Neste 21 de abril, celebramos o aniversário de nascimento de Anselmo Duarte (1920-2009), figura cuja trajetória confunde-se com a própria história da arte cinematográfica nacional. Mais do que o galã que povoou o imaginário das chanchadas e dos dramas da Vera Cruz, Anselmo foi o artífice do maior triunfo do cinema brasileiro: a Palma de Ouro no Festival de Cannes. No entanto, para compreender o cineasta, é preciso primeiro olhar para o menino que corria descalço pelas ruas de terra batida de Salto.
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| Anselmo Duarte em dezembro de 1920. |
As raízes no solo saltense
Sétimo filho de Olympia Duarte, Anselmo nasceu em uma esquina da atual Rua Monsenhor Couto, em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat. De origem humilde, sua introdução ao mundo das imagens deu-se de forma quase artesanal. No antigo Cine Pavilhão, onde seu irmão Alfredo era projecionista, o jovem Anselmo trabalhava como "molhador de tela" — função técnica da época para evitar o superaquecimento do suporte e permitir a nitidez da projeção.
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| Olympia, mãe de Anselmo. |
Essas primeiras experiências no escurinho do cinema em Salto foram o prelúdio de uma carreira que ganharia o mundo. Aos 14 anos, partiu para São Paulo, mas levou consigo a identidade do "Russo Louco", apelido de infância que ele recordaria com carinho décadas depois.
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| Cine Pavilhão, em Salto, nos tempos de Anselmo Duarte ainda menino. |
A construção do mito: do ator ao autor
A estreia de Anselmo no cinema ocorreu em 1942, em um projeto inacabado do cineasta norte-americano Orson Welles (It's All True). Rapidamente, sua presença física e carisma o transformaram no maior galã do país, protagonizando sucessos como Querida Suzana (1947), Tico-Tico no Fubá (1952) e Sinhá Moça (1953).
Contudo, Anselmo Duarte não se satisfez com o estrelato diante das câmeras. Estudioso da técnica, estreou na direção com Absolutamente Certo (1957), mas foi em 1962 que imortalizou seu nome ao adaptar a peça de Dias Gomes, O Pagador de Promessas. Com uma direção que equilibrava o rigor estético e a profundidade dos dilemas sociais e religiosos brasileiros, Anselmo venceu gigantes como Luis Buñuel e Michelangelo Antonioni em Cannes. No ano seguinte, em 1963, o filme alcançaria outro marco: a primeira indicação oficial do Brasil ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.
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| Anselmo aos 26 anos de idade. |
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| O auge da carreira de diretor: a premiação no Festival de Cannes, 1962. |
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| No filme "Pinguinho de Gente". |
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| Nas filmagens de "Quelé do Pajeú", em Salto. |
O último discurso e o legado
Apesar da glória internacional, o vínculo com sua "terra mater" permaneceu inabalável. Em 31 de julho de 2009, meses antes de seu falecimento, Anselmo proferiu seu último discurso público em Salto, durante a inauguração da Sala Palma de Ouro. Naquela ocasião, enfatizou que honrar as raízes culturais é a matéria-prima necessária para o avanço de qualquer sociedade.
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| Anselmo proferindo seu último discurso público. |
Anselmo Duarte faleceu em novembro de 2009 e, cumprindo um desejo expresso em vida, foi sepultado no Cemitério da Saudade, em Salto. Em sua lápide, lê-se o epitáfio que resume sua existência: "Eis aqui a última história de um contador de histórias".
Ao recordarmos seu nascimento, reafirmamos que a obra de Anselmo Duarte permanece como um símbolo de resistência cultural e da capacidade do cinema brasileiro de dialogar com questões universais a partir de uma perspectiva profundamente autêntica.
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