais ou menos preparados, atravessarão a noite de prevenção. Às 4 horas da madrugada apparecerão os cidadãos que tinhão seguido á procura das praças. Vierão com 4, achandose três seriamente offendidas, que confirmarão as noticias de seo camarada. Pelos conductores forão encontrados os três estendidos no chão, tendo o 40 ido para o Salto ver se podia telegraphar para o delegado. Como faltassem mais três, o delegado de policia em pessoa e com alguns cidadãos dirigio-se para o lugar do conflicto, na supposição de achar os mesmos mortos. Alli chegando ao amanhecer nada encontrarão; apenas bonets, refles, poças de sangue e signaes evidentes de encarniçada lucta. Quanto as praças que faltavão tinhão fugido pelas terras da fazenda Juri-mirim, apparecendo hontem de manhã cedo, pouco contundidas. Consta-nos que as aulhoridades judiciarias e o delegado de policia levaram o facto ao conhecimento do presidente da província. S. Ex.o sr. Presidente da Província e chefe de policia constanos, que telegrapharão pedindo informações dos acontecimentos. Hontem á tarde procedeu-se a corpo de delicto nas praças offendidas. Suppõe-se que os negros são procedentes de fazendas dos municípios de Monte-Mór e Capivary. O espirito da população continúa sobresaltado, predisposto a uma reacção imminente.
Imprensa Ytuana, 18 de outubro de 1887 (print abaixo, página 2).


 


Fuga de escravos
MAIS PORMENORES
Às noticias que demos hontem pouco temos que acerescentar. Boatos e versões continuam, porem que nada offerecem de positivo e que sò servem para levar o alarma e o sobresalto a população. Consta-nos que os escravos que por aqui passarão na noite de 16, são pertencentes aos fazendeiros os srs. Antônio Dias e Bento Dias, que ficarão corra as suas propriedades inteiramente abandonadas. Consta-nos mais que por ordem do dr. Chefe de policia sahio de S. Paulo em direcção a estrada velha que vem á esta cidade, uma força de cavallaria. Os corpos dedelicto foram feitos sendo considerados leves os ferimentos. O policiamento que na véspera fora feito por paizanos para garantia da cidade, foi substituído pela torça vinda no expresso. Graças ao zelo e actividade do sr. Visconde de Parnahyba que tem tomado providencias, a população está um pouco tranquillisada, se bem que receie de um momento para outro a repetição das ocurrencias de 16. Hontem, segundo somos informados, indo alguns mocinhos procurar animaes ao pasto, junto à matta que margeia ao rio Pirapetinguy, quatro negros sahindo de uma capoeira, a elles dirigiram-se querendo arrebatar-lhes os cavallos em que montavam ; e como os mocinhos se oppuzessem aos seus intentos, declararam que ante-hontem chegaram dez Companheiros que aguardavam a chegada de mais quarenta, afim de acabar com os caboclos soldados da cidade. Entre esses quatro foi reconhecido um escravo do sr. Oliveira, estabelecido no Bairro Alto, actualmente ausente. Si bem que não nos responsabilisemos pela veracidade deste facto, em todo caso será prudente que as autoridades procurem saber o que ha de positivo sobre boatos desta ordem e que providencias não se façam esperar afim de tranquillisar a nossa população.
Imprensa Ytuana, 19 de outubro de 1887 (print abaixo, página 2).


 

No círculo vermelho, a provável região do enfrentamento (bairro Canjica, às margens da Estrada do Jurumirim).

O Crepúsculo da Escravidão

Os recortes do jornal Imprensa Ytuana são documentos valiosíssimos para entender o colapso do sistema escravista no Brasil meses antes da Lei Áurea (1888).

A Mudança no Perfil das Fugas

Diferente das fugas individuais e furtivas do início do século XIX, o relato de 1887 descreve fugas coletivas e armadas. Isso demonstra um alto grau de organização entre os escravizados e a consciência de que o Estado imperial já não tinha força política ou moral para contê-los. O fato de famílias inteiras (mulheres e crianças) estarem na marcha indica que não era apenas uma revolta temporária, mas uma migração definitiva em busca de liberdade.


O Papel de Itu e o Oeste Paulista

Itu era um dos baluartes da aristocracia cafeeira e do movimento republicano. A notícia mostra que a "habitual monotonia" da elite foi quebrada pela percepção de que seus "bens" (os escravizados) agora impunham resistência física. O abandono total das fazendas de Antonio e Bento Dias ilustra o fenômeno do desmoronamento das senzalas, onde a produção cafeeira paralisava pela retirada em massa dos trabalhadores.

A Fragilidade do Aparelho Repressor

O texto revela uma polícia impotente, dependente de "paizanos" (civis) para proteger a cidade. A menção ao Visconde de Parnahyba (então Presidente da Província de São Paulo) é sintomática: as autoridades estavam em alerta máximo. Naquele ano de 1887, o Exército Brasileiro já começava a se recusar publicamente a perseguir escravizados fugitivos, o que explica a necessidade de mobilizar forças policiais especiais e cavalaria.

O Destino: Santos e o Jabaquara

Embora o jornal diga que eles seguiam em "direcção à S. Paulo", o destino final de grandes fugas como esta costumava ser o Quilombo do Jabaquara, em Santos. Santos havia se tornado um território livre sob a proteção de abolicionistas e dos "Caifazes" (liderados por Antônio Bento), que auxiliavam nessas rotas de fuga.

Conclusão

A notícia não é apenas um relato policial; é o registro do fim de uma era. O tom de "sobresalto" e "terror" do jornal reflete o medo da classe senhorial diante da perda de controle social. Os escravizados de Itu, ao pegarem em armas e marcharem pelas ruas centrais, deixaram de ser "peças" para se tornarem agentes políticos de sua própria libertação.

Nenhum comentário:

Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966