9 de julho de 2008

“Epidemia de grippe”

Na contracapa do livro utilizado para registro do movimento dos internados em Salto durante a pandemia de gripe de 1918, que ficou conhecida por gripe espanhola, vê-se um panfleto nela colado. Intitulado “Ao público”, informa que “a Comissão de Socorros, tendo em vista o franco declínio da gripe nesta cidade, avisa ao povo que o Hospital, instalado no Grupo Escolar, será fechado no próximo domingo, 8 do corrente”. Datado de 6 de dezembro, o panfleto alertava que “os doentes, todos em convalescença” teriam alta no dia seguinte – um sábado. Por fim, assegurava que os médicos continuariam “a receitar às pessoas indigentes, de acordo com a lista em poder dos mesmos”, os “medicamentos [que] se encontram no Hospital”. Além disso, garantia-se que a Comissão continuaria “a distribuir gêneros alimentícios aos necessitados”.

A gripe espanhola apareceu em duas ondas diferentes. Na primeira, em fevereiro de 1918, embora bastante contagiosa, era uma doença branda, não causando mais do que três dias de febre e mal-estar. Já na segunda, em agosto, tornou-se mortal. Se a primeira onda de gripe atingiu em especial os Estados Unidos e a Europa, a segunda devastou o mundo inteiro. No Brasil, ela chegou ao final de setembro de 1918: marinheiros que prestaram serviço militar em Dakar, na costa da África, desembarcaram doentes no porto de Recife. Em duas semanas, surgiram casos de gripe em outras cidades do Nordeste, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Nos jornais, multiplicavam-se receitas, como pitadas de tabaco e queima de alfazema ou incenso para evitar o contágio e desinfetar o ar. Com o avanço da pandemia, sal de quinino, remédio usado no tratamento da malária e muito popular na época, passou a ser distribuído à população, mesmo sem qualquer comprovação científica de sua eficiência contra o vírus da gripe. Diante do desconhecimento de medidas terapêuticas para evitar o contágio ou curar os doentes, as autoridades aconselhavam apenas que se evitassem as aglomerações. A partir desse raciocínio, criaram-se os hospitais de isolamento.

Em Salto, o total de pessoas internadas no hospital de isolamento improvisado no Grupo Escolar – atual Escola Estadual Tancredo do Amaral – foi de 61. O primeiro a ser internado, em 19 de novembro, foi o jovem Eduardo Carlos (14 anos de idade), “morador no Morro Vermelho” e “empregado do Sr. Manoel da Silva Ladeira, residente na Vila Nova”. A última internada, em 6 de dezembro, foi Julia Ribeiro, jovem de 17 anos “natural de Santa Bárbara” e “moradora à Rua Paysandu nº 119” – conforme registrou o diretor dos trabalhos, Silvino Silveira. Num rápido exame dos registros, observam-se casos como os de Maria Benedicta (30), Maria de Lourdes (6), José (10) e Agenor da Silva (8) – respectivamente mãe e seus três filhos, internados todos no dia 21 de novembro. Há, ainda, situações como as da família Tardelli, em que no espaço de poucos dias vários de seus membros foram gradativamente internados. O balancete final dos 19 dias de funcionamento mostra que das 61 pessoas que passaram pelo hospital improvisado, com um número máximo de 26 concomitantes em três desses dias, houve dois falecimentos: Fernando Tardelli, de 44 anos; e Aurélio Biaggi, de 49 – ambos italianos.

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Ouça o hino da cidade, "Salto Canção", na gravação de 1966