20 de abril de 2026

Anselmo Duarte: do "Russo Louco" em Salto à Palma de Ouro em Cannes


Neste 21 de abril, celebramos o aniversário de nascimento de Anselmo Duarte (1920-2009), figura cuja trajetória confunde-se com a própria história da arte cinematográfica nacional. Mais do que o galã que povoou o imaginário das chanchadas e dos dramas da Vera Cruz, Anselmo foi o artífice do maior triunfo do cinema brasileiro: a Palma de Ouro no Festival de Cannes. No entanto, para compreender o cineasta, é preciso primeiro olhar para o menino que corria descalço pelas ruas de terra batida de Salto.

Anselmo Duarte em dezembro de 1920.


As raízes no solo saltense

Sétimo filho de Olympia Duarte, Anselmo nasceu em uma esquina da atual Rua Monsenhor Couto, em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat. De origem humilde, sua introdução ao mundo das imagens deu-se de forma quase artesanal. No antigo Cine Pavilhão, onde seu irmão Alfredo era projecionista, o jovem Anselmo trabalhava como "molhador de tela" — função técnica da época para evitar o superaquecimento do suporte e permitir a nitidez da projeção.

Olympia, mãe de Anselmo.


Essas primeiras experiências no escurinho do cinema em Salto foram o prelúdio de uma carreira que ganharia o mundo. Aos 14 anos, partiu para São Paulo, mas levou consigo a identidade do "Russo Louco", apelido de infância que ele recordaria com carinho décadas depois.

Cine Pavilhão, em Salto, nos tempos de Anselmo Duarte ainda menino.


A construção do mito: do ator ao autor

A estreia de Anselmo no cinema ocorreu em 1942, em um projeto inacabado do cineasta norte-americano Orson Welles (It's All True). Rapidamente, sua presença física e carisma o transformaram no maior galã do país, protagonizando sucessos como Querida Suzana (1947), Tico-Tico no Fubá (1952) e Sinhá Moça (1953).

Contudo, Anselmo Duarte não se satisfez com o estrelato diante das câmeras. Estudioso da técnica, estreou na direção com Absolutamente Certo (1957), mas foi em 1962 que imortalizou seu nome ao adaptar a peça de Dias Gomes, O Pagador de Promessas. Com uma direção que equilibrava o rigor estético e a profundidade dos dilemas sociais e religiosos brasileiros, Anselmo venceu gigantes como Luis Buñuel e Michelangelo Antonioni em Cannes. No ano seguinte, em 1963, o filme alcançaria outro marco: a primeira indicação oficial do Brasil ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Anselmo aos 26 anos de idade.

O auge da carreira de diretor: a premiação no Festival de Cannes, 1962.

No filme "Pinguinho de Gente".




Nas filmagens de "Quelé do Pajeú", em Salto.


O último discurso e o legado

Apesar da glória internacional, o vínculo com sua "terra mater" permaneceu inabalável. Em 31 de julho de 2009, meses antes de seu falecimento, Anselmo proferiu seu último discurso público em Salto, durante a inauguração da Sala Palma de Ouro. Naquela ocasião, enfatizou que honrar as raízes culturais é a matéria-prima necessária para o avanço de qualquer sociedade.

Anselmo proferindo seu último discurso público.


Anselmo Duarte faleceu em novembro de 2009 e, cumprindo um desejo expresso em vida, foi sepultado no Cemitério da Saudade, em Salto. Em sua lápide, lê-se o epitáfio que resume sua existência: "Eis aqui a última história de um contador de histórias".

Ao recordarmos seu nascimento, reafirmamos que a obra de Anselmo Duarte permanece como um símbolo de resistência cultural e da capacidade do cinema brasileiro de dialogar com questões universais a partir de uma perspectiva profundamente autêntica.

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